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Olimpíada de Tóquio: aprendizados com as melhores mulheres atletas do mundo

Por Malu Fernandes, Colunista de Plurale

Passei a defender mais as mulheres a partir de 2016 quando trabalhei com uma gigante nascida na zona oeste do Rio que fez doutorado na Sorbonne na década de 60. Pensem o que era uma mulher nascida fora da elite enfrentar este desafio 50 anos atrás! Ela me disse que nunca tinha vestido a camisa das mulheres porque havia conseguido furar o bloqueio nestes anos todos, então achava que nós podíamos mas agora, mais de 20 anos depois do início do terceiro milênio, admite que mudou. “Malu, agora mulheres são uma bandeira em tudo o que eu puder fazer porque é diferente para a gente. Nossos salários são menores, homens votam em homens, querem fazer negócios entre eles, jogar futebol com os amigos depois do trabalho”. Fiquei com isso na cabeça... Em 2018 começou o Grupo Mulheres do Brasil no Rio e me entusiasmei em integrar o Comitê de Comunicação com este propósito em mente.

Eu adorava skate... Era esporte para meninos mas eu só tenho um irmão, a minha melhor amiga era a única menina entre os seis filhos, o meu primo da minha idade é homem e o colégio em que eu estudava aos 13 anos tinha apenas oito meninas numa turma de 40 jovens. Meus pais nunca reclamaram de eu andar de skate mas me limitaram quando demonstrei talento para o vôlei, bati no teto, chegando à seleção do colégio e, para evoluir, precisaria me federar em algum clube. “Isso não é ambiente”, proibiu a minha mãe, sempre muito conservadora. Vida que segue, zero problemas. Levei para a vida os aprendizados com os esportes: trabalhar em equipe, saber perder, treinamento, disciplina e estratégia mas o outro caminho é possível, ensinou a Rayssa Leal, vice-campeã olímpica em skate street que ensinou às meninas que pensam em entrar no mundo do esporte: “Basta sonhar, persistir e confiar”. Chorei muito com esta adolescente de 13 anos que venceu na semana passada a votação online organizada pelo Comitê Olímpico Internacional (COI) o título de atleta que melhor representou os valores olímpicos, entre todas as modalidades. Vitória justa. A maranhense chamou atenção por vibrar a cada manobra das adversárias e abraçar efusivamente a japonesa Nishiya Momiji, que ficou com o ouro na disputa com a própria brasileira, entre outros exemplos que deixou como legado para o mundo.

Eu era gordinha que nem a Rebecca, que estreou com uma vitória no vôlei de praia ao lado da sua dupla, Ana patrícia. Esta atleta também me levou às lágrimas e reflexões sobre preconceitos em geral: contra mulher, gordo, LGBTI+, negro, etc. Pensem a pessoa terminar os jogos e ler nas redes sociais comentários como "a mulher é atleta e tem esse corpo. Só faz isso da vida" ou "Aí , depois, a pessoa vem dizer que não tem apoio disso e daquilo. Com esse físico, complica." Não quero o mal de ninguém, mas espero que o jornalista holandês Johan Derksen tenha sido demitido ou repreendido por ter chamado a goleira da Seleção Brasileira de Futebol Feminino, Bárbara Barbosa, de "porca de suéter", após dizer que a goleira estava "acima do peso."

Laura Pigosi e Luisa Stefani também me emocionaram demais. Lembrei dos anos em que cheguei a acordar às 5h fissurada para jogar tênis e relembrei os troféus e medalhas que guardo com carinho por conquistas no tênis, tênis de mesa, vôlei e futebol. Com uma virada espetacular, após salvarem quatro match points diante da fortíssima dupla russa Elena Vesnina e Veronika Kudermetova, a dupla conquistou ponto a ponto a primeira medalha olímpica da história do tênis brasileiro. Do tênis levo para a vida vários aprendizados, um deles é que jogo se ganha ponto a ponto. Não adianta ficar pensando no resultado final quando estamos perdendo nem deixar a ansiedade dominar. Foco em cada ponto porque é ele que vai nos fazer reverter o resultado.

Assistir às disputas me fez ver vários filmes ao mesmo. Lembrei de quando fui em um mochilão para Olímpia, na Grécia, em 1984, onde tudo começou e mulheres nem praticavam esportes. Nestas duas semanas, entre 23 de julho e 8 de agosto, grudei na televisão o máximo que deu com as lentes de jornalista, consultora de comunicação, empreendedora e investidora em startups, pensando nas opções que elas e eles fizeram em suas vidas lá atrás, o apoio da família e as estratégias que os levaram a serem os melhores do mundo.

Conclusão: agradeço a todos que me ajudaram em tudo o que conquistei - trabalhei para a maior empresa do Brasil, o maior grupo segurador, a maior empresa de telefonia celular, e várias outras, em março terminei mais uma pós, desta vez em negócios digitais na Emeritus em colaboração com a Columbia Business School e o MIT-, mas ainda há muito por fazer. Life long learning. Que venham os Jogos Paralímpicos entre os dias 24 de agosto e 5 de setembro. Os lenços estão prontos para tanto aprendizado quanto tive com o Ítalo Ferreira, o Hugo Calderano, as demais meninas e tantos outros...

(*) Malu Fernandes é jornalista premiada, consultora de Comunicação, membro da Rede Brasileira de Jornalistas Ambientais, cofundadora do Projeto Vale Encantado e do Movimento SanitaRIO, além de sócia do Projeto Rio Amazonas do Gelo ao Mar.







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5 comentários | Comente

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Marilene Lopes |
Maravilha de artigo, Malu querida. Viva as Mulheres!

Marcia Rodrigues |
Excelente artigo Malu, só quem praticou muitos esportes tem a visão e capacidade de escrever sobre o assunto tão bem!! Parabéns!!

Cadu |
Muito bom o texto Malu! Orgulho das mulheres do Brasil!

Caetano Filho |
Parabéns, Malu! Texto muito belo e reflexivo. Para pensarmos, o quanto temos que valorizar as mulheres guerreiras. E, com um olhar, de quem também é esportista. Precisamos ver com outros olhos, o quão grandioso e ser um Atleta olímpico.

Adriana |
Muito bom . Viva as mulheres e os baianos , momentos de pura emoção!!

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