Atenção

Fechar

Artigos e Estudos

ESPECIAL CORONAVÍRUS - Covid 19 e a Agenda 2030

Por Flávia Carvalho Ribeiro, Colunista de Plurale (*)

Na maratona de lives e cursos on-line desta “quarentena”, um seminário para os profissionais interessados em desenvolvimento sustentável despertou minha atenção: “2020 SDG Learning, Training and Practice”. Promovido pela UNITAR and the Division for Sustainable Development Goals, at the United Nations Department of Economic and Social Affairs (UN DESA/DSDG), entre 07 e 13/07, os workshops discutiram como os países estão avançando sobre a gestão dos 17 Objetivos do Desenvolvimento Sustentável (ODS) e da Agenda 2030 em âmbito local e global.

Medir as metas prioritárias para cada nação tornou-se ainda mais complexo com a pandemia, especialmente, nos países em desenvolvimento. Nesse contexto, compartilhar experiências nunca foi tão importante. As mudanças em escala necessárias para nos adaptarmos ao “novo normal” dependem de como iremos nos comunicar com os diversos públicos e a capacidade de engajarmos a sociedade civil. Como garantir a continuidade dos trabalhos, investigar as soluções, interpretar dados com tanta diversidade e, ao mesmo tempo, responder aos desafios impostos pelo coronavírus?

Em escala mundial, a Divisão de Estatística da Nações Unidas lançou o Covid-19 Response (https://www.un.org/en/coronavirus/information-un-system), site que oferece um espaço para a comunidade compartilhar orientações, ações, ferramentas e práticas recomendadas para garantir a continuidade dos trabalhos promovidos pelos institutos de estatística. Fiquei surpresa que nenhum país da América Latina faz parte, por exemplo, da plataforma www.open-sdg.org para o acompanhamento dos ODS. A tecnologia social deve ser transferida para os países mais pobres (sim, a África teve bons representes nos painéis), mas academia e instituições também devem ouvir o que as comunidades têm a dizer. Sem representação, temos uma visão fragmentada da realidade.

O evento apresentou show cases e frameworks gratuitos que podem ser customizados para a gestão do monitoramento dos quase 150 indicadores ligados aos SDGs (Sustainable Development Goals). No cenário atual, senti falta de uma discussão mais profunda para o enfrentamento dos gaps que a pandemia do Covid19 agravou.

Segundo a ONU, a fome pode afetar quase 67 milhões de pessoas na América Latina e Caribe em 2030. Além da segurança alimentar, temos que gerenciar questões de saúde básica, educação, igualdade, justiça social, violência entre outros. A Agenda 2030 reconhece claramente que sociedades pacíficas e inclusivas contribuem para promover o desenvolvimento sustentável e, infelizmente, ainda estamos distantes de bons indicadores para o 16º ODS (Paz, Justiça e Inclusão). Um gargalo difícil de resolver em países com desigualdade social devastadora.

O website do governo brasileiro que reúne o status dos indicadores dos ODS (cá entre nós, está desatualizado) é o https://odsbrasil.gov.br/. Iniciativas como a da Prefeitura de São Paulo apresentadas em http://observasampa.prefeitura.sp.gov.br/ods-sao-paulo também demonstram esse esforço de gestão, mas afinal de contas, onde está o nosso salto quântico do discurso para a prática? Usamos a ciência de dados e a inteligência artificial a nosso favor ou viramos escravos no preenchimento de planilhas? As estatísticas conseguem projetar ambientes seguros para investimentos de longo prazo no Brasil? Quais as lições que podemos tirar da crise do Covid19? Como podemos aprimorar a participação da sociedade em fóruns on-line?

Representantes dos Estados Unidos, África e Europa compartilharam estudos de caso, metodologias e experiências para reporte dos dados locais e atendimento dos ODS, em especial, a ODS 16 sobre Direitos Humanos no painel do dia 13/07. Lembrei quando morei na Irlanda e tive a oportunidade de entrevistar uma liderança da coalizão da sociedade civil sobre os desafios para engajamento da população sobre o tema (publicado por Plurale na época). Experiências internacionais podem ser conferidas nas plataformas: www.sdgaccountability.org, https://sdg.humanrights.dk/ e https://intelligence.weforum.org/

Nossas lideranças sejam do governo, setor privado e sociedade civil deveriam participar mais desses encontros globais. São nesses fóruns que mostramos a nossa cara para os mercados internacionais. Somos muito ricos em diferentes perspectivas, do capital humano ao natural. Aprender com quem está fazendo uma boa gestão dos recursos e aprimorar a aplicabilidade disso no País é dever de todos nós que atuamos na área. Definitivamente, aprendemos com a pandemia que as soluções irão priorizar os mercados locais, que as parcerias são cruciais e que o mercado do ganha-ganha deve prevalecer.

(*) Flávia Carvalho Ribeiro é Jornalista formada pela PUC-Rio, atua há 25 anos em Jornalismo, Comunicação Empresarial, Relações Públicas e, nos últimos 13 anos, também como consultora na área de Sustentabilidade para grandes empresas e ONGs. É pós-graduada em Marketing pela ESPM-RJ. Cursou o MBE em Responsabilidade Social e Terceiro setor na UFRJ. Graduada em Direito em 2012, acredita na transformação da sociedade através do Social Advocacy. Foi coordenadora de comunicação do CEBDS e Gerente de Comunicação para a World Animal Protection no Brasil, entre 2010 e 2014, quando trabalhou pela inclusão da agropecuária sustentável e do bem-estar animal na agenda da Rio+20. Membro da Rede de Mulheres Brasileiras Líderes para a Sustentabilidade, é colunista de Plurale e atua em diversos comitês em prol da proteção do meio ambiente.







Veja também

3 comentários | Comente

 Digite seu comentário

*preenchimento obrigatório



Malu |
Excelente texto com apontamentos importantes sobre esse "novo normal". Precisaremos nos adaptar a novos tempos e desafios! Parabéns, Flávia!!!

Silvana Lima |
A Flávia tem a visão correta da falta de engajamento do Brasil em compartilhar experiências e agir para melhorar. Amei a reportagem!

vania |
Flávia - amiga e jornalista, advogada e gestora socioambiental - fera, sempre ligada!!! É só dar qq dica que ele tira muito mias e nos apresenta resumos bons. O seminário foi bem repetitivo no que diz respeito às universidade e plataformas de ONGS para tookits e muitos handbooks, orientação metodológica geral etc e tal. Mas existe um elitismo doido a nas universidades e própria ONU que devem fazer força para serem inclusivas. Galera da África, alguns da França. UK e de Education for justice arrebentaram!!! Parabéns como sempre e vamos em frente fazer o que é possível!!! Sair da escala da ONU e aterrizar no chão do Quênia é uma jornada e demora. O negócio é não desistir e ter fundos para esses países pobres e com problemas básicos de guerras internas, fome louca, sem água sem trabalhos sem acesso internet e mega invadidos até pelo desenho europeu e americano que se acham melhores....