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Semana do aurita

Por Raquel Ribeiro, Especial para Plurale

Fotos de Rodrigo Bramili

Rodrigo Carvalho (foto) é um dos principais biólogos a defender o primata Callithrix aurita, uma simpática espécie de sagui ameaçada de extinção por conta da perda de territórios. Original do sudeste brasileiro, a espécie vem sendo expulsa pela urbanização, agropecuária e, mais recentemente, pela agressiva invasão de outras espécies de saguis.

Após quase uma década de mapeamento, manejo e busca de parcerias, o trabalho de Rodrigo e sua equipe se transformou em um programa de conservação, o PCSS, e gerou um impacto político positivo: o sagui-da-serra-escuro se tornou ícone da conservação ambiental de municípios brasileiros.

Plurale - Sua tese de doutorado já levantava a questão ética da invasão do território do aurita. O problema ainda existe?

Rodrigo Carvalho - Sim, este é o pior problema que enfrentamos. Saguis vindos do centro-oeste (Callithrix penicillata – sagui-do-tufo-preto) e do nordeste (Callithrix jacchus – sagui-do-tufo-branco) se adaptaram ao ambiente dominado pelas modificações humanas. As populações desses animais cresceram assustadoramente no sudeste e estão aniquilando as poucas populações que restam dos nossos saguis nativos. Essa situação gera um grande impasse de caráter ético, pois extinguir os primatas em si já seria um problema, ainda mais milhares deles. Nosso foco hoje é informar o público, especialmente onde há ocorrência do aurita, e incrementar populações em cativeiros voltados para a conservação e para “santuários” (fragmentos de floresta), onde possamos manter a espécie nativa, a longo prazo, sem a presença dos saguis invasores.

Foto de Rodrigo Bramili

Plurale - Estamos na Semana do Aurita. o que motivou esse evento?

Rodrigo Carvalho - Tudo começou com um golpe de sorte. Em uma das minhas idas às florestas de Friburgo (RJ) para procurar os saguis, perguntei a uma moradora local se ela costumava ver o macaquinho na região. A moradora, Sônia Pena, se empolgou com nosso esforço e levou o tema para um vereador amigo e muito engajado (Professor Pierre). Em pouco tempo, fizemos uma palestra na Câmara de Vereadores de Nova Friburgo e apresentamos uma lei, que foi aprovada na Câmara e pelo prefeito (em 2017), instituindo o C. aurita como patrimônio da biodiversidade da cidade, com um dia próprio a ser comemorado em 17 de junho.

Em 2019, Petrópolis (RJ) também adotou o Dia Municipal do Sagui-da-serra-escuro, e, no ano passado, foi a vez de Viçosa (MG) criar a Lei do Aurita: sua imagem passou a ser vinculada como espécie bandeira da biodiversidade e dos ecossistemas dessas regiões. Assim conseguimos nossa primeira inserção real e legal no setor público, em nível municipal, para a conservação do sagui-da-serra-escuro. A partir daí, o Programa de Conservação dos Saguis-da-serra (PCSS) cresceu e se fortaleceu a ponto de, este ano, criarmos eventos para a semana toda – condicionados pela necessidade de ocorrerem em meio virtual.

Plurale – Como surgiu o Programa de Conservação dos Saguis?

Rodrigo Carvalho - Curiosamente o Programa de Conservação dos Saguis-da-serra já nasceu (em 2014) em parceria entre instituições nacionais, como o Centro Nacional de Pesquisa e Conservação de Primatas Brasileiros (CPB / ICMBio), e uma instituição internacional reconhecida por salvar espécies muito ameaçadas de extinção, a Durrell Wildlife Conservation Trust. Desde então, aumentamos o grupo com parceiros nacionais e internacionais. Ainda não há populações de Callithrix aurita fora do Brasil, mas como zoológicos do mundo estão se adaptando à nova ordem e se transformando também em instituições voltadas para a conservação de espécies ameaçadas, há interesse em ter populações dessas espécies. Tanto para orientar o público como para servirem ao programa de conservação da espécie em cativeiro. Uma extensa burocracia deverá ser enfrentada para que instituições internacionais venham a ter o C. aurita no futuro.

Plurale- Qual a principal ação de conservação?

Rodrigo Carvalho - Hoje, manter populações de espécies ameaçadas em cativeiros de conservação é provavelmente uma unanimidade internacional entre conservacionistas. Ao menos até elas crescerem o suficiente para deixarem de ser consideradas como ameaçadas. Populações cativas garantem que possamos reparar perdas potencialmente fatais de populações de vida livre, com programas de reintroduções. Mas o objetivo final sempre será garantir animais suficientes na natureza para que não mais precisemos de animais cativos.

Plurale- Em termos de parcerias e financiamento como anda o PCSS?

Rodrigo Carvalho – Embora o assunto conservação esteja nas bocas de todas as pessoas influentes do mundo, o que rende sempre lindas fotos e breves textos de propaganda, a verdade é inversa em relação ao financiamento real vindo de qualquer esfera, seja pública ou privada. Lutamos e conseguimos pequenos financiamentos internacionais, mas, não fosse o apoio desde o início de duas instituições francesas (a Beauval Nature e a Associação Francesa dos Parques Zoológicos) provavelmente o PCSS teria naufragado por falta de fundos. Por outro lado, hoje termos parcerias muito importantes com instituições fortes como o ICMBio, CPRJ, INEA, IF-SP, Departamentos de Fauna das Secretárias Estaduais do Meio Ambiente dos estados do sudeste, Zoológico Municipal de Guarulhos, Zoológico de São Paulo, UFRRJ, UERJ, UNIFAL, UNIVAP, Universidade Santa Úrsula, CCSS-UFV, Parque Nacional da Serra dos Órgãos, REVIS Serra da Estrela, Secretaria de Educação de Petrópolis, Secretária Municipal do Meio Ambiente de Teresópolis, Secretaria Municipal de Educação de Viçosa, Secretaria Municipal de Educação de Teresópolis, Prefeitura de Nova Friburgo, PREA, MIB, RPPN Botujuru, Instituto Pró-fauna. E, internacionalmente, com a Durrell Wildlife Conservation Trust, Beauval Nature, Apenheul, Shaldon Wildlife Trust, Alameda Wildlife Conservation Park, Wildlife Solutions. Esse grande grupo de parceiros garante a credibilidade do PCSS e viabiliza nosso trabalho.







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5 comentários | Comente

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Raquel |
Maira Teles, obrigada! Conhecer para preservar: acredito muitíssimo neste caminho. Viva nossa Mata Atlântica e sua fabulosa biodiversidade!

Pedro A. Ribeiro de Oliveira |
Boa síntese! Apresenta bem o problema e ainda a gente a apoiar o trabalho de preservação da espécie.

Rodrigo Salles de Carvalho |
Obrigado Plurale pelo espaço! Gostaria de agradecer também nossos parceiros IEMA-ES e ao o Instituto Nacional da Mata Atlântica-INMA.

Raquel |
Defender o C. aurita é valorizar a Mata Atlântica e nossa biodiversidade. Agradeço o espaço destinado ao tema e parabenizo todos os envolvidos.

Maira Teles |
Desejo que a conservação e preservação das espécies nativas seja uma constante em nossas vidas. Parabéns pelo trabalho!

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