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Lição de casa: reconhecimento

Por Daniel Cupertino

Mestre em Administração pelo IBMEC/RJ e Especialista em TI

Encerra-se 2020. O fatídico ano que nos apresentou uma pandemia mundial, que ceifou mais de 200 mil vidas, só no Brasil, e escancarou o melhor e o pior do Ser Humano frente à luta ou a falta dela, no quesito empatia (por definição: processo de identificação em que o indivíduo se coloca no lugar do outro).

Talvez há muito não somos influenciados tão forte e rapidamente com as decisões políticas, acerca dos planos de combate à COVID. Citamos os médicos, profissionais-heróis que arriscam a vida diariamente em plantões intermináveis para cuidar de pessoas com COVID; muitas afetadas pela doença por assumirem o risco de se expor ao vírus, sem respeitar o distanciamento social. Esses negacionistas levam o vírus para dentro de casa e acabam por contaminar pessoas próximas. Se multiplicam os relatos de pais e avós que morrem por conta da irresponsabilidade de filhos e netos.

Como estudioso da área, peço licença a médicos e trabalhadores da área de saúde para escrever sobre outros incansáveis, aqueles que labutam em sala de aula e ainda enfrentam problemas do século passado; tudo isso pelo amor à profissão: os professores.

Os profissionais do setor de educação foram igualmente surpreendidos pela pandemia e pela reviravolta exigida para que concluíssem o ano letivo, dessa vez, em frente às câmeras de computadores, utilizando aplicativos desconhecidos para lecionar o mais próximo possível do cenário físico da escola. Muitos precisaram vencer as limitações de acesso à Internet em tempo recorde. Nesse modal, substitui-se os olhares desatentos de muitos alunos nas salas de aula, pela ausência de rostos do outro lado. O cochicho das salas de aula pelo silêncio que não sabemos se denunciam a falta de entendimento na lição ou o desinteresse na mesma. Lembro que estamos às vésperas de início de mais um ano letivo e nada mudou.

Essa pandemia evidenciou o abismo social, em frente a esses mesmos computadores que as mazelas sociais se apresentaram. João não aparece na aula, seu nome não aparece num dos quadradinhos da tela... João não possui internet e tampouco um computador em casa. E ali estão novamente os professores: desdobrando-se para que muitos Joãos e Marias consigam acessar o conteúdo de alguma forma. Tudo isso tem um preço e ele deve ser cobrado no Enem 2020 (que será realizado em 2021), que começa neste próximo fim de semana.

A força dos professores me intriga e emociona. Assim como muitos profissionais, os professores desdobram-se em mil para manter uma casa em ordem, preparar aulas, garantir que essas sejam interessantes e atraentes aos olhos dos alunos e dos seus pais, que saberão cobrar desses mesmos professores o desinteresse de seus filhos pelas lições passadas. Soma-se a isso, as estapafúrdias acusações e perseguições do governo fascista sobre ideologias enquanto o piso salarial é a piada indigesta que o obriga a se virar para quitar as próprias contas no fim do mês.

O Instituto Península ouviu 2.400 professores da educação básica, das redes pública e privada, no mês de maio de 2020, para entender como estavam se sentindo desde o início da pandemia. O quadro emocional chamou a atenção. Docentes pediram apoio para lidar com questões emocionais e demonstravam ansiedade (67%), cansaço (38%) e tédio (36%). Dar aulas a partir de casa era situação inédita para a maioria (88%), tanto é que 83,4% não se sentiam preparados.

Segundo os dados acima, os professores foram afetados diretamente pelas modificações impostas pela pandemia. A distância, a falta de interesse, o trabalho em casa que dividiu o tempo com as correções e preparações de aulas, fizeram com que encerrassem o ano de 2020 completamente exaustos. Enquanto isso, um novo ano se inicia e com ele a incerteza de como será frente à clara falta de planejamento de vacinas e a briga política em torno que ronda o nosso cenário brasileiro.

Aos leitores pais, não esqueçam: os professores são as melhores armas na luta contra uma sociedade refém de líderes que almejam uma sociedade inculta e, dessa forma, manipulável aos interesses. Se um professor se vê sem forças para continuar a educar os seus, toda uma sociedade perde.

No ano do centenário do patrono da educação brasileira, Paulo Freire, trago este texto em forma de agradecimento a esses profissionais, que sobrevivem num “TITANIC tupiniquim”, que está naufragando. Enquanto os seletos embarcam em seus botes salva-vidas, estes docentes aguardam ansiosos um plano do Ministério da Educação que não chegou em 2020, para salvarem os nossos Joãos e Marias do dissabor de uma sociedade apática e ignorante.

Só a educação salva!







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