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#COP26 - Beatles, música e sustentabilidade

Por Edson Chaves Filho, Jornalista (*) ,Especial para Plurale

A música dos Beatles, por mais de meio século, encanta a quem tem bom gosto e, porque está no gosto da humanidade (releve o meu oportunismo beatlemaníaco), nunca sai da programação. Porém, não é só pela música, mas também pelo envolvimento de Paul McCartney, John Lennon, George Harrison e Ringo Starr em causas importantes, meritórias, respeitáveis, dignas e fundamentais, como é o meio ambiente.

No catálogo do grupo, duas canções sobre esse tema ganharam projeção: Mother Nature’s Son (Filho da Mãe Natureza - 1968), escrita por Paul McCartney, e Child of Nature (Filho da Natureza - 1968), de John Lennon. Não chegaram ao estupendo sucesso da épica Earth Song (Canção da Terra - 1995), o vigoroso e emocionante apelo para salvar o Planeta e seus habitantes, criada por Michael Jackson. Mas, ainda assim, foram contribuições importantes de personagens Beatles para debater a questão.

Paul, há muito tempo, mostra seu lado ambientalista em sua música. E o Brasil fez parte, embora de forma dolorosa, dessa história. Foi quando, comovido com a morte, em 1988, em Xapuri, no Acre, do seringueiro Chico Mendes – a quem passou a admirar ao conhecer sua luta pela preservação ambiental e por justiça social –, Paul decidiu dedicar a ele a canção How Many People (Quantas Pessoas), criada para o álbum Flowers In The Dirt (Flores na Sujeira), lançado em 1989.

No vídeo em que apresenta essa música, McCartney revela que ficou impressionado com a luta de Chico Mendes pela Floresta Amazônica. "Ele foi assassinado pela máfia local. Se ao menos fossem muitos, mas apenas alguns poucos estão dispostos a salvar o Planeta. Então, o mínimo que posso fazer é contar isso em algum lugar e, por isso, dediquei (a música) a ele. Antes de tocar How Many People, no ensaio de estúdio, Paul disse ao microfone: “Chico, pode me ouvir? Essa canção é para você, por tudo o que fez”.

Reprodução da internet Capa do disco Abbey Road - Beatles.

E os outros Beatles?

Entre os quatro, o oitentão Ringo Starr, quase sempre discreto em manifestações, forjou sua imagem pública celebrando e divulgando o símbolo hippie de paz e amor, caracterizado pelos dois dedos da mão em "V". Do que ele gosta mesmo, e se dedicou a isso após o fim da banda, é de divertir-se pelo mundo com sua All-Starr Band, na qual reúne gente mais ou menos famosa para turnês pelo mundo – esteve inclusive até aqui no Brasil.

George Harrison, o Beatle quieto como ficou conhecido, foi o primeiro dos três que aportaram por aqui (dos quatro, só Lennon fez forfait). Mas não veio ao Brasil para shows, mas sim para assistir, em Interlagos, a um grande prêmio de Fórmula-1, em 1979. Sua obra musical, romântica e de muito apuro técnico, reflete sua profunda espiritualidade. Seguidor do hinduísmo, George nunca foi de arroubos ambientalistas.

Num desses raros momentos, declarou que, na vida, “fi­ca­mos ema­ra­nha­dos na ig­no­rân­cia e nas tre­vas por cau­sa do nos­so ego e de nos­sa as­so­cia­ção com a ener­gia ma­te­rial. As­sim, não po­de­mos ma­ni­fes­tar Deus em ra­zão de to­da poluição que se jun­ta no meio do ca­mi­nho”. Para ele, “o cui­da­do com o Pla­ne­ta pro­va­vel­men­te co­me­çou em ou­tra vi­da. Quan­do eu era ga­ro­to, me sen­tia em con­ta­to com a na­tu­re­za, com o céu, as ár­vo­res, as plan­tas e os in­se­tos", disse.

Já o sonhador John Lennon, dedicou parte de sua vida pós-Beatles à outra relevante causa: a paz mundial. Sua liderança nas manifestações pela paz, principalmente contra a guerra do Vietnã, que acabou na maior derrota militar da história dos EUA, o levou a ser réu em processo que quase acabou com sua expulsão de Nova York. Foi naquele período que ele escreveu Imagine (1971), o hino de gerações, em cuja letra ele constrói a imagem utópica de um mundo igual – “nada para matar ou razão para morrer” – entre as pessoas, sem religião, sem países e sem propriedade privada.

Em julho passado, na abertura das Olimpíadas em Tóquio, aliás, cantores de todo o mundo interpretaram a música. Foi também uma tocante homenagem à japonesa Yoko Ono, a artista que virou celebridade mundial ao se tornar o grande amor da vida do ex-Beatle. Representantes de todos os continentes – “o mundo viverá como um só”, como John concebeu – cantaram Imagine: a beninense Angélique Kidjo (África), o espanhol Alejandro Sanz (Europa), o norte-americano John Legend (América), o neozelandês Keith Urban (Oceania) e o coral infantil japonês Suginami Junior Chorus (Ásia).

Reprodução da internet Capa do disco Sgt. Pepper`s - Beatles.

Filho magnânimo

Se Lennon nunca teve foco no meio ambiente, seu filho mais velho, o também músico Julian, sempre disse que a única coisa importante da sua conturbada relação com o pai foi a criação da Fundação White Feather (Pena Branca). Ele conta que John certa vez lhe disse: “Se alguma coisa lhe acontecesse, ele me mostraria que estaria bem, que todos nós ficaríamos bem, na forma de... uma pena branca”.

A instituição está envolvida em vários programas socioambientais. “Muitos projetos tocam-me o coração. Por exemplo, água potável é crucial para a sobrevivência. E é um problema crescente, com as alterações climáticas… E muitas empresas são gananciosas com recursos naturais, que deviam ser disponibilizados gratuitamente a todos nós.”

Julian relata ainda que outra frente importante da Fundação é o trabalho em favor das nações indígenas e a proteção das suas heranças: “Um dos nossos grandes projetos é na Amazônia: temos patrocinado a luta dos povos indígenas para que suas terras lhes sejam devolvidas.”

Uma luta, várias frentes

Paul James McCartney, que na intimidade dos fãs chama-se apenas Macca, sempre foi o maior ativista pela causa ambiental entre os quatro Beatles. Não começou tão cedo quanto Greta Thunberg, a adolescente ativista sueca que deflagrou um movimento global de jovens por ações efetivas de governos diante dos problemas de clima.

Em setembro, aliás, ela participou de audiência virtual na Comissão de Meio Ambiente do Senado brasileiro, sobre o relatório do Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas (IPCC), da Organização das Nações Unidas (ONU), que aponta a interferência da ação humana no aumento da temperatura do planeta.

Ela disse: “O que os líderes do Brasil estão fazendo hoje com os povos indígenas e a natureza é extremamente vergonhoso. O Brasil não tem desculpa para não assumir a sua responsabilidade. A Amazônia está no limite e vemos que agora está emitindo mais carbono do que consumindo por conta do desmatamento e das queimadas. Isso está sendo diretamente alimentado pelo seu governo.”

Mas nosso baixista favorito tem, como Greta, feito muito em prol do desenvolvimento sustentável. Em maio deste ano, por exemplo, Paul motivou seus seguidores compartilhando um link nas redes sociais para que assistissem ao documentário Seaspiracy, que aborda o impacto da pesca no meio ambiente.

O filme tem o objetivo de mudar a maneira como pensamos a conservação da vida marinha. Paralelamente, convida os espectadores a adotarem uma dieta à base de vegetais (ele é vegetariano...) para ajudar o Planeta.

Ainda em defesa dos oceanos, McCartney lançou, em novembro do ano passado, um novo clipe de sua música Winedark Open Sea (Mar Aberto de Vinho Escuro), de 1993. A iniciativa foi uma parceria com a organização não governamental Surfers For Climate (Surfistas pelo Clima). Ele explicou que todos têm a responsabilidade de fazer sua parte e que “é ótimo reunir pessoas com uma paixão compartilhada pelos mares e oceanos de todo o mundo por uma ação climática positiva”.

Mudanças climáticas

Em outro projeto, em meados desta década, Macca e grandes estrelas da música, como Jon Bon Jovi, Sheryl Crow e Fergie, lançaram a música Love Song to the Earth (Canção de Amor para a Terra), um manifesto visando chamar a atenção do mundo sobre os efeitos das mudanças do clima no Planeta. A ideia foi mobilizar líderes mundiais por iniciativas para reduzir a emissão de gases de efeito estufa na atmosfera. O dinheiro arrecadado com a compra e compartilhamento da música vai para a organização internacional Friends of the Earth (Amigos da Terra) e à Convenção Quadro das Nações Unidas sobre Mudanças do Clima (UNFCCC, na sigla em inglês), fundação da ONU.

Os eventos ligados às mudanças climáticas, aliás, estão sendo debatidos na Cop26, de 31 de outubro a 12 de novembro, em Glasgow. No encontro, 200 países deverão apresentar seus planos de corte de emissões pelos próximos 10 anos. Em 2015, durante a 21ª Conferência do Clima em Paris, todos eles concordaram em promover mudanças para manter o aquecimento global abaixo de 2°C em relação aos níveis pré-industriais. O que se quer é tentar atingir 1,5°C, para evitar uma catástrofe climática.

E, para se engajar no combate ao aquecimento global, a mais famosa ação de Paul foi quando pediu a seus milhões de fãs que aderissem à campanha de não consumir carne às segundas-feiras. Segundo a FAO, a agência das Nações Unidas para alimentação e agricultura, a produção de carnes mundial responde pela emissão de cerca de 20% dos gases causadores do efeito estufa (elevação da temperatura do ar causada pelo acúmulo de cristais de dióxido de carbono e de vapor de água na alta atmosfera, que impede que o calor da Terra se irradie, gerando o aquecimento global). Esse volume é superior à emissão de poluentes provenientes de todos os carros do mundo!

A revista Conexão Planeta, dedicada à sustentabilidade, me trouxe à memória uma história saborosa sobre o bom humor de Paul para tratar criticamente, mas com fina ironia, aqueles para quem a questão ambiental não tem relevância. É uma crônica sobre a música Despite Repeated Warnings (Apesar dos Alertas Repetidos), do álbum Egypt Station (Estação Egito), lançado por McCartney há três anos, em setembro de 2018. Observe trechos:

“Despite Repeated Warnings

Apesar dos constantes alertas

Of dangers up ahead

Sobre os perigos à frente

The captain won’t be listening

O capitão não estará ouvindo

To what’s been said

Ao que tem sido dito

He feels that there’s a good chance

Ele sente que há uma boa chance

That we have been misled

De termos sido enganados

And so the captain’s planning

E o capitão está planejando

To steam ahead

Seguir adiante

How can we stop him?

Como podemos pará-lo?

So, we gather around him

Então, nos reunimos em torno dele

Now the ropes that have bound him

Agora as cordas que o amarraram

It’s the will of the people

É a vontade do povo”

A letra fala de um capitão que, apesar de todos os alertas contra as mudanças climáticas, não escuta ninguém e continua navegando sem rumo. Questionado sobre quem seria a mente perturbada no comando do barco, Paul explicou numa entrevista ao canal BBC, de Londres: “Obviamente é o (Donald) Trump!”

Ter sido um certo capitão, se preocupar quase nada com a questão ambiental e estar sem rumo, além de ser um apoiador, sem filtro, da política negacionista do ex-presidente dos Estados Unidos, revelam semelhanças com o Brasil de hoje, não é não?

(*) Edson Chaves Filho, 68 anos, é jornalista com passagens por O Estado de S. Paulo, Globo e Jornal do Brasil. Apaixonado, fã e consumidor de Beatles desde 1963.







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2 comentários | Comente

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Teresa Cristina Machado |
Criativo e impactante texto a partir de conexões totalmente atuais, que só comprovam o quanto a cultura unifica a humanidade em questões que estimulam a cooperação global, do que precisamos nos conscientizar com mais que urgência. Parabéns, Chavinho pelo texto irretocável, uma referência !!

ANTONIO FLAVIO UBERTI COSTA |
Parabéns pelo belo texto rico em detalhes sobre os quatro Beatles e o meio ambiente. Acredito que se estivessem vivos, George Harrison e, principalmente, John Lennon estariam muito engajados ao lado dos que hoje se dedicam a importante tarefa da defesa do meio ambiente.

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