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Artigo - Cop-26 - "Brasil deve colocar na mesa de negociação da COP 26 as emissões oriundas da pecuária" - Por Maria Lettini, da FAIRR

Por Maria Lettini, da FAIRR

É auspicioso ver os países novamente sentados à mesa para alcançarmos a meta de redução de emissão de gases, como acontecerá agora em Glasgow, de 1 a 12 de novembro, na COP-26 - a vigésima-sexta edição da Conferência das Partes. Esse encontro, que busca o consenso para limitarmos o aumento na temperatura do planeta a 1,5 ° C, merece o aplauso de todos que nos preocupamos com as mudanças climáticas. A FAIRR Initiative, rede colaborativa de investidores apoiada por US$ 45 trilhões em ativos fundada em 2016, faz coro à sua importância. Mas ousamos apontar caminhos que precisam ser observados pelos líderes mundiais, conforme nosso manifesto Where´s the Beef? (“Onde está a Carne?”), lançado há quatro meses com a adesão de Ban Ki-Moon, ex-secretário-geral da ONU e arquiteto do Acordo de Paris. Nele, um grupo de investidores internacionais cobra dos governos do G20 mais transparência sobre a contribuição do agronegócio nas metas de redução de emissões.

A oferta de proteína animal para consumo não pode ficar fora desta discussão. Ao custo de irregularidades que não combinam com as boas práticas de empresas que se propõem a ser respeitadas no mundo transnacional, ela gera aumento na emissão de gases num momento em que precisamos justamente do contrário. Como a ciência já comprovou, o agronegócio responde por ? das emissões mundiais - e de pouco adianta mudar a interpretação destes números. Debater seu controle, colocar suas emissões na mesa de negociação e buscar alternativas sobre a necessária redução deste tipo de emissão precisa deixar de ser um tema interditado.

É louvável ver iniciativas como a do Estado brasileiro, que recentemente aprovou no Senado a antecipação de suas metas de corte de emissões em cinco anos, mas precisamos alertar que, para tanto, é fundamental reforçar o quanto a pecuária representa nos números do país. Sabemos dos avanços realizados por algumas das grandes empresas nacionais. Enxergamos que, com medidas iniciais como controle da origem do produto, mas os países que têm na pecuária uma forte atividade econômica, entre eles o Brasil, precisam colocar essas emissões na mesa de negociação - o que não foi feito até agora no bojo das Contribuições Nacionalmente Determinadas (NDCs).

A pecuária e sua expansão, a médio prazo, é inviável, pois o planeta não suporta mais gases que seriam emitidos com tal crescimento. No mundo todo, são produzidas 340 milhões de toneladas de carne por ano hoje em dia - volume três vezes maior do que o registrado há 50 anos - e o Painel Internacional sobre Mudanças Climáticas (IPCC) destacou o potencial das dietas baseadas em vegetais na mitigação das mudanças climáticas. Mais: seu crescimento, se hoje gera fluxo de caixa, compromete a sustentabilidade das empresas e, consequentemente, sua sobrevivência, pois sempre será um mau negócio investir capital onde não há viabilidade a médio prazo.

Ninguém quer isso.

Hoje, na Europa, já temos um grande número de redes varejistas e empresas apostando em proteínas lácteas alternativas, e com farto mercado disposto a experimentar novidades que não tragam consigo o gosto amargo do desmatamento e da irresponsabilidade em forma de emissão de gases. Em todo o Mundo, inclusive no Brasil, há espaço para o desenvolvimento deste mercado de proteína alternativa, conforme pesquisa que apresentamos no relatório “Appetite for Disruption: The Last Serving”.

Enfim, diminuir as emissões de carbono e retirar de nossas cabeças a espada das mudanças climáticas passa também pela conscientização sobre o uso de tecnologias no agronegócio e da busca por proteínas que não as de origem animal. Não adianta lutar contra os fatos: por mais que eles não nos agradem, isso não mudará a realidade.







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