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PLURALE EM REVISTA, EDIÇÃO 72- Entrevista com a jornalista e escritora Ana Paula Araújo sobre seu livro de estreia - "Abuso - a cultura do estupro no Brasil"

“Nossa cultura é extremamente machista. E isso se reflete não só no alto número de casos, mas também no desamparo das vítimas. Por medo, culpa ou vergonha, 90% delas não denunciam.”

Por Sônia Araripe, Editora de Plurale

Fotos de Léo Aversa – Divulgação/ Editora Globo Livros

“Acho que consegui cumprir o que me propus: traçar um retrato da violência sexual pelo Brasil, levantar o debate, esclarecer sobre os direitos das vítimas e trazer caminhos sobre como podemos ao menos melhorar essa realidade.”

Depois de apresentar sozinha, na bancada do Rio de Janeiro, o relevante “Bom Dia Brasil” nas manhãs da TV Globo por seis meses consecutivos no período de pandemia, as férias seriam perfeitas para descansar em família longe de tudo. Certo? Não para a jornalista Ana Paula Araújo, uma das mais relevantes de sua geração. Viajou e descansou sim, mas aproveitou para acelerar a divulgação de seu primeiro livro. Na semana que nos atendeu, participou de uma verdadeira maratona de entrevistas.

Abuso – A cultura do estupro no Brasil (Editora Globo, 320 págs) é reportagem de fôlego, denso e urgente como tudo que Ana Paula se engaja. A carioca-mineira, de 48 anos, mudou-se para Juiz de Fora ainda criança: estreou no Jornalismo na Rádio Globo aos 18 anos e nunca mais tirou o pé do acelerador nas redações jornalísticas. Foi neste ritmo frenético que nos conhecemos. Ana faz parte do time do Jornalismo da TV Globo há 24 anos. Fez parte da equipe da emissora que, em 2011 conquistou o Prêmio Emmy Internacional pela ocupação do Complexo do Alemão pelas forças policiais, ficando oito horas, ininterruptas, narrando ao vivo.

Levou quatro anos de pesquisa até chegar ao resultado do livro de estreia. Ao longo deste período, viajou para acompanhar de perto alguns dos casos relatados: fez diversas entrevistas com vítimas, famílias, criminosos e também, ouviu Juízes, Desembargadores, psiquiatras, psicólogos e outros especialistas. A autora acredita que há uma cultura na qual a vítima deste crime é desamparada e o autor nem sempre é criminalizado. “Nossa cultura é extremamente machista. E isso se reflete não só no alto número de casos, mas também no desamparo das vítimas. Por medo, culpa ou vergonha, 90% delas não denunciam. A minoria que denuncia sai quase sempre sem a punição do culpado, seja pela investigação policial malfeita ou inexistente, seja pela justiça que muitas vezes desconfia da vítima e não tem sensibilidade para compreender a dificuldade em recolher provas nesse tipo de crime. Sem punição e sem uma educação que combata a violência de gênero, não há solução. E essa educação tem que chegar inclusive aos nossos policiais, juízes e médicas.”

A depender de seu engajamento, outros virão. “Meu próximo livro será sobre violência doméstica”, revela. Acompanhe os principais pontos desta entrevista especial para Plurale.

Plurale em revista - Ana, o seu relevante trabalho desenvolvido ao longo dos anos como uma das principais âncoras da TV Globo, lhe trouxe fama e muitos fãs. A televisão tem este "charme", digamos assim. Você sempre se posiciona como uma jornalista de noticiário, acima de tudo?

Ana Paula Araújo - A televisão te torna uma pessoa pública, mas continuo sendo jornalista acima de tudo. Em qualquer veículo.

Plurale em revista- Este é o seu primeiro livro. Quando surgiu a ideia e a escolha deste tema tão corajoso?

Ana Paula Araújo - Comecei a pesquisar o tema há quatro anos. E acredito que a ideia tenha vindo do conjunto de todas nós, mulheres. O movimento feminino se fortaleceu nos últimos anos. Aumentaram as denúncias e, principalmente, a empatia. A tão falada rivalidade feminina vem cada vez mais dando espaço à compreensão, apoio e solidariedade. Escolhi esse tema porque diz respeito a todas nós. Não conheço uma mulher que não tenha passado por uma história de abuso sexual, seja mais ou menos grave. Piadinhas absurdas e assédio no transporte público, por exemplo, são algo que todas nós conhecemos bem. Podem parecer pouco, mas fazem parte de uma cultura de desvalorização da mulher que também está por trás dos casos mais graves de estupro. Precisamos em definitivo nos unir e falar sobre isso. Conhecimento, discussão, informação são a base para qualquer mudança. Quis deixar minha contribuição para todas nós e para as gerações futuras, como a da minha filha.

Plurale em revista - Ana, como foi o trabalho de produção do livro? Soubemos que foram cerca de 100 entrevistas, várias viagens, etc. Favor contar um pouco deste processo.

Ana Paula Araújo - Continuei com meu trabalho normalmente na televisão, então, para conseguir viajar pelo Brasil, tive que concentrar a maior parte das entrevistas nos fins de semana de folga e feriados. Partes das férias também foram investidos no projeto. Em lugares menos distantes, cheguei a fazer ida e volta no mesmo dia. Foi cansativo fisicamente e também psicologicamente, porque eram entrevistas sempre muito pesadas e quase não tive tempo de respirar entre uma e outra. Mas valeu a pena. Acho que consegui cumprir o que me propus: traçar um retrato da violência sexual pelo Brasil, levantar o debate, esclarecer sobre os direitos das vítimas e trazer caminhos sobre como podemos ao menos melhorar essa realidade

Plurale em revista - Imagino que tenha sido bem doloroso para você ouvir vítimas, familiares - tanto quanto para estes? Este é um assunto que gera medo e vergonha para as vítimas. Sabia que tinha um compromisso - como jornalista - de contar esta verdadeira "tragédia" brasileira?

Ana Paula Araújo - Para as vítimas e familiares havia dois momentos. O começo do depoimento era sempre mais doloroso, é muito difícil retornar a essas lembranças. Mas, em geral, ao fim, a maioria se sentia muito aliviada. Era como se tivesse conseguido desabafar e dividir comigo um pouco daquele peso. Com a primeira vítima que entrevistei, tive uma conversa de duas horas. Ela me contou detalhes que nunca tinha revelado para ninguém. A filha dela depois veio me contar que, após a nossa conversa, a mãe virou outra pessoa, bem mais leve, como se nossa conversa tivesse funcionado como uma sessão de terapia. Só esse resultado já me deixou muito feliz. Cada vítima que for ajudada pelo livro já vai ser uma alegria enorme para mim

Plurale em revista - Este é um tema ainda "tabu" na sociedade brasileira. Que tanto se choca, quando descobre um caso absurdo, como o recente estupro da menina de 10 anos pelo próprio tio, no norte do Espírito Santo, mas pouco tem feito para denunciar e evitar novos crimes. O que é a "cultura do estupro"?

Ana Paula Araújo - É um conjunto de pensamentos e atitudes entranhados que acabando criando uma sociedade onde a violência sexual é normalizada. Inclui ideias equivocadas, como a de que a vítima pediu, de que homem é assim mesmo, que não é tão grave assim, de que é fácil esquecer. É reflexo de uma cultura que dita que o homem é superior, mais importante, que o desejo dele é que tem que ser levado em conta sempre. Começa desde cedo, quando ensinamos que meninos são fortes e meninas são delicadas, que meninos devem ser agressivos e meninas ficam na retaguarda deles, que tarefas de casa e filhos são função só das mulheres.

Plurale em revista - Você ouviu especialistas - psicanalistas, psicólogos, médicos, etc. Qual a opinião destes? O que leva que estes casos continuem avançando no Brasil?

Ana Paula Araújo - Nossa cultura extremamente machista. E isso se reflete não só no alto número de casos, mas também no desamparo das vítimas. Por medo, culpa ou vergonha, 90% delas não denunciam. A minoria que denuncia sai quase sempre sem a punição do culpado, seja pela investigação policial malfeita ou inexistente, seja pela justiça que muitas vezes desconfia da vítima e não tem sensibilidade para compreender a dificuldade em recolher provas nesse tipo de crime. Sem punição e sem uma educação que combata a violência de gênero, não há solução. E essa educação tem que chegar inclusive aos nossos policiais, juízes e médicas

Plurale em revista - O livro comprova que a maior parte dos casos de estupro acontece por parentes das vítimas, muitas vezes crianças. Você ouviu o pai que estuprou a filha de 12 anos na Ilha de Marajó. Conta um pouco sobre este caso.

Ana Paula Araújo - A mãe saía para trabalhar com o filho na coleta de açaí e o pai ficava sozinho com a menina. Ao longo de quase um ano, ela foi violentada. A mãe via que a filha estava diferente, mais triste, mas não podia imaginar o que acontecia. A menina era ameaçada pelo pai e por isso não contava nada. Um dia a mãe voltou mais cedo do trabalho e pegou o marido em flagrante. Criou forças e bateu nele, jogou móveis. O homem fugiu e até hoje não foi encontrado, mas não voltou a incomodar a família. Quando encontrei mãe e filha, o caso era muito recente, elas estavam muito sofridas, mas via-se a união das duas. Isso é fundamental na superação do trauma. O sonho da menina é se formar policial

Plurale em revista - Como é possível tentar "evitar" casos de estupros? Muitas vezes são crianças...como identificar que são vítimas?

Ana Paula Araújo - As crianças dão muitos sinais quando estão sofrendo algum tipo de violação sexual. Podem fazer desenhos exagerando na hora de desenhar as partes íntimas, ter comportamentos regressivos como voltar a chupar chupeta ou falar com voz de bebê, podem ainda ficar agressivas. É preciso prestar atenção e estar sempre pronto a ouvir. Para prevenir, é muito importante desde cedo ensinar às crianças quais são as partes íntimas e que ninguém pode tocar, a não ser as pessoas mais próximas que precisem cuidar da higiene. E orientar que qualquer toque diferente disso ou que a incomode deve ser dito a algum adulto de confiança. Professores também tem que fazer parte dessa educação sexual que protege contra os abusos. No caso de o abusador ser alguém da família, como em geral acontece, a criança pode se sentir mais à vontade para buscar ajuda na escola.

Plurale em revista - Pensa em novos livros reportagens? Tem novos/futuros projetos que vão além do trabalho atual?

Ana Paula Araújo - Sim. Meu próximo livro será sobre violência doméstica. Mais uma vez, quero discutir a desigualdade de gênero. Cresci nesse contexto e volta e meia ainda me dou conta de momentos e maneiras diferentes em que fui prejudicada ou vitimada só por ser mulher. Quero ajudar a mudar isso







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Marilene Lopes |
Parabéns à Plurale por estar sempre apresentar temas relevantes do nosso cotidiano num país de tantas diversidades!.