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Pelo Brasil

Plurale Edição 71 - Longevidade, desejo antigo dos humanos: quanto mais tempo melhor

Exemplos de quem vive bem aos 90 anos não deixam dúvidas que estamos sim indo mais longe e com qualidade de vida

Por Nícia Ribas, de Plurale

Fotos de Arquivo Especial e Júlia Rónai (foto de Nora Rónai)

Ultrapassar os 90 anos de idade com lucidez e alegria é uma realidade para cada vez mais brasileiros. O último Censo do IBGE revelou que são quase 500 mil e a expectativa é que esse número aumente em mais de 10 vezes até 2060, chegando a cinco milhões de pessoas bem vividas. Os centenários já são 24 mil e o sonho da longevidade permanece bem vivo entre humanos.

Foi o progresso nas Ciências e na Tecnologia que permitiu esse aumento da expectativa de vida. No entanto, nessa preciosa prorrogação, nem todos conseguem livrar-se de uma sucessão de dores e lamentações e manter a capacidade física e mental. Em seu livro A chave da Longevidade, o médico Helion Póvoa Filho indica a medicina ortomolecular para combater os radicais livres e cuidar do equilíbrio químico. Além de ficar atento aos minerais, ele recomenda: dormir sempre bem; cuidar do intestino e exercitar-se sempre: “Sob a ótica da bioquímica e da fisiologia celular, estamos construindo um modelo preventivo de saúde, em que o equilíbrio químico de cada indivíduo é sua principal defesa contra os fatores que provocam o envelhecimento precoce e as doenças”, diz em seu livro.

Mais recentemente, além de alimentação balanceada, bons hábitos e prática regular de atividades físicas, surgiram outros fatores importantes para a longevidade saudável. Um estudo publicado recentemente no International Psychogeriatrics destaca características consideradas fundamentais, como o estado de espírito, a positividade diante da vida, ética no trabalho, teimosia e um forte laço com família, religião e terra.

Nora Rónai (Foto de Júlia Rónai) acaba de lançar livro "O Desenho do Tempo - Memórias" (Editora Bazar do Tempo).

Em plena atividade

Nora Rónai, 96, arquiteta, foi professora na UFRJ e é campeã brasileira, sul americana e mundial de natação. Ela começou a participar de torneios aos 69 anos. Suas últimas competições internacionais foram em Montreal, em 2014, e em Assunção, no ano passado. Nora se orgulha dos seus títulos na natação, porém faz questão de dizer que é amadora. Seu cotidiano inclui práticas de natação e musculação. Agora, durante a pandemia, ela apenas desce e sobe diariamente quatro andares do prédio onde mora, no Rio de Janeiro. À pergunta da Plurale sobre se a pandemia a tem incomodado muito, impedindo-a de treinar, disse: “Já passei por tanta coisa que isso é café pequeno; o que não tem remédio, remediado está”. Talvez esteja aí o segredo de Nora para se manter tão saudável.

Mãe da jornalista Cora e da musicista Laura, avó de quatro e bisavó de sete, Nora é viúva do filólogo, tradutor, crítico literário, professor e escritor Paulo Rónai, um judeu húngaro que se tornou brasileiro e muito contribuiu para a cultura do País. Italiana da antiga cidade de Fiume, região que hoje pertence à Croácia, veio para o Brasil aos 17 anos, com a família, fugindo do nazismo. Logo ela e o irmão começaram a prática de esportes no Clube Ginástico. Sua autobiografia Memórias de um Lugar Chamado Onde (Casa da Palavra) foi lançada em 2014. Este ano lançou o livro O Desenho do Tempo – Memórias (Editora Bazar do Tempo). Antes já havia lançado um livro infantil, O Roubo da Varinha de Condão e Outras Histórias (Nova Fronteira).

Nas redes sociais, mais um bom exemplo de nonagenária em plena atividade: Maria Soares, mineira, negra, 95 anos, é ativista pela justiça e igualdade do ser humano. Ela diz que hoje não tem mais medo da morte, pois já viveu bastante, e acha que vale a pena se arriscar, defendendo suas ideias. Inconformada com a mortandade de jovens e com o feminicídio crescente na sociedade brasileira, Santinha, como é conhecida, defende os injustiçados por onde passa,

Recentemente faleceu a atriz Ruth de Souza, com 98 anos. Ativa até o final, 15 dias antes de uma pneumonia a levar, gravou suas últimas cenas para um filme. Oriunda do engenho de Dentro, no Rio de Janeiro, Ruth viveu com a mãe numa vila de lavadeiras e jardineiras, em Copacabana. Dedicou-se ao teatro, fez 20 novelas e vários filmes, tornando-se um ícone da dramaturgia brasileira.

Vale a pena viver tanto?

Plurale conversou com vários integrantes desta seleta turma de nonagenários e centenários, fazendo a mesma pergunta: Vale a pena? Por que?

Cely Cortes Gallotti Peixoto, 93, viúva, mãe de seis filhos, avó de nove e bisavó de sete. Carioca, mora há muitos anos em Florianópolis, onde vivem os filhos – uma das filhas mora com ela - e uma bela coleção de amigos. Dia 11 de dezembro nunca passa em branco, pois ela recebe todos para celebrar mais um ano de vida. Já superou dores profundas, como a perda de dois filhos, mas mantém com garbo a alegria de viver. Internauta super ativa, posta mensagens frequentes no Facebook.

Cely, vale a pena viver tanto?

Sim, vale pela alegria de conviver com netos e bisnetos, todos muito carinhosos. Gosto de perceber o jeito de cada um e respeito suas personalidades. Não é tudo como a gente quer, mas minha palavra-chave é perdão.

Gilda Furtuna, 91, mineira moradora de Teresópolis, viúva, três filhos, três netos e uma bisneta. Orgulha-se de ter trabalhado como cabelereira, radialista e na bilheteria do cinema de Santos Dumont (MG), onde morava quando solteira. Depois de casada, o marido a proibiu de trabalhar e o máximo que conseguiu foi vender Avon sem ele saber. Em sua casa na Serra, mora também a filha mais velha, mas quem vai para a cozinha, com o maior prazer, é ela. Gilda costuma passar temporadas na casa da filha Vânia, no Rio, frequentando cinemas, teatros e restaurantes. Muito católica, é telespectadora fiel da TV Aparecida.

Gilda, vale a pena ultrapassar os 90?

“Como vale! Sempre com Deus no coração, com o carinho dos netos e a bisneta, vibrando com as conquistas deles e rezando para que sejam felizes como eu sou.”

Gilberto de Abreu Pires. 94, curitibano de raiz, três filhos, seis netos e duas bisnetas, é católico praticante. Viúvo, já passava dos 70 quando reencontrou uma prima querida e está até hoje casadíssimo e feliz. Sua intensa vida profissional na área administrativa levou-o a cargos de destaque na esfera federal, obrigando-o a morar por 10 anos em Brasília. Ele continua na ativa, participando de reuniões no Instituto Histórico do Paraná e no Movimento Pró Paraná. Bem disposto, desloca-se bem pela cidade e mantém-se informado, dando opiniões sobre todos os assuntos. Nas reuniões do conselho do Clube Curitibano “convivo com uma rapaziada de 50 anos e eles me ouvem e respeitam.” Pudera! Com tanta experiência acumulada, Gilberto soma sempre.

Gilberto, vale a pena viver tanto?

Vale muito a pena! Eu me sinto premiado e agradeço todo segundo pela vida que levo. Enquanto for útil, sigo colaborando e dou minhas opiniões, porém sempre respeitando as opiniões alheias. Vivo um dia de cada vez, sem planos futuros.

Carmilde Araripe, 91, carioca da Tijuca, moradora de Ipanema, viúva, uma filha, um genro e uma neta. Filha de portugueses, está aguardando sair sua cidadania para facilitar suas viagens. Numa época em que a maioria das mulheres ficava em casa, Carmilde sempre trabalhou: primeiro em cartório e depois na área administrativa do Supremo Tribunal Militar. Aposentou-se aos 55 anos. Católica, síndica há anos do seu prédio, ela adora ir à rua, seja para visitar a família, passear, ir à missa ou fazer feira. Carmilde dispensa brilhantemente a tecnologia das redes sociais. Sua foto para a matéria só mesmo no bom e velho papel. Ela garante que a Internet não lhe faz nenhuma falta.

Carmilde, vale a pena?

Sim, quanto mais melhor! Adoro conversar com amigos e familiares. Viajar também é maravilhoso. Aqui no Brasil e no exterior.

Maria Alice de Moraes Paiva, 92, viúva, três filhos, dois netos, vive sozinha em Copacabana. Sempre acompanhou e ajudou os idosos da família e hoje se orgulha de ser auto suficiente, pois não quer dar trabalho aos filhos. Muito curiosa, destrincha tecnologias modernas até dominá-las. Só pede ajuda aos filhos em último caso. Acompanha, horrorizada e combativa, os malfeitos do governo e costuma lembrar todos os aniversários no grupo da família pelo watsapp. Diante dos problemas, tem uma técnica: analisar com calma, fazer o que for possível e esperar passar. Ativa, começou recentemente a estudar árabe on line, com os filhos. Pelo andar da carruagem, Alice vai longe: sua mãe viveu 101 anos.

Alice, vale a pena?

Sim, vale a pena. Fundamental é manter o bom humor e a auto suficiência, aproveitando as vantagens da modernidade. Sei que estou velha, mas não me sinto.

Gilda Vieira de Mello, 102, viúva, moradora de Copacabana, dois filhos, Sônia e Sergio Vieira de Mello, (que morreu no Iraque, em ataque terrorista provocado pela Al Qaeda, quando trabalhava pela ONU, em 2003), três netos e seis bisnetos. Essa dor profunda acompanha Gilda, mas o amor pela vida permanece. Lúcida, vaidosa, lê muito bem sem precisar de óculos – nos orgulhamos por tê-la como leitora assídua de Plurale - todos os dias acompanha o noticiário e gosta de conversar sobre todos os assuntos. Tem uma cultura geral vastíssima, tendo sido casada com Diplomata. Adora a visita da família. Canta, gosta de ouvir piadas e assiste filmes clássicos. “Ler é um eterno exercício para continuar raciocinando”, diz.

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Fala, especialista

Professor de Gerontologia da USP EACH, comentarista de longevidade da TV Globo e fundador do Centro de Estudos da Economia da Longevidade, Jorge Félix, falou sobre longevidade especialmente para Plurale:

Plurale: Com sua experiência e seus estudos sobre a longevidade, como vê a possibilidade de manter a capacidade física e mental nessa fase da vida?

Jorge Felix: A primeira ideia que devemos ter em mente é que existe uma heterogeneidade na velhice. São vários envelhecimentos. Chegar aos 90 anos hoje já é bem comum e será cada vez mais, graças à ciência, que popularizou medicamentos e tratamentos e ao SUS, que garantiu o aumento de nossa expectativa de vida de maneira extraordinária dos anos 1990 para cá. Poderíamos melhorar ainda mais se o Estado fizesse campanhas de saúde para reduzir o sedentarismo, o consumo de álcool e de cigarro.

Vi agora, na rede social, a Fernanda Montenegro em vídeo recomendando o uso da máscara no combate à Covid. Sabe o que mais me chamou a atenção? A agilidade dela nos dedos para esticar o elástico e colocá-lo atrás da orelha. Ela faz esse gesto de forma muito rápida, ágil. Isso é extraordinário.

Para que mais pessoas, de todas as classes sociais possam desfrutar de um envelhecimento de qualidade, dependemos de saúde pública, com proteção social. Garantir uma velhice melhor depende de o Estado oferecer saúde integral e universal de qualidade.

Plurale: Há mais mulheres longevas? Para essa reportagem, encontramos mais mulheres nonagenárias do que homens.

Jorge Felix: A diferença de expectativa de vida entre homens e mulheres é real e os cientistas ainda procuram explicações, embora existam muitas evidências genéticas favoráveis ao sexo feminino. Os motivos do século passado estão perdendo força, como a exposição às doenças do trabalho, por exemplo, para explicar a maior longevidade das mulheres. Há também uma diferença epidemiológica, principalmente em relação a doenças cardiovasculares, que incidem mais nos homens. Outro fator importante, no Brasil, é a violência urbana e mortes que poderiam ser evitadas pelo estilo de vida e sujeição ao risco.

Plurale: Cada vez mais teremos centenários no Brasil?

Jorge Felix: Mesmo com pandemias e doenças novas, a ciência está pronta para responder a esses eventos extremos de maneira muito mais rápida do que no passado. Acredito também que a pandemia atual irá provocar uma mudança nos hábitos de higiene, por exemplo, o que pode melhorar a higiene e a saúde. Por outro lado, aumentará muito mais a incidência e prevalência de doenças crônicas não transmissíveis, como alzheimer, parkinson etc.


Um ponto importante na sociedade com maior número de "mais idosos" (como chamamos tecnicamente os maiores de 80 anos) é a "doença da solidão". Temos 5,7 milhões de idosos que vivem sozinhos no Brasil. Portanto, é preciso politizar o cuidado. O que é isso? Regulamentar a profissão de cuidadora e de gerontóloga (o gestor da velhice) e, principalmente, incluir o cuidado como um pilar a mais da seguridade social, permitindo que o Estado amplie a sua oferta de cuidados, seja no cuidador que visita os idosos, aplicando testes de avaliação multidimensional de saúde, ou na oferta de instituições de longa permanência para idosos (ILPIs), chamados antigamente de asilos.







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1 comentário | Comente

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Lucia Koury |
A edição está linda! E a matéria sobre os nonagenários está maravilhosa. Delicada, para cima, sem chavões, adorei! Parabéns à Nicia Ribas! Mantem sua pena (ou seu teclado) bem afiado e cheio de tinta!