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PLURALE EM REVISTA, 75 - Crianças ativistas, esperança de um mundo melhor

Por Nícia Ribas, Repórter Especial de Plurale

Foi-se o tempo em que as crianças só brincavam de casinha e jogavam bola. Nos anos sombrios em que vivemos, elas vêm ocupando espaço na luta por um mundo melhor. Na esfera internacional estamos assistindo às performances de Malala Yousafzai e Greta Thumberg. Por aqui, a menina Lua (Luara de Oliveira), 12 anos, montou uma biblioteca na comunidade da Ladeira dos Tabajaras. Nas redes sociais, cresce o número de seguidores de Brunna Sachs e das Pretinhas Leitoras. O ponto comum entre essas crianças/adolescentes é o ativismo por causas mais que saudáveis: a preservação do Planeta, leitura para todos, combate ao racismo e defesa das minorias.

Em Manaus, as irmãs Tainá Wahnfried, 10 anos, e Maia Wahnfried, oito anos, fundaram o Clube da Natureza (foto acima), juntamente com seus amigos Martin Cornelius Vicentini, sete anos, Simara Silva,12 anos (foto abaixo), e a babá de origem indígena, da tribo Baré, Joana d’Arc Rodrigues da Silva. O objetivo do Clube da Natureza é proteger a floresta e sua fauna. Em 2017, quando fundaram o Clube, sua principal atividade era recolher e reciclar lixo nas caminhadas pela reserva florestal onde moram. Tainá e Maia não precisam mais de babá, mas a amizade floresceu e as mantém unidas na luta pela floresta viva: “Temos que evitar o desmatamento e as queimadas, proteger nossos rios e igarapés, e levar a sério a reciclagem do lixo”, diz Joana.

Hoje, além do cuidado com o lixo, eles plantam árvores, criam animais para depois soltá-los e, principalmente, não maltratam a natureza. Além dos seus três cachorros muito amados (Lito, Clara e Cangue) e de um gato (Tinho), Tainá mantém um tanque com girinos e depois solta os sapinhos no quintal. “Temos que preservar as florestas e proteger os animais. Espero que, no futuro, a gente ainda possa tomar banho nos rios, mas o que precisa melhorar mesmo é o amor dos humanos pela natureza”, diz Tainá. Sua irmã Maia oito anos, completa: “Natureza é vida!” Seu amigo Martin alerta para o perigo do desmatamento e diz: ”Só com a preservação teremos, no futuro, mais ar e menos CO2 !”

A maioria das escolas mantém, em sua programação, eventos sobre sustentabilidade, que incentivam os alunos à preservação. Muitas vezes, é a criança quem leva para dentro de casa esse conhecimento – e exige dos pais uma mudança de hábitos no que se refere à correta destinação do lixo, por exemplo. Em Florianópolis, a Escola da Ilha fez, em junho, um evento com plantio de mudas. Gisela Camargo, mãe do aluno Gabriel Le Glas, oito anos (foto acima), lembra os temas recentes abordados pela escola, localizada numa cidade-ilha: “Costumam falar sobre a poluição dos mares, mas também já abordaram reciclagem e alimentação saudável.”

Vegana desde os quatro anos

O amor aos animais fez de Brunna Sachs (foto acima) uma vegana radical aos quatro anos de idade. Sua mãe, Sandra, conta que a filha, ainda bebê, com menos de dois anos, já perguntava o que estava comendo - e que acabou seguindo a filha no veganismo. “Amo muito os animais, por isso não como sua carne e nem os derivados deles, ovos e leite”, diz Brunna.

Aos três anos, no colégio, ao aprender a pirâmide de alimentos, Brunna descobriu que frango era galinha e parou de comer. Hoje, aos 12 anos e aluna do 7º ano, mantém seus seguidores do Instagram informados sobre o cotidiano de uma pessoa vegana: “Podemos levar uma vida normal como veganos”, diz ela, que também não usa nada de couro ou lã e não visita zoológicos ou aquários.

Legumes, grãos e verduras são os ingredientes principais das refeições. Entre seus pratos preferidos estão o strogonoff de grão-de-bico, o bobó de palmito e o macarrão. Na cantina da sua escola tem sempre opções para veganos.

Em seu blog, Brunna dá dicas de receitas e esclarece seus seguidores, com informações como esta: “Ao consumirem fitoplânctons que se alimentaram de microalgas, ou as próprias algas, os peixes acumulam Ômega-3 em seus tecidos. Faz mais sentido consumir ômega-3 diretamente da fonte, ou seja, das algas, evitando assim a toxicidade e os poluentes dos peixes. Uma triste reflexão sobre o estado dos oceanos. Devido à poluição marinha e à pegada industrial, os peixes acumulam os poluentes presentes na água, com potencial para introduzir compostos, como metais pesados, na cadeia alimentar humana. As algas são uma fonte vegana confiável desse nutriente. Além disso, as algas são bastante simples e baratas de cultivar: exigem apenas a luz solar, dióxido de carbono, nitrogênio e fósforo. Isso além do fato de serem totalmente sustentáveis, com pegada neutra em carbono. As algas capturam o gás carbônico da atmosfera e, assim, diminuem os efeitos do aquecimento global. Incrível, não é?”


Pretinhas leitoras, um sucesso!

As gêmeas Helena e Eduarda, hoje com 12 anos (foto acima), incentivadas pela mãe, a professora Elen Ferreira, desde muito cedo tornaram-se leitoras. A irmã caçula, Elisa, sete anos, também já é leitora. Ao perceberem a dificuldade das crianças do seu entorno (são oriundas do Morro da Providência e hoje moram em São Cristóvão) - o que inclui amigos, vizinhos e até os alunos de sua mãe -, que não tinham incentivo para a leitura, decidiram pôr a mão na massa. Passaram a ler para elas seus livros preferidos, buscando formas atrativas de prender a atenção dos ouvintes. O sucesso foi tamanho que sua mãe criou o projeto Pretinhas Leitoras, que conquistou patrocinadores e hoje está atraindo cada vez mais seguidores no Facebook, no Youtube e no Instagram.

Alunas do sétimo ano da Rede Pública Municipal, as gêmeas têm sido destaque na mídia. Em dezembro do ano passado foram ao Fantástico, contaram sua história e estão ficando cada vez mais famosas com seus vídeos e rodas de leitura, sempre com o objetivo de difundir o gosto pela literatura, principalmente de autores negros. Este ano, estrearam um quadro de sucesso no programa Encontro com Fátima, dando dicas de leitura. As rodas de leitura presenciais, sua principal atividade, estão suspensas devido à pandemia. No entanto, as meninas costumam participar de lives e passar o seu recado. Pregam o antirracismo a partir do protagonismo negro, feminino e infantil. Com seu projeto de leitura, as Pretinhas fogem da violência no Rio e levam consigo uma legião de fãs.

Mundo da Lua

Desde outubro de 2019, funciona na Ladeira dos Tabajaras, em Copacabana, Rio de Janeiro, a biblioteca comunitária Mundo da Lua. Sua idealizadora, Raissa Luara de Oliveira, mais conhecida como Lua, 12 anos (foto acima), sentiu vontade de levar o hábito da leitura para o seu entorno. A mãe, Fátima, conta que a filha sempre pedia para visitar a Bienal, em São Paulo, mas a viagem e o ingresso custavam caro.

Finalmente, em 2019, as duas ganharam os ingressos de um casal de amigos e foram. Na volta, Lua começou fazendo uma vaquinha e conseguiu, através de doações, montar a biblioteca na sede da Associação de Moradores. Seu projeto teve ampla repercussão na mídia; hoje são 22 salas de leitura em comunidades do Rio – e já enviaram doações de livros para Minas Gerais, Piauí e Espírito Santo.

Com a pandemia, a biblioteca só abre para pequenos grupos, faz empréstimos e, quinzenalmente, promove um lanche literário. Em setembro terão início cursos online de japonês e de inglês para os frequentadores da biblioteca, além de aulas de artesanato, ministradas pela artesã Fátima, a mãe da Lua. Para saber mais sobre o Mundo da Lua, procure no Instagram @luaoliveiraoficiall.

Quem quiser doar livros pode ligar para 21-99662-3332. Lua aceita qualquer livro, mas no momento o que mais precisa é de literatura infantil.

No município de Irecê, no sertão da Bahia, Clara Beatriz, 12 anos, criou e mantém o Projeto Casinha de Livros, com o objetivo de levar o maior número de pessoas a ler. A menina promove lives para conversar sobre livros e autores; seu projeto foi destaque, recentemente, na mídia baiana. Por lá também vigora o projeto Rede Autoestime-se, da Mariana Nunes, de Conceição do Almeida. As duas foram eleitas Jovens Empreendedoras Sociais pela Ashoka Brasil, junto com mais 13 brasileiros.

Essas crianças e tantas outras, que já se preocupam com preservação da natureza, com a vida saudável e com a cultura, são a esperança de um povo mais consciente e proativo nas próximas décadas, com capacidade para lutar por seus ideais e combater os malfeitos que assistimos hoje.







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Terezinha Santos |
Já faz tempo que os melhores estão indo para outros países. Temos que botar fé na nova geração. Vejo meus sobrinhos que mal saíram da adolescência sendo campeões em matemática, ciência e aviação. Isto me dá esperança.

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