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PLURALE EM REVISTA, 76 - Um mundo normal pós-covid. É possível?

Por Chrystina Barros, Colunista de Plurale

Especial para a Edição 76 de Plurale em revista

Tenho o hábito “do meu querido diário”. Na verdade, são páginas matinais que conheci no livro O Caminho do Artista, de Julia Cameron. Nele, a autora nos desafia a nos liberarmos de nossos censores, através de alguns exercícios. E um deles é o registro do que nos vem à cabeça logo pela manhã, assim que acordamos e ainda não nos colocamos nas nossas rotinas diárias. Estas rotinas evoluem dia após dia e nunca são exatamente as mesmas, mas muitas vezes não nos damos conta destas mudanças. E quantas mudanças vivemos pela COVID e para onde vamos, em que tempo?

Revisitando o “meu querido diário”, me vejo angustiada em 23 de março de 2020. Naquela época o comércio fechara, as pessoas amedrontadas se trancavam em casa para se proteger de um inimigo invisível e, exatamente por isso, poderoso. Ruas desertas lembravam filmes de cidades-fantasma e ninguém sabia o que iria acontecer na próxima semana.

E assim passaram-se dias, semanas, até meses - e agora, mais de um ano depois, vivemos um dia-a-dia em que a COVID já se incorporou à nossa presença - e se foi , há 16 meses atrás, que tínhamos chegado a 1.000 mortes, hoje passamos por até 3.000 mortes/dia, mas sem a cidade-fantasma se apresentar às nossas vistas. Isto porque o normal mudou.

O conceito de normalidade, a partir da palavra, nos remete ao que é reto. Do latim “normalis”, esquadro, o que mede o ângulo reto – 90 graus. O quanto fomos tensionados por todo este tempo de pandemia? Mas como resposta, o quanto também nos reajustamos para buscar de volta a retidão do jeito normal, o tal ângulo reto, para manter o equilíbrio que nos sustenta de pé?

Não tem jeito. Não somos os mesmos a cada segundo, a cada dia, mas a adaptação precisa ser saudável, dar conta de preservar o respeito a nós mesmos e à vida, porque existem riscos de que o normal seja cortante como Hannah Arendt nos mostrou nos conceitos de banalização do mal. Aqui, este risco é o da chamada normose, da filosofia, que nos faz absorver com naturalidade aquilo que faz mal.

Se não deixarmos as oportunidades de aprendizagem da pandemia passarem em branco, temos uma grande oportunidade de uma história melhor. Então por que não colocarmos as lentes do otimismo e pôr mãos à obra para começar a mudança por nós mesmos?

Comecemos com as origens.

Se este vírus veio de um mercado animal, qual o sentido em termos animais em mercados? Quantos outros vírus e ameaças biológicas não estão guardados em nossas florestas e grutas? Aliás, lá, eles não são ameaças. Estima-se que existam trilhões de vírus diferentes no mundo - e que nossa ciência conheça 1% deles. Mais ainda: se todos os vírus fossem retirados do nosso Planeta, nossa vida, tal como a conhecemos hoje, seria inviável.

Nossa consciência pela preservação do mundo e o entendimento do conceito de ecossistema nunca fizeram tanto sentido. E talvez agora possamos aproveitar para nos reequilibrar na preservação do que ainda temos e se renova, se ao menos começarmos a cuidar da Terra.

E a partir das origens, se o vírus nos mostrou que fronteiras não existem, em muito as nossas mazelas do modelo de produção capitalista se acenderam como grandes ameaças à nossa coexistência. Ou vamos esquecer que o mundo disputou, a tapas, máscaras produzidas na China, onde a manufatura é mais barata ainda que se somem os custos de transportes aéreos para levar de um lado a outro do mundo, o que se fabrica no Oriente?

Quanta criatividade nos salvou, através da ciência, para desenvolvermos respiradores, equipamentos de produção individual e as próprias vacinas, que surgiram em tempo recorde, com base em uma estrada de desenvolvimento que vem de longa data?

A sociedade acompanhou, quase que em tempo real, os avanços das pesquisas. Revistas científicas ganharam destaque, metodologias foram apresentadas ao público e, graças a pesquisadores, sobrevivemos. Muito se cobrou destes profissionais que dedicaram sua vida à formação – e, de uma hora para a outra, muitos se apossaram de conclusões que lhe pareceram mais convenientes e até agrediram a própria ciência.

A produção científica ganhou um ritmo alucinante, com literalmente milhares de novos artigos colocados a serviço da vida todos os meses, todos os dias. Da mesma forma, este volume de trabalho árduo foi consumido como nunca, por todos que estavam cuidando ao lado de um leito, informando e se expondo em redes sociais e mídia, continuando com suas aulas pelos diferentes aplicativos que uniram pessoas. O trabalho nunca parou; aliás, nos foi exigida muita coragem para contornar medos e enfrentar ataques dos que negam a vida.

A humanidade clamou por certezas, quando se esquece que a vida é feita de probabilidades, mas o cuidado pode e deve estar presente, através daquilo que se sabe, que decantou, que se apresenta com transparência para o mundo.

Não podemos deixar de lado o mais importante – aquilo que é humano. E destaco a solidariedade. Há tempos nesta estrada, não precisamos tanto uns dos outros como uma fraternidade. Se todos vão se sensibilizar? Provavelmente não, mas a chance de mudança é grande, porque redes e conexões, mais do que nunca, fizeram sentido - e nunca foram tão reais.

Realidade aumentada, vivemos em nossas casas mais tempo do que estávamos habituados. Descobrimos e repaginamos cantos, ressignificando nossas relações com coisas, pessoas e rotinas. A busca pela saúde nunca fez tanto sentido em seu conceito mais amplo, desde que a Conferência Internacional sobre Cuidados Primários de Saúde, realizada pela Organização Mundial da Saúde em 1978, nos deixou a Declaração de Alma-Ata como presente: “Saúde é o completo bem-estar físico, mental e social, e não simplesmente a ausência de doenças ou enfermidades.”

E nesta busca que parece utópica, vejo um mundo onde a tendência ESG - Environmental, Social and Governance (Ambiental, Social e Governança, em tradução), surge no mínimo como incentivo ao capital, para aumentar o valor das suas ações, mas, na sua essência, pode salvar-nos de uma próxima epidemia ou de uma hecatombe. E que bom que esta é a tendência, porque dá chance para nos colocarmos de novo como protagonistas da vida, mais do que o dinheiro e o poder têm se colocado ao longo da história.

Não teremos um dia com data marcada para um novo normal. Já estamos vivendo a transitoriedade de nossas vidas a cada linha que lemos, a cada conversa que temos, a cada passo que damos. E que as reflexões sejam as mais profundas e ligadas ao nosso ser, à nossa origem, ao lugar mais sagrado de onde nos colocamos como observadores da vida. Se formos observadores de nós mesmos e nos permitirmos aprender como Sócrates disse – só sei que nada sei -, já teremos dado um grande passo para um dia mais feliz, nessa imensa jornada da vida, tão curta em nossas janelas de existência neste plano, enquanto indivíduos. Que fiquem legados inspirando vida, integridade, solidariedade, respeito e amor. Que as regras, que parecem tão duras, sejam incorporadas na medida certa, como hábitos e cuidado... no mais, que vivamos só por hoje, normalmente.

(*) Chrystina Barros é Pesquisadora do Centro de Estudos em Gestão de Serviços de Saúde (CESS) da UFRJ e integrante do Grupo Técnico (GT) de enfrentamento à COVID-19 da UFRJ.







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