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"O Brasil está com ódio do Brasil". BBB, um dispositivo deseducativo. Entrevista especial com Ivana Bentes

Para a professora, “o Brasil está com ódio do Brasil” por tudo que temos vivido, e o Big Brother Brasil catalisa tudo isso, converte em audiência e lucra jogando com vidas e dilemas de nosso tempo gerando imagens distorcidas de nós mesmos

Por: Ricardo Machado | Edição: João Vitor Santos | IHU On-Line 1

Não precisa ser versado em psicologia para saber que, quando alguém explode numa ira revelada em ódio, o mais indicado é acolher, acalmar e ressignificar esses sentimentos. O problema é que se o contrário é feito, entra-se num ciclo nocivo que destrói a si e a tudo que está em volta. Quando se fala de um programa de televisão como o Big Brother Brasil - BBB, da TV Globo, esse ciclo, embora destrutivo, é apreendido como forma de gerar mobilização, logo, audiência e faturamento em anúncios. É nessa linha que vai a análise da professora e pesquisadora Ivana Bentes, ao refletir sobre o sucesso de audiência e de mobilização do programa. “O Brasil está com ódio do Brasil”, resume, na entrevista concedida por e-mail à IHU On-Line.

Segundo Ivana, “estamos com muita raiva armazenada; com o isolamento social imposto pela pandemia, com a inabilidade política do governo, com a crise econômica e ética, entramos em um turbilhão de 2013 a 2021 que não acaba”. E, ao invés de reverter isso, o programa capta esse ódio para atualizar um formato que era problemático pela exposição das pessoas reais como personagens de uma trama maniqueísta e polarizada. “Todas as edições do BBB se alimentam de tretas e de vacilos, é uma economia afetiva que lucra mais quanto mais histriônico e degradantes forem os comportamentos individuais e já traziam esses elementos de justiçamento como entretenimento”, analisa.

Na edição deste ano, em meio a tanto ódio, o assunto é o “o cancelamento” gerado, especialmente, a partir das ações da rapper Karol Conká, que “vira o fio” e transforma o ativismo de mulher negra e periférica em agressão. “O BBB mostra como você pode ter uma percepção distorcida de si e da realidade. Uma parte do Brasil vive assim nessa realidade paralela distorcida. Karol Conká caiu na real literalmente com sua ‘eliminação’ acachapante do jogo”, observa Ivana. A resposta é o ‘cancelamento’ da artista e, por consequência, silenciamento de suas pautas. “Esse cancelamento ‘lacrador’, inconsequente para quem exerce e aniquilador para quem sofre, sem chance de defesa, quando voltado para pessoas comuns, ou dirigido aos pares, produz uma autofagia entre campos, grupos e movimentos”, reflete.

Assim, como observa Ivana, o que se vê no programa é algo que está por aí: “uma caricatura do ativismo tornado punitivismo em que grupos e pessoas se autonomeiam juízes com métricas de pureza, de infalibilidade, de intolerância, de virtudes. Pessoas célebres e anônimas são julgadas e rotuladas por uma fala, são despersonalizadas e demonizadas de forma sumária”. E, detalhe: isso tanto à direita quanto à esquerda.

A professora ainda chama atenção para um outro ponto. Nessa edição, o BBB joga na arena negros, famosos e anônimos, com suas narrativas de diversidade e lutas. “Por que apenas nessa edição, em que decidiram incluir o maior número de participantes negros da história do BBB, o índice de rejeição desses participantes chegou ao máximo e foram os primeiros eliminados?”, questiona. E aponta: “sem dúvida esse componente racial está presente, quando se expõe, em uma panela de pressão como o BBB e em uma sociedade com mentalidade escravocrata e patriarcal, jovens negros e mulheres negras empoderadas. Seus vacilos e erros individuais são generalizados e acabam sendo uma justificativa para se exercer o racismo”. O desafio que fica é pensar na produção de programas que capturem a audiência para minimamente olhar para a complexidade das lutas sociais de um Brasil tão desigual, rompendo com a pobre e reducionista disputa entre vilão e mocinho.

Ivana Bentes (Foto: Arquivo pessoal)

Ivana Bentes é professora e pesquisadora do Programa de Pós-Graduação em Comunicação da Universidade Federal do Rio de Janeiro – UFRJ. Graduada em Comunicação pela UFRJ, ainda é mestra e doutora em Comunicação pela mesma instituição.

Confira a entrevista.

IHU On-Line – De que maneira o ódio tem se sobreposto como mediador social na cultura brasileira nos últimos anos?

Ivana Bentes – Sempre existiu uma cultura e economia do ódio no Brasil, aliás faz parte da nossa história dos assujeitamentos, da história da escravidão, da estrutura patriarcal, essa construção de inimigos que são desumanizados e demonizados, o que permite odiá-los sem culpa. Esse mecanismo é a base de uma história de privilégios, colonialismo, exclusão, discriminação, uma violência que foi adocicada e mal disfarçada pelo imaginário do país tropical, cordial, mestiço, “sem racismo” etc.

Esse Brasil foi desinventado nas últimas décadas com uma nova partilha discursiva em que vimos a emergência de novos sujeitos do discurso vindos dos movimentos feministas, negros, LGBTQI+, indígenas e muitos outros. Vozes e corpos que chegaram, mesmo que de forma ainda minoritária, ao mainstream, ao mundo do consumo e do entretenimento, na disputa por direitos.

É essa emergência, visível em movimentos como Junho de 2013, que produziu um discurso de ódio renovado e polarizado, juntamente com a crise econômica, a crise de valores (corrupção, desconfiança da política), as incertezas quanto ao futuro. O ódio virou um modulador de relações em um cenário caótico e incerto, em que rivalidades e disputas de todo tipo se sobrepõem ao que seria uma luta coletiva por direitos.

Ódio a direitos vistos como privilégios

Vivemos no Brasil uma espantosa ascensão de discursos de ódio contra direitos e conquistas recém adquiridas como se direitos fossem privilégios reversos. Um ódio aos negros “privilegiados” pelas cotas raciais nas universidades, ódio aos pobres “privilegiados” pelo Bolsa Família, ódio às mulheres “privilegiadas” por serem protegidas por lei contra a violência doméstica e familiar, ódio renovado aos grupos LGBTQI+ quando a LGBTfobia se tornou crime no Brasil em 2019.

Foi esse o ódio capitalizado por Jair Bolsonaro nas eleições de 2018, expresso no ódio a um partido e a todo o sistema democrático e as suas instituições. Estamos vendo essa gestão do ódio como forma de governo no Brasil, de forma explícita e isso se reflete em todas as esferas da vida, inclusive no entretenimento.

IHU On-Line – De que elementos é formada esta “indústria do ódio”?

Ivana Bentes – Esse cenário que descrevi como “desinvenção” do Brasil e o cenário da polarização política vão contaminando todas as esferas da política, da sociabilidade, da vida afetiva e os discursos de ódio passam a alimentar toda uma economia. Sempre houve uma exploração do sensacionalismo, do fait divers, sempre tivemos uma mídia e uma comunicação cujo interesse reside naquilo que tem de insólito, extraordinário, grotesco, surpreendente.

Mas os discursos de ódio pós-mídias digitais vêm transformar isso que era extraordinário em forma de comunicação cotidiana. Mais do que isso, a polarização política e os discursos de ódio são um modelo de negócio lucrativo, pois envolvem audiência, engajamento, participação em níveis massivos. O ódio e a rivalidade mobilizam.

Os discursos de ódio pós-mídias digitais criaram uma espécie de sociedade de juízes que são invocados a todo momento a julgar, opinar, “cancelar”, o que produz um ambiente tóxico em que as pessoas se organizam não pela solidariedade ou pela empatia, mas pelo que odeiam. Esse foi o mesmo mecanismo que operou nas últimas eleições presidenciais hiperpolarizadas, um ‘odioativismo’ que se tornou base dos discursos políticos, tanto à direita quanto à esquerda, com uma cultura do cancelamento serial.

Ódio e fake news

Se falamos em indústria do ódio temos que analisar o fenômeno das fake news, que são uma produção em escala industrial de “informações” e “fatos” para alimentar crenças e ódios. As pessoas querem ter razão e buscam notícias e verdades sob medida para aquilo que já tendem a acreditar, ou querem acreditar ou que valida suas crenças e preconceitos. Não vejo como dissociar essa cultura do ódio da produção sob medida de argumentos, mesmo que falaciosos, para uma guerra de valores, para uma disputa que se tornou tóxica.

IHU On-Line – Pode-se dizer que a atual edição do Big Brother Brasil - BBB está funcionando como uma espécie de espetacularização do ódio?

Ivana Bentes – O formato do BBB sempre foi o da sociedade da vigilância e dos juízes, dos haters e dos lovers, feito para polarizar, para se amar e odiar. Nesse sentido, o BBB veio atualizar a paixão brasileira por julgar, vigiar e punir.

Sempre me impressionou como os espectadores tratavam os personagens das novelas como se fossem pessoas reais, uma vizinha, um conhecido, discutindo em detalhes sua moral, seus erros e acertos. Mas de uma forma muito caricatural, pela lógica dos mocinhos e vilões. O BBB veio atualizar as novelas com a vantagem e o risco de ser uma telenovela da vida real, ou seja, que tem efeitos concretos na vida das pessoas que participam.

Nesse sentido, quando o Boninho, diretor do BBB, diz no seu Instagram que a “Karol Conká é a Odete Roitman do BBB 21”, ele reforça o que a ficção brasileira de novelas teve de mais sedutor: nos viciou nesse esquema polarizado e simplificado da vilania e do bom-mocismo.

Reprodução da postagem feita por Boninho, diretor do programa, em seu Instagram (Foto: Reprodução/Instagram)

A questão é que os participantes do BBB que estão performando o seu próprio papel embaralham esses códigos da ficção e da realidade ainda mais, porque obviamente as pessoas não são totalmente boas ou más como vilões e mocinhos de novelas. Então, acho deseducativo, apesar de lucrativo, apostar nessa exacerbação do ódio dos espectadores e alimentar esse espectador não empático que quer literalmente não apenas “eliminar” o participante do programa, mas cancelar socialmente.

Karol Conká já perdeu contratos, teve shows cancelados, como aquelas vilãs de novelas que eram agredidas nas ruas pelo seu papel na novela. E saiu eliminada do Big Brother com 99,17% dos votos, recorde de rejeição. Isso depois que outro participante, Nego Di, também tinha sido eliminado com rejeição recorde. Uma verdadeira catarse pelo ódio serial, o que é bastante assustador.

IHU On-Line – Aliás, qual a lógica do BBB? Não seria, exatamente, uma lógica da exclusão?

Ivana Bentes – A lógica do BBB sempre foi sim a da rivalidade e da exclusão, a lógica da sobrevivência depois de passar por uma over exposição, por redes de intrigas, por paredão, eliminação, para que saia apenas um vencedor. É a lógica do darwinismo social: só os mais aptos, só os que mais se adequam a determinados códigos vão vencer.

O BBB também reforça a lógica de formação de grupos rivais dentro do jogo, que se ajudam mutuamente, mas ao final terão que se enfrentar: pois o jogo é regido pela lógica do individualismo mais feroz. Só haverá um vencedor. É obviamente uma lógica violenta e antissocial. Quando veremos jogos de solidariedade, de acolhimento, de apoio e não rivais?

Outra característica que um reality show como o BBB evidencia é que vivemos em uma sociedade em que os limites entre o público e o privado são cada vez mais tênues, se dissolveram a ponto de todas as dimensões da vida se refletirem umas nas outras. É o que permite que ações e comportamentos da esfera “privada” se reflitam na vida profissional e vice-versa. A questão é que os reality shows fazem isso negociando a intimidade e a dignidade, comprando o direito de explorar dramas pessoais, tensionado a saúde mental, transformando o sofrimento em entretenimento, ou seja, explorando as subjetividades ao máximo.

São muitas questões éticas que podem chegar ao seu limite e teremos então um momento em que o que vai se julgar e questionar não são os participantes, mas a própria estrutura do programa.

IHU On-Line – Quais são as implicações sociais e contradições do que se tem chamado de “cultura do cancelamento”?

Ivana Bentes – Mais uma vez temos que falar de modulações. Em 2017, o movimento #metoo nos EUA ganhou as redes viralizando inúmeras histórias de abusos e assédios sexuais contra mulheres, primeiramente em Hollywood e cometidos por pessoas proeminentes, e depois no mundo todo. O movimento viralizou e massificou encorajando mulheres a quebrarem o silêncio contra abusadores, afetando suas carreiras e os expondo publicamente.

No Brasil, esse encorajamento levou à prisão do médium João de Deus, encoberto por mais de 50 anos pelo “poder espiritual”, considerado intocável, enquanto cometia abusos e violência sexual contra mulheres e meninas. Foi chocante, mas foram movimentos como o “#metoo” ou “NiUnaMenos” que tornaram possíveis essa e outras denúncias que se massificaram. Então a cultura do cancelamento pode ser uma forma eficaz e consequente para romper o privilégio de pessoas blindadas socialmente que passam a ser expostas por grupos silenciados ou minoritários.

Mas é preciso ser consequente, pois esse cancelamento pode ter efeitos temporários (uma gafe, um pequeno deslize, uma fala infeliz) ou chegar à destruição das reputações, o boicote e não consumo de produtos dos envolvidos, a pressão para que marcas, empresas e instituições façam “justiça” ou punam economicamente por comportamentos abusivos.

Vejam o extraordinário trabalho de grupos como o Sleeping Giants Brasil (@slpng_giants_pt). Um movimento de consumidores contra o financiamento do discurso de ódio e das fake news que já desmonetizou e conscientizou empresas e cidadãos e mostrou o poder tóxico de figuras como Olavo de Carvalho, o ideólogo do bolsonarismo, boicotando suas formas de monetização. Ou seja, é uma exposição pública consequente que atinge uma figura que ataca minorias, incita ao ódio contra instituições democráticas etc.

Perfil do Sleeping Giants Brasil no Instagram (Foto: Reprodução/Instagram)

Cancelamento lacrador

A questão é quando o cancelamento passa a ser usado de forma massiva e corriqueira dentro da mesma lógica punitivista do BBB, o linchamento nosso de cada dia, o cancelamento como entretenimento, como engajamento pelo ódio, como forma de resolver diferenças de comportamento ou de opiniões. Esse cancelamento “lacrador”, inconsequente para quem exerce e aniquilador para quem sofre, sem chance de defesa, quando voltado para pessoas comuns, ou dirigido aos pares, produz uma autofagia entre campos, grupos e movimentos.

É o que estamos vendo: uma caricatura do ativismo tornado punitivismo em que grupos e pessoas se autonomeiam juízes com métricas de pureza, de infalibilidade, de intolerância, de virtudes. Pessoas célebres e anônimas são julgadas e rotuladas por uma fala, são despersonalizadas e demonizadas de forma sumária. Artistas como Anitta, Ludmilla ou mesmo um médico como Drauzio Varella viraram alvo de cancelamentos seriais: seja porque disseram algo, seja porque ficaram em silêncio e não se posicionaram etc.

Esse cancelamento viral e lacrador, narcisista (eu sou mais virtuoso que você) não muda nada, não é estruturante, não é pedagógico em relação a questões complexas que precisam ser encaradas com outras medidas formativas como o racismo estrutural, o patriarcalismo, as violências de gênero, não podemos nos contentar em cancelar pessoas de forma serial.

A cultura do cancelamento não pode ser banalizada dessa forma, pois num dia você é o cancelador e no outro o cancelado. Nesse sentido, todos teremos nossos 15 minutos não de fama, mas de difamação, parodiando Andy Warhol.

Espero que o BBB sirva para colocar em xeque essas práticas do cancelamento serial, essas formas personalistas de ódio, seja no campo conservador ou nas esquerdas, pois se trata de um processo transversal que diz muito de quem cancela, diz muito de um desejo e fantasia de poder justiceiro e de justiçamento que não tem nada a ver com justiça social, temos que aprimorar nossas estratégias de lutas.

IHU On-Line – Até que ponto as críticas a Karol Conká são pertinentes à postura dela no BBB e a partir de que ponto elas expressam um racismo mal disfarçado da sociedade brasileira?

Ivana Bentes – Todas as edições do BBB se alimentam de tretas e de vacilos, é uma economia afetiva que lucra mais quanto mais histriônico e degradantes forem os comportamentos individuais e já traziam esses elementos de justiçamento como entretenimento. A questão que me coloco é: Por que apenas nessa edição, em que decidiram incluir o maior número de participantes negros da história do BBB, o índice de rejeição desses participantes chegou ao máximo e foram os primeiros eliminados?

Sem dúvida esse componente racial está presente, quando se expõe, em uma panela de pressão como o BBB e em uma sociedade com mentalidade escravocrata e patriarcal, jovens negros e mulheres negras empoderadas. Seus vacilos e erros individuais são generalizados e acabam sendo uma justificativa para se exercer o racismo.

IHU On-Line – Como podemos pensar a “desistência” de Lucas ao sair do BBB? Mas, por outro lado, de que maneira ela é alegórica das muitas pressões que levam jovens, negros e negras, minorias de gênero e pessoas das periferias a “desistirem”?

Ivana BentesLucas Penteado, expulso literalmente da mesa dos comuns, da mesa da convivialidade, viveu na pele esse teatro da crueldade entre pares. Qualquer criança ou adulto cujos pais castigaram expulsando da roda sabe o que é essa violência psicologicamente. É um pouco a expulsão do paraíso, é traumático, mesmo que ele tenha vacilado no início do jogo.

Lucas era o menino negro e pobre mais despreparado do BBB. O garoto negro que não domina os códigos do jogo social, que não domina os códigos nem da branquitude e nem do ativismo foi o primeiro a sair, por desistência, o que é muito eloquente e triste.

Linchamento moral

O linchamento moral dos participantes negros começou entre os próprios brothers e sisters: Lucas humilhado por Karol Conká, achincalhado por Nego Di por “defender vagabundos” e associado de forma pejorativa a figuras extraordinárias como Marielle Franco. Aqui vemos como os preconceitos e o autoritarismo atravessam todos os campos políticos e práticas ativistas, mas não podem servir de álibi para dizer que negros e brancos são todos “iguais” e desqualificar a luta contra assimetrias e injustiças sociais ou o racismo estruturante.

O garoto Lucas desistiu de ganhar um milhão, desistiu do BBB depois de assumir que é bissexual e ser zoado, depois de ter sido identificado como o “garoto problema”, o que não segura a onda com álcool, o que não sabe se portar e perde a linha etc. O garoto da ‘perifa’ que não domina os códigos fez o que milhares de garotos performam na vida: são levados a desistir, pode ser desistir da família, desistir da escola, desistir de um emprego ou do maior programa de entretenimento do Brasil e de um milhão.

Mas sua saída e desistência não são um problema “seu”, colocam em xeque o sistema todo. Uma empresa ética talvez acabasse com o BBB nessa saída ou na sua atual forma. Só quem já perdeu tudo na vida e não tem mais nada a perder tem essa coragem e liberdade.

IHU On-Line – Levando em conta as contradições e complexidades humanas, podemos considerar que Karol, dentro do programa, assumiu uma postura racista contra Lucas? E aqui, fora do programa, como pensar no limite da crítica justa e do racismo a partir dessa relação Karol e Lucas?

Ivana Bentes – Não vi “racismo” na relação entre Karol Conká e Lucas Penteado, mas uma performance de poder, entre a mamacita, a artista célebre, a influenciadora poderosa, e o garoto pobre e “sem modos”, que estava fora do controle dos brothers e sisters. Karol Conká é uma negra vencedora, tem um trabalho artístico incrível, um feminismo negro viril que a torna ainda mais “insuportável”, pois tem uma autoestima avassaladora e usa seu lugar de poder como qualquer branco vencedor. Conká se identificou com esse branco sem limites e não conseguia enxergar isso durante o jogo.

Karol Concá faz parte da emergência de um feminino e feminismo viril. O masculinismo e a virilidade podem, sim, ser apropriados e transformados pelas mulheres, como propõe a Teoria King Kong, de Virginie Despentes, o manifesto mais ácido para um outro feminismo que chuta uma quantidade extraordinária de baldes e lugares comuns sobre as mulheres e reivindica para si as vantagens inerentes à masculinidade e à virilidade.

Obviamente não estamos aqui “passando pano” para os gestos de humilhação no BBB, mas performar o poder da mulher preta é o número de Karol Conká e pode ser utilizado de forma construtiva, quando a mamacita acerta a mão nas letras, músicas e looks, é uma performance que admiramos em Beyonce ou em Djamilla Ribeiro, nas divas extraordinárias que expressam esse poder da mulher negra. O problema é perder a mão nas relações pessoais, como aconteceu.

O que nos diz Virginie Despentes e que vale para o feminismo viril de Anittas, Caróis e outras divas vale a pena ponderar. Despentes reivindica no seu manifesto, o livro Teoria King Kong, que as mulheres lutem pelo “exercício direto do poder”, pois espera-se que renunciemos a esse tipo de prazer em função do nosso sexo.

Despentes e seu Teoria King Kong (São Paulo: N-1 Edições, 2016) | Foto: divulgação

O desafio obviamente traz riscos: abandonar a “arte do servilismo” que diz que as mulheres não devem se expor, não devem falar alto; não devem se expressar em tons categóricos; não devem sentar com as pernas abertas; não devem se expressar num tom autoritário; não devem falar de dinheiro; não devem conquistar poder; não devem ocupar um posto de autoridade; não procurar prestígio; não rir muito alto; não ser muito engraçada. Ou seja, rever a lista de nãos que nos foi destinada.

Karol Conká ao meu ver, na sua arte, como rapper, exerce esse feminismo negro viril, a questão é quando ele transborda essa assertividade para comportamentos, aí sim, de assujeitamento do outro. Ela pesou a mão com Lucas e outros brothers e sisters, mas a ficha já caiu agora ao sair de uma panela de pressão e ver que o jogo transbordou para sua carreira e reputação. Mas obviamente não merece ser nem cancelada e nem linchada.

O BBB mostra como você pode ter uma percepção distorcida de si e da realidade. Uma parte do Brasil vive assim nessa realidade paralela distorcida. Karol Conká caiu na real literalmente com sua “eliminação” acachapante do jogo, como buscar modos menos violentos de aprendizado? Como sair desse ciclo de cancelados e canceladores? Eis a nossa questão enquanto sociedade.

IHU On-Line – Qual deve ser o futuro de programas como o BBB? Quais são os limites do formato?

Ivana Bentes – O BBB foi pensado menos para celebrar do que para destruir reputações ao eleger apenas um vencedor e “eliminar” os demais. Essa edição tornou caricatural muitos debates importantes sobre militância, racismo, violência de gênero, machismo, lacração e desconstrução, amplificando a confusão que existe na sociedade. Mas o programa, pelo seu alcance, pode também ser o ponto de partida para debates mais aprofundados e consistentes em que a rejeição e o ódio não sejam o motor.

A questão é que o ódio engaja e mobiliza. Os famosos buscam o programa para amplificar seu trabalho, os anônimos ganham milhares de seguidores nas redes depois dessa over exposição, e quem acompanha e comenta na internet ganha likes ou chuva de mensagens de aprovação e/ou ódio, dependendo de quem resolvem defender ou atacar.

Os reality shows, como outras plataformas e dispositivos, têm como base um capitalismo da extração de dados e da vigilância, uma economia que utiliza dados psíquicos, comportamentais e emocionais como em um laboratório montado para especular sobre as condutas, uma bolsa de valores de cenarização e intervenção nas condutas, que especula para que fracassemos como sociedade da empatia e do acolhimento.

Cancelar o BBB

Acredito que no futuro um reality show que permite humilhação, coloca as pessoas em risco de saúde mental, observa sem intervir em situações de bullying e opressão em nome do “show tem que continuar“, audiência e publicidade poderão ser banidas e execradas. Não as pessoas. Mas o dispositivo. Talvez vamos chegar a um momento em que seja necessário cancelar o BBB, como um dispositivo deseducativo.

Os jogos romanos com gladiadores e animais também foram um espetáculo e entretenimento popular, desejado e festejado na Roma antiga. Podiam ser usados como uma forma de execução pública para criminosos condenados, que eram levados para a arena para serem crucificados, queimados vivos, mortos a espada, ou mortos por animais selvagens. Cada penalidade era diferenciada de acordo com a posição e a classe social do criminoso. Esses jogos seriam inadmissíveis hoje, da mesma forma essa economia psíquica que explora subjetividades, condutas, lucra com sofrimento e humilhações, pode se tornar intolerável em uma sociedade mais empática.

IHU On-Line – E quanto a nós, centenas de milhares de brasileiros confinados pela pandemia e com um líder que tem na conta 230 mil mortos, quais os limites da situação que vivemos?

Ivana Bentes – Em um momento em que nós estamos confinados por uma pandemia, e milhares de pessoas estão em suas casas também sofrendo pressão, assédio, bullying, o BBB 21 virou um espelho amplificado de tudo o que a sociedade tem de pior: a ideia do jogo de sobrevivência e de rivalidade dos mais fortes, dos mais articulados, dos mais capazes de “jogar” com domínio das narrativas e um termômetro de quanto de rejeição podemos extravasar com essa catarse coletiva pelo ódio.

Existe uma grande frustração política em todos os espectros políticos. O que o presidente Jair Bolsonaro ofereceu na sua campanha eleitoral em um game político caricatural foi um delírio de onipotência partilhado: “varrer do mapa os bandidos vermelhos do Brasil”, o comunismo, os direitos adquiridos de indígenas, mulheres e negros, ofereceu o ódio e a partilha da violência, o silenciamento do outro como uma fantasia de poder, a distribuição de armas etc. Ofereceu a destruição das instituições e da democracia em nome de um justiçamento populista e bárbaro. Exatamente como em um reality show: linchamento catártico que não muda nada.

Nada disso resolve nossas contradições como sociedade e estamos vendo questões muito mais concretas nos assombrar: medo de morrer de Covid-19 sem vacinas, medo de perder o emprego, a casa, o mínimo de conforto que são a convivência com amigos e a família adiados e o desmonte de direitos e ataques a nossa frágil democracia.

O Brasil está com ódio do Brasil. Estamos com muita raiva armazenada; com o isolamento social imposto pela pandemia, com a inabilidade política do governo, com a crise econômica e ética, entramos em um turbilhão de 2013 a 2021 que não acaba. A questão é como direcionar essa energia e frustrações para processos menos destrutivos.

IHU On-Line – Quais linhas de fuga, neste cenário, podem nos sugerir algum otimismo para o futuro?

Ivana Bentes – Como iniciei essa entrevista dizendo que o Brasil está se desinventando, se desconstruindo de forma acelerada, passamos por processos traumáticos, o processo do impeachment, a ascensão de uma extrema direita predatória, que governa pelo ódio e por fake news, mas também processos cheios de potencialidades, como as Jornadas de Junho de 2013, a emergência de movimentos de novo tipo, ambientalistas, novos feminismos, movimentos antirracistas, o debate de gêneros, a causa indígena.

A pandemia veio mostrar que o atual sistema não tem respostas para a crise humanitária em que estamos. Recolocou pautas importantes como a renda básica universal, a solidariedade, as redes de apoio e empatia, a saúde mental, economia territorial como decisivas para sair da crise.

O Brasil como sociedade consegue transformar essas forças mais hostis e violentas e formas de invenção e criação, em cultura, em música, em sociabilidades menos agressivas, em cosmopolíticas. Esse Brasil existe e resiste. É difícil nesse momento operar dentro desse caos-construção. Essas forças precisam se organizar mais, se encontrar mais, mesmo que virtualmente, conspirar mais para transformar o ódio em uma força não de justiçamento e linchamentos individuais, mas de justiça social.







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