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Tia Selminha e a garra de transformar vidas

Por Malu Fernandes, Colunista de Plurale

Conheci a Tia Selminha em uma palestra que ela fez na Malha, um ecossistema de moda sustentável, em São Cristóvão, em 2017. Fiquei encantada com a história daquela mulher, hoje com 57 anos, que tinha morado na rua quando sua mãe foi expulsa de casa devido à gravidez precoce aos 15 anos. Ao final falei que a apresentaria a um amigo de longas datas, o Pedro Werneck, do Instituto da Criança, que funciona como uma via de aproximação entre pessoas físicas e jurídicas que têm condições e vontade de contribuir mas não sabem como fazer este investimento chegar a quem precisa. “O Pedro? Não somos ninguém sem o Pedro!”, exclamou a fonoaudióloga e professora, que hoje cuida da complementação da formação de 223 crianças e adolescentes entre 4 e 17 anos, em situação de vulnerabilidade, realizando o que se chama de contraturno, ou seja, as crianças saem de suas creches e escolas e continuam o aprendizado na ONG, e da Tamiris, sua filha autista, de 28 anos. Tive naquele momento certeza maior ainda da seriedade com que conduz os trabalhos na ONG localizada em Vila Aliança, em Bangu.

Relacionamentos estreitados, passei a ser um hub de conexões entre os que necessitam e quem pode ajudar, a imprensa e outros canais e a Selminha sempre me convidando para ver pessoalmente o trabalho que desenvolvem desde 1987 mas é longe, ou seja, demanda tempo. Temos que pegar o metrô até Coelho Neto e, de lá até a comunidade, ela acha mais seguro mandar um uber ou o marido Francisco nos pegar para entrarmos com gente conhecida nesta terra onde o Estado não chega a umas duas horas de viagem da estação de metrô Botafogo. São 1h30 de trem por cima e por debaixo da terra e mais o transporte de carro da última estação de metrô da linha 2 até o local nascido na década de 60.

Em 1961, o presidente americano John Kennedy, idealizou a “Aliança para o Progresso”, projeto de cooperação técnica e financeira com países da América Latina com a clara intenção de impedir que revoluções como a cubana se espalhassem. No Rio de Janeiro, o governador Carlos Lacerda utilizou esse apoio para criar três sub-bairros: Vila Aliança e Vila Kennedy, em Bangu, e Cidade de Deus, em Jacarepaguá. A área onde está a Vila Aliança era então um enorme laranjal, que abastecia todo o estado. Foi nesta época que as árvores cederam lugar ao primeiro conjunto habitacional da América Latina. O governo então retirou famílias do Morro do Pasmado, em Botafogo, do Morro do Pinto e da Favela do Esqueleto, e também de Brás de Pina, transferindo-os para a nova comunidade. Vila Aliança segue padrões arquitetônicos internacionais, com ruas amplas que mais pareciam grandes avenidas com objetivo inicial de fomentar o desenvolvimento econômico e social. Com o decorrer dos anos, a comunidade passou a ser dominada pelo tráfico de drogas sendo palco de conflitos entre traficantes.

Com toda esta preocupação com segurança, podemos perceber a olhos nus um pedaço da “cidade partida”, como o jornalista Zuenir Ventura batizou o livro em que trabalhei com ele em 1993. A partir de certo momento começamos a ver os “postos de gasolina”, ou seja, grandes garrafas de refrigerante repletas de combustível em algumas esquinas. Um carro legalizado com documentação em dia, placa, etc faz o serviço de transporte de combustível para movimentação dos mais caros automóveis de luxo irregulares. A partir daquele ponto é terra de ninguém. Mais adiante, pela quantidade de cocaína exposta a ceu aberto numa espécie de “feira”, constatamos que o Estado não ultrapassa aquela fronteira e, quando o faz, é para fazer de conta porque não há trocas de tiros que justifiquem a quantidade de buracos no telhado da sede da Semente do Futuro. Balas disparadas ao alto voltam para algum lugar e transformam o teto da ONG em um queijo suíço que permite as chuvas entrarem fartamente quando chove.

O sonho da Selminha de tirar as crianças da rota de tiros foi realizado agora em julho de 2020 quando o prefeito Marcelo Crivella concedeu licença de um imóvel fora da área de risco para a Semente do Futuro usar por 10 anos podendo ser renovada por mais um período. “Foi uma luta de dois anos para conseguirmos regularizar nossa ocupação desta casa. Muita gente nos ajudou além do prefeito, como Silvia Crivella, a secretária de Assistência Social e Direitos Humanos, Tia Ju, vereadores Alexandre Arraes, João Mendes e Dr. Carlos Eduardo, Kátia Vasques, Pedro Werneck, Dr. Pedro Ivo, Janir Moreira e Simone Santos Costa para não citar todos e correr o risco de esquecer alguém”, contou a ex- menina de rua que inspirou mais de 15 mil crianças e adolescentes nestes 33 anos. Hoje são adultos empreendedores, donos de barbearias, fotógrafos, serralheiros, professores, designers, músicos, técnicos, etc.

“Ao chegarmos aqui encontramos o prédio completamente abandonado. Aos poucos fomos reformando até torná-lo habitável. Hoje podemos dar às nossas crianças mais conforto, mais espaço e mais segurança”, acrescentou Tia Selminha, que oferecia aulas de cidadania, dança, esportes, artes, informática, além de diversas oficinas até pouco tempo mas, com o surgimento da Covid-19, os patrocínios foram suspensos.

Além dos cursos, a Semente do Futuro também está distribuindo cestas básicas aos moradores que ficaram sem renda. As portas da instituição se mantiveram abertas durante estes 120 dias. “Já entregamos mais de 40 toneladas de alimentos a 4 mil famílias com o apoio do movimento Rio Contra o Corona e amigos do bem. Neste momento focamos nosso trabalho nas famílias, distribuindo cestas básicas, álcool, produtos de higiene e limpeza. O impacto no complexo de favelas da Vila Aliança tem sido muito grande. Comércio com as portas fechadas, isolamento social e famílias com medo de exposição fizeram com que diaristas, manicures, barbeiros, camelôs, catadores e pedreiros ficassem sem renda. Essas são as profissões da maioria dos atendidos pela Semente do Futuro”, informou, dando informações sobre “O Movimento 1200 Transformam vidas” que tem como meta arrecadar o valor de R$ 25 de 1,2 mil pessoas e chegar a R$ 30 mil com objetivo de cobrir três meses de pagamento da ajuda de custo de seus colaboradores. A vaquinha https://www.vakinha.com.br/vaquinha/vamos-fazer-um-final-diferente?fbclid=IwAR0m4XgGxsQd95oIvS2DzZJtsJUU2xEoCXpNQ7d392g5n9tnP6auY9NkARg está aberta até 30 de julho.







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1 comentário | Comente

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Flávia Ribeiro |
Linda história! Fico feliz de ter contribuído! Parabéns!