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Sustentabilidade: quando egoísmo e altruísmo se encontram

Por Danilo Maeda e Roberta Garattoni (*)

Pelo dicionário, são substantivos opostos. Enquanto um olha para o indivíduo, outro prioriza a sociedade. Na vida real, contudo, não é bem assim. Egoísmo e altruísmo são como primos distantes, que aplicam métodos diferentes na busca do mesmo propósito: alcançar segurança e bem-estar. Pesquisas em sociobiologia e psicologia social descobriram que sensações como conexão, conforto, aceitação e até autopreservação estão entre as principais motivações de quem procura fazer o bem para si ou para os demais.

Tais ideias se conectam com o conceito de desenvolvimento sustentável – atender as necessidades da atual geração sociedade sem comprometer a capacidade e os recursos necessários para as próximas buscarem seu próprio bem-estar. De certa forma, sustentabilidade pode ser considerada sinônimo de altruísmo.

Em outras palavras: é fundamental considerar os interesses de diversos stakeholders. A boa notícia é que vale a pena. Empresas com boa gestão ESG apresentam desempenho financeiro consistentemente superior ao longo do tempo. Um levantamento do Valor Data, por exemplo, indicou que, de dezembro de 2009 a 18 de maio de 2021, o Índice de Sustentabilidade Empresarial (ISE), da B3, teve alta de 105,48%, contra 79,30% do Ibovespa.

Os números têm razão de ser. Quando uma companhia patrocina um projeto de capacitação profissional no entorno de suas operações, por exemplo, contribui para o desenvolvimento socioeconômico local. A prática gera melhoria em indicadores de segurança e qualidade de vida na região e retorno positivo de longo prazo, com preservação da licença social para operar, disponibilidade de mão de obra especializada (que pode atuar na própria organização) e engajamento positivo com consumidores conscientes. Em suma, um cenário em que o altruísmo rende frutos para todos – o famoso valor compartilhado.

No entanto, por mais que pareça surpreendente, uma pitada de egoísmo também pode ajudar, se misturada a doses generosas de altruísmo. Tão importante quanto olhar além do próprio umbigo (ou fazer gestão além do CNPJ) é pensar em como os stakeholders podem atuar em favor do crescimento do negócio. O caminho é relativamente simples: priorizar temas da agenda ESG que estejam alinhados ao core business das companhias e construir soluções em conjunto com os públicos estratégicos para conciliar o melhor interesse de cada participante do ecossistema. Afinal de contas, é no escopo do seu negócio principal que costuma estar o melhor que uma organização pode oferecer.

Em termos práticos: uma empresa de embalagens que tenha grande know-how em técnicas e processos de reciclagem, tem imenso potencial de entregar – e obter – impacto positivo ao apoiar e aprimorar o trabalho de cooperativas de catadores e pequenos negócios do setor, culminando em um belo case que funde os pilares ambiental e social. Neste contexto, a geração de valor compartilhado é maximizada a partir da excelência e experiência de que a companhia dispõe – e tende a sofisticar cada vez mais com o passar do tempo, entrando em um ciclo virtuoso de desenvolvimento sustentável.

Mas nem todos os caminhos são feitos sem percalços. É relativamente comum que estratégias que gerem valor compartilhado no médio ou longo prazo necessitem de investimentos imediatos. Não à toa, um dos grandes debates atuais é sobre como conciliar a gestão dos temas ESG que afetam o resultado financeiro das empresas com os impactos socioambientais positivos e negativos causados pelas organizações, mas que trazem retorno para o negócio apenas indiretamente ou no futuro.

Diante deste impasse, retornamos ao egoísmo e ao altruísmo, os “primos” da nossa história. Em teoria, eles fariam de tudo para não estarem na mesma roda de conversa, mas fica aqui uma sugestão: que marquem um café para falar da vida e, quem sabe, comecem um projeto conjunto que alie impacto socioambiental e resultado financeiro com retornos sustentáveis e de longo prazo. Para cada indivíduo e para toda sociedade. É assim que se atinge o desenvolvimento sustentável.

* Danilo Maeda é Head da Beon, consultoria de ESG do Grupo FSB.

Roberta Garattoni é publicitária e consultora de comunicação e sustentabilidade.







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