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Plurale Edição 71 - O futuro já começou

Por Christian Travassos, economista (Puc-Rio) e mestre em Ciências Sociais (CPDA/UFRRJ)

Se você é brasileiro, já se emocionou ao menos uma vez com a campanha de fim de ano da TV Globo. A frase que a sintetiza dá o tom da marca. E título a este artigo. No clima veraneio de dezembro, a letra fala em sonhos ao alcance do telespectador via telinha, embalada numa melodia sincopada longe do convencional. Quando você descobre os compositores, entende a obra.

Um novo tempo (Hoje é um novo dia) é muito mais que um jingle prestes a completar meio século – foi lançado em 1971 -, repetido uma vez ao ano pelo elenco da emissora. A valsa moderna composta pelos irmãos bossa-novistas Marcos Valle e Paulo Sérgio Valle, em parceria com o onipresente e multi-talentoso Nelson Motta, capta pela sensibilidade, bem ao estilo sonho de verão.

A campanha nunca fez tanto sentido quanto em sua última edição. Não exatamente por um clima idílico a marcar a nova temporada, mas, afinal, quem diria que o futuro chegaria tão ligeiro como neste ano de 2020?

As transformações e as tendências mais relevantes à análise já se encontravam no cenário pré-pandemia, plasmadas no universo das novas tecnologias. A migração de sistemas presenciais para a Web não chega a ser novidade, mas foi acelerada abruptamente pela Covid-19. E desvelou potenciais para novos modelos de negócio, além de outro patamar de eficiência de processos.

Uma das ferramentas que já permeava nossas vidas alcançou protagonismo ainda mais absoluto no enredo. Claro que já vivíamos nas redes sociais, pesquisávamos produtos e serviços, comprávamos e fazíamos pagamentos pela Web – se não todos, ao menos, muitos de nós. Para ficarmos no exemplo do conglomerado de comunicação, o Grupo Globo lançou o portal de notícias na Internet G1 em 2006 e a plataforma digital de streaming de vídeos Globoplay no ano de 2015. Tudo muito além da conexão TV x telespectador. Na “vazante da infomaré”, como diria Gilberto Gil em verso de sua Pela Internet, primeira música lançada e transmitida via Web, no Brasil, em 14 de dezembro de 1996.

É fato, no entanto, que a pandemia catapultou o meio virtual numa velocidade impensável poucos meses atrás, antecipando o que se previa para o setor em pelo menos uma década.

Essas novas configurações ainda estão em formação, mas algumas observações são possíveis.

A despeito do modus operandi da cúpula federal, a emergência médico-sanitária escancarou a importância do embasamento técnico-científico à tomada de decisão num período particularmente fértil em improvisos e bizarrices de alto custo – inclusive, em vidas. Os que apostaram contra a Ciência, no antagonismo entre preservação da vida e da economia, foram confrontados pelos fatos. E pelos dados.

No Brasil, achismos populistas, conformados na epidemia das Fake News, são desmentidos diariamente por cientistas, especialistas, jornalistas, fortalecidos na construção de um debate mais qualificado. Do contrário, um consórcio de veículos de imprensa não precisaria se organizar para substituir a autoridade do Ministério da Saúde na contabilidade da doença. Sintomático.

Na contramão, o IBGE e sua pesquisa Pnad-Covid-19 evidenciaram, mais uma vez, a competência e a resiliência do corpo técnico estatal a devaneios. Fundação Oswaldo Cruz, Instituto Butantan e outros centros de pesquisa tupiniquins também comprovaram a relevância de seu trabalho à sociedade.

O “vale quanto pesa” ganha ainda mais espaço no planejamento das empresas. Se as bases da CLT já haviam sido abaladas no cenário recente, o modelo tradicional de direitos e garantias sai combalido da pandemia. A terceirização, os conceitos ad hoc, “hora-aula”, “consultoria”, já turbinados por crises econômicas e reformas na Legislação, são (serão) cada vez mais privilegiados. O número recorde de falências será usado como argumento a favor da flexibilização. Um debate fundamental e em aberto.

Os serviços de logística se mostram mal calibrados nas bases atuais. Apenas na 1ª quinzena de julho de 2020, entregadores de aplicativos cruzaram os braços pelo país em duas greves por melhores condições de trabalho e mudanças na forma de pagamento das principais empresas do setor – iFood, Rappi, Loggi e Uber Eats.

A adesão maciça de clientes à campanha favoreceu o pleito dos entregadores. Enquanto drones ainda não realizam o serviço no Brasil, como em entregas da rede Domino’s que repercutiram nas redes sociais, o mercado precisará adequar a remuneração na ponta. Justo. Ou a festa não é sua, não é nossa, não é de quem quiser?

Durante a pandemia, ex-ministros da Fazenda e ex-presidentes do Banco Central assinaram carta em defesa de um crescimento econômico em harmonia com o meio ambiente. Acordos comerciais e decisão de compra em mercadinhos europeus já influenciam a preservação na Floresta Amazônica, monitorada em tempo real via satélite. Um consumidor mais atento a seu impacto e ao propósito das organizações emerge nas redes.

As distâncias diminuíram. O mundo encolheu. A empatia, ou a falta dela, elegeu cases instantâneos, como o da empresa do vestuário que sofreu revés de imagem ao lançar uma máscara gourmet contra a Covid; o do restaurante excluído de guias especializados após garçons dançarem “meme do caixão”; e o da influenciadora digital que perdeu patrocínios ao banalizar a doença.

Deixada em segundo plano em meio à derrocada econômica da década, a responsabilidade social corporativa sai fortalecida. As empresas que logo compreenderam a gravidade da crise e o envolvimento que precisavam demonstrar sobressaíram ante uma minoria que minimizou a doença a qualquer custo e manchou a reputação de marcas até então em ascensão.

Também não há dúvidas de que o home office veio para ficar, ao menos parcialmente. Trará economia à operação, exigirá equilíbrio entre vida pessoal x rotina profissional, poupará energia do time no deslocamento casa x trabalho. Por outro lado, representará obstáculo extra à retomada até então incipiente do mercado imobiliário – por que empresas manteriam espaços subutilizados? Outro ingrediente a se considerar aqui são os restaurantes localizados em centros empresariais. Além dos efeitos da pandemia, precisam contabilizar o movimento provavelmente menor adiante. O modelo delivery não exige grandes espaços.

Os serviços a domicílio seriam impulsionados de qualquer forma pelo envelhecimento da população, em curso. Alimentação e cuidados pessoais no domicílio avançam. As plataformas de conexão virtual também não têm do que reclamar. É o boom do Zoom. Para além dos eletrodomésticos mais demandados num primeiro momento, como lava-louças e fritadeira elétrica, já se insinua a revolução por vir via impressoras 3D.

Entre o que fica, o talento e a capacidade de superar adversidades como por ora fazem milhões de brasileiros merecem arrematar esse breve panorama. Não caberiam aqui os tantos exemplos de trabalhadores e empresas que lançam mão de criatividade e jogo de cintura made in Brazil contra a crise. A ginga no jingle é coisa nossa.

#christiantravassos #artigo







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3 comentários | Comente

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Virgínia Morato |
Christian, parabéns pelo seu lúcido e esclarecedor artigo na Plurale. A verdade nua e crua, mas sempre com um toque de esperança!

Antonio Roberto Petali Júnior |
Christian, que texto! Estou impressionado com a técnica, com a coerência de sua produção. Achei o texto sólido, coeso e para lá de atual.

Letícia Ester Cruz |
Excelente reflexão, Christian! O 'evento' Covid acelerou tendências que vinham se mostrando e acontecendo, mas tínhamos a opção de não aderir. A não adesão se dava não por resistência, mas por não se exigirem como prioritárias, e a partir de agora o jogo virou e não será possível voltar... Quem não se adaptou (apesar de toda essa revolução, ou evolução que vc citou), talvez se torne obsoleto.