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Em Glasgow, o carvão sobrevive

Foi decepcionante a presença da União Europeia na COP-26, marcada pela hipocrisia e por um verdadeiro greenwashing. E acendeu-se a luz verde para autorizar de modo acelerado as infraestruturas de gás fóssil, inseridas na proposta de Taxonomia (para definir o que é “sustentável”), junto com a energia nuclear.

O comentário é de Giuseppe Onufrio, diretor do Greenpeace Itália, em editorial publicado em Il Manifesto, 14-11-2021. A tradução é de Moisés Sbardelotto. Via IHU On-Line.

Eis o texto.

A Conferência de Glasgow se encerra com um texto que, tendo sido fraco desde o início, foi ainda mais enfraquecido sobre o tema da eliminação do carvão, a pedido da Índia.

A distância entre a urgência das ações necessárias e a lentidão das negociações certamente não é uma novidade, mas desta vez está escrita preto no branco.

De fato, olhando para os poucos aspectos positivos do documento, sobrevive a referência ao cenário de contenção dentro de 1,5°C e a consequente necessidade de cortar as emissões de gases do efeito de estufa em 45% ao longo da década.

Mas a lacuna entre a tendência atual (de pelo menos +2,4°C) e os compromissos para alcançar o objetivo continua. A apresentação dos novos objetivos voluntários foi adiada para 2022, em atraso, portanto, em relação ao cronograma definido em Paris em 2015.

A COP-26, lembramos, deveria ter sido realizada no ano passado e foi adiada devido à pandemia. A sua importância estava precisamente no fato de que, decorridos cinco anos do Acordo de Paris, estava prevista a apresentação de compromissos mais ambiciosos, conforme exigido pelo mecanismo de negociação.

Desde 2015, era evidente que o andamento das emissões e dos compromissos já assumidos estavam levando a um aumento muito maior da temperatura média global, bem acima dos 2°C e, portanto, fora do objetivo de permanecer “bem abaixo” desse limiar e possivelmente em torno de 1,5°C.

A nota mais sensível diz respeito ao carvão. A emenda proposta pela Índia e depois aprovada para fechar a negociação, para substituir a progressiva eliminação (phase-out) do carvão com a sua redução (phase-down), é o sinal do fracasso dessa COP-26. Mas, mesmo com essa diluição, o carvão continua sendo a primeira fonte de energia a ser eliminada da lista, e é do interesse de todos os países fazer isso, e os ricos deveriam ajudar a financiar essa transição.

Em matéria de subsídios, foi incluída uma referência à “transição justa” – outro ponto positivo – para responder à questão tanto da reconversão dos trabalhadores do setor fóssil quanto das ajudas para não onerar as camadas mais fracas com os custos da transição.

Sobre a questão dos “offsets florestais”, ou seja, as licenças de emissão associadas às compensações florestais, o texto é muito ambíguo e cheio de atalhos, e foi anunciado pelo secretário-geral da ONU que ele será submetido a revisão.

Ainda há muito a ser feito para evitar que o comércio desses certificados anule todo esforço sério para reduzir as emissões.

Sobre os compromissos financeiros dos países mais desenvolvidos visando a compensar os danos climáticos aos países menos desenvolvidos, os números necessários ainda estão longe do necessário, e esse é um aspecto que também deveria estar entre as prioridades da conferência do ano que vem no Egito.

Foi politicamente positiva a inesperada apresentação de um documento conjunto China-EUA, que, embora não contenha compromissos minimamente adequados ao desafio, espera-se que possa se traduzir em uma colaboração efetiva que seria necessária.

Por outro lado, foi totalmente decepcionante a presença da União Europeia marcada pela hipocrisia e por um verdadeiro greenwashing. De fato, nas últimas duas semanas, as propostas da comissão deram luz verde para autorizar de modo acelerado as infraestruturas de gás fóssil que inseriram na proposta de Taxonomia (para definir o que é “sustentável”) junto com a energia nuclear, e, nos últimos dias, as autoridades estão trabalhando para enfraquecer a proposta de lei que proíbe a importação de produtos provenientes do desmatamento. O “Green New Deal” europeu – à espera do novo governo alemão? – sai realmente redimensionado.

A Itália aderiu inesperadamente à coalizão BOGA (Beyond Oil and Gas Alliance). Trata-se de um pequeno grupo de países que assume como objetivo eliminar também o petróleo e o gás. No entanto, aderimos sem compromissos específicos ao grau mínimo de envolvimento, como “amigos”.

Vamos ver se, como “amigos” de quem também quer eliminar o petróleo e o gás, o governo será capaz de reiniciar as energias renováveis (e não as perfuratrizes), como prometeu, desbloqueando os processos de autorização como também está sendo anunciado nestes dias. Seria a hora.







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