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Onça-pintada, símbolo da biodiversidade brasileira, é agora ícone do drama das queimadas. Entrevista especial com Fernando Tortato

Pesquisador aponta que o felino está no imaginário das pessoas desde populações de povos originários, e ver esse animal em sofrimento por causa das chamas choca o mundo inteiro

Por: João Vitor Santos , da IHU On-Line | 08 Outubro 2020

As queimadas na Amazônia e agora no Pantanal estão diariamente nas manchetes do mundo todo. A luta pela sobrevivência de animais desesperados é o retrato do verdadeiro escárnio que o drama dos incêndios tem causado. Mas um animal em específico tem se tornado símbolo de toda essa degradação: a onça-pintada. “A onça-pintada já é considerada um dos símbolos da biodiversidade do Brasil. As imagens de onças-pintadas feridas pelo fogo geraram uma comoção na população e chamaram a atenção para o problema das queimadas”, reitera o biólogo Fernando Tortato, que atua numa ONG que busca a preservação de grandes felinos, em entrevista concedida por e-mail à IHU On-Line.

O fogo no Pantanal tem sido ainda mais cruel com esse que é considerado o maior felino das Américas. Pelo menos dois animais foram resgatados com graves queimaduras e seguem em tratamento. Um deles, um macho, chamado de Ousado pela equipe que fez o resgate, teve as quatro patas queimadas, e choca a imagem dele em sofrimento. Mas, segundo Tortato, mesmo que curado e levado de volta ao seu habitat, Ousado e todos da sua espécie podem ainda sofrer com os efeitos das queimadas. “A Amazônia possui a maior população de onças-pintadas no Brasil. Contudo, é no Pantanal onde se tem uma maior facilidade em se observar esta espécie”, pontua.

É também no Pantanal onde se vê maior incidência de reprodução do animal, sinal de que esse é o habitat perfeito para eles. Destruir esse ecossistema é colocar a onça em vulnerabilidade, sem proteção e com muitas dificuldades para achar comida. Tortato explica que foi justamente isso que levou à extinção do felino em outros biomas. “A onça-pintada é considerada extinta no Bioma Pampa, devido principalmente à perda de habitats e à caça ilegal. Por ser uma região tradicional de pecuária, a onça-pintada se tornou uma espécie perseguida, pelo risco que ela oferece aos rebanhos domésticos”, explica.

Para o biólogo, de todo esse triste episódio que temos vivido, fica o sinal de alerta, pois desmatamento ilegal e queimadas compõem a dupla perfeita que ameaça esse e outros animais da fauna brasileira. “A abertura de novas áreas para produção agropecuária acaba indiretamente aumentando a vulnerabilidade das onças-pintadas para caça ilegal, pois facilita o acesso para as áreas de ocorrência da espécie. Com isso, as principais ameaças para a onça-pintada muitas vezes atuam de forma sinergética”, acrescenta. E provoca: “cabe à sociedade julgar o papel desempenhado pelo governo na questão ambiental e exigir que as ações necessárias para sua proteção sejam tomadas”.

Fernando Tortato (Foto:Arquivo pessoal)

Fernando Tortato é bacharel e licenciado em Ciências Biológicas pela Universidade Regional de Blumenau - FURB. Ainda possui mestrado e doutorado em Ecologia e Conservação da Biodiversidade pela Universidade Federal de Mato Grosso - UFMT, tendo realizado, durante o doutorado, um estágio na University of East Anglia, Norwich, Inglaterra. Atualmente é pesquisador associado da ONG Panthera, única organização no mundo que se dedica exclusivamente à conservação das 40 espécies de felinos selvagens e seus ecossistemas. Na Panthera, ocupa o cargo de cientista conservacionista no Brasil; nesta função, desenvolve parcerias técnicas entre a ONG e instituições governamentais e não governamentais brasileiras, e no trabalho de campo colabora em diferentes projetos em desenvolvimento no Projeto Onça-pintada do Pantanal.

Confira a entrevista.

IHU On-Line – Gostaria que o senhor apresentasse a onça-pintada.

Fernando Tortato – A onça-pintada (Panthera onca) é o maior felino das Américas. Machos adultos no Pantanal podem chegar até 150 kg. Ocorre atualmente desde o norte do México até o norte da Argentina. Possui hábitos predominantemente noturno e crepuscular. É uma espécie solitária, e em algumas regiões, como no Pantanal, se mostra mais sociável. Ocorre em maior densidade em ambientes florestados próximos a corpos d’água.

IHU On-Line – Quais as diferenças da onça em relação a outros grandes felinos do mundo, como leões e tigres?

Fernando Tortato – A onça-pintada é o terceiro maior felino do mundo, sendo menor que o tigre (Panthera tigris) e o leão (Panthera leo). A onça-pintada se diferencia dos grandes felinos na forma de abater suas presas, pois tem uma mordida muito forte, que permite quebrar ossos e romper carapaças. Com isso, a forma que abate a sua presa é geralmente por meio de uma mordida muito forte na parte posterior do crânio de suas presas. Leões e tigres abatem suas presas com uma mordida no pescoço, causando um sufocamento.

Em relação à conservação destes grandes felinos, a onça-pintada se encontra em uma situação menos crítica, ocorrendo em aproximadamente 40% de sua distribuição original. Leões ocorrem em menos de 20% de sua distribuição original e tigres, em situação crítica, em apenas 7% de sua distribuição original.



IHU On-Line – Em que países da América há ocorrência de onça-pintada? Há locais em que já foi extinta?

Fernando Tortato – A onça-pintada ocorria originalmente desde o sul dos Estados Unidos até a porção central da Argentina. Atualmente, não há uma população residente de onças-pintadas nos Estados Unidos, apenas alguns registros esporádicos de indivíduos provenientes da porção norte do México.

A mancha em vermelho representa a incidência de onças atualmente, e em rosa, o espaço que já ocupou. Apesar do espaço "vazio" em parte da Amazônia brasileira, sua presença foi confirmada na região: isso se deu por conta do desconhecimento do status de conservação da espécie (Fonte: Wikimedia Commons)

Na América Central a onça-pintada é considerada extinta em El Salvador e na América do Sul é considerada extinta no Uruguai. Todos os demais países onde originalmente a onça-pintada ocorre mantêm populações desta espécie. O processo de extinção da onça-pintada em mais da metade de sua distribuição original ocorreu principalmente pela perda e fragmentação de habitats e também pela caça ilegal.

IHU On-Line – Qual é a população de onças no mundo? E no Brasil?

Fernando Tortato – Um estudo recente estimou em 173 mil indivíduos (95% CI [intervalo de confiança]: 138,000-208,000) a população de onças-pintadas nas Américas. O Brasil é o país com a maior população de onças, com o número de animais estimado em 106.138 (80,380-130,636). Porém, a distribuição desta população não é homogênea em sua área, com maioria da população concentrada na região Amazônica.

Estimativa de grandes populações de carnívoros em escala global com base em previsões espaciais de densidade e distribuição - Aplicação à onça-pintada | Fonte: journals.plos.org

IHU On-Line – Dos ecossistemas brasileiros, em quais e em que quantidade é possível ver a onça-pintada? Qual a importância do felino para esses ecossistemas?

Fernando Tortato – A Amazônia possui a maior população de onças-pintadas no Brasil. Contudo, é no Pantanal onde se tem uma maior facilidade em se observar esta espécie. Características como uma paisagem mais aberta, alta densidade de onça-pintada em florestas que margeiam os rios e uma habituação à presença humana transformaram o Pantanal em um importante destino de turismo para observação da onça-pintada, assim como toda biodiversidade desta região.

IHU On-Line – Há biomas brasileiros em que a onça já desapareceu? Como isso se deu?

Fernando Tortato – A onça-pintada é considerada extinta no Bioma Pampa, devido principalmente à perda de habitats e à caça ilegal. Por ser uma região tradicional de pecuária, a onça-pintada se tornou uma espécie perseguida, pelo risco que ela oferece aos rebanhos domésticos.

IHU On-Line – O que ocorre em um ecossistema quando desaparece um predador de topo, como a onça-pintada?

Fernando Tortato – Todo predador de topo tem um papel importante no equilíbrio das suas espécies de presas. A ausência de um predador de topo desencadeia um efeito cascata, em que as espécies outrora predadas aumentam suas populações e provocam um desequilíbrio no ecossistema. Um exemplo deste efeito cascata pode ocorrer na população de espécies herbívoras, que sem predador presente aumentam suas populações e podem causar um sobrepastoreio na vegetação, alterando e/ou empobrecendo a estrutura da vegetação na área.

IHU On-Line – Quais são hoje as maiores ameaças à onça no Brasil, além das queimadas?

Fernando Tortato – O desmatamento e a caça ilegal constituem as maiores ameaças para as populações de onça-pintada no Brasil. Os incêndios florestais muitas vezes estão associados ao desmatamento. A abertura de novas áreas para produção agropecuária acaba indiretamente aumentando a vulnerabilidade das onças-pintadas para caça ilegal, pois facilita o acesso para as áreas de ocorrência da espécie. Com isso, as principais ameaças para a onça-pintada muitas vezes atuam de forma sinergética.

IHU On-Line – Como as populações humanas dos biomas brasileiros têm se relacionado com a onça ao longo dos tempos? Já passamos do estágio da caça à defesa desse grande felino?

Fernando Tortato – A relação do homem com a onça-pintada vai da admiração ao medo, desde os povos indígenas que se estabeleceram há milênios no Brasil até as populações urbanas atuais. Esta dualidade é uma reação natural do homem com grandes predadores. A onça-pintada é uma espécie carismática e gera interesse da população. Porém, esta admiração não é algo unânime. Em fazendas de pecuária, muitas vezes a onça-pintada causa prejuízos ao rebanho, levando a uma caça por retaliação por parte do pecuarista.

Muitas vezes a caça ocorre por fatores culturais, em que a onça-pintada representa um troféu. Mudar essas atitudes é uma ação necessária para conservação da espécie, porém exige uma compreensão ampla e muito diálogo com as pessoas envolvidas. Buscar soluções para uma convivência pacífica entre grandes predadores e o ser humano é um dos grandes desafios de profissionais que trabalham na área de conservação.



IHU On-Line – Como compreender o papel da onça no imaginário das populações nativas da Amazônia e do Pantanal?

Fernando Tortato – A onça-pintada possui papel relevante na cultura das populações nativas do Brasil. Muitos povos indígenas têm a onça-pintada como um animal místico e poderoso. A presença de uma onça-pintada próxima a uma aldeia ou de algum local especial pode ter significados para estes povos. A caça de uma onça-pintada pode significar um importante ritual para tribos indígenas. Com isso, a onça-pintada é presente de maneira ampla no imaginário dos povos nativos do Brasil.

IHU On-Line – Em que medida a literatura brasileira, até mesmo a literatura infantil, tem contribuído para construir um imaginário de que é preciso preservar a onça?

Fernando Tortato – A literatura é um meio no qual a onça-pintada pode ser descrita e apresentada para um público mais amplo. Desde os primeiros relatos dos portugueses até os atuais gibis do Chico Bento, a onça-pintada está presente em nossa literatura. Textos que descrevem os hábitos da espécie, sua interação com o ser humano e sua representatividade na natureza geram uma curiosidade ao leitor que pode induzi-lo a uma pesquisa mais aprofundada sobre a espécie e, por consequência, um maior conhecimento. Somente preservamos aquilo que conhecemos.

IHU On-Line – Por que, na sua opinião, a onça se tornou o símbolo das queimadas que assolam o Brasil neste ano?

Fernando Tortato – A onça-pintada já é considerada um dos símbolos da biodiversidade do Brasil. As imagens de onças-pintadas feridas pelo fogo geraram uma comoção na população e chamaram a atenção para o problema das queimadas.

A imagem da onça com as quatro patas queimadas ganhou o mundo | Foto: Conexão Planeta


IHU On-Line – Quais os maiores desafios para assegurar a preservação da onça nos territórios mais atingidos pelas queimadas?

Fernando Tortato – Os incêndios florestais que atingem em 2020 o Pantanal de forma intensa ocasionam um empobrecimento do habitat da onça-pintada. Até o momento aproximadamente 25% do Pantanal foi queimado. Os outros 75% representam importantes refúgios da biodiversidade Pantaneira e vão ter papel essencial no processo de restauração do Pantanal.

Cada grupo taxonômico vai se recuperar em um tempo distinto. Plantas anuais como as gramíneas já vão surgir com as primeiras chuvas. A onça-pintada, por ser um animal de grande porte e maior capacidade de deslocamento, vai gradativamente reocupar os espaços que forem se restaurando. O desafio no momento é conter o fogo ainda existente. Buscar soluções que evitem que este fenômeno extremo de incêndios florestais de 2020 se torne algo rotineiro no Pantanal e que por consequência comprometa não somente as populações de onça-pintada, mas toda a biodiversidade.

IHU On-Line – Em entrevistas recentes, o senhor tem revelado que a preservação de matas e da própria onça podem trazer muito mais rendimentos ao país do que transformar tudo em campos para produção agrícola. Gostaria que detalhasse essa perspectiva e nos trouxesse caminhos que possam aliar preservação e desenvolvimento econômico e social.

Fernando Tortato – O Brasil é uma potência mundial no agronegócio. É uma vocação econômica que o país possui e explora desde as plantações de cana iniciadas há séculos até mais recentemente a produção de soja. O papel do profissional da conservação é mostrar que o Brasil também é uma potência da biodiversidade mundial. E que esta biodiversidade, se for explorada de maneira racional e sustentável, pode trazer rendimentos à economia do país.

Um exemplo é o turismo, uma das indústrias que mais crescem no mundo. O Brasil possui um potencial pouco explorado acerca do turismo voltado para natureza. No Pantanal em específico, o turismo de observação de onças-pintadas representa uma atividade promissora e que pode perfeitamente ocorrer em uma fazenda de pecuária. Com isso, o grande desafio é encontrar formas no uso do solo que permitam a manutenção da biodiversidade associada com o crescimento econômico sustentável do país. A valoração da biodiversidade é uma ferramenta importante para viabilizar este cenário onde todos saem ganhando.

IHU On-Line – Como o senhor, que integra uma ONG que busca a preservação dos felinos, analisa o papel do Estado brasileiro – não só nesse governo mas ao longo de anos – nos projetos e ações de preservação? Ou essa é uma tarefa que no Brasil sempre foi legada às ONGs?

Fernando Tortato – A Panthera é uma instituição que trabalha em prol da conservação de felinos e seus habitats em todo o mundo. Atuamos de forma científica e quando possível buscamos parcerias com o Estado para viabilizar e promover a conservação destas espécies.

Governos, através de suas ações, têm papel fundamental na gestão e proteção dos recursos naturais. A boa gestão de autarquias como ICMBio e Ibama garantem proteção da biodiversidade do Brasil. Organizações não governamentais muitas vezes atuam em lacunas deixadas pelo governo, fazendo assim um trabalho complementar.

Cabe à sociedade julgar o papel desempenhado pelo governo na questão ambiental e exigir que as ações necessárias para sua proteção sejam tomadas.







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