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Entrevistas

Dra. Zilda Arns

Uma revolucionária contra a fome

05/06/08

Sônia Araripe

Da Revista Plurale (Edição 1/ Publicada em outubro de 2007)

Quem vê esta senhora entrar e sair de casebres simples em rincões longínquos com a disposição de uma jovem voluntária não tem dúvidas. A médica pediatra Zilda Arns Neumann, fundadora e coordenadora nacional da Pastoral da Criança, nasceu para cumprir esta missão. Seja em Florestópolis, no interior do Paraná, cidade de bóias frias, onde começou o projeto, em 1982, ou nas comunidades simples de São Gabriel da Cachoeira, no Amazonas, onde esteve em setembro. Ali, a carinha rechonchuda da pequena Ana Laura Arantes Pereira, sete meses, é o retrato vivo que é possível acreditar no milagre da multiplicação dos pães. Ou melhor do soro caseiro e da boa orientação em torno de alimentos saudáveis. Aos 73 anos, viúva, mãe de cinco filhos e avó de 10 netos, Dona Zilda, como é mais conhecida poderia estar curtindo a melhor idade lendo ou debatendo temas relevantes para o desenvolvimento sustentado do planeta. Mas, junto com Dom Geraldo Majella Agnello, Arcebispo Primaz do Brasil e Presidente da Confederação Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB), na época Arcebispo de Londrina, aceitou a sugestão da Unicef (Fundo das Nações Unidas de Proteção à Infância) para desenvolver um projeto social que combatesse a desnutrição e a violência no Brasil. O reconhecimento mundial por este trabalho que envolve cerca de 267 mil voluntários confirma os resultados: a médica foi indicada quatro vezes ao Prêmio Novel da Paz e o programa é seguido em 16 países. Ela sabe que na está mais pregando para um deserto. Conquistou a parceria de importantes empresas, governos e pessoas comuns que se encantam pela idéia de tirar da desnutrição milhares de crianças. "Devemos valorizar as relações humanas e sociais, não só o que tem valor econômico e financeiro, e consolidar a ética orientada pela honestidade, pela solidariedade e a co-responsabilidade social." Os resultados comprovam a eficácia do trabalho. Após 24 anos, a Pastoral acompanha 1.9 milhão de crianças menores de seis anos e 1,4 milhão de famílias pobres, em 4.063 municípios brasileiros. Dona Zilda se dirige aos que se escondem na crítica ao assistencialismo para não ajudar os mais necessitados. Como economistas, empresários e políticos. "Há muita impunidade e tolerância, falta de ética no trato com os interesses da população, especialmente com os mais pobres. Os profissionais liberais, autônomos, trabalhadores públicos e privados também precisam ter compromisso com o bem comum. A pobreza, a baixa escolaridade, a violência e a corrupção só são combatidos com a soma de esforços." No fim do ano ela deixará a coordenação da Pastoral da Criança, mas continuará a participar do projeto, dedicando-se, no entanto, mais à Pastoral da Pessoa Idosa e à Pastoral da Criança Internacional. A seguir os principais pontos desta entrevista à Plurale em Revista.

Já são 24 anos de trabalho intenso na Pastoral da Criança. Que balanço a senhora faz do que já foi feito? Que projetos, metas vocês estão envolvidos para o futuro?

Começamos o projeto piloto da Pastoral da Criança no ano de 1982, em Florestópolis, uma pequena cidade canavieira no norte do estado do Paraná. Lá setenta e quatro por cento do plantio e corte da cana de açúcar era feito por bóias-frias. A mortalidade era de 127 crianças por mil nascidas vivas, depois de um ano mobilização comunitária, educação das famílias e melhorias nos serviços públicos de saúde, essa taxa caiu para 28 por mil. Hoje, a Pastoral da Criança está presente em todos os estados brasileiros, 267 mil voluntários acompanham 1,9 milhão de crianças de zero a seis anos e 97 mil gestantes. Além de contribuir para promover a saúde e o pleno desenvolvimento de crianças de zero a seis anos, também trabalhamos com o fortalecimento do tecido social, a articulação de políticas públicas, a defesa dos direitos das crianças e adolescentes e a alfabetização de jovens e adultos. Nossos líderes voluntários conseguem acompanhar 20% das crianças pobres do Brasil, nossa meta é chegar a todas elas. Temos outro grande desafio que é reduzir a anemia entre as crianças e jovens. Para isso, promovemos a educação alimentar das famílias acompanhadas pela Pastoral da Criança, com ações de valorização dos alimentos regionais ricos em ferro, como feijão, ovos, fígado, miúdos de galinha e o cultivo de hortas caseiras.

- Que resultados efetivos podem ser apresentados?

As ações da Pastoral da Criança salvam, a cada ano, cerca de cinco mil vidas. Entre as crianças acompanhadas apenas 3,6% encontram-se desnutridas, índice que é considerado controlado pela Organização Mundial de Saúde (OMS). A taxa de mortalidade é de 13 por mil, quase metade da média nacional, sendo que em comunidades em que atuamos, favelas e bolsões de pobreza, a mortalidade chega a ser mais que o dobro da média nacional, antes de serem implantadas as ações básicas de promoção da saúde, educação e cidadania.

Várias empresas colaboram com o programa. A participação do setor privado tem sido essencial?

Nós buscamos a união de esforços de todos os setores para a promoção humana das crianças mais pobres no seu contexto familiar e comunitário. O apoio das empresas contribui para a realização das ações complementares como o projeto Brinquedos e Brincadeiras, Geração de Renda, pesquisas e manutenção de equipes de apoio. Várias empresas nos apóiam como o banco HSBC, a Rede Globo/Unesco, com o projeto Criança Esperança, Gerdau, Gol Linhas Aéreas, entre diversas outras. Também temos convênios em alguns estados com empresas distribuidoras de energia elétrica que viabilizam doações espontâneas da população pela conta de luz. No entanto, mais da metade dos recursos da Pastoral da Criança vêm do Ministério da Saúde, contamos com esse apoio desde 1985, e também temos convênios com diversos governos estaduais e municipais.

- Como a sra. vê a participação cada vez maior da sociedade civil engajada - em ações voluntárias - na luta para um Brasil mais fortalecido, com inclusão social, cultural e econômica?

Isso significa um potencial enorme, as pessoas querem oportunidades para trabalhar voluntariamente naquilo em que acreditam. O crescimento das instituições sociais e das ações de empresas nas áreas social e ambiental gera mais oportunidades. A mídia também colabora quando divulga informações que sensibilizam as pessoas e as tornam mais conscientes. A construção de uma sociedade fraterna, na qual haja justiça, depende das atitudes de cada um de nós. Devemos valorizar as relações humanas e sociais, não só o que tem valor econômico e financeiro, e consolidar a ética orientada pela honestidade, pela solidariedade e a co-responsabilidade social.

- A criança no Brasil hoje se alimenta melhor do que há alguns anos? Há uma diferença em relação à criança do Norte, do Nordeste ou do Sudeste/Sul? Ou uma criança subnutrida é igual, independente da região?

Encontrarmos menos crianças desnutridas nas regiões mais desenvolvidas. Entretanto há bolsões de pobreza, miséria e violência em todas as regiões do país. Os hábitos alimentares mudaram, as mães trocam o feijão com arroz por macarrão, sanduíches, doces e outros. Precisamos retomar o consumo de alimentos regionais e tradicionais como os ovos, alimentos ricos em ferro como o fígado e verduras verdes escuras. Pesquisa realizada pela Pastoral da Criança, em conjunto com a Universidade de Pelotas, em 2004, demonstrou que há mais de 50% crianças pobres anêmicas. Tanto no sul quanto no norte do Brasil, principalmente nas periferias das cidades grandes, as pessoas que vivem nas comunidades mais pobres têm uma alimentação com poucos nutrientes e muitos carboidratos. Há necessidade de ensinar às famílias a buscarem uma alimentação saudável, rica em ferro e em vitamina C, que é necessária para a sua absorção pelo organismo.

- Ainda há muito desperdício de alimentos no Brasil. E uma fartura que não é totalmente aproveitada. A sra. acredita que isso possa mudar com um bom trabalho de Educação?

Para que não haja desperdício de alimentos é necessário ter conhecimento de como produzi-los, transportá-los e utilizá-los. Vemos que há falta estímulo à produção e consumo dos produtos regionais, o que aumenta o valor dos alimentos e risco de perdas. As três esferas de governo necessitam da colaboração da sociedade civil para desenvolver políticas públicas de segurança alimentar que cheguem realmente às famílias mais pobres e que possam ao mesmo tempo promover a cidadania e não a dependência.

Mas, além das ações do governo, as pessoas precisam aprender a valorizar os alimentos, devem saber que para uma boa nutrição também é preciso amor, investir tempo para seu preparo e mesmo no seu cultivo, quando é possível. Estamos começando um projeto de hortas caseiras, que mostra que mesmo onde há pouco espaço, como nas favelas, usando a criatividade é possível usar baldes, bacias, tampos de fogões velhos para plantar verduras, frutas e temperos.

Na base de tudo há um problema econômico. Na sua visão, a economia brasileira vive hoje dias melhores? Qual a sua visão da economia brasileira hoje e para os próximos anos?

Desde 1994, vivemos dias melhores, temos mais estabilidade na economia e na inflação, o que contribui para a segurança alimentar. Com a inflação controlada, as famílias têm mais condições de ter acesso contínuo aos alimentos, o que é importante para o controle da desnutrição. O Brasil, mesmo assim, continua entre os países com maior índice de desigualdade do mundo. Se por um lado, as pessoas têm mais acesso à educação e aos serviços de saúde, ainda há muito o que fazer para que haja qualidade na educação pública em tempo integral, com esportes, artes, e mais investimento em emprego e programas de geração trabalho e renda. Outro grande problema é a corrupção, que pode desviar muitos recursos que deveriam atender interesses públicos. Esse é um dos grandes cânceres do nosso país, que precisa ser combatido com urgência. Acredito que a desigualdade de renda e a corrupção só serão reduzidos com a educação de qualidade, fundamentada em valores culturais éticos, desde a infância.

A sra. não acha que falta visão social aos economistas em geral? Debatem muito os juros, o câmbio, com o superávit e se preocupam pouco com a pobreza, com a Educação, com a microeconomia.

Não só para os economistas, mas também políticos e muitos empresários, pessoas de todas as áreas. Há muita impunidade e tolerância, falta de ética no trato com os interesses da população, especialmente com os mais pobres. Os profissionais liberais, autônomos, trabalhadores públicos e privados também precisam ter compromisso com o bem comum. A pobreza, a baixa escolaridade, a violência e a corrupção só são combatidos com a soma de esforços.

Qual é o papel do Estado no Brasil? O Estado, de uma maneira geral, não está faltando com o seu papel de provedor das condições básicas para os cidadãos, como direito à escola, saúde, segurança, etc?

Para haver desenvolvimento todos devem ter garantidos os seus direitos sociais básicos, que estão na constituição. Sabemos que problema da desigualdade de renda está relacionado com a baixa escolaridade. A violência é diretamente proporcional a concentração de renda. A falta estrutura familiar e social é consequência da ausência de valores éticos e de diversos fatores econômicos e sociais. O papel do estado é elaborar e executar políticas públicas efetivas, sem desviar dinheiro, e a sociedade civil precisa estar unida e articulada para cobrar a qualidade dos serviços e contribuir para o seu aprimoramento. O controle social deve acontecer em todas os níveis de governo e em todos os setores.

Qual a sua opinião sobre o programa Bolsa Família? Recentemente o presidente anunciou sua ampliação, chegando ao jovem de até 17 anos. É esta a solução?

A transferência de recursos diretamente para a família é um estímulo para que as crianças e jovens permaneçam na escola. Mas por si só não garante um futuro melhor, se não for acompanhada pela educação de qualidade, que proporcione o desenvolvimento integral, ou seja, físico, cognitivo, social e espiritual. Os programa sociais devem promover a inclusão social, o empreendedorismo e a paz nas famílias e comunidades.

- Assistencialismo resolve o problema da fome e pobreza no Brasil?

Não resolve, mas quem tem fome, e está sem casa, não consegue estudar e trabalhar, precisa de ajuda. Temos que pensar em ações conjuntas que resolvam os problemas urgentes e abram caminhos para soluções permanentes.

Não faltam programas efetivos de geração de renda para esta população tão mal assistida?

Temos bons exemplos, mas ainda são poucos perto da grande necessidade de oportunidades das pessoas mais pobres. Programas de geração de renda exigem maior investimento, pessoas capacitadas, estudo das vocações locais e regionais, além de acompanhamento das microempresas no período inicial.

Como a sra. avalia especificamente a questão das crianças índias e herdeiros de quilombolas?

Eles grupos são mais vulneráveis e precisam de atenção especial por parte dos governos e de toda a sociedade. Em 2006, a Pastoral da Criança acompanhou 7.789 crianças indígenas. A média de desnutrição entre elas foi de 8%, o dobro da média nacional entre todas as crianças acompanhadas por nós. Houve uma significativa redução na mortalidade infantil entre os índios acompanhados pela Pastoral da Criança, de 32 por mil nascidos vivos, em 2005, e caiu significativamente para 11,6 por mil, em 2006. Nas comunidades quilombolas, nas quais acompanhamos 868 crianças, a mortalidade infantil, em 2006, foi de 20 por mil e a desnutrição está em 8%.

A sra. tem sido reconhecida mundialmente pelo trabalho desenvolvido. Que é de toda uma legião de voluntários e envolvidos. A sra não teme que, de alguma forma, o projeto fique muito centralizado na sua figura?

A Pastoral da Criança completará 25 anos em 2008, costumo dizer que é uma bela moça, bem gerada e estruturada e com todas as condições para continuar seu caminho. Ela já construiu o seu espaço, pelos resultados alcançados, pela sua maneira de trabalhar, com amor, generosidade, fé e vida, além do conhecimento científico aplicado. Ela multiplica nas redes comunitárias toda a sua sabedoria e solidariedade. No final desse ano, será eleita uma nova coordenadora nacional da instituição, mas continuarei na Pastoral da Criança, filha que gerei, até quando eu possa servi-la. Quero me dedicar mais à Pastoral da Criança Internacional e à Pastoral da Pessoa Idosa, porque tenho certeza que a Pastoral da Criança irá continuar crescendo em sabedoria e graça, levando fé e vida a milhões de crianças no Brasil e no mundo.







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