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Plurale Edição 71 - Psicanálise e Sustentabilidade

Por Pedro B. Garrido, Psicólogo e Psicanalista/ Mestrando do Instituto de Psicologia da USP – PSC

Coordenador da rede Gesto Psicanálise

As profundas transformações engendradas pela cultura contemporânea aumentaram a incidência de pessoas que sofrem de transtorno de ansiedade, depressão, síndrome de burnout, cutting, toxicomania, entre outras patologias. Em relação as taxas de suicídio, o governo dos EUA divulgou crescimento de 33% entre os anos de 1999 e 2017. É o maior índice registrado desde a 2a Guerra Mundial.

No meio desse cenário também se observa a degradação do planeta Terra em função da ação do homem: o aumento assustador do desmatamento da Amazônia, que se acentuou nos últimos dois anos; adoecimento de rios, em que a vida animal deixa de existir; o inacreditável aparecimento e crescimento das ilhas de plástico no oceano; entre outros fenômenos assustadores que acompanhamos diariamente.

Recentemente, uma foto aérea da Amazônia causou-me enorme impacto: um tronco-esqueleto espalhado no solo evidenciava o contraste entre a natureza viva e a natureza morta. Era um sinal de SOS da Mãe Terra para nós: estão me (des)matando! Logo pensei: mais uma evidência do fator destrutividade do eu no não-eu, fenômeno presente nas relações humanas que testemunho por vezes no consultório. Depois depurei o pensamento, o que me despertou um susto maior: temos um esqueleto; portanto, falamos da morte do não-eu, da Mãe Terra.

Há reparação possível para esse fenômeno?

Há exatos cem anos, Freud desenvolvia seu conceito de pulsão, apontando para a existência de um dualismo: pulsão de vida e pulsão de morte. De forma simples e coesa poderíamos dizer que a pulsão se refere a uma quantidade de energia (Q) que gera tensão. Ao atravessar o aparelho psíquico a pulsão busca descarregar ou dissipar essa tensão. Segundo ele, a regulagem das tensões no aparelho psíquico exige a descarga. Ela pode se dar de duas formas: 1- com gasto de energia para efetivar ligações simbólicas a partir de rememorações de lembranças, traços mnêmicos, símbolos – tudo aquilo que envolve construção de sentido; 2- com gasto de energia direta, sem mediação simbólica, que se dá através de formações psicossomáticas ou ações motoras repetitivas, tais como correr sem parar, fumar, comer sem parar, dopar-se, desmatar sem parar, cortar-se...

A pulsão de morte se caracteriza evidentemente pelo formato 2. O funcionamento mental vigente neste estado revela um aparelho psíquico empobrecido. Parafraseando Descartes em seu célebre postulado penso, logo existo; temos: não penso, logo desmato, logo me mato. Há uma diferença entre o que Descartes concebe como pensamento e como a Psicanálise o concebe. Para Descartes a existência está atrelada à capacidade de questionar (pensar). A verdade é concebida a partir do pensamento e do uso do método científico que constrói evidências empíricas sobre os fenômenos naturais. Para a Psicanálise o pensamento implica a capacidade de criar e sustentar redes simbólicas e afetivas que nos constituem. A verdade sobre quem somos implica uma realidade psíquica; portanto, subjetiva. O trabalho do psicanalista justamente impõe à pulsão a necessidade de se ligar à palavra, ao campo simbólico e afetivo. Ou seja, através da construção de ligas simbólicas, o aparelho psíquico gasta energia produzindo sentido (pulsão de vida); e não dissipando tensão de maneira impulsiva e desordenada (pulsão de morte), comprometendo a preservação do eu e do seu entorno (o meio ambiente).

Como síntese, temos: penso, logo preservo. E aqui cabe a concepção cartesiana e psicanalítica do pensar.

Retomando a imagem do desmatamento da Mãe Terra amazônica, trago a psicanalista Melanie Klein, que identificou o fator destrutividade como constitucional no ser humano. Seguindo o caminho do conceito de pulsão de morte postulado por Freud, ela descreve o funcionamento mental imaturo como sádico e cruel, e o nomeia de esquizo-paranóide. Neste funcionamento, mecanismos de cisão e projeção imperam e o ódio é o afeto mais apropriado para qualificar a relação entre o eu e o não-eu. Em fantasia, o eu ataca o outro, que é tido como objeto persecutório, sugando-o até exaurir suas qualidades, mordendo-o por pura maldade, escavando-o e assaltando o seu corpo ou território, despojando-o de seus conteúdos bons. Ele expulsa substâncias perigosas e destrutivas, para dentro do corpo ou território do outro com o objetivo não apenas de danificar, mas também de controlar e tomar posse. É o que nos revela a experiência clínica do funcionamento esquizo-paranóide.

Alguma semelhança com o que observamos na relação do ser humano em relação à Mãe Terra? A extração de conteúdos valiosos; a demarcação de áreas ambientais como propriedade privada; a expulsão de lixo, dejetos e produtos químicos em rios e oceanos; e a própria relação entre humanos absolutamente permeadas por servidão (garimpo), violência (grilagem) e desrespeito (invasão de área indígenas).

Vivemos justamente um momento histórico em que se revela o aumento de formações psicopatológicas com incidência significativa de suicídio e isso não é sem relação com o uso exploratório e devastador do meio ambiente; do meio que, em última análise, fornece-nos o meio de vida. É ao mesmo tempo um homicídio e um suicídio, e é regido pelo funcionamento esquizo-paranóide.

O ser humano tem cura? Não diria cura; mas tratamento, sim. É necessário interesse não apenas do Estado, mas também de ONGs, empresariado e elite detentora do capital, para se investir na estrutura de saúde mental coletiva. Há formas de gerar valor sem ser de maneira destrutiva: é o que apontam os profissionais que trabalham com o conceito de sustentabilidade. Nesse sentido, os conceitos de saúde mental e sustentabilidade caminham de mãos dadas: visam à preservação do eu e seu entorno (meio ambiente), produzindo valor. Também me parece fundamental investir em cultura. O contato com grandes obras artísticas e a sua compreensão oferecem ao ser humano a capacidade de pensar, no sentido de integrar as redes simbólicas e afetivas que nos constituem: penso, logo preservo.







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