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Quando a solidariedade enfrenta a fome

Inconformados com a miséria nas ruas, brasileiros agem!

Por Nícia Ribas, de Plurale

Ao atingir níveis desesperadores de contaminação e morte, a pandemia obriga a sociedade brasileira a se mobilizar diante da carência das classes mais necessitadas. Recentemente a Oxfam Brasil, ong internacional com sede em São Paulo, fez um relato sobre a nossa desigualdade social e econômica, destacando: “Mais do que nunca é necessário que diferentes setores e poderes atuem para salvar o país. As instituições brasileiras devem agir e tomar todas as medidas cabíveis legalmente para salvar vidas e preservar a Constituição.”

Ostentação, luxo e acúmulo de riquezas, hábitos cada vez mais cultivados entre humanos do mundo capitalista, estão fora de moda. Diante da urgência de manter-se vivo, felizmente ocorre mudança de paradigmas, agora voltados para a redução das desigualdades sociais. Muita gente já despertou para esse novo mundo e está descobrindo alegria em ajudar a quem precisa. Entre tantas iniciativas em prol das famílias carentes, dos moradores de rua e dos mais de 14 milhões de desempregados, Plurale reuniu alguns exemplos de sucesso.

Projeto Sem Fome

O que leva um homem de alta classe social, profissional do mercado financeiro, a dedicar boa parte do seu tempo a matar a fome de moradores de rua enfileirados nas calçadas? Logo no início da pandemia, André Simões, 54 anos, levou um choque que mudou sua vida. Quando saía do terminal Menezes Cortes, centro do Rio, deu de cara com uma fila enorme de pessoas esperando sua vez de receber pão e café. Inconformado com a cena, começou ali uma saga que culminou no Projeto Sem Fome, que já distribuiu 40.500 quentinhas. Sem contar os cobertores, roupas e atenção.

André acionou seus amigos e amigas, que logo se sensibilizaram, criando uma rede de solidariedade, através do Instagram. Grupos de senhoras assumiram a montagem e distribuição de quentinhas. Ele também fez questão de incluir nesse trabalho sua filha Eva, que na época estava com 17 anos. A menina, por sua vez, arrebanhou alguns colegas seus da Escola Britânica. Fato é que todos os envolvidos se sentem felizes e gratificados com o trabalho voluntário.

Mas o que levou André a se tornar um feliz matador da fome alheia? Os números alarmantes da miséria escancarada pela pandemia cruel, especialmente num país campeão em desigualdades sociais? Sim, com certeza. No entanto o que pesou também foi o exemplo de um superherói da sua infância: seu tio Sérgio Vieira de Mello, cujas histórias de luta em programas humanitários na ONU, ouvia sempre de sua avó Gilda. “Me sinto cumprindo uma missão, inspirado no Sérgio”, diz ele à Plurale. E está passando para sua filha o gosto pela generosidade.

Otimista em relação ao futuro da humanidade, André conta uma história que o emociona. Ele costuma trabalhar aos sábados na distribuição de quentinhas, garrafas de água e garfos – “o garfo funciona como a senha para receber a refeição”. Recentemente, ao chegar a vez de um integrante da longa fila, ele ouviu dele: “Só quero a água, já comi hoje”. Surpreso, André sugeriu que ele guardasse para mais tarde. “Obrigado, mas tem muita gente precisando comer agora”. André conclui: “Eles não acumulam. Preferem dar a comida a outro que ainda tem fome, porque mataram a deles. Comecei a sentir o barato de Sergio de viver essas situações de sofrimento, de aprender com essas pessoas.”

Tantos parceiros nessa empreitada, que fica difícil citar todos, mas a trajetória do Projeto Sem Fome não teria sucesso sem a participação de empresas como Spoleto, Banco Pactual, Escola Britânica e de pessoas dedicadas a ações sociais, de amigos, como o que emprestou um galpão na Zona Portuária, e outro que doou um trailer. Quem quiser participar, pode seguir o Projeto Sem Fome no Instagram e participar pelo menos de uma “vaquinha.”

Para contribuir com os trabalhos da ONG:

  • Banco Santander Brasil
    Agência 2099
    Conta Corrente 01004920-0
    CPF 887.987.717-87 André Simões de Oliveira

Paraisópolis

Algumas comunidades, como a de Paraisópolis, bairro paulista com mais de 70 mil moradores, organizaram-se, criando um sistema de “presidentes de rua”, cada um responsável por ajudar a vizinhança através das orientações sobre o coronavírus, a necessidade de isolamento, o uso de máscara e a higiene pessoal. Além disso, conseguiram montar um esquema de distribuição de cestas básicas, permitindo o tão necessário Fique em Casa! A comunidade também contratou ambulâncias para atender aqueles que apresentam sintomas e recrutou médicos e enfermeiros para atender aos moradores 24 horas. Duzentos e quarenta moradores foram treinados como socorristas para apoiar as 60 bases de emergência criadas com a presença de bombeiros civis. A associação de moradores pediu ao governo estadual para utilizar duas escolas públicas como centro de isolamento de pessoas infectadas. A medida possibilitou que os sintomáticos se isolassem de forma eficaz, sem colocar pessoas próximas e familiares em perigo.

Paraisópolis provou que, na falta de políticas públicas que atendam às necessidades das famílias carentes, a sociedade se organiza e toma as rédeas da situação. Garantiram atenção básica à saúde e segurança alimentar apesar das condições precárias em ambiente de alta densidade demográfica, baixa renda, falta de saneamento básico e de acesso a médicos e hospitais.

Mãos Invisíveis

Organizações do terceiro setor que já vinham trabalhando para fazer a diferença na vida das comunidades mais pobres, intensificaram suas ações durante a pandemia. Uma iniciativa em Curitiba, a Ong Mãos Invisíveis, criada há três anos, agora tem servido 800 marmitas por dia para quem vive nas ruas da capital. Os alimentos são servidos principalmente no centro da cidade, na Praça Generoso Marques, mas também no bairro Parolin.

A idealizadora da entidade, Vanessa Lima, diretora da ONG, diz que a rotina de trabalho da sua equipe foi alterada para conseguir dar conta da demanda por assistência nesse momento de pandemia.

Para contribuir com os trabalhos da ONG, aqui estão suas contas bancárias:

  • Banco Bradesco
    Agência 1304
    Conta Poupança 1001592-8
    CPF 03328459901
    Vanessa de Souza Lima Dalberto
  • Caixa Econômica Federal
    Agência 0377
    Conta Corrente 00005193-0
    Associação Mãos Invisíveis
    CNPJ 32.297.003/0001-25
    PicPay para Doações únicas @vanlima2020

Projeto Grãozinho

Em Brasília, um projeto idealizado por moradores, tendo à frente a professora Gabriela Pimenta, 36 anos, tem levado alimentos, brinquedos e atividades lúdicas a pessoas em situação de rua na capital. As ações começaram durante a pandemia, quando Gabriela avistou famílias que viviam acampadas entre a L2 e L4 Sul, ao lado do setor das mansões, o que deixava visível a chocante desigualdade: “Eu estava passando por ali, depois de ir ao mercado. Vi que tinha crianças, bebês morando na rua. Parei e deixei algumas compras com eles. A primeira coisa que disseram é que estavam precisando de comida, porque estavam com fome”.

Ela conta que foi difícil encarar aquela realidade quando a ordem do momento era o “fique em casa”. Gabriela decidiu agir. Fez um post nas redes sociais para ajudar mais e conseguir auxílio através de doações “Nunca faltou quem ajudasse, as pessoas estão querendo participar e não sabem como”, disse ela à Plurale. A partir daquela iniciativa deslanchou a formação de uma rede de doadores e voluntários.

Hoje, o Projeto Grãozinho tem pontos de coleta de doações pelo DF e uma rede de voluntários que já participou de alguma forma das intervenções. Em seu carro, Gabriela faz as entregas das doações: “Começamos a fazer isso a cada duas semanas, indo aos locais pegar as coisas e entregando a pessoas de Taguatinga, Sol Nascente, Areal, São Sebastião e outras regiões”.

Para doar, basta se informar pelo Instagram (Projeto Grãozinho) sobre os canais de comunicação, as contas para depósito de valores e as próximas ações. Desde o começo, a iniciativa já conseguiu, além das doações, levar atividades lúdicas com brincadeiras, promover noites de sopa (quem prepara a sopa é o Hilan, professor amigo de Gabriela), auxiliar no acesso médico para um tratamento em específico e muito mais.

Há luz no fim do túnel!







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3 comentários | Comente

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Luiz Gaulia |
Acabo de ler na FB da ONG Mãos Invisíveis mais um exemplo de autoritarismo municipal tomando corpo, desta vez em Curitiba. Até a caridade e a solidariedade serão cerceadas?

Luiz Gaulia |
Belo texto. Solidariedade e caridade são vitais para colocarmos as pessoas e o saber cuidar na linha de frente.

Sônia Cabral |
Nícia,2 fiquei emocionada com sua matéria. Muito bem escrita, consegue transmitir de forma sensível a situação trágica das pessoas e o esforço dos que se envolveram num projeto para minimizar essa situação. Esses exemplos nos trazem esperança de um futuro melhor.