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ESG

Fundos de Investimentos ESG: Bancos privados brasileiros estão de olho no investidor individual e já reduziram valores para aplicações.

Novos fundos estão sendo lançados. Critérios ESG também estão sendo aplicados para as carteiras como um todo.

Por Sônia Araripe, Editora de Plurale

Fotos de Divulgação

Se ainda não sabe, anote estas sigla - Fundos de investimentos ESG (ou ASG em português). Pode parecer complicado, mas nada mais é do que a tão sonhada sustentabilidade na prática, fazendo valer o social, o econômico e a governança na hora da montagem de uma carteira de fundo de investimento. Não é de agora que empresas e mercado financeiro "acordaram" para a urgência desta agenda. Mas - diante da pandemia e da crise econômica global - muitos correram para acelerar esta busca. Os maiores bancos privados nacionais estão com tudo pronto para começar a oferecer fundos de investimentos com esta "pegada" sustentável para investidores individuais. Gente como eu e você.

São fundos que buscam empresas com as melhores práticas globais de sustentabilidade. A Bradesco Asset Management (BRAM), por exemplo, segunda maior gestora de ativos no país, administrando uma carteira de R$ 520 bilhões, acaba de anunciar que está reformatando dois fundos antigos, que já tinham este perfil ESG, para aceitar investimentos a partir de R$ 500 e R$ 1 mil, contra valores que eram de milhões, focados anteriormente em investidores institucionais. "Queremos dar acesso a todos que desejarem este perfil de aplicação", explica Ricardo Almeida, CEO da Bram - Bradesco Asset Management. E não para por aí. Em breve - provavelmente em setembro ou outubro - será a vez do lançamento de dois novos fundos, com foco específico em ESG: ainda não foi batido o martelo, mas, provavelmente, um deverá ser de perfil de empresas globais e outro que tenha empresas internacionais e brasileiras.

Ricardo Almeida, CEO da BRAM - "Queremos dar acesso a todos que desejarem este perfil de aplicação."

Um ponto já ficou definido: a ideia é realmente valorizar companhias com verdadeiro engajamento em sustentabilidade. A BRAM está aplicando estes critérios ESG para toda a sua carteira e anunciou que passará a divulgar para as empresas que constam de seu portfólio o seu rating - ou seja, a "nota" ou classificação, antes interna - para que entendam porque assim foram avaliadas. "Já fazíamos esta avaliação há anos. Estamos apenas passando a dar visibilidade e oportunidade para que cada empresa possa melhorar ", explica Marcelo Nantes, co-CIO da BRAM, usando como exemplo uma necessidade de melhora na divulgação de resultados. Se a empresa conseguir montar um plano estratégico com ações que cubra esta carència, poderá ter uma nota melhor na próxima avaliação .

Os executivos reforçaram que a BRAM não pratica o modelo de exclusão de empresas (ou filtro negativo, seguido por outras gestoras), porque acredita que o papel é de construção conjunta. "Acreditamos que isso é um processo. Queremos ser inclusivos. Podemos ajudar esta agenda da sustentabilidade nas empresas.", afirma Almeida. A administradora de recursos do Bradesco é signitária do PRI deste 2010 (Princípios para o Investimento Responsável) e foi a primeira - até agora -, no Brasil, a assinar protocolo global de princípios na questão climática - para dialogar com o setor produtivo sobre como reduzir a sua "pegada de carbono".

E será que o investidor individual está preparado e saberá entender o valor e diferenças de perfil deste novo tipo de fundo sustentável? Quem responde é Ricardo Almeida: "Por enquanto, pode parecer algo ainda distante de alguns investidores a ideia de que estará investindo em um fundo que ajudará as companhias a melhorarem suas práticas sustentáveis. Mas o mundo já entendeu este valor. E esta tendência também está chegando ao Brasil", avalia.

Candido Bracher, presidente do Itaú afirmou em live que a instituição não financiará empresas de carne que desmatarem a Amazônia.

Desmatamento - Em live realizada esta semana com O Estado de S. Paulo, o presidente do Banco Itaú, Candido Bracher, foi claro, alertando que o Banco não financiará empresas de carne que desmatarem a Amazônia. "Queremos garantir que a indústria não se abasteça de carne de rebanhos criados em área desmatada. Faremos isso através de rastreamentos. Não vamos financiar (as empresas) dessa cadeia que estiverem nessas condições", disse Candido Bracher na live. O Itaú também tem fundos ESG e segue a exclusão de empresas que não estejam realmente seguindo estes padrões sustentáveis.

A XP investimentos também lançou três fundos sustentáveis, sendo dois com aplicação mínima de R$ 500. Segundo dados Anbima (Associação Brasileira das Entidades dos Mercados Financeiro e de Capitais), em junho deste ano os fundos de ações sustentáveis somou R$ 543,4 milhões, crescimento de 29% em relação ao mesmo mês de 2019.

Financiamento verde - O Santander é outro banco privado que inclui critérios ESG na avaliação de seus produtos em seus direcionamentos de negócios no Brasil, movimento que se tornou posicionamento global do banco espanhol. E também está relançando fundos com este perfil, com aplicações a partir de R$ 100, o fundo que antes tinha o nome Ethical. Executivos do Santander também destacam o pioneirismo na estruturação do primeiro ESG Linked Loan operacionalizado no Brasil, em parceria com a FS Bionergia – maior produtora de etanol exclusivamente de milho no Brasil –, um tipo de financiamento inédito por aqui. Batizado de "Financiamento Verde", a alternativa oferece diminuição nas taxas de juros a partir do momento que a empresa se compromete com metas de ampliação de impactos ambientais positivos, estrategicamente e intrinsecamente ligado aos negócios.

A filantropia é outra área no radar do banco – o único do país a oferecer assessoria nesse quesito, capaz de apoiar famílias e indivíduos no desenvolvimento do seu legado filantrópico e organizações sociais, hospitais e universidades na constituição de seus fundos patrimoniais. "Há dois anos o Santander estruturou sua oferta de valor para o segmento de endowment e uma atuação mais próxima às famílias com interesse filantrópico, concretizada agora na área de Sustainable Solutions", diz Vitor Ohtsuki, diretor do Santander Private Banking.

Vitor Ohtsuki, diretor do Santander Private Banking

A consultora em sustentabilidade, Sonia Favaretto, reforça que este não é um processo novo no Brasil, mas, que a sua aceleração, é muito bem-vinda. "Este processo das assets de bancos oferecendo produtos ESG ajuda muito a acelerar e inspirar o mercado como um todo. Tem sido assim no mundo e o Brasil segue o mesmo caminho."

Só nos Estados Unidos, atualmente, 25% dos investimentos seguem para esse mercado, representando um total de US$ 12 trilhões. Em termos globais, esse segmento já chega a US$ 31 trilhões, o que representa 36% dos ativos financeiros totais sob gestão no mundo, segundo o Global Sustainable Investment Alliance. Outro estudo, desta vez do Morgan Stanley, indica que existiam 281 fundos de investimento nos EUA com foco em ESG em 2019, o que representa um aumento de 144% no número de fundos desde 2004.

Para entender melhor, os indicadores ambientais estão relacionados ao comportamento da empresa em relação a problemas como mudança climática e emissão de carbono; uso de recursos naturais, poluição e resíduos. Já os indicadores sociais estão ligados ao tratamento que a empresa oferece às pessoas, aos trabalhadores e às comunidades locais, incluindo aí questões de saúde e segurança. E a letra G de governança refere-se às políticas empresariais, incluindo estratégia tributária, direito dos acionistas, remuneração da diretoria e corrupção.

O interesse sobre ESG cresceu ainda mais nos últimos meses – a ponto de se tornar também um dos principais motivadores das pressões de investidores internacionais e empresários nacionais sobre o governo brasileiro, para aumentar o combate às queimadas na Amazônia. Alguns grandes fundos globais - como o Fundo Soberano da Noruega - deixaram de investir, por exemplo, em mineradoras como a Vale (com dois grandes desastres ambientais - Marina e Brumadinho) e também em empresas de agronegócio e, especificamente, de frangos e carnes, diante de denúncias de desmatamento.

Conselheiro independente, Geraldo Affonso Ferreira, recomenda cautela para investidores físicos.

Cautela - O conselheiro independente, Geraldo Affonso Ferreira, alerta, porém, para os cuidados que os pequenos investidores físicos devem tomar. “Um dos principais desafios hoje é definir quais os melhores indicadores, estruturas ou padrões de informações de ESG, para que os investidores possam avaliar o real impacto das iniciativas de sustentabilidade”, afirma o conselheiro. Ele cita recente estudo da KPMG - de fevereiro deste ano - com 135 gestores de grandes fundos em 13 países apontou que a falta de dados confiáveis de ESG, a ausência de métricas para quantificar os benefícios não financeiros e a dificuldade em prever os rendimentos nesse segmento eram obstáculos para um crescimento maior dessas práticas.

Atualmente, para alcançar uma boa avaliação em ESG, as empresas precisam se adequar a algumas estruturas e padrões, como as do Global Reporting Initiative (GRI), do Sustainability Accounting Standards Board (SASB) e da Task Force on Climate-related Financial Disclosures (TCFD).

Já o principal acordo global de práticas responsáveis, voltado para fundos de investimento, é o PRI (sigla para Principles for Responsible Investment), vinculado à ONU, e que já conta com mais de 3 mil signatários, reunindo mais de US$ 10 trilhões em ativos.

Essa diversidade de padrões e indicadores ainda gera muitas dúvidas entre os investidores. De acordo com o MIT, é muito provável que de 5% a 10% das empresas que estão entre as melhores em ESG numa agência de classificação fiquem entre as 20% inferiores em outra (CIO.com, maio/20).

“A falta de uniformidade de parâmetros de ESG também torna mais difícil saber quem realmente adota práticas sólidas de sustentabilidade ou está apenas fazendo greenwashing”, aponta Ferreira. “Tudo isso aumenta a responsabilidade dos pequenos investidores em buscar, junto aos gestores de investimentos e empresas onde são acionistas uma divulgação apropriada das práticas de ESG”, completa.

Segundo ele, é importante que os pequenos investidores atuem, com o poder que suas ações lhes oferecem, nas empresas em que investem e exijam estrutura, padrões e indicadores confiáveis das práticas de ESG nessas companhias.

Para o conselheiro, os gestores de investimentos também devem garantir aos cotistas que seus ativos possuem práticas sólidas de ESG. “De nada adianta, por exemplo, ter um bom desempenho no Ambiental e no Social, se há falhas de Governança”, salienta. Outra recomendação ao pequeno investidor é verificar se sua gestora de ativos tem um Código de Stewardship ou é signatária de algum. Trata-se de uma declaração de princípios que visa melhorar o engajamento e a transparência na atuação dos investidores institucionais junto às empresas investidas.







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1 comentário | Comente

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Paulo Gramado |
Bem oportuna esta pauta. Em tempos de pandemia, novas possibilidades de investimentos com aporte pequeno e fundos baseados em práticas de sustentabilidade. O que precisamos no momento. Parabéns.