Atenção

Fechar

Casos e Causos

Fui pra Porto Alegre, bah

Prestigiar a 67ª Feira do Livro serviu de mote para rever a cidade e flanar pelo Centro. Entre boas leituras e ótimos encontros, PoA me encantou.

Texto e fotos - Raquel Ribeiro, Especial para Plurale

De Porto Alegre (RS)

Em 2020, o tradicional evento literário se restringiu às telas; esse ano retornou, com certa timidez, à Praça da Alfândega. Menos barraquinhas e com parte da programação ainda no formato virtual. O ótimo tema “Para ler um novo mundo”, porém, conseguiu atrair um público farto e interativo. Em especial de crianças, que viram varias contações de histórias, no espaço Floresta Encantada. Assisti a uma delas, “A poesia pede passagem”, com uma dupla de artistas alegres, com atuação ágil e inteligente. Ao fim da apresentação, me apresentei como autora de livros infantis e ofereci um exemplar de Maíra, que tem por tema o nome próprio. A artista, ainda vestida de princesa, me pediu cinco minutos. Ao voltar, estava com o cenário pronto para uma apresentação particular: ela contou sua própria história com uso de letras de papel, que representavam as iniciais dos nomes dos personagens principais da sua vida e, que unidos, formaram seu nome, Carmem.

Vibrando nessa onda poética, entrei no Farol Santander e me deixei levar pelo divertido convite da exposição Tarsila para crianças. Cenários coloridos com instalações interativas nos levam para dentro de suas mais conhecidas obras. Entre casas e balanços, o que mais me tocou foi andar em um lago e ver surgirem seus animais fabulosos. Simples, infantil e... absolutamente mágico! Guardei minhas lagrimas sapecas e desci à cave do antigo banco. A entrada do cofre remetia a algo valioso e não me decepcionei: havia um restaurante com farto bufet (inclusive opões veganas) e vinho a preço camarada. Acho que viajar sozinha nos permite certas audácias. Guardei a garrafa ainda na metade e pensei em continuar a beber em companhia de Quintana. O antigo hotel Majestic, na Rua dos Andradas, onde o poeta morou por mais de uma década é, desde 1990 um centro cultural, e preserva seu quarto intacto. Mas, óbvio, o uso de máscara em todos os ambientes é obrigatório – seria deselegante tentar beber ali...

“Embriague-se de poesia”, já sugeria Baudelaire; e assim troquei Baco pelas mulheres da Orisun. Na Travessa dos Cataventos, área ladeada pelos dois belos prédios unidos por passarelas (um recurso arquitetônico inovador nos anos 1920), foi montada uma pequena ala para pequenas editoras e autores independentes da Feira. Intrigada com uma sequência de livros de autoras negras, puxei papo com Michele Zgiet, ouvi histórias de mulheres de Cuba, Porto Rico e Argentina – e adorei o termo amefricanas. Não conhecia esse conceito criado por Lélia Gonzalez, filósofa-antropóloga-feminista, uma das fundadoras do MNU (Movimento Negro Unificado). Além de ser formado por uma equipe de mulheres negras das Américas, o selo Orisun publica apenas poetas. “Foi uma convergência de fatores, que uniu mulheres intelectuais negras para falar por si. Todas sofriam da ‘síndrome da negra única’– se ver só em um ambiente de brancos – e neste ‘quilombo editorial’ uma teve a oportunidade de olhar para o talento da outra. Isso criou uma força. E atraiu outras mulheres”, contou Michele, que junto à poeta Eliane Marques, é coordenadora do selo.

De certa forma, reencontrei o tema amefricano no Palácio Piratini, sede do governo do estado, onde há vários murais de Aldo Locatelli, pintor ítalo-brasileiro. O mais impactante, belo e triste, está no teto de uma das salas e narra a lenda do Negrinho do Pastoreio. Injustiça e desigualdade social escreveram a história do Brasil... Há, no entanto, algo de superação na imagem do gaúcho, deliberadamente um amefricano com sangue índio. Além da exposição de fotos sobre esse homem dos Pampas, no Piratini, vi sua representação altiva no aprazível Parque da Redenção, conhecido pelas feiras Ecológica (sáb.) e do Brique (dom.).

Outros parques arborizados aliviam um pouco a sujeira e pobreza nas ruas da cidade, mas é evidente o descaso com o povo e prédios históricos. Próximo ao Museu Júlio de Castilhos, onde a mostra “Tempo de Brincar... Brincar em outro tempo” me transportou à infância com suas bonecas de papel, vi uma casa, que abrigou uma livraria, prestes a desabar. Já o prédio da Livraria do Globo (que editou Érico Veríssimo!), apesar de inteiro, perdeu a personalidade em meio ao comércio tosco. Como muitos outros centros, é preciso erguer os olhos da muvuca para localizar pérolas que marcam fases arquitetônicas da cidade. Caminhando assim, logo avistei a chaminé de 107 metros da Usina do Gasômetro, construção de 1928 à beira do Guaíba. Ao chegar neste largo trecho da margem do rio, espaço de passeio, esportes, música e arquibancada natural para o pôr-do-sol, contemplei o céu – e me dei conta de como, ao viajar, a gente toma altura, vê o mundo de outros ângulos.

Casa de Cultura Mário Quintana – Feira paralela vista de uma das passarelas. (Foto de Raquel Ribeiro - Porto Alegre).

Contação no Feira do Livro (Foto de Raquel Ribeiro - Porto Alegre).

Feira do Livro e Praça da Alfândega vistas da entrada da entrada do Museu de Artes do Rio Grande. (Foto de Raquel Ribeiro - Porto Alegre).

Exposição Tarsila para Crianças, no Farol Santander. (Foto de Raquel Ribeiro - Porto Alegre)

Chalé da Praça XV - Tombado pelo patrimônio histórico, o bar era ponto de encontro de intelectuais e músicos, como Mario Quintana e Elis Regina. (Foto de Raquel Ribeiro - Porto Alegre)

Palácio Piratini – Projeto do arquiteto francês Maurice Gras. As obras começaram em 1913 e o palácio foi ocupado em 1921. Salão Nobre Negrinho do Pastoreio, com obras de arte do pintor italiano Aldo Locatelli; lustres são réplicas dos existentes no Palácio de Versalhes, na França. Ao lado fica a Catedral Metropolitana. (Foto de Raquel Ribeiro - Porto Alegre)

Viaduto Otávio Rocha (1932)- Tem estrutura de concreto armado, dois pórticos transversais com grandes nichos com esculturas. As escadarias são sustentadas por arcadas; e os parapeitos das rampas e do viaduto são decorados com uma bela balaustrada. (Foto de Raquel Ribeiro - Porto Alegre)

Parque da Redenção - É área pública desde 1807. Em 1884, passou a ser denominado Campos de Redenção, em homenagem à libertação dos escravos. Em1935, o local sediou a Exposição Comemorativa do Centenário da Revolução Farroupilha. Hoje há quem se refira ao Parque Farroupilha. Mas Redenção é mais comum

Pôr-do-sol no Guaíba - (Foto de Raquel Ribeiro - Porto Alegre)

Restaurante Moeda, no Farol Santander. (Foto de Raquel Ribeiro - Porto Alegre)

Exposição no Museu Júlio de Castilhos. (Foto de Raquel Ribeiro - Porto Alegre)







Veja também

1 comentário | Comente

 Digite seu comentário

*preenchimento obrigatório



Raquel |
A Plurale é realmente plural! Muito bacana ver assuntos tão diversos ganhando aqui um espaço. Valeu, Sônia Araripe!

Utilizamos cookies essenciais e tecnologias semelhantes de acordo com a nossa Política de Privacidade e, ao continuar navegando, você concorda com estas condições.