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Valorizamos o artesanato, mas o que fazemos é arte. E como tal, deve ser respeitada!

Valorizamos o artesanato, mas o que fazemos é arte. E como tal, deve ser respeitada!

Do Do Portal 1 Papo Reto

Arte sempre esteve presente na minha família em momentos da vida mais intensos e outros esquecidos. Minha bisavó era seringueira e piaçabeira. Às vezes, em meio a tanto trabalho e esforço, sobrava um tempo para fazer seus cestos, tapetes ou panelas de barro.

Independentemente se existia tempo ou não, a nossa vida seguia com elementos da mãe terra na parede ou no chão de barro. Nossa irmã árvore era nosso alicerce e para nos proteger de nosso irmão sol, a caiçuma: palha usada para cobrir nossas casas e amarradas com o cipó ambé para aguentar o irmão vento.

Foi toda essa intimidade e respeito com os seres e os encantados que habitam o mundo dos filhos do universo (Desana) que deram habilidades e conhecimentos para manusear e criar – também de forma espiritual –, além de ensinar o que realmente necessitamos. Minha mãe, por meio de sonhos, tem essa conexão e sua arte é expressivamente esse encontro: “não posso esquecer a forma como meu tio (falecido) me mostrou o colar (colar de orquídeas da Amazônia)”, contou-me.

A arte indígena é ensinada por meio de histórias e construída em muitos momentos de coletividade. Tentamos adaptar nossas convivências nas grandes cidades seguindo esse padrão sistemático de uma sociedade que nos coloca na categoria de artesãos, considerando a herança dos nossos antepassados como simples artesanato.

Ercilia Desana arte indigena horopako 1 papo retoErcilia Desana, criadora da grife Arte Desana / DivulgaçãoTive o prazer de aprender, criar e ensinar. Tenho muito mais que artesanato em minhas mãos. A cada criação, temos a comunhão de estarmos conectados, sentindo-nos próximos e fortalecidos espiritualmente, além de respeitar os nossos anciãos ao acolher sua sabedoria, uma vez que, assim como aprendi com minha mãe, ela aprendeu com sua tia, e digo bem alto: “ARTE DE GERAÇÕES”.

Resistimos por meio de nossas criações, independentemente da peça: trançado, cerâmica, enfeites no corpo, pintura corporal, arte contemporânea, cestaria, instrumentos musicais e tantas outras manifestações artísticas e culturais, pois somos mais de 300 povos e isso confere à nossa produção muita diversidade.

Viver da nossa arte, mantê-la viva e, cada vez mais, valorizada é mais que um sonho ou objetivo profissional, é ter liberdade e sentir-se bem com a própria alma. Por isso que reduzir nosso trabalho ao artesanato, atividade econômica e cultural importante, não nos contempla mais. Queremos ser valorizadas por nossa ancestralidade e nossos saberes em todos os campos, inclusive na arte.

Durante nossa vida, entendemos a emoção de cada objeto, entrega máxima de aprimoramento e espiritualidade, e o respeito com cada item que manifesta nossa existência. Peças feitas a mão, que consomem dias em sua confecção, únicas e que levam histórias da cultura de um povo. A nossa arte é a forma de tornar ainda vivas a memória do nosso povo e a memória cultural do território brasileiro.

Hoje é mais um dia de luta e de resistirmos por aqueles arkawererã (parentes) e povos inteiros extintos em massacres e outras ações de extermínio coletivo. Ao longo da história da arte, a desvalorização foi evidente por não se encaixar nos moldes estabelecidos da arte naquela época. Atualmente, essa valorização tem de ser exigida por mim e por todos os integrantes de povos e nações que habitam esse país.

Horopakó (Carina Desana)
Sobre o/a Autor(a)
Horopakó (Carina Desana) é integrante do povo Desana do Alto rio Negro, situado na fronteira com a Venezuela e a Colômbia. Ativista das causas sociais, atua como educadora e professora indígena na comunidade de Novo Airão (AM), também é sócia da mãe na grife Ercília Arte Desana.






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