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PLURALE EM REVISTA, 75 - Silvio Tendler, o menino que não queria crescer

Por Maria Helena Malta, Especial para Plurale

Matéria na íntegra - publicada na Edição 75 de Plurale em revista

Fotos do Arquivo pessoal de Silvio Tendler

Alguns podem não concordar, mas ele continua com 12 anos de idade. O cineasta Silvio Tendler, além de intuitivo, jamais deixou de ser inquieto e avesso a regras. E isso principalmente quando mergulha em sua luta pela transformação do mundo, dentro ou fora do limite de seus filmes históricos. Em mais de 50 anos de cinema e 76 documentários, vale destacar, entre outros, Os anos JK (1980), Jango (1984/Margarida de Prata da CNBB), Josué de Castro (1994), Castro Alves (1998), Milton Santos (2001), Glauber (2003/Hors Concours em Cannes), Utopia e barbárie (2005), Sonhos interrompidos (2010), Tancredo, a travessia (2011), Há muitas noites na noite (2015/sobre o Poema Sujo de Ferreira Gullar), Em busca de Carlos Zéfiro (2020), e o novíssimo A bolsa ou a vida (2021), que estreou na 10ª Mostra Ecofalante, em São Paulo, e revela a destruição provocada pelo neoliberalismo na área socioambiental, durante e após a pandemia. Em todos eles, Silvio não deixa de lado a tragédia, o riso e, sobretudo, esperança e ternura. Tudo indica que o garoto engoliu um pedaço daquele fragmento de utopia que, segundo Barthes, ainda sobrevive por aí.

Não por acaso, o filme Os anos JK levou os brasileiros àquele país marcado pelo sorriso otimista de Juscelino, cujas obras, sobretudo Brasília, inspiraram até um movimento artístico: o concretismo. Para surpresa de Silvio, a bilheteria chegou a 800 mil espectadores! Na época, o cineasta soube que Raul Ryff, ex-assessor de Imprensa do também ex-presidente João Goulart, havia guardado uns filmes das viagens de Jango à China e à União Soviética. Ficou curioso. O gaúcho Ryff logo propôs: “Por que tu não fazes um filme sobre o Jango?” Mas o cineasta tinha muitas dúvidas e não tinha dinheiro.

Ryff resolveu ajudar e, logo depois, marcou um encontro de Silvio com Denise Goulart, a filha de Jango, que mergulhou de cabeça no projeto: “Ela botou grana do próprio bolso e até viajou comigo ao Uruguai e à Argentina, para o resgate dos arquivos do pai”. Depois, foi só acionar a mágica do cineasta avesso a roteiros que, como sempre, usou apenas o talento e a cabeça, ao juntar memórias, entrevistas, fotos de arquivo e imagens novas, numa colagem que leva ao choro, ao espanto e à reflexão. Conclusão: um dos mais emocionantes documentários de Silvio, o premiado Jango: como, quando e porque se depõe um presidente, foi além de todas as previsões e atraiu um milhão de espectadores!

Trinta e oito anos depois, Silvio continua filmando e militando, e foi o primeiro professor de Cinema do Brasil, na Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro (PUC-Rio. Hoje ele também brilha em seu programa Estados Gerais da Cultura, exibido pela TV da Associação Brasileira de Imprensa (ABI), em parceria com sua produtora, a Caliban (acesso pelo Youtube), onde apresenta debates que fazem parte de sua luta permanente por um Brasil mais fraterno. Lá, é possível conhecer a opinião de oprimidos de todos os tipos, assim como as ideias de pensadores como o sociólogo, professor, escritor e poeta português Boaventura de Sousa Santos, sem contar, claro, os muitos debates sobre cinema.

Recentemente, o talento de Silvio Tendler nos rendeu o documentário A bolsa ou a vida, focado na desigualdade social e no massacre do meio ambiente, durante a pandemia do Covid-19. Pelo filme, desfilam as brechas que conduzem à morte, as matas perdidas ou ressecadas, os seres humanos que dormem nas ruas, a doença da fome, o sangue que respinga das favelas todos os dias, a busca penosa do tão alardeado país do futuro. No debate sobre o filme, o cacique Almir Suruí faz o seu desabafo: “Queremos que o mundo saiba e mude sua atitude em relação à natureza, à nossa floresta. (...) A exploração caótica ameaça o nosso estilo de vida, o de todos os brasileiros e o de todo o planeta!”

Um otimista entristecido

Não por acaso, o morador de rua que abre o documentário diz: “Ei, mister! Esse ouro que você acumulou vai pesar no seu caixão. Você acha que assim vai chegar ao céu?” Bem ao estilo de Oswald de Andrade, o filme também lembra as caravelas que trouxeram “um modo de ser que não tem nada a ver com a gente”. E propõe: “Temos que afundar as caravelas!” Uma voz lembra os filmes de Tarantino, “porque ele sempre explode o que deve ser explodido!” Outra voz, a da jovem personagem Duda, sempre trabalhando em sua moto, acaba arranjando um emprego fixo, mas não consegue comemorar. Como ela mesma diz, passa a ter “um lugar pra fazer xixi, mas não muito mais do que isso...”

Numa espécie de crítica aos excessos de naturalismo de alguns, Silvio lembra que vivemos num sistema de consumo, com celular, internet e outros confortos essenciais até mesmo ao trabalho. O que seria de Duda e sua moto, sem o velho combustível fóssil? E conclui: “O vírus é a vingança da natureza contra a exploração humana, mas a vacina tem nos salvado. Podemos ser negacionistas? Não!” E mais: “Não sei se vou viver o futuro diferente que almejamos, sem essas reformas que não alteram em nada a estrutura da desigualdade. Mas tenho que lutar por ele, senão vai ser um tédio. Eu sou um otimista, sim. Um otimista entristecido.”

Triste ou feliz, este talento do cineasta, sempre mesclado de rebeldia, seria confirmado, se vivo fosse, pelo sapeca Tarzan, um basset hound que foi o primeiro de uma série de cães da família Tendler. Ou, pelo menos, do trio formado por Sergio, o mais velho dos irmãos, Silvio e Sidnei, o caçula. Com dois anos de idade, Silvio mergulhou nas fezes do pequeno Tarzan, que pareciam massa de brigadeiro. Tão deliciosas quanto os quadrinhos pornôs de Carlos Zéfiro, seu companheiro das mal dormidas noites adolescentes, quando descobriu as duas coisas que mais amaria na vida: cinema e sexo. “Aquele gibi era o meu catecismo!”

Nos anos 50, a família morava num casarão da Rua Alves de Brito, na Tijuca, com direito a quintal e árvores frondosas, que davam até sapoti e abil, frutas raras no Rio de Janeiro. “O melhor de tudo eram as noites em que os morcegos apareciam e meu pai iluminava aqueles ratos voadores com sua lanterna...”

O tijucano Silvio Tendler hoje se considera um “copacabanense” por adoção e paixão. “Copacabana é plural, promíscua, maravilhosa!”, define. A mudança se deu em meados da década, quando o pai alugou um apartamento na Rua Raimundo Corrêa, onde o garoto logo se viu no “Paraíso dos cinemas”, entre o Metro e o Art Palácio e, mais adiante, o Copacabana e o Roxy, o Rian, o Riviera, o Condor, o Ricamar e, claro, o Alaska, especialista em filmes pornô. Ele ia de japona pesada, ainda que fosse verão, para se esconder dos olhares indiscretos. Com o advento da ditadura e a censura das cenas “impróprias”, um Silvio ainda solitário preferiu ficar em casa com Zéfiro.

Ainda pequeno, o garoto não perdia as matinês de Tom e Jerry na companhia do pai, aos domingos, tampouco as peripécias de Carlitos e da série O Gordo e o Magro. Só mais tarde passaria a frequentar o Paissandu, no Flamengo, um dos redutos da militância estudantil cinéfila, sem falar na cinemateca do Museu de Arte Moderna (MAM) e nas sessões da Maison de France, com destaque para os filmes do movimento avant-garde.

A primeira “saliência”

A família Tendler tinha acesso à tecnologia mais avançada, que o pai escondia em seu guarda-roupa. Eram várias câmeras e um projetor Bell & Howell, que Silvio depois usaria na favela de Padre Miguel - quando montou o itinerante Cineclube Charles Chaplin - para projetar Os companheiros, de Mario Monicelli, e levar “consciência política” aos cariocas mais pobres. “Como se eles já não vivessem o drama da vida”, ironiza hoje.

Mas o cineclube também funcionava na casa de um ou outro membro, com preciosidades como O processo, de Kafka, na adaptação de Orson Welles, e Guerra dos botões, na clássica versão de Yves Robert, baseada no livro do francês Louis Pergaud, sem contar o faroeste que grassava na época. Essas sessões, com filmes alugados de 16mm, eram sempre regadas a muita Coca-Cola e cachorro-quente, gentilmente fornecidos pela família da vez.

Os pais, Adolpho e Sarah, com raízes na Ucrânia e na Bessarábia respectivamente, formavam a primeira geração da família de mascates que chegou à universidade – ele, formado em Direito, mas enriquecendo com o talento para os negócios; ela, recém-saída da Academia de Música, dando aulas de piano para financiar o curso de Medicina. A cada sexta-feira, Adolpho chegava em casa com vários filmes alugados. Era uma festa! “Uma tia também me deu uma câmera simplória e eu fazia as primeiras fotos em filmes 6 x 6”, recorda Silvio. Adolpho se preocupava com aquela paixão nascente e temia que seu filho fracassasse. Insistia para que estudasse Direito.

Nem tudo era cinema, porém. Bem antes desta fase, aos sete anos de idade, o garoto cometeu sua primeira “saliência”, como ele mesmo define. Brincou de médico com a vizinha Helena, fingiu que lhe dava uma injeção anestésica e ela, conforme o roteiro, fingiu que dormia. Silvio aproveitou para levantar a calcinha da menina, tentando inocentemente “desvendar o mistério do corpo feminino”. O problema é que houve uma festa na mesma semana, na casa de um vizinho moralista, e a garota, também de forma inocente, decidiu contar tudo aos amigos presentes. Em resumo: tachado de imoral, Silvio foi expulso do regabofe. “Foi a minha primeira transgressão e a primeira repressão que sofri”, resume.

Silvio tinha 10 anos quando assistiu às primeiras cenas de racismo explícito, como ele diz. Um dia, brigou com um garoto na rua e o outro reagiu: “Você é judeu e matou Jesus!” Estudava na Escola Israelita Brasileira e o ônibus marrom, levando um bando de crianças sardentas como ele, foi logo apelidado de “galinheiro de judeuzinhos”.

A essa altura, Adolpho já estava rico e a família morava num apartamento duplex, de 700 metros quadrados, na Rua Anita Garibaldi. Não faltavam luxos, dos detalhes em mármore de Carrara à escada com seu corrimão forrado de veludo turquesa, tudo decorado pelo famoso marquês Terry Della Stuffa.

Mas a boa vida durou pouco. Numa noite chuvosa de sexta-feira, quando todos jantavam, o telefone tocou. O pai atendeu e, de repente, ficou lívido: era um funcionário de sua empresa, que saíra do escritório para um chope com amigos e voltara correndo para pegar o guarda-chuva que havia esquecido. Ao abrir a porta, dera de cara com a cena pavorosa que agora narrava: o corpo do sócio de Adolpho, que se endividara com negócios paralelos, balançava com o vento que entrava pela janela, preso apenas pelo pescoço nas cordas da persiana.

“Dormi rico e acordei pobre”

A realidade virou de ponta-cabeça: depois de vender quase tudo que tinha, inclusive o apartamento, aquele pai pagou todas as dívidas do sócio, trocou o colégio dos meninos e até o Oldsmobile virou uma Kombi. Com o troco, comprou um apartamento

de dois quartos na Avenida Nossa Senhora de Copacabana. Silvio percebeu que os colegas do Andrews olhavam para ele com pena, mas jamais reclamou por ter ido para uma escola pública. “Pois é: cheguei da escola rico e acordei pobre.” A mãe, já formada

em Medicina, trabalhava o dia inteiro e o pai, que tivera um princípio de enfarte com aquelas perdas, foi obrigado a repousar por uns tempos. Muito politizado pela própria família e moldado pelo chamado “humanismo judaico”, com um leve tempero anarquista, Silvio aproveitava aqueles dias no ar condicionado do quarto dos pais para ler os inúmeros jornais que Adolpho comprava. Naquela época, entre matutinos e vespertinos, o Rio de Janeiro contava com uns sete jornais diários.

Em 1963, a família voltou para a Raimundo Corrêa. Silvio havia levado pau no colégio, mas divertia--se com a vizinhança bizarra, que incluía até um mágico charlatão e uma jovem mulher chamada Índia, que foi seu primeiro amor platônico. “Todos os garotos eram loucos por ela, que brincava sempre com a gente, sob a discreta supervisão do companheiro de fartos bigodes, que fingia não ligar.”

Dentro de casa, o irmão Sidnei, com apenas 6 anos, vivia reclamando: “Eu dividia o quarto com meu irmão Silvio, grande punheteiro, sempre com as melhores revistinhas do Zéfiro. Eu dormia de luz acesa, minha mãe entendia, mas meu irmão ficava puto comigo.”

Um dos banheiros já havia virado laboratório fotográfico de Sílvio e o quarto do irmão mais velho, Sergio, era uma verdadeira oficina mecânica, com pneus de uma Honda desmontada servindo de mesa de cabeceira. Silvio ganhou um mimeógrafo e também montou uma gráfica, onde imprimia o jornalzinho O Polinômio. Como se não bastasse, Sidnei ganhara um kart de Papai-Noel e vivia dirigindo do quarto dos pais até a sala. Quando quebrou uma jarra da mãe, foi obrigado a levar o brinquedo para a calçada.

Para piorar, Astor, o cachorro da época, que se recuperava de uma fratura na bacia, deixava fezes e urina por toda a sala. No meio disso, o pai ia conseguindo se recuperar. Comprou terrenos e pequenos prédios baratos no Leblon, que ainda era um imenso areal, e os negócios logo o transformaram em sócio de uma grande construtora.

No fim do ano Silvio descobriu que ficara em segunda época e ficou arrasado. Na volta para casa, viu um anúncio pregado no poste, sobre um tal Colégio Duque de Caxias: “Aqui você passa com média 4”, dizia o panfleto. Chegou em casa eufórico e anunciou à mãe: “Eu trouxe um problema e uma solução.” Ela só quis ouvir a solução.

Aquela mãe era o seu orgulho. Ainda nos anos 50, ela já lia Simone de Beauvoir, Erich Fromm e outros pensadores. “Minha mãe estava à frente de seu tempo”, diz o filho. Ela e Adolpho falavam de Sartre, jazz, existencialismo e até dos Beatniks. “Soava engraçado para uma família de classe média em ascensão social curtir os precursores dos Beatles.” E havia a conversa política, envolvendo assuntos como a Guerra Fria (e as vítimas dos dois lados) e o Macarthismo nos Estados Unidos, que perseguia até astros de Hollywood.

Silvio completaria 14 anos no dia 12 de março de 1964, véspera do comício de Jango na Central do Brasil, que seria feriado. Animado, ele foi à Dijon, uma loja de roupas masculinas, comprou uma camisa de seda e uma calça Lee branca, o top da época. Com os discos dos Beatles e uma vitrolinha portátil, fez uma grande festa para os amigos. Ainda bem, porque logo, logo não haveria mais nada para festejar.

No dia 31 de março de 1964, aos 14 anos, em meio ao clima de rumores, Silvio chegou da escola e ligou a rádio transoceânica, que anunciava um certo movimento de tropas em Minas Gerais. No dia 1º de abril, estava no cinema quando ouviu uma gritaria e, ao sair até a rua, descobriu que era a Marcha da Família com Deus pela Liberdade que, segundo o garoto, reunia “todas aquelas mulheres pudicas”. Ele conta que foi ali na calçada que viu, pela primeira vez, a chamada luta de classes: “A classe média, lacerdista em sua maioria, comemorava, enquanto os porteiros dos prédios, cabisbaixos, mantinham no ouvido o rádio de pilha, tentando captar alguma notícia de resistência.”

Àquela altura, o prédio do jornal Última Hora, do oposicionista Samuel Wainer, já havia sido apedrejado, saqueado e queimado. “O golpe estava dado. No dia 2, meu pai me enviou, com meu irmão, pra minha primeira transa, na casa da Dona Dirce, no famoso prédio da Rua Barata Ribeiro 200. Eu não gostei da ideia porque não conseguia gozar e tinha vergonha. Mas meu pai queria ‘filhos machos’!”

Chegando lá, Silvio contou seu segredo à Dona Dirce. Ela foi gentil e deixou o garoto por conta de sua melhor profissional. “Eu me deitei, mas não gozei, claro. Mesmo assim, fiquei feliz de pensar que, enquanto marchavam com velas na rua, eu marchava com a Zelinda!” Dias depois, Silvio acordou no escuro de seu quarto, incomodado com o volume que crescia (e doía) no pijama. “Até que, de repente, saiu aquele jorro e eu senti um grande prazer! No dia seguinte, na praia, olhando o horizonte, eu só pensava naquilo. E desejava fazer aquilo pelo resto da minha vida. Nos intervalos, faria cinema.”

Quando o garoto lia os jornais de abril – sobretudo a Última Hora e o Correio da Manhã - com textos de Cony, Marcio Moreira Alves, Poerner e Sergio Porto (o Stanislaw Ponte Preta), dizia a si mesmo: “Eu quero ser como eles”. Quando a peça Opinião estreou no Teatro de Arena e depois ele viu a exposição da modernista Tarsila do Amaral e o vanguardismo de Rubens Gerchman na galeria do MAM, teve certeza: “Eu vivia naquele mundo e queria ser como eles.”

Hoje, nas noites silenciosas, ele revê imagens do chope preto do Castelinho, no Arpoador, e da Cinemateca do MAM, da qual ganhara carteirinha permanente do diretor Cosme Alves Netto, fundamental na vida de Silvio. Se ele assistiu ao underground norte-americano, aos filmes do vanguardista canadense Norman McLaren, aos desenhos romenos de Ion Popescu-Gopo e aos clássicos soviéticos, como os de Eisenstein, “foi graças à ousadia do diretor da Cinemateca”, que depois seria preso e barbaramente torturado.

Silvio e sua turma transpiravam cinema e imitavam Glauber e Godard com suas camisas de marinheiro compradas na Casa Rumo ao Mar, a calça Lee e o famoso topa-tudo - o tênis em formato de botinha fabricado em lona verde. “Era o uniforme da época de um jovem engajado”, comenta sorrindo. Não por acaso, eles seriam alguns dos muitos tachados de “esquerda festiva” pelo jornalista e teatrólogo Nelson Rodrigues.

No edifício da Raimundo Corrêa 27, “no ano mágico de 1968”, Silvio Tendler fez sua primeira participação em um filme, o curta Fantasia para ator e TV (sobre o impacto da televisão na vida do cidadão comum), com alguns vizinhos especiais: ele foi assistente de direção de Paulo Alberto Monteiro de Barros (depois Artur da Távola), com produção de Zelito Vianna! Leila Diniz fez uma ponta.

Bem antes disso, porém, o garoto cometeu a primeira “falcatrua”. O Lerer (professor, em iídiche) Tabak, que estava sempre na porta do colégio, atento, certo dia indagou: “Silvio, por que você faltou ontem?” O menino, que havia cabulado, não titubeou: “Meu tio morreu”. Não poderia ter sido pior. O professor, que conhecia cada um dos alunos da escola, ficou chocado: “Qual deles?”, indagou. E o garoto disse a segunda mentira: “Miguel”. O outro se espantou: “O Miguel?!” Silvio logo pensou: “Vai dar merda”.

E, de fato, não deu outra. No dia seguinte, na entrada, o mesmo professor afirmou: “Silvio, liguei para sua tia Norma para dar os pêsames. Adivinha quem atendeu?” Assustado, o garoto nem abriu a boca. “O Miguel atendeu, Silvio! Saudável e muito bem-disposto.” O menino, com um riso amarelo, só conseguiu gaguejar: “É mesmo?”

Silvio podia não gostar das regras escolares, mas era um curioso cultural. Ainda pequeno, apaixonou-se pela ficção. “Minha mãe lia para mim a história francesa d’O elefante Babar, que viajava pelo mundo. “Eu chorava, chorava muito...” Mas Silvio também mergulhou nos gibis e, na adolescência, virou um devorador de livros: O pequeno príncipe, claro, além de Oswald de Andrade, Viriato Corrêa, “muito Monteiro Lobato”, Darcy Ribeiro, Isaac Deutscher (O judeu não judeu). Jorge Amado e Graciliano Ramos, sem contar a Revista Civilização Brasileira. Além disso, conheceu o Teatro Oficina e José Celso Martinez Corrêa, que fizeram sua cabeça em teatro, como ele diz. Curtiu Galileu Galilei, de Bertold Brecht, O rei da vela, de Oswald de Andrade, e Roda Viva, de Chico Buarque, que embalaram seus sonhos. No cinema, descobriu Glauber (Deus e o diabo na terra do sol e Terra em transe), Leon Hirszman (Maioria absoluta), Roberto Santos (A hora e a vez de Augusto Matraga) e Jean-Luc Godard (Acossado), entre outros.

Ele jamais se cansaria de ver os filmes de Bergman no Alvorada, tampouco as sessões da meia-noite no Paissandu, com os “filmes-cabeça” de Truffaut, Bresson ou Richard Lester e a inesquecível estreia de A chinesa, de Godard. “Eles me ajudaram com o conflito ético-étnico: sem abrir mão das raízes judaicas, decidi ser um brasileiro e viver o sonho do internacionalismo e da solidariedade.”

A primeira experiência cinematográfica, com Paulo Alberto e Zelito, só reforçou os sonhos do garoto. Ele andava irritado com o pai desde a Guerra dos Seis Dias, quando botara na cabeça a ideia de emigrar para Israel e viver num kibutz. Adolpho não havia deixado. “Fiquei muito puto na hora, mas acabei entendendo que ele estava sendo sensato.” Em compensação, além do cineclubismo (que adotou com paixão), Silvio participou de todas as manifestações estudantis de 1968.

O “Almirante Negro” e a Manuela de Cuba

Pouco antes, o garoto conhecera o cineasta Joaquim Pedro de Andrade, que estava terminando seu famoso Macunaíma, baseado na obra de Mário de Andrade. Para Silvio e seus amigos do cineclubismo, foi uma aventura e tanto: “Ele projetava e nos mostrava como filmou cada cena. Não sei quem era mais menino: se nós, diante do gigante Joaquim apesentando seu filme, ou se ele, curtindo o brinquedo novo...” Joaquim Pedro foi preso logo depois, acusado de ser “comunista”.

Mais adiante, Silvio leu e se apaixonou pela história da Revolta da Chibata, de 1910. Marinheiros liderados por João Cândido Felisberto, o “Almirante Negro”, revoltaram-se contra o uso arbitrário da chibata a bordo dos navios da Marinha brasileira. Terminaram assumindo o comando da embarcação e apontaram os canhões para o Palácio do Catete. Nas negociações com o governo, exigiram o fim do castigo cruel. Depois de muita tensão, o governo cedeu, fez o acordo, mas não cumpriu.

O resultado da história, bem conhecido, incluiu uma série de perseguições, transferências e baixas. O próprio João Cândido acabou virando vendedor de peixe na Praça XV. Encantado com a possibilidade de fazer um filme sobre a revolta, Silvio saiu à cata de informações e descobriu que o personagem fora tema de um livro do jornalista Edmar Morel e havia sido entrevistado pelo historiador Hélio Silva para o arquivo do Museu da Imagem e do Som (MIS).

Empolgado, Silvio chegou a Ricardo Cravo Albim, então diretor do museu, que lhe deu os contatos de João Cândido. Foi à longínqua São João de Meriti, na Baixada Fluminense, e encontrou o velho almirante em sua casa, na Rua Esmeralda. Filmou uma longa entrevista e saiu feliz como nunca. Aquele seria seu primeiro filme, com apenas 19 anos!

Os fatos, entretanto, se precipitaram. Um dia, recebeu uma ligação do amigo Elmar e foi até lá. Mas havia muita gente na casa e o amigo, discreto, limitou-se a perguntar: “Você gostaria de ir para Cuba?” Silvio, que estava pronto para qualquer lugar mais atraente que o Brasil da ditadura, disse que sim. “Cuba me seduzia mais do que tudo. A língua era mais fácil, o país era mais perto de casa, tudo era mais sexualizado. Havia Mirta Ibarrar e Dayse Granado, sem contar Adela Legrá (a Manuela do filme Lucía, de Humberto Solás) que virou musa nos meus delírios revolucionários e onanistas noturnos...”

Mas a viagem não ocorreu. Em vez disso, ao abrir os jornais do dia seguinte, Silvio descobriu que um Caravelle da Cruzeiro havia sido sequestrado. Na lista dos passageiros, viu que Elmar estava a bordo. Como amigo próximo, assustou-se. A primeira providência foi esconder o filme inacabado do “Almirante Negro” com um amigo que não tinha qualquer envolvimento com a militância política. “E eu estava certo. A polícia me procurou, abriram processo, foi todo aquele auê. Fiquei clandestino em 69, com muito medo. Mas dei depoimento na Aeronáutica e fui salvo pelo Afrânio Aguiar, comandante da Base Aérea de Belo Horizonte (MG), que era amigo da família. Sem a ajuda dele, acho que teriam me matado...”

As más notícias, porém, não haviam acabado. Em plena vigência do Ato Institucional nº 5 (AI-5), baixado em dezembro do ano anterior, Silvio logo ficou sabendo que a namorada de seu amigo, amedrontada com a escalada da ditadura, havia queimado o filme da Revolta da Chibata, que continha a longa entrevista do “Almirante Negro”.

O momento era difícil sob todos os aspectos. Silvio se sentia perdido, “com a cuca fundida”. Já havia largado a Faculdade de Direito, não era hippie e também não gostava de soluções extremistas. Para animá-lo e protegê-lo, o pai colocou-o no Movimento Sionista, onde o menino foi feliz por algum tempo. “Sonhávamos com outro país, sonhávamos com o socialismo! Mas eles eram muito ricos e eu era meio outsider, além de não ser um cara bonito.”

Para fugir às escolhas que haviam sobrado para sua geração, Silvio ia para Paraty, a pequenina cidade colonial na Costa Verde do Rio. “Eu não queria entrar nas drogas, nem queria luta armada. Minhas únicas transgressões eram as batidinhas de frutas”, revela. No Rio, frequentava os bares de intelectuais e artistas, como o Limão Sul, em Copacabana, o Álvaro’s (Leblon), o Varanda e o Zeppelin (ambos em Ipanema). Só havia um problema: ele não tinha namorada. “Um dia, na banca de jornal dos italianos, que ficava na esquina do meu prédio, conheci a lindíssima Fátima (ou Timinha) e me apaixonei. Acho que ela gostou de mim porque também se sentia rejeitada – era negra.”

Silvio fez um imenso pôster da namorada e botou no seu quarto. Resultado: Adolpho, o pai, não entrava mais lá. Consequência: Silvio saiu de casa e foi morar numa caveira de porco em Santa Teresa. Até que Allende ganhou as eleições no Chile. O garoto decidiu ir para lá e começou a fazer uma vaquinha entre os amigos. Quando o pai percebeu que era inevitável, resolveu ajudar. Antes, porém, fez uma exigência: queria que Silvio passasse por um psiquiatra. O garoto, esperto, escolheu uma especialista de esquerda, a Dra. Renée Figueiredo, que deu a Adolpho o diagnóstico que Silvio esperava: “Seu filho está lúcido e equilibrado. Louco é quem aguenta a ditadura de Médici.” Em novembro de 1970, o menino embarcou de avião.

No Chile, além de participar de projetos culturais para a população, ele conheceu Tetê Montenegro, que seria sua primeira paixão chilena. Mulher do dirigente comunista Augusto Chamorro, ela era alta, esguia, estilo nouvelle vague. “Parecia ter saído de um filme do Lelouch, Truffaut ou Godard.” Tempos depois, reencontrou a namorada brasileira, Timinha. Ela chegou ainda em dezembro e, já no táxi, foi contando as travessuras sexuais. “Doía menos o chifre do que o constrangimento diante dos amigos”, confessa o namorado.

Silvio viajou com ela Chile afora, sempre registrando tudo com sua filmadora e, no Natal dos Pobres do Palácio La Moneda, foi chamado de Viejo Pascuero (Papai Noel), ao sair, acompanhado de um palhaço, para visitar orfanatos e hospitais infantis. Fez vários documentários, inclusive Balneários Populares (história dos resorts construídos para as férias de operários), com o cineasta Hugo Araya (que seria assassinado no golpe de 11 de setembro), e esteve com Thiago de Mello e Darcy Ribeiro. Além disso, visitou as minas de cobre, assistiu à visita de Fidel Castro e, como se não bastasse, ainda fez um curso na Escola de Sociologia do Instituto Pedagógico, onde foi aluno de Enzo Falleto, o mesmo discípulo de Martha Harnecker que escreveu a Teoria da Dependência com Fernando Henrique Cardoso. Estava extasiado com aquela democracia, evidente até na banca de jornais. “Do El Mercurio à revista esquerdista Punto Final, a liberdade de expressão brilhava. Tão diferente da América dos generais...”

Depois de muitas andanças, sempre com Timinha, embarcou para a Argentina nas férias de julho de 71, para um encontro com os pais. Foi aí que perdeu a namorada, que havia viajado para o Brasil e aqui conhecera David - segundo ela, um black panther norte-americano. Quando o tal David chegou ao Chile, Silvio se espantou: “Era mais branco do que eu, alto, louro e de olhos azuis.”

Em julho de 73, quando voltou rapidamente ao Chile, após mais de um ano estudando em Paris, Silvio assistiu à crescente radicalização política, “com o país dilacerado por ideologias e a esquerda se dividindo por dentro”. Na entrada do La Moneda, presenciou uma áspera discussão de Allende com o ex-ministro da Aeronáutica, Cézar Ruiz, então ministro de Obras e Transportes, sobre a greve dos caminhoneiros que paralisava o país. Do lado de fora, a esquerda moderada (PC) e a radical (MIR) discutiam aos berros e chegaram a sacar as armas.

No mesmo dia, jantou num bar tradicional de Santiago, o El Bosco, onde encontrou um velho militante socialista, que ia saindo, já meio bêbado e trôpego. Ele olhou para Silvio e falou, com a voz enrolada: “Aconteça o que acontecer, que seja logo. Ninguém aguenta mais esta tensão...”

Silvio ficou arrasado, mas de tudo aquilo tirou algumas lições: primeiro, aprendeu que os extremos se tocam (“Radicais de direita e de esquerda assassinaram a democracia chilena”); segundo, percebeu que existem outras militâncias políticas, além da ação partidária. Ele próprio conclui: “Resolvi ali o meu conflito entre fazer ou narrar. Assumi que minha ação transformadora seria através da cultura e da arte.”

Assim, decidiu preparar-se intelectualmente e buscar experiências práticas. Depois de visitar o Uruguai e sua primeira Frente Ampla, passou pela ditadura argentina do general Lanusse, onde conheceu alguns padres da Teologia da Libertação, peronistas de base, montoneros e cineastas de vanguarda.

Ficou doente e negociou com Deus

Voltou à França “triste, prevendo o pior para o Chile, mas repleto de sonhos”. Assistiu a inúmeras manifestações contra a guerra do Vietnam, a ditadura brasileira e a espanhola. “Eram os rescaldos de 1968. O sonho francês da revolução permanente era contagiante.” Procurou a cooperativa de cinema de Chris Marker, que o recebeu de braços abertos, e conheceu Bertolucci, Marlon Brando e Maria Schneider, com os quais assistiu à mixagem e à dublagem de O último tango em Paris. Além disso, foi apresentado a Jean Rouch, que legalizou sua situação na França, ao matriculá-lo em seu curso de Cinema aplicado às Ciências Sociais. Como se não bastasse, inscreveu-se em Paris VII, em História, e também no curso de Cinema e História dirigido por Marc Ferro, na Escola de Altos Estudos em Ciências Sociais, que estava sendo criada por mestres como o próprio Ferro, Charles Bettelheim, e Jacques LeGoff. No meio disso, ainda arranjou tempo para os encontros da antipsiquiatria e os congressos da contracultura, com destaque para os que questionavam a própria História (L’Histoire pour quoi faire?). Nos intervalos, frequentava a Cinemateca Francesa na Rua D’Ulm e no lendário Palais de Chaillot, construído em 1937 pelos arquitetos vencedores do Prêmio de Roma, no local do antigo Palais du Trocadéro. Finalmente (uff), o garoto frequentou a Universidade de Vincennes, reduto da esquerda pós-68. “Foi lá que vi e ouvi falar do soviético Dziga Vertov e suas teorias radicais de cinema - cine-olho, cine-verdade e muitas outras.”

Tempos depois da visita ao Chile, Silvio soube que Chris Marker organizava um coletivo para fazer o filme Setembro chileno. E ele foi convidado: “Eu estava com 23 anos e entrava em minha vida profissional pela porta da frente!”, orgulha-se. Marker foi seu grande mestre. “Ali, eu aprendi a pesquisar e mexer com arquivos, conciliar texto e imagem e, sobretudo, pensar cinema”. Aliás, entre seus cineastas favoritos, também estão o brasileiro Wladimir Carvalho, o cubano Santiago Alvarez e o holandês Joris Ivens. Na esfera pessoal, além da mulher, Fabiana Versasi, seus xodós são o neto Ernesto, o Dog Alemão Camarada e, claro, a filha Ana Rosa Tendler, hoje sua assistente principal na produtora Caliban, num grupo que também inclui Diego Tavares, Tao Burity, Lilia Souza, Taynara Mello, Maycon Almeida e Igor Felipe.

Depois de tantos cursos na França e muitos filmes produzidos, Silvio considera que cada longa-metragem é uma espécie de doutorado. Sua obra foi reconhecida pela PUC-Rio, onde foi professor de Cinema por mais de 40 anos e onde recebeu o título de Notório Saber, que ele define como “uma espécie de doutorado sem a rabugice das teses acadêmicas”.

Foi em novembro de 2007, quando filmava no antigo Hotel Sofitel, no Posto 6, que Silvio conheceu a mulher de sua vida, Fabiana, a Fabi, que acabara de se formar em Letras e assistia a uma palestra no mesmo local. Ele pediu uma caneta emprestada, só para se aproximar. Eles se reencontraram em dezembro e estão juntos até hoje.

Anos depois de muitos filmes inesquecíveis, o corpo de Silvio Tendler entrou em pane. Paralisado e com estranhas mudanças físicas, ele se sentia “como Javier Bardem em Mar adentro”. Era 2011 e, no hospital de referência, após os exames, concluíram que não dava para operar. Fabiana, a mulher, reagiu: “Nem fisioterapia?” O médico, enérgico, afirmou: “Não mesmo!” A situação só ficou clara quando Silvio encontrou o conceituado Dr. Paulo Niemeyer, “um médico com arte na veia”, que descobriu a compressão causada pela medula. Sete meses depois da cirurgia, de um edema, da fisioterapia diária e 13 filmes novos montados, ele já se sentia bem. “É impressionante a garra do Silvio. Quando eu desanimava, ele é que me fazia sorrir. Eu costumo dizer que uma vez que você ama o Silvio, vai amá-lo para sempre”, registra Fabi.

Em entrevista a José Carlos Melhy e Zilda Iokol para o catálogo de seus 70 anos, o cineasta contou: “Eu fiquei tetraplégico e negociei com Deus: ‘Vem cá, a cabeça deixa intacta e a fala também, ok?’ Depois, fui recuperando os movimentos. (...) Como eu não pretendo morrer daqui a dois anos, já estou negociando uma nova safra (de filmes) que dure mais uns dez. Porque o que me mantém vivo é o trabalho.” Mais adiante, ele registra: “A vida e a profissão me ensinaram que a fotografia é apenas uma imagem e o cinema, a verdade editada.”

A grande tristeza é ver o Brasil sendo destruído em todas as áreas, inclusive e sobretudo na Cultura. É, para ele, um movimento cruel e insano. “Como falar em democracia sem dignidade, saneamento e comida no prato?”, indaga. E prossegue: “Hoje, a arte que emerge dessa sociedade é esquizofrênica: incentiva o consumo, ao mesmo tempo em que prega a preservação do planeta”.

Silvio faz questão de citar seu eterno inspirador, Eduardo Galeano, no Livro dos Abraços: “As ideias chegam em forma de redemoinho/O vírus está na porta, o verme no palácio, o sapo abutre aguarda à espreita/Para onde caminhar? Que jeito, seguir em frente. Adelante.”

Na longa entrevista à Plurale, logo após liderar a criação de uma das últimas petições de impeachment contra o presidente Jair Bolsonaro, ele admitiu: “Ser jovem é sempre bom, até mesmo durante a ditadura. Se engana quem acha que não nos divertíamos.” E terminou confessando: “É verdade. Eu me sinto um garoto fazendo cinema ou fazendo política. A luta opera milagres.”

Peter Pan não definiria melhor.







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