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Responsabilidade civil

Por Rudolf Hohn, Colunista de Plurale

No inicio da minha vida professional tive o prazer de conviver com um executivo americano que veio ao Brasil para me ajudar a desenvolver uma grande equipe gerencial num curto espaço de tempo. Tinha por volta de 65 anos e chamava-se Dave. Um certo dia, conversando com Dave, perguntei a ele: -“Dave, agora que você está sozinho com a sua esposa, os filhos estão em outras cidades nos Estados Unidos, o que você faz nas suas horas de lazer e principalmente durante o inverno de lá ( Hoje estamos apreendendo a lidar com este tipo de coisa por conta da pandemia, mas naquela época não havia isso )?” Ele me respondeu que o seu passatempo era produzir vinho. Surpreso eu perguntei:- “Mas Dave, para isto você deve produzir no mínimo um barril de vinho, o que é muito vinho para vocês dois, não é?” Ele me respondeu que uma parte ele presenteava aos amigos e parentes e a parte que lhe era permitido vender, sem ser considerado produtor - o que o obrigaria a pagar impostos, ele vendia. Ai eu lhe fiz a seguinte pergunta : - “Mas Dave, quem fiscaliza se você vendeu mais do que o permitido por lei?” A resposta dele foi imediata:

-Eu.

Se por um lado me senti um tanto envergonhado de ter perguntado, por outro me chamou a atenção de como poderíamos ser muito mais efetivos e competitivos se tivéssemos um sistema mais baseado na presunção de que as pessoas são ciosas dos seus deveres, confiáveis e fiscais de si próprio. Parto do pressuposto de que é impossível o Estado fiscalizar a tudo e a todos. Seria uma utopia? Creio que não mas, para que isto fosse possível, seria imprescindível que as pessoas tomassem conhecimento do que é esperado delas e que tivessem a oportunidade de adquirir os valores básicos que as permitissem exercer a sua cidadania, e, como tal, os seus direitos e principalmente os seus deveres. Os instrumentos para isso seriam aqueles já tão conhecidos mas nem sempre executados, educação, exemplo, campanhas esclarecedoras e educativas, liderança e por aí vai. Uma vez esclarecido para a maioria da população o que é esperado dela, podemos delegar a ela a sua própria fiscalização. É claro que haverá exceções e para estas seria imposta uma punição exemplar para que outros pensem duas vezes antes de incorrer nelas.

Imaginem se as pessoas tivessem a plena consciência das consequências dos incêndios causados por iniciativa delas, seja na simples soltura de um balão, na limpeza de uma pastagem, ou mesmo na simples jogada de uma guimba de cigarro numa relva seca. Não que todas as queimadas de áreas que deveriam ser preservadas sejam consequências apenas da ação direta do homem, mas quanto poderíamos evitar se as pessoas tivessem plena consciência das consequências para o meio ambiente e da punição exemplar a que estaria sujeito?

Num final de semana estava na casa que frequento na serra do Rio de Janeiro e o vizinho resolveu atear fogo no lixo da sua casa, o que além de ser proibido pelo condomínio tinha o risco de se alastrar para um pedaço considerável da mata Atlântica, muito próxima. Fui alertá-lo do que estava fazendo e pedir para apagar e a pessoa ainda se insurgiu contra mim. Ou seja, esta pessoa não tem ideia do que é esperado dela como cidadã e nem receio de que possa ser punida exemplarmente. Está muito longe de ser fiscal de si mesma.

Se pararmos para pensar, apesar das falhas do nosso sistema educacional, tivemos êxito em algumas áreas, pondo em prática o que estou propondo neste artigo. O cinto de segurança, por exemplo, há poucas décadas atrás ninguém o utilizava, hoje podemos dizer que a maioria já é fiscal da sua utilização. Em relação às fezes dos animais nas ruas e calçadas, embora acreditando que não esteja no nível do uso do cinto de segurança, já progredimos muito. Quanto ao lixo nas ruas que causa o entupimento dos bueiros e as consequentes enchentes, a campanha começou e foi totalmente esquecida lamentavelmente.

Alguns exemplos muito simples mas que expressam uma mudança de atitude que poderia nos levar a um patamar mais elevado de competitividade, na medida em que o cidadão comum passasse a ser mais fiscal do seu comportamento e o Governo por seu lado confiasse mais no cidadão evitando este nosso emaranhado burocrático gerado pela desconfiança de tudo e de todos. Precisamos inverter a direção, o individuo é confiável até que faça por onde perder a confiança ao invés de não ser confiável até que por, muito custo, consiga provar que é.

Imaginem quanto poderíamos simplificar as nossas vidas com esta mudança de atitude.







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1 comentário | Comente

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Catharina |
Excelente. Concordo plenamente!