Atenção

Fechar

Vida saudável & Consumo Ético

Designer brasiliense usa Amazônia como inspiração para criar joias orgânicas e produtos sustentáveis

Luciana Bezerra – Da Revista Cenarium

MANAUS – Aos 15 anos, a hoje designer de joias Flávia Amadeu, 42 anos, visitou a região Amazônica pela primeira vez com a turma do curso de Ecologia. Foram sete dias, segundo ela, navegando pelos rios da região. Após a viagem, o que Flávia não previa, na época, era que mais tarde, a Amazônia se tornaria sua fonte de inspiração e de matéria-prima para a criação de joias orgânicas, moda e decoração sustentável. Tudo desenvolvido a partir da borracha proveniente do látex extraído de seringueiras espalhadas na floresta.

Atualmente, a simpática brasiliense, que é PhD em design e sustentabilidade pelo London College of Fashion, mestre em artes visuais e bacharel em desenho industrial, comemora a parceria de mais de 16 anos com a região Amazônica. Isso mesmo, pois é da floresta, mais precisamente dos Estados do Acre e do Pará, que vem a principal matéria-prima — a borracha nativa colorida chamada Folha Semi-Artefato (FSA), que ela produz juntamente com as comunidades seringueiras –, utilizada na elaboração dos produtos desenvolvidos pela marca que aliás, leva o nome dela, Flávia Amadeu.

Peças são inspiradas na conexão que a designer tem com a floresta Amazônica (Divulgação/ David Parry)

Pioneira na utilização da borracha na indústria da moda a designer é mais conhecida no hall internacional do que em solo brasileiro. Em 2013, a atriz e modelo inglesa Lily Cole usou, durante o Met Ball, um vestido da estilista britânica Vivianne Westwood confeccionado com a borracha FSA, da Flávia Amadeu. Porém, a designer hoje, está colhendo os louros de um trabalho árduo e de ‘formiguinha’, como ela mesma frisou durante entrevista à REVISTA CENARIUM.

Os acessórios produzidos com a borracha colorida da Amazônia brasileira fazem sucesso no exterior (Divulgação/Instagram Flavia Amadeu)

Em 2019, a grife faturou mais de R$ 265 mil e a empresária vem trabalhando firme para alçar vôos mais altos no mercado pós-pandemia. Pois, essa nova realidade vai nortear todas as tendências daqui para frente. A alta tecnologia será aliada do processo artesanal e da procedência do produto ou da matéria-prima. Aliás, essa palavra “procedência”, será muito utilizada nesse novo normal. É ela, inclusive, quem ditará o “quem produziu’’, “de onde veio” e “quais recursos gerou para um determinado grupo”.

E é este caminho que a empreendedora vem traçando ao longo de sua carreira até aqui. Apesar de nem tudo ter sido flores na trajetória desta brava designer brasiliense, como ela mesma falou para nossa equipe. Muito antes de suas joias e produtos seduzirem o público feminino mundo afora, Flávia pensou em desistir de seu sonho, por causa das dificuldades enfrentadas para chegar onde está hoje.

Oficina na comunidade ribeirinha do Acre, em 2019 (Divulgação/Eliz Tessinari)

Essa percepção a levou mais uma vez para o mundo acadêmico, desta vez para o doutorado na Inglaterra [2010 a 2015], cujo objetivo era desenvolver uma metodologia de ensino, pesquisa e prática de Design e Sustentabilidade para ser aplicada nas comunidades ribeirinhas.

Em solo britânico, Flávia começou um trabalho de ‘formiguinha’ e foi batendo de porta em porta, até firmar uma parceria com WWF e SKY-UK, em 2014, para coordenar um projeto voltado para a Amazônia, incluindo treinamento e capacitação das comunidades de artesãos, da floresta. Após isso, os convites para feiras e exposições começaram a pipocar em suas mãos. Por isso, a designer se tornou mais conhecida lá fora primeiramente.

Sua maior paixão é está no meio da floresta ensinando as técnicas desenvolvida e padronizada por ela com a FSA, para as comunidades da Amazônia.

“Eu sou quase uma borracheira [risos] , porque sei fazer todo o processo, desde a extração do látex, da seringueira, passando pelo processo da coloração, até o produto final. Precisei ir pessoalmente na floresta para entender melhor o processo das borrachas até desenvolver esse modelo orgânico antes de colocá-lo no mercado”, frisa a empresária.

Máscara produzida com plástico sustentável e borracha da Amazônia (Divulgação/ Matheus Ern)

A iniciativa, denominada “Funtastic Mask”, produzida a partir de plástico 100% sustentável oriundos de cooperativas do Sul do país e borracha amazônica foi desenhada por Flávia. Segundo ela, parte de cada produto vendido no Brasil e no exterior é destinado à comunidades ribeirinhas da Amazônia, impactadas pelo vírus. As máscaras seguem todos os padrões recomendados pelas autoridades de saúde e por órgãos competentes como, Anvisa e Organização Mundial da Saúde.

“Fiquei pensando no que fazer no período de isolamento, já que tudo parou. As comunidades não podem trabalhar, as estradas estão fechadas e o que fazer para ajudá-los. Eu tinha estoque de matéria-prima no ateliê e fiquei avaliando alguns aspectos sobre o uso das máscaras: primeiro, a preocupação do descarte do produto no meio ambiente. Segundo, a questão estética de como respirar sem sufocar com as máscaras e terceiro, criar um produto sustentável com valor agregado para ajudar as comunidades. Foi quando convidei minha amiga, que é dona da Ratorói e, já trabalha com plástico reciclado e sustentável, para dividir o projeto. Assim nasceu a coleção de máscaras coloridas, onde 20% da venda de cada produto é destinado para ajudar as comunidades na floresta. Hoje, as vendas caíram um pouco porque todo mundo tem máscara. Mas, no início conseguimos enviar máscaras para as comunidades, assim como, alimentos”, afirma Flávia.

Os produtos continuam à venda no site da marca Flávia Amadeu e estão disponíveis nos tamanhos adulto e infantil, tem uma variedade de cores e texturas, podem ser lavados com água e sabão ou desinfetado com álcool 70% para utilização constante. Os preços são R$ 65 [adulto] e R$ 60 [infantil].

Flávia aponta ainda que a venda das máscaras se tornou uma vitrine para que ela se tornasse mais conhecida no Brasil.

“As máscaras acabaram agregando valor ao meu produto e atraindo mais pessoas para conhecer meu trabalho, pois, além das máscaras, elas acabaram comprando outros itens. Tornando uma vitrine virtual para minha marca, já que as lojas e os pontos de vendas, onde geralmente minhas peças são expostas estavam fechadas, assim como, os representantes”, exalta a empreendedora.

Mercado pós-pandemia

A designer busca parcerias com comunidades do Amazonas e quer expandir seu trabalho de capacitação para outros locais da Amazônia Legal. Segundo ela, este é um mercado crescente não só para sua marca, mas também para gerar renda para as comunidades, onde tem o artesanato envolvido e que possam movimentar a Bioeconomia em torno e combater o desmatamento da floresta.

“Esse é o grande impacto. fazê-los conscientes para poder gerar renda e da própria importância deles para a floresta e que possam continuar protegendo essas áreas verdes”, alerta Flávia.

De acordo com ela, o mercado quer consumir produtos sustentáveis, até as marcas que a procuram para futuras parcerias estão ávidas por isso. “Enquanto mais eu puder melhorar em alguns aspectos e padronizar mais vou ajudar. As borrachas são feitas artesanalmente, não é um produto industrial. Mas pelo menos conseguimos ter alguns padrões, sem agredir o meio ambiente e incluir as comunidades da floresta na geração de renda do próprio trabalho delas, faz frear a destruição da floresta”, conclui.

Além de designer de joias, Flávia desenvolve projetos para grandes empresas, na área da sustentabilidade. Um movimento que envolve parcerias com entidades e organizações como o Laboratório de Tecnologia Química (Lateq) da Universidade de Brasília (UnB), a SOS Amazônia, a WWF-Brasil e a ONU Mulheres.







Veja também

1 comentário | Comente

 Digite seu comentário

*preenchimento obrigatório



Luciana Bezerra |
Amei. Obrigada, querida!