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PLURALE EM REVISTA, EDIÇÃO 73- Entrevista exclusiva com a Dra. Margareth Dalcolmo, da Fiocruz

“As vacinas são a única e mais poderosa arma, e a verdadeira solução para conter a covid-19”, adverte a pneumologista à Plurale

Pneumologista, cientista e pesquisadora da Fiocruz, a Dra. Margareth Dalcolmo alerta em entrevista à Plurale que esta guerra ao Coronavírus precisa ser vencida com mais vacinas, com o que chama de “revolução da vacina do bem”, informação e agilidade na vacinação em massa, abrindo mais postos de grande escala.

Por Sônia Araripe, Editora de Plurale

Fotos de Peter Iliciev, da Fiocruz/ Divulgação e da Agência Brasil

Se faltou um plano de comunicação oficial das autoridades brasileiras para o combate e o enfrentamento da crise gerada pela covid-19, a comunidade científica procurou suprir a sociedade com todas as informações disponíveis. Um rosto esteve presente, quase onipresente, incansável, para explicar – sempre de forma muito didática, mas elucidativa – como a doença estava se espalhando e como deveríamos agir: a Dra. Margareth Dalcolmo, uma das maiores pneumologistas do país, cientista-pesquisadora referência da Fiocruz. Médica humanista, conquistou a todos com sua simplicidade e determinação. Quase como se fosse uma “mãe” ou “avó” de cada brasileiro, sabendo dosar sabedoria e conhecimento - com um tom de puxão de orelha, sempre que preciso.

Recentemente, no fim de março, a pesquisadora capixaba recebeu uma das muitas honrarias a reconhecer o seu engajamento na causa: “Embaixadora do Turismo do Rio” - por ironia do destino, a mesma com que também fui contemplada pelas ações em sustentabilidade. Uma honra. Mandei-lhe uma mensagem, falando do orgulho de estarmos conectadas nessa premiação. Achei que levaria alguns dias para me responder. Qual! A Dra. Margareth é a fortaleza em carne e osso de nossos melhores sonhos. Não só me respondeu rápida e delicadamente, como aceitou dar esta entrevista ainda naquela semana.

Na conversa com Plurale, a Dra. Margareth falou dos acertos e dos erros do gerenciamento da crise da epidemia; da demora na contratação de um leque maior de opções de vacinas; criticou a lentidão no programa de vacinação, recomendando a abertura de uma rede mais ampla de locais da sociedade civil, como estádios de futebol; defendeu que as vacinas são a única e mais poderosa arma que existe contra a doença e lamentou que tantas vidas tenham sido perdidas, com o ápice agora em março. “Não tenho dúvidas de que pagamos um preço alto demais.” Confira esta entrevista especial para Plurale.

Plurale - A senhora é cientista, pesquisadora da Fiocruz, uma das maiores pneumologistas do país. Em algum cenário, mesmo o mais pessimista - ao longo de seus estudos - chegou a imaginar uma pandemia deste porte, com impacto tão forte para a humanidade? Se imaginava trabalhando tanto – assim como seus colegas - para melhor informar e defender a Ciência?

Dra. Margareth Dalcolmo - Como pneumologista e trabalhando com doenças endêmicas, a área de pesquisa à qual eu me dedico há muito tempo é a tuberculose, que é uma doença endêmica de grande magnitude no Brasil ainda, com 75 mil casos novos a cada ano. Além disso venho trabalhando, nos últimos anos, em um projeto do Banco Mundial para doenças respiratórias na África subsaariana - local onde, por diversas vezes, tivemos experiências de ver epidemias de perto, como a epidemia do ebola, por exemplo. Acompanhei a assessoria médica do Ministério da Saúde no período da epidemia da SARS, da gripe aviária, na época da H1N1 - e, nesse sentido, aprendemos muito: não me surpreende que tenhamos epidemias. Isso é algo esperado, na medida em que o planeta tem sido muito maltratado por nós. E não é surpreendente que nós tenhamos epidemias que, inclusive, migrem do mundo animal, atravessando a barreira humana e causando males dessa magnitude. Mas nós nunca esperávamos ter uma epidemia da dimensão da covid-19. Essa, realmente, era possível de ser pressentida; desde que me manifestei, em março do ano passado, nós já sabíamos que a pandemia seria muito dura, na medida em que se tratava de uma doença cuja transmissão não ocorre de pessoa a pessoa, mas de uma pessoa para várias outras, como a experiência de Wuhan, na China, já havia mostrado. De modo que estava claro, desde aquele momento, que no Brasil - dada nossa obscena desigualdade social - nós teríamos essa desigualdade desnudada, inclusive nessa questão epidêmica, o que evidente se concretizou.

Como a covid-19 chegou entre nós como uma doença respiratória, então fomos os primeiros médicos que, digamos, tratamos e internamos os pacientes, logo depois do carnaval de 2020, quando surgiram os primeiros casos no Brasil. Muito depressa aprendemos, na nossa profunda e intensa curva de aprendizado, que não se tratava de uma pneumonia atípica e sim de uma doença sistêmica, comprometendo todos os órgãos do corpo e caracterizada por duas fases: uma fase inicial virêmica e uma segunda fase inflamatória, que é uma fase na qual os pacientes pioram mais, entram em crise respiratória aguda e fazem fenômenos vasculares importantes, como trombose, embolia... Então a doença se caracterizava, desde muito precocemente, como uma doença de alta capacidade inflamatória e trombogênica. Essa é a patogênese, digamos assim, da doença que fez com que nos debruçássemos sobre todo o conhecimento nesse enorme número de publicações científicas - perto de 100 mil publicações científicas - produzidas nesse um ano de epidemia pelo mundo.

Plurale - Temos capacidade de vacinar mais brasileiros em uma velocidade maior do que a atual? No ritmo de hoje, poderemos levar muito tempo vacinando, até atingir a meta de pelo menos 70% da população. Temos um problema no fluxo de vacinas, mas o ideal não seria abrir mais postos de grande capacidade, em locais como estádios, estacionamentos de shoppings, quadras de escolas de samba, igrejas etc.? Temos visto filas imensas, idosos aguardando... O Brasil tem um histórico muito bem-sucedido de vacinação, reconhecido globalmente. O que nos falta para avançar?

Dra. Margareth Dalcolmo - Nós teríamos capacidade, aproveitando a enorme expertise do Programa Nacional de Imunização brasileiro, e toda a experiência acumulada com campanhas, como foram as campanhas de poliomielite, aquelas do Zé Gotinha, que todo mundo se lembra, as campanhas de sarampo e as campanhas de febre-amarela, quando houve os casos de febre-amarela urbana no Brasil. Então, o Brasil é um país que podemos dizer que sabe vacinar; no entanto, neste momento, nós temos ainda escassez de vacinas, cenário que esperamos que seja sanado num curto período de tempo. Precisamos de eficiência somada a uma enorme capilaridade de atendimento, para que consigamos aquilo que seria absolutamente importante para controlar a epidemia: vacinar, pelo menos, mais de 50% da população brasileira durante esse primeiro semestre de 2021. Acho que será possível, se soubermos aproveitar outras estruturas que não as formais do serviço de saúde, como estruturas de organizações da sociedade civil, por exemplo. Tenho conversado muito com esse grupo extraordinário chamado Mulheres do Brasil, coordenado pela Luiza Trajano; na verdade, é espantosa a capacidade deles para ajudar e contribuir com as prefeituras - sendo as prefeituras a célula, digamos assim, mais importante, para assegurar isso que eu estou chamando de capilaridade necessária para que nós consigamos vacinar muita gente no menor período de tempo.

Plurale - Num evento recente, a senhora falou que seria preciso fazer a “Revolta da Vacina ao contrário”, com a população se engajando de verdade para tomar a vacina. Como seria? O oposto do que aconteceu em 1904, quando houve boicote à vacina de varíola no Rio, defendida pelo sanitarista Oswaldo Cruz e pelo prefeito Pedro Ernesto?

Dra. Margareth Dalcolmo - Este é o exemplo que eu dei; é um documento histórico que todos conhecemos, desde quando Oswaldo Cruz era o responsável pela saúde, no Rio de Janeiro, ainda como capital da Primeira República, em 1904. Foi quando Oswaldo Cruz quis fazer a vacinação maciça para varíola no Rio de Janeiro e a população se revoltou - o que foi chamado, nos registros históricos, de Revolta da Vacina. O que eu tenho usado é essa metáfora de uma Revolta da Vacina do bem; com isso, eu tenho sido muito consistentemente crítica em relação a esses aventureiros movimentos antivacina, que nunca prosperaram muito no Brasil, ao contrário de países europeus, ou mesmo dos Estados Unidos, onde eles existem e resistem. No Brasil, a partir de um discurso ideologizado, equivocado e profundamente lesivo, a opinião pública tem propalado informações absolutamente não-verdadeiras sobre as vacinas. É preciso deixar claro que, na epidemia da covid-19, as vacinas são a única e mais poderosa arma, e a verdadeira solução para poder conter a epidemia; então, isso é importante, e o exemplo que eu tenho dado é um exemplo histórico, que me parece muito pedagógico nesse sentido.

Plurale - A Fiocruz e o Instituto Butantã estão dando um belíssimo exemplo de como é importante o Brasil investir em inovação, em tecnologia de saúde, em Medicina gratuita para todos, na Ciência. Importantes pesquisadores foram transferidos para outros centros de pesquisa no exterior; alguns estão inclusive trabalhando nas vacinas apresentadas. Será que, daqui para a frente, serão reforçados investimentos em Pesquisa e Ciência para que, em breve, possamos ter condições de produzir o IFA em quantidade para sermos autossuficientes e até exportar para outros países?

Dra. Margareth Dalcolmo – Sem dúvida, quem vai dar a resposta à epidemia no Brasil, fundamentalmente, são nossas duas grandes instituições públicas: a Fiocruz e o Instituto Butantan. Ambas são, em toda a América Latina, as únicas capazes de produzir vacinas em grande quantidade, quantidade de escala, capaz de suprir o Brasil e até outros países vizinhos, se necessário for. Sem dúvida nenhuma, é um esforço que representa a pujança da ciência brasileira – o que, aliás, é um dos resultados positivos; se nós pudéssemos aludir a algum resultado positivo dessa tragédia humanitária e sanitária que estamos vivendo, esse resultado seria o reconhecimento, por parte da sociedade civil brasileira, da capacidade da ciência brasileira.

Não há dúvida de que nós perdemos cérebros preciosos, que não encontraram condição de dar seguimento a suas pesquisas no país. E eu acho que essa epidemia, uma vez controlada, poderá deixar como herança o reconhecimento de que a ciência brasileira é capaz não só de produzir ações de saúde pública, mas também belos trabalhos científicos, publicados em revistas importantes – internacionais, inclusive, quer por instituições só brasileiras, quer em colaborações com outras instituições estrangeiras; então, isso tudo está muito bem demonstrado, e eu acho que faz parte da herança.

A outra herança que considero muito positiva nesse sentido - sobre a qual tenho falado bastante e até escrito em algumas das minhas crônicas - é o reconhecimento, por parte da sociedade civil brasileira, do que seja um novo voluntariado nacional. O Brasil nunca teve uma grande tradição de doações, sabemos disso; a concentração de renda no Brasil é algo que nos constrange, não há dúvida. No entanto, nós temos visto um comparecimento importante da iniciativa privada, no sentido de contribuir com ações governamentais ou não governamentais, em projetos de grande representatividade - como foram, por exemplo, o Todos Pela Saúde e o União Rio, que forneceram equipamentos, equipamento de proteção individual, respiradores, financiamentos de projetos de grande envergadura. Como a Fiocruz, que desenvolve, por exemplo, um trabalho nas comunidades da Maré e de Manguinhos; para isso nós recebemos milhares de cestas básicas e milhares de cestas de material de higiene, doadas por várias empresas privadas. Então são projetos que atendem um número grande de populações desassistidas nessas grandes cidades.

Plurale - Não houve um erro de avaliação da gestão pública de “apostar” em poucas opções de vacinas, quando o mundo todo produzia várias alternativas e todos os países já demandavam todo o “leque” dessas alternativas? A imagem que usamos é que chegamos tarde nesta “fila”. A Anvisa trabalhou tecnicamente de forma correta? Qual a sua avaliação?

Dra. Margareth Dalcolmo - Eu acho que nós perdemos o timing. Tivemos atitudes muito louváveis em relação às vacinas, que foram as duas iniciativas do Instituto Butantan e da Fiocruz, no sentido de estabelecer projetos de transferência de tecnologia com duas fabricantes de vacinas. A Fiocruz começou a costura do acordo de transferência de tecnologia integral, em resposta a uma encomenda tecnológica do Ministério da Saúde: na medida em que é um acordo de transferência, ele prevê não só o fornecimento do IFA para fabricar as vacinas no Brasil, mas a transferência completa de tecnologia para que a Fiocruz, a partir do outono desse ano, já fabrique o IFA no Brasil - de modo que, até o final do primeiro semestre de 2021, a vacina AstraZeneca-Fiocruz, como passa a ser chamada, será integralmente fabricada no Brasil, em todas as suas etapas; então, esse foi um processo muito interessante. O processo do Instituto Butantan foi igualmente interessante; deve ter características específicas que eu não conheço, conheço o da Fiocruz. Mas nós perdemos, sem dúvida, um timing que, ao meu juízo, teria sido muito importante, que foi a negociação e o asseguramento de vacinas de outros modelos, inclusive com causas farmacêuticas que desenvolveram estudos de caso 3 no Brasil muito bem - como por exemplo a Pfizer, como a Johnson & Johnson. E são vacinas que hoje estão sendo registradas lá fora, como a Johnson & Johnson, que pediu registro no FDA (Food and Drug Administration) nos Estados Unidos. Então nós deixamos de assegurar essa diversidade, digamos assim - o que seria perfeitamente justificável para um país do tamanho do Brasil, para que nós pudéssemos vacinar o mais rápido possível a maior parte da nossa população.

A Anvisa não é uma agência do governo, é uma agência do Estado; então deve ter total independência do seu trabalho de natureza técnica, na avaliação da aprovação emergencial das duas vacinas ora em uso no Brasil. A Anvisa trabalhou de modo impecável, com pareceres muito corretos; de modo que nós esperamos dela - nossa expectativa como pesquisadores, como médicos e como cidadãos brasileiros - que o mesmo se dê em outros pedidos de aprovação. Em relação à vacina AstraZeneca, a Fiocruz já deu entrada no processo de registro definitivo, que está em análise junto à Anvisa nesse momento.

Plurale - O caso de Manaus (AM) nos parece o mais dramático. Uma crise de pandemia depende de médicos, equipes preparadas e insumos. Como as autoridades – mesmo alertadas - deixaram faltar oxigênio para quem dependia de oxigênio? É claro que o quadro é de extrema urgência/gravidade, mas, ao se realizar a transferência de doentes de Manaus para outros estados, não se corre o risco de estar “exportando” vírus de nova cepa – mais transmissível – para outras regiões?

Dra. Margareth Dalcolmo - Era previsível a situação de Manaus, porque o Amazonas teve o primeiro pico epidêmico muito antes de outros locais no Brasil, logo em abril. Houve uma grande disseminação viral e era perfeitamente esperado, dadas as atitudes, do ponto de visto político-administrativo, que não foram tomadas em Manaus. Nunca houve fechamento de escolas, nunca houve fechamento do comércio, nunca houve lockdown algum em Manaus. De modo que era natural que, passados seis meses, a imunidade conferida pela doença - e aqui cabe um parêntese: é absolutamente injustificável esperar e querer que uma população alcance imunidade por doença, porque o custo humanitário e o número de mortes que isso pode resultar é enorme, é indefensável - não ocorresse. Então, em Manaus aconteceu isso. Não era surpreendente que houvesse uma segunda onda, hoje completamente materializada. No entanto, houve um agravante: o aparecimento dessa variante viral denominada P1, que surgiu no estado do Amazonas, descoberta pela família dos quatros japoneses que viajaram para o Japão, alertando sobre a nova cepa. É importante saber que os vírus são seres que estão sempre mudando; mudam permanentemente. E mudam mais; quanto mais circulação eles encontram e quanto mais existe a pressão seletiva das novas variantes, eles criam novas variantes. Então isso é algo esperado. A situação de Manaus nos entristece muito, mas era esperado. E pode ocorrer em outros locais do Brasil. O que não vai ocorrer é a questão do suprimento do oxigênio, pois Manaus, de maneira totalmente indefensável, concedeu o monopólio de fornecimento de oxigênio a um único fornecedor - o que, para uma cidade de difícil acesso como Manaus, não é a melhor das escolhas, e é muito difícil de justificar, de qualquer maneira.

Não, não é a transferência de pacientes que vai fazer a disseminação da cepa. A cepa já estava fora do estado do Amazonas quando os pacientes começaram a serem transferidos; além disso, essa atitude tem que ser calculada e medida, pois é uma questão humanitária que evidentemente precede - e é maior do que qualquer risco que se possa ocorrer. Não se pode deixar um paciente morrer sem a assistência adequada, mesmo considerando todos os riscos; é fundamental que ele possa ser atendido e ter sua vida salva em outro local. De modo que foi correta, sim, a atitude de transferir pacientes para outros estados e locais que tinham melhor condição de tratá-los.

Plurale – A senhora acredita que muitas mortes no Brasil poderiam ter sido evitadas se houvesse melhor gerenciamento da crise – desencontros de lideranças políticas, falta de engajamento da sociedade em medidas tão simples como usar máscara, lavar bem as mãos e fazer o distanciamento ou quarentena quando necessário? A sociedade não está pagando um preço alto pelo negacionismo e pela falta de compaixão e empatia pelo próximo? A senhora imaginava que haveria tanta resistência à Ciência em pleno século 21? Fake news, informações desencontradas, como o uso de remédios em tratamento precoce, dúvidas da população sobre a eficácia das vacinas... Esta foi uma crise de falta de informação?

Dra. Margareth Dalcolmo – Não há dúvida de que nós estamos pagando um preço muito alto. Não apenas pela falta de coordenação desde o início - e eu falei muitas vezes sobre isso, que o Brasil carecia de uma coordenação centrada e muito bem montada com harmonia, sobretudo com harmonia entre as autoridades sanitárias, as autoridades políticas e a comunidade científica e acadêmica. Sem dúvida nenhuma, isso nunca houve, e sempre tivemos discursos paradoxais - desde a condução da própria epidemia mesmo, do reconhecimento da magnitude do problema, até recomendações técnicas que até hoje, de maneira muito triste, perduram no Brasil, inclusive com anuência de alguns conselhos de classe nossos, o que nos entristece muito. Já em maio do ano passado publicamos, com um grupo de colegas do qual eu fiz parte, um documento que fazia uma revisão sistemática da condição da cloroquina: mostramos que não havia o menor sentido e, a despeito disso, o governo continuou defendendo, até muito recentemente, de maneira muito patética, o seu uso. Gastou dinheiro com isso, gastou energia, iludiu pessoas - enfim, com consequências que nós ainda não temos o recuo histórico necessário para mensurar. Eu considero desastrosas todas essas recomendações e o uso político de tratamentos medicamentosos que não têm o menor sentido para a covid-19, de uma maneira que já denominei inclusive de saquinhos de ilusão essa maneira como os remédios são distribuídos: em saquinhos, misturando antibiótico, vitamina, corticóide e entregando às pessoas! Na medida que não servem para nada, as pessoas se iludem e deixam de se proteger de maneira adequada. Então, acho que todo esse processo negacionista, que une todos esses setores da sociedade brasileira, fez muito mal à própria sociedade; já é o momento de cair em si e ver que esse comportamento foi muito deletério para o resultado da pandemia como um todo.

Agora eu não tenho dúvida de que teremos o mais triste março de nossas vidas. Isso é resultado do Carnaval e do descompasso entre o que nós, cientistas, dizemos, e o que as autoridades afirmam. Nos últimos dias, ouvimos que não é para usar máscaras. Não há dúvidas, está demonstrado que a máscara é uma barreira mecânica que protege quem usa e todo mundo ao redor.

Plurale - Esta é uma doença que mexe não só com o estado físico, mas também com a saúde mental. Sem falar que aumenta ainda mais as desigualdades sociais. O contaminado fica isolado, sem contato até mesmo com os mais próximos, e sempre esperando o pior. A senhora teve covid na forma moderada e contou que temeu pela falta de ar. E que sentiu-se ainda mais conectada com os doentes que tratou. Poderia, por favor, falar um pouco de como foi este processo?

Dra. Margareth Dalcolmo – Acredito que a vivência de quem já passou pela covid-19, grave ou não grave, é uma vivência muito particular, porque é uma doença que gera medo. Nunca tive constrangimento de falar disso: ela gera medo. Todos nós tomamos atitudes; eu não só já havia vivido diversas atitudes em relação aos pacientes. Por exemplo, se preocupar com a família, fazer modificações em documentos e até em testamentos; nós já vimos isso com pacientes. E quando fiquei doente também tomei algumas providências, de modo a deixar questões mais claras se eventualmente eu ficasse grave e precisasse ir para a ventilação mecânica, o que felizmente não aconteceu. Passei bem pela doença e, depois de três semanas, estava recuperada - de modo que, sem dúvida nenhuma, isso nos sensibiliza fortemente. Durante a minha doença, tive muitas manifestações de doentes que já haviam se curado inclusive e se manifestaram de maneira muito solidária - eu diria, de cumplicidade doce da parte de pacientes, de amigos, colegas. Enfim, nunca pensei que pudesse receber tantas manifestações de afeto como recebi. O que certamente ajuda, dado o fato de que a covid-19 exige um isolamento radica,l para que você não contamine ninguém; então nisso, sem dúvida nenhuma, essas manifestações ajudam. Outra questão que considero importante é que a tecnologia também ajuda muito nesse momento: nós teríamos salvado mais vidas se tivéssemos, através do próprio SUS, dado acesso a várias pessoas isoladas em suas casas. O número de mortes nos domicíliospoderia ter diminuído se tivéssemos acessado os lares, usando aparelhos celulares, telemedicina e várias possibilidades que a tecnologia hoje oferece, e que deverão ficar como mais uma herança dessa epidemia, para ser implementada, no sentido de aproximar as pessoas dos profissionais de saúde.

Plurale - Como a humanidade deve sair desta pandemia? Mais solidária?

Dra. Margareth Dalcolmo - Eu não tenho tantas ilusões de que a humanidade possa sair, como um todo, mudada para melhor, dada sua grande heterogeneidade, falando no bom sentido; mas falando no mau sentido, acho que as desigualdades continuam aí, reveladas da maneira mais óbvia. Até a própria guerra pelas vacinas mostra, mais uma vez, que os mais ricos terão mais vacinas e mais rapidamente do que os mais pobres, e isso é mais um exemplo muito paradigmático do que sejam as diferenças sociais e econômicas nesse mundo que justo não é. É interessante, é diverso, mas justo ele não é. De modo que eu espero que a humanidade, principalmente, e que a história mais uma vez se mostre rica, como foi em outra epidemias. Afinal de contas, as epidemias têm marcado a história do homem nos dois últimos milênios. E se nós pensarmos só no último exemplo - de que a grande Peste Negra, no final do século XIV. rendeu posteriormente o Renascimento - nós temos um lado de esperança de que essa pandemia possa, pelo menos, aproximar mais as pessoas, fazer com que olhemos para o outro com um pouco menos de distância, e que, quem sabe, possamos sonhar utopicamente com um novo Renascimento.







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