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Um bate papo virtual e imaginário com Mark Zuckerberg

Por Fernando Thompson, Colunista de Plurale

De Lisboa

Fernando entrou na sala de bate-papo virtual.

Fernando- Fala, Zuck, tudo bem?

Mark Zuckerberg entrou também na sala virtual.

Zuckerberg – Quem é?

Fernando – Aqui é o Fernando Thompson, brasileiro. Vivo em Lisboa.

Zuckerberg – Ah! Tudo bem?

Fernando – De boa. E com você?

Zuckerberg – As coisas por aqui estão complicadas. Eu perdi U$ 6 bi nos últimos dias, por conta do apagão do Facebook e do Instagram. Mas o que realmente me chateou foram os problemas do WhatsApp. Eu tive dificuldades de falar com as minhas filhas, Agust e Maxima. Elas são muito apegadas a mim.

Fernando – Rapaz, que doideira. Você sabe que esse apagão causou o pânico no mundo. Muitas pessoas não conseguiram trabalhar, governos tiveram problemas para manter serviços públicos e muitas empresas perderam bilhões de dólares em receitas.

Zuckerberg – Eu ouvi falar.

Fernando – Zuck, tenho lido nas redes sociais que a sua batata está assando. O depoimento da sua ex-funcionária, Frances Haugen, ao Congresso Americano, queimou o teu filme. Ela disse em alto e bom som ao parlamentares de la´: “Os produtos Facebook prejudicam as crianças, alimentam a divisão e enfraquecem nossa democracia”. Ela foi ainda mais dura com você: “A empresa fundada por Mark Zuckerberg várias vezes identificou conflito entre seus lucros e a segurança de usuários, e que consistentemente decidiu em favor de seus próprios ganhos”.

Zuckerberg – Tudo intriga da oposição. Estamos mostrando menos vídeos virais e mais conteúdos de parentes e amigos. Fizemos isso sabendo que significaria que as pessoas passariam menos tempo no Facebook, mas a pesquisa mostrou que era a coisa certa a fazer para o bem-estar das pessoas.

Fernando- Mas Zuck, me diz uma coisa. Em 2019, em entrevista à Fox News, você disse que controla o tempo que as suas filhas (Agust está com quatro anos e Maxima está com seis anos) passam diante das telas dos smartsphones e dispositivos afins. Se você acha que muito tempo na tela do celular faz mal para as suas filhas, porque você usou de artifícios para prender os filhos de outros diante dos seus apps?

Zuckerberg – Usar aplicativos sociais que conectam você com outras pessoas pode trazer benefícios mentais positivos.

Fernando – Mas Zuck, o Wall Street Journal divulgou pesquisas internas de vocês, que mostram que os apps são prejudiciais a um grupo substancial de usuários, sobretudo a adolescentes. Cerca de 32% das garotas afirmam, que quando se sentem mal com o seu corpo, o Instagram as faz sentir pior.

Zuckerberg – Não sei como essas pesquisas vazaram. Elas são confidenciais.

Fernando – Easy...easy, man. Vamos mudar de assunto. Zuck, muitos países estão se movimentando para limitar as atividades do Facebook. Há farto material que mostram que vocês se omitiram diante de milícias digitais, que causaram danos a democracias ao redor do planeta _ como o caso da invasão do Congresso Americano; ou das eleições presidenciais no Brasil de 2018, ou a que do presidente Evo Morales, na Bolívia, em 2019. Isso sem falar no uso de informações de mais de 50 milhões de usuários do Facebook, sem consentimento, pela empresa americana Cambridge Analytica, para fazer propaganda política. A empresa teria tido acesso a grande volume de dados, ao lançar um aplicativo de teste psicológico na rede social. Aqueles usuários do Facebook que participaram do teste, acabaram por entregar à Cambridge não apenas suas informações, mas os dados referentes aos amigos do perfil. A denúncia, feita pelos jornais The New York Times e The Guardian, levantou dúvidas sobre a transparência e o compromisso da empresa com a proteção de dados dos usuários.

Zuckerberg – Sobre o caso da Cambridge Analytica, eu fui a público pedir desculpas. Foi um erro e uma quebra de confiança. Outros funcionários do Facebook discordaram em chamar isso de violação de dados, argumentando que aqueles que aceitaram o teste de personalidade consentiram originalmente em fornecer suas informações. Eu prometi e fiz alterações e reformas no funcionamento do Facebook, para impedir infrações semelhantes no futuro.

Fernando – Mas vocês são acusados de não combater as Fake News.

Zuckerberg – Mais uma mentira. Todos os anos derrubamos milhões de páginas que divulgam informações falsas. Eu admito que o Facebook não estava pronto para lutar contra interferências nas eleições, como as presidenciais de 2016 nos Estados Unidos. O Facebook retirou uma alegação do presidente brasileiro Jair Bolsonaro de que os cientistas "mostraram" que havia uma cura para o coronavírus. Isso obviamente não é verdade e é por isso que a removemos. Não importa quem diga isso.

Fernando – Zuck, de boa, eu te acho um cara genial. Mas você não é bobo. O Facebook faturou mais de US$ 28 bilhões, em sua maior parte com publicidade, no último trimestre de 2020, e teve um lucro líquido de US$ 11,22 bilhões. O resultado foi 53% maior que no mesmo período do ano passado, devido à alta do uso de redes sociais durante a pandemia. O número de usuários aumentou ainda mais durante as comemorações de fim de ano. Até 31 de dezembro de 2020, cerca de 3,3 bilhões de pessoas acessaram, pelo menos uma vez por mês, uma das quatro plataformas e serviços de mensagens do grupo (Facebook, Instagram, Messenger e WhatsApp). É muito poder para uma empresa só.

Zuckerberg – Eu sempre digo às minhas filhas: quero ser lembrado como um homem que acreditou no sonho de fazer uma empresa que ligasse pessoas ao redor do mundo.

Fernando – Zuck, você é um homem CIS (hetero), branco, rico e nasceu nos Estados Unidos. Você não sabe o que é sofrer bullying por ser negro, gay ou mulher. Suas empresas ajudaram a ofender e oprimir milhões de pessoas ao redor do planeta. Sua estratégia de “algoritimizar” as relações humanas, fizeram um mundo um lugar pior, onde o ódio, a intolerância e a opressão ajudam a gerar lucros para alguns e muitas dor para outros. Eu sou gay, um brasileiro que vive em Lisboa. Sofro diariamente com agressões por conta da minha orientação sexual ou por ser imigrante. Gostaria dizer a você e aos seus algoritmos: mudem enquanto ainda há tempo. Não deixe um mundo de ódio e intolerância para Agust e Maxima.

Fernando saiu da sala.

Mark Zuckerberg fica na sala, com cara de bobo.

Fernando Thompson é jornalista e doutorando de Comunicação na Universidade Nova de Lisboa







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