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Mude sua vida e a crise planetária pela boca!

Por Giane Gatti, Jornalista, Colunista de Plurale (*)

Fotomontagem por Giane Gatti - fotos de arquivo pessoal com a gata Nina (Tais Peyneau).

A vida humana na Terra está à beira do abismo. Basta ler os dados de fontes confiáveis. A mudança climática não é daqui a 10, 20 anos. Ela está acontecendo agora. Maior número de eventos extremos como temperaturas muito altas, tufões, furacões, enchentes, seca. Até 2045, cerca de 135 milhões de pessoas poderão ser deslocadas como resultado da desertificação, e com ela, o empobrecimento do solo afetando a produção de alimentos.

Precisamos reduzir drasticamente as emissões dos gases de efeito estufa, principalmente, dióxido de carbono (CO2) e metano, os grandes vilões da mudança climática e que impactam a produção de alimentos em nível mundial. E já somos quase oito bilhões de bocas, muitas delas famintas.

A atividade agropecuária domina a geração de gases de efeito estufa no Brasil. Somadas as emissões diretas do setor agropecuário com as emissões indiretas, por desmatamento, essa atividade respondeu por 69% das emissões em 2018, de acordo com o Sistema de Estimativas de Emissões de Gases de Efeito Estufa (SEEG) do Observatório do Clima (OC). Ressalto que esses dados já eram ruins há quatro anos e, no caso do nosso país, o desmatamento vem batendo recorde por anos seguidos. O mundo parou na pandemia, mas o desmatamento seguiu firme e forte. Desmatamento para pastagens e produção de grãos que vão alimentar o gado, não as pessoas. Além da emissão do gás metano, - que aquece o planeta mais de 80 vezes do que o CO2 nos primeiros 20 anos, - pelo gado no seu processo de digestão (fica ruminando/arrotando), temos o grande consumo de água.

Se você entendeu que a maneira como nos alimentamos tem grande impacto negativo no planeta e quer fazer algo a respeito, convido a começar pela boca. É a maneira mais fácil e efetiva. Quando foi a última vez que você se conectou com o alimento? Prestou atenção nele? Em suas cores, texturas, aromas e sabores? De onde ele veio? Quem produziu? Qual foi o impacto socioambiental até chegar no seu prato? Nosso estilo de vida de “ter em vez de ser”, de trabalhar, possuir e consumir sofregamente nos empurra para longe de temas que são a base de nossas vidas. Nos desconectamos de quem realmente somos: seres espirituais, amorosos, cooperativos e altruístas. Nos esquecemos disso no dia a dia, procurarmos felicidade efêmera nos bens materiais, ligamos o piloto automático e não prestamos atenção no que comemos (e nem em quem não tem o que comer). Nos desligamos também da Mãe Terra, sagrada, que nos nutre e dos animais que fazem parte da biodiversidade, junto com a gente. O que colocamos para dentro do nosso corpo vai afetar nossa saúde física e mental, o planeta e os animais. Sim, somos o que comemos.

Você gosta de carne industrial? É neste momento que eu peço a você, caro leitor, que pare, respire lenta e profundamente por 10 segundos e abra a sua mente, deixando de lado suas crenças e pré-conceitos.

Ao nos desconectarmos de quem somos e do alimento, sofremos de um bloqueio mental que nos impede de pensar sobre como ele foi parar em nosso prato. “massacre hoje é muito industrializado, trabalho árduo feito em más condições”, afirma o Atlas da Carne. A indústria tem instalado seus abatedouros fora das cidades, longe da vista das pessoas. Grupos de direitos animais exigem ética. Além do mais, o preço mencionado na etiqueta de uma embalagem de carne não reflete o custo real de sua produção - para o meio ambiente e para o contribuinte.

Segundo relatório do Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente (UNEP em inglês), a mudança global para uma dieta vegana é vital para salvar o mundo da fome, escassez de combustíveis, bem como dos piores impactos da mudança climática. A agricultura, em nível mundial, é responsável pelo consumo de cerca de 70% da água doce do mundo, 38% do uso de terra e 19% das emissões de gases estufa. Precisamos repensar as fartas dietas de carne, laticínios e derivados de animais que são praticadas hoje em dia.

O principal uso do solo brasileiro é para pastagem: ela ocupa 154 milhões de hectares de norte a sul do país, com presença em todos os seis biomas. Essa área praticamente equivale a todo o Estado do Amazonas, que tem 156 milhões de hectares, ou 6,2 estados de São Paulo, alerta relatório do MapBiomas, iniciativa do SEEG/OC.

Foto da Sociedade Vegetariana Brasileira (SVB)/ Divulgação.

Dia Mundial do Veganismo

1º de novembro é o Dia Mundial de Veganismo. A data surgiu em 1994, por intermédio de Louise Wallis, presidente da Vegan Society, em comemoração aos 50 anos da fundação da Sociedade Vegana do Reino Unido, fundada em 1944. E antes que você comece automaticamente-inconscientemente-mentalmente a pensar que esses veganos são um saco, um bando de radicais, que passam a vida querendo “doutrinar” os outros sobre como comer, gostaria de destacar algumas informações:

- "Pensa comigo: o vegano se preocupa com os animais, preserva o meio ambiente e promove a saúde das pessoas...E você ainda reclama dele??? Como assim?”, questiona Ricardo Laurino, presidente da ONG Sociedade Vegetariana Brasileira (SVB). Sim, deveríamos agradecer a eles, porque devido ao seu estilo de vida, há menor emissão de gases de efeito estufa no planeta, menor consumo de água, menos desmatamento, degradação do solo e crueldade e matança.

- Há veganos que fazem curso de comunicação não violenta, porque buscam passar a mensagem de maneira leve e amorosa;

- Veganos não são melhores nem piores que os outros, apenas diferentes na maneira de viver e de consumir. E levam uma vida como você: trabalham, têm amigos e família, gostam de sair e se divertir, também tomam um vinhozinho e uma cerveja (mas de marca vegana, que não patrocina rodeios) e comem também suas friturinhas (batata-frita, pastel, etc). Eles usam bolsas, mochilas e sapatos que nem você, a diferença é que não são de couro, usam produtos de beleza, higiene e limpeza que não possuem ingredientes animais nem são de empresas que fazem testes em animais. Sim, o sofrimento dos animais, de qualquer tipo ou raça, é algo muito importante para eles por considerarem que eles, assim como nós, têm direito a uma vida digna.

- Veganos não são um monte de gente masoquista que adora passar a vida se alimentando com comida ruim. Sim. Muitas vezes você fala em alimentação vegana e as pessoas torcem o nariz. Veganos AMAM comida gostosa. E fazem pratos deliciosos e coloridos sem nada de origem animal. Não existe essa coisa de comida com carne é maravilhosa e comida com grão-de-bico é ruim. Só existem dois tipos de comida: boa ou ruim, independentemente dos ingredientes. Considero falta de maturidade dizer que comida vegana é ruim sem nem provar. Não estamos em um jardim de infância. Precisamos parar de agir como crianças mimadas achando que o mundo gira em torno do nosso umbigo, e que a natureza e os animais são nossos serviçais. A crise climática demanda nosso empenho, entendimento, responsabilidade e sensatez.

- Tenho profunda admiração pelos veganos que há 30, 20 anos quebraram a cabeça na cozinha até criarem pratos com a quantidade de nutrientes de que precisamos e gostosos, quando não havia nenhuma opção de comida em restaurantes, nem ingredientes comercializados. Eu acho um gênio quem descobriu que a água do cozimento do grão-de bico, quando batida no processador, se transforma em um maravilhoso substituto para as claras em neve conhecido como aquafaba. E o substituto para o ovo em receitas de bolo, que é uma misturinha de sementes de chia com água, que vira uma geleiazinha. Quem pensou nisso é outro gênio!!!

- Tem gente que acha radicalismo parar de comer carne, mas não acha radical matar 70 bilhões de animais por ano para alimentação. Preste atenção nesse número: 70 bilhões de animais morrem por ano no mundo. No Brasil, são 10 mil animais mortos por minuto, segundo a SVB;

- Nós, seres humanos, pesamos apenas 0,01% de toda a massa na Terra, mas já erradicamos 83% dos mamíferos selvagens e metade das plantas, enquanto o planeta está repleto de animais de criação (para consumo): 60% são animais de criação (principalmente porco e bovino), 36% são humanos e 4% são animais selvagens. (https://www.theguardian.com/environment/2018/may/21/human-race-just-001-of-all-life-but-has-destroyed-over-80-of-wild-mammals-study?CMP=Share_iOSApp_Other)

No Brasil, 14% da população se declarou vegetariana, segundo pesquisa do IBOPE Inteligência encomendada pela SVB em 2018. Nas regiões metropolitanas de São Paulo, Curitiba, Recife e Rio de Janeiro este percentual era 16%. A estatística representa um crescimento de 75% em relação a 2012. E mostra ainda o crescimento rápido no interesse por produtos veganos na população em geral: mais da metade dos entrevistados (55%) declara que consumiria mais produtos veganos se estivessem melhor indicados na embalagem ou se tivessem o mesmo preço que os produtos que estão acostumados a consumir (60%). Nas capitais, esta porcentagem sobe para 65%. E posso garantir, com absoluta certeza, que todos esses dados cresceram muito nos últimos três anos.

Eu estou em transição para a alimentação vegana, pois já tenho outros hábitos de consumo vegano. Após ser vegetariana por 12 anos (comendo apenas laticínios de origem animal) e mesmo sabendo durante todo esse tempo como é prejudicial ao planeta, à minha saúde, aos animais e ao meu bolso, apenas agora o conhecimento se transformou em ação efetiva. Digo transição, porque não cortei totalmente o queijo ainda. Reduzi 90% o consumo dele. Leite de vaca, requeijão, manteiga e outros já cortei. E é sobre isso que eu queria falar. É um processo, uma jornada. Não acontece de um dia para o outro. É preciso ter a informação/conhecimento, entender a motivação para fazer a mudança, criar um plano de ação e reforçar diariamente o porquê de fazê-lo. Sem pressão. No amor. Foi assim que eu fiz com a carne. Não parei de gostar, parei de comer. Na minha família, toda e qualquer desculpa/comemoração é motivo para churrasco. Sinto aquele cheirinho que me agrada, mas sigo firme e forte com meus pimentões, cogumelos, abobrinhas e berinjelas grelhados levando sabor e cor à refeição, e agradando, inclusive, os carnívoros. Se você topar percorrer essa jornada e tiver uma recaída, recomece. É preciso constância. Regularidade. Esse é o caminho.

Eu gosto muito de queijo. Muito mesmo. A gente pensa que não vai conseguir viver sem aquilo. Somos apegados, dependentes. E ao reduzir o consumo de laticínios, me peguei sem perceber, que havia passado uma semana sem comer queijo. E outra, e outra. E foram dias felizes e prazerosos. É importante você descobrir receitas que agradam, então comecei a pegar um monte de dicas de leites e queijos veganos e venho testando as minhas preferidas. E encontrei sabores muito bons. Há dezenas, até mesmo centenas de perfis para seguir nas redes sociais e acessar milhares de receitas. Alana Rox, Samanta Luz, veganoperiferico, veganaabessa, Pitada de Cor, Clube de receitas veganas, vegcomcarinho, roledevegano, receitas_veganas_simples, elavegan (em inglês) e muitos outros. Comida vegana é mais barata do que a “convencional”. Basta saber fazer conta.

Pega na minha mão e vamos juntos

Quer uma ajuda com a carne? Siga os perfis da SVB. Tem muita dica de nutrição, receitas, informações e depoimentos. Tem e-book para quem está fazendo a transição. Eles dão uma bela assistência, inclusive consultoria para restaurantes, cantinas de escolas públicas e refeitórios de empresas que querem incorporar pratos veganos. E como trata-se de pequenos passos, gostaria de convidar você a participar da campanha da ONG chamada Segunda Sem Carne (link - https://www.svb.org.br/pages/segundasemcarne/), presente no Brasil e em mais de 40 países. O raciocínio não é: que droga, vou ter que passar um dia inteiro sem comer carne! Não, isso bloqueia o cérebro. Somos sabotadores de novos hábitos. O pensamento correto é: hoje vou experimentar novos sabores e tirar do meu prato algo que faz mal à minha saúde, gera grande impacto negativo no planeta, provoca morte de outros seres que, assim como eu, só querem ser felizes, e dá um rombo danado no meu orçamento, porque o preço da carne não para de subir. Se meu pai carnívoro de 87 anos, criado à banha de porco, fica uma a duas vezes na semana sem carne, tenho certeza de que você também pode!

Ao deixar de comer um bife de 300 gramas, você economiza cerca de cinco mil litros de água, quatro quilos de ração e deixa de emitir 14 kg de CO2 na atmosfera (dados da Water Footprint Network e SVB).

Não custa lembrar que a Organização Mundial da Saúde (OMS) preconiza o consumo de 100 gramas de carne por dia. Boa parte dos brasileiros consome o triplo disso (exceto os 20 milhões que passam fome). Os benefícios para a saúde são muitos ao reduzir o consumo de carne: menor risco de diabete e de doenças cardiovasculares, além de vários tipos de câncer. E já há estudos e profissionais suficientemente embasados para comprovar que uma dieta vegana equilibrada fornece todos os nutrientes de que adultos e crianças precisam.

E por fim precisamos falar sobre a crueldade. Não dá para fugir do tema. A natureza do ser humano é bondosa e pacífica. Nascemos assim. Basta olhar a interação de bebês e crianças com os animais e vice-versa. Não estamos nesse mundo para provocar dor, sofrimento e uma vida miserável a outros seres. Estamos aqui para feitos grandiosos, atos de generosidade e altruísmo e para a construção de um viver junto em harmonia.

Os animais são sencientes, sentem dor e alegria, e alguns possuem um grau de inteligência comparável ao de uma criança de três anos, por exemplo. E passam suas vidas de uma maneira desgraçadamente infeliz por nossa culpa. Há vários filmes/documentários que comprovam isso, além de artigos investigativos de ONGs protetoras de animais. E você precisa assumir sua responsabilidade nesse ciclo de crueldade. Somos seres espirituais nos alimentando da energia de morte de outros seres. Como pode fazer bem? Quando eu comecei a meditar, parei relativamente rápido de comer carne. Ela leva horas para ser digerida, gasta muito da minha energia e ainda tem uma parte que apodrece no organismo. E eu não conseguia meditar, me desconectar do corpo e focar em um nível mais elevado de consciência.

A SVB também criou a campanha: Se ama um, por que come o outro? (https://www.svb.org.br/sevoceama/) Referindo à grande parte da população brasileira que tem pets. “Se você respeita e ama o cachorro ou gato que tem em casa, por que come um outro animal igualmente inteligente, fascinante, carinhoso e com personalidade – como um porco, galinha ou vaca?” Por que entendemos que são diferentes? Que um merece viver abraçado comigo na cama, e o outro deve estar no meu prato?

Vaca longe dos filhotes, sem poder amamentá-los, engravidando ano após ano, porcos criados em prédios gigantescos na China onde eles nascem e são criados em cubículos sem jamais terem contato com a área externa, prática também comum na Europa e no Brasil... Galinhas mutiladas, vivendo em espaços em que nem conseguem abrir as asas, pintinhos “sem serventia” triturados, peixes congelados vivos para consumo...É curioso que quase não se fala sobre a crueldade com os peixes, que morrem asfixiados ou esmagados pelo peso de outros nas redes de pesca industrial, pegos por meio de choques elétricos... Sou uma jornalista, o dom da palavra é meu ofício, mas, às vezes, me faltam os termos corretos para descrever determinados atos cometidos pelos humanos...Por isso é tão importante nos reconectarmos com quem verdadeiramente somos, fazer emergir nossa essência, nosso amor incondicional e autorrespeito, e perceber que somos altruístas, valiosos e virtuosos. Temos empatia e compaixão. Quem já conseguiu levar a mensagem do veganismo a seu coração, transformando em ação, tem o papel de inspirar outros a fazerem o mesmo.

Nossa grandiosidade reside na capacidade de valorizar e nos maravilhar com a existência do outro, de qualquer espécie. Todos nós, juntos, compomos a extraordinária biodiversidade do planeta e habitamos a mesma Casa Comum.

(*) Giane Gatti é jornalista há mais de 25 anos, trabalhou em veículos como Globonews e G1, é palestrante e produtora de conteúdo em sustentabilidade e tem o blog Conteúdo que faz bem.







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