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Chegue devagar 2021!

Por Nádia Rebouças, Colunista de Plurale

Foto de Luciana Tancredo/ Plurale

Amanhã será o último dia de um ano inesquecível! A lua cheia e luminosa anuncia um ano novo, como anunciou no final de 2019. Assim foi sempre, se anuncia um ano e nunca sabemos qual será seu recheio! Mas nas minhas 7 décadas de vida, nessa Gaia amada, nunca chegou um ano tão surpreendente quanto esse que acaba, 2020. Um ano com um recheio predominante: a perda de vidas, de todas as formas. Um ano que estará nos livros de história. Um ano que vai gerar muitas pesquisas, análises, monografias de mestrado e teses de doutorado. Por vários ângulos, várias áreas, 2020 será dessecado e estudado e com certeza vai gerar muitas novas compreensões do comportamento humano.

Vivemos grande parte do ano nas janelas e acabamos por amá-las, já que através delas podíamos perceber as pessoas, ver sorrisos e emoções, as paisagens e infelizmente as destruições que promovemos. Nas ruas as máscaras começaram a desfilar e como não poderia deixar de ser viraram acessórios fashion. As tragédias que se revelaram estavam por aí, nos cutucando todos esses anos, mas distraídos pouco percebemos. Como o sinal de “PARE”, que 2020 nos trouxe, pudemos nos dar conta de como o projeto da humanidade, em especial nos últimos 40 anos foi só destruir tudo que tem vida!

Consumimos tudo! Explodiram nas janelas o fogo que se alastrou pelas florestas, os animais feridos, a miséria humana, que só aqui no nosso quintal, revelou 20 milhões do que chamaram de invisíveis. Sim para a maioria dos adormecidos e antropocêntricos humanos, tudo caminhava bem antes da crise na saúde. Só que não... a saúde mostrou a complexidade das nossas múltiplas crises. Grandes descobertas tecnológicas, a ilusão de um conforto, nunca dantes oferecido para a parcela elegante da sociedade, os buscadores da meritocracia, os investidores de papéis, os industriais do crescimento a qualquer custo, enfim os consumidores. Os invisíveis estarreceram o Brasil. Seres, criaturas e não cidadãos, que não tinham CPF, não sabiam lidar com aplicativos, mas que a coisa ia além ... não tinham carteira de identidade e muitos nem registro de nascimento.

Como não vimos? Como os que viram não conseguiram gritar: Olhem bem!! E assim foi com tudo. Grileiros, sem nenhum respeito pelas entranhas da mãe terra, e distribuidores de queimadas, afetaram invisíveis por escolha, que só queriam a paz da conversa com suas árvores, seus rios, e pela vida do entorno. As árvores que queimaram deixaram o solo seco e quente, queimando as patas de nossos felinos, matando aves e outros animais. Mataram animais visíveis e os milhares seres de vida invisíveis. Contribuíram para a diminuição da vida na terra. Foram tantas barbaridades e especialmente no Brasil fomos premiados... tivemos uma convivência forçada com o diabo, assistimos a um festival de crueldades espalhadas pelos assistentes do diabo, cerca de 30% da população. Eles estarão por aqui em 2021.

Que maravilhoso seria, se amanhã, com a chegada do ano novo tudo ficasse para trás! Mas não será assim! Para nós, que escolhemos, já há décadas, ser os despertadores de futuros, o cenário que vai permanecer é o da luta. Encontrar formas eficazes de manter nossa consciência e de qualquer forma conseguir expandir consciências, onde houver espaço pulsante e fértil. Na nossa casa as janelas continuarão a desenhar nossas ações dentro das empresas, das comunidades e coletivos, que descobriram as lives e com elas seguirão. A solidariedade que ganhou gestão nas favelas e periferias continuará lutando pela vida. As janelas revelaram cientistas bons de conversa. Creio que todos aprendemos muito. Três áreas serão muito comentadas nos livros do futuro: os profissionais de saúde e da ciência e os profissionais da cultura. Os da saúde não puderam ainda escrever, não sobrou tempo para eles! Falaram muito, não perderam a oportunidade de esclarecer a sociedade enfrentando a ignorância que nos dominou. Salvaram vidas, muitas vezes perdendo as suas. Os cientistas ganharam cara e nome saindo das suas cavernas. E os da cultura, mesmo sem recurso, escolheram iluminar nossas almas pelas janelas e varandas reais e virtuais, e assim puderam vazar fronteiras e mostrar o coletivo da nossa humanidade.

Vivemos. Conseguimos, apesar de tudo, viver. Eles vão contar, cada um de nós poderá contar, mas nada substitui a experimentação. E nós experimentamos. Mais ou menos como falar da ditadura para os jovens de hoje. Eles às vezes escutam com atenção, balançam a cabeça, mas olhando para os olhos deles entendemos o quão difícil é perceber a experiência do outro! Posso imaginar que a cultura vai contar através de filmes, pinturas, músicas, teatro e tudo o mais, ajudando aos que não viveram perceber que aqui e agora recebemos um recado que gritou na nossa cara: mudem, transformem tudo! Está tudo errado porque os alicerces foram construídos sem a base vida. Salvem a vida! E talvez a gente possa escutar a experiência das crianças e dos jovens que viveram 2020. Estranho porque viveram, não vivendo.

A lua cheia está aqui escancarada no jardim que me acolheu desde março, onde todas as vivências se esparramaram. Chegue 2021, mas chegue devagar, para que a gente não crie muitas expectativas, para que a gente possa perceber que um ano novo, para ser mesmo novo, precisa de gente nova, renovada, que faça outras escolhas. Que saiba como expulsar a crueldade, sim ... porque a crueldade alinhavou 2020.







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