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PLURALE EM REVISTA, 76 - O novo normal é anormal

Por Nádia Rebouças, Colunista de Plurale

Artigo é destaque na Edição 76 de Plurale

Ainda me lembro da animação no começo da pandemia, por volta de abril ou maio de 2020. A surpresa, o susto e o medo ativaram um pouco a Poliana de todes nós! Comemoramos as ruas vazias, a maior quantidade de pássaros cantando, os animais voltando a ocupar espaços que lhes foram roubados há décadas! Nas redes sociais, multiplicavam-se imagens lindas que se misturavam com cantores na varanda, especialmente na Itália, que tentavam nos salvar do tédio, da solidão e da surpresa com o que acontecia. O mundo, apesar de tudo, ficou mais próximo. Algo invisível podia nos matar, e ainda pode, depois de tanto tempo.

Parecíamos mais solidários; imaginava-se que; por compartilhar a mesma restrita realidade; poderíamos rever nossos valores - e que sairíamos, alguns meses depois, por um portal de luz onde nos encontraríamos no “novo normal”. O nosso novo normal salvaria o planeta, nos protegeria da crise climática e nos tornaria mais solidários, explodindo os bons valores e nossa humanidade. Durou pouco.

Percebemos, pouco a pouco, que o escandaloso número de mortes no Brasil, as mentiras, os mandos e desmandos, estariam aí para atormentar nossa consciência. Logo percebemos a chegada da fome, como se ela não estivesse sempre nos rondando muito antes. Intuímos a necessidade de aprender tudo sobre tecnologia; o mundo estava mudando e, pelo menos por um tempo (quanto?), teríamos que falar nas janelas, nos abraçar fingindo um abraço, e aprender a limpar maçanetas de portas e compras que chegavam do supermercado. Nesses tempos anormais e estranhos, o alimento, o computador, o celular, começaram a mostrar sua falta para uma grande parcela da nossa população. Crianças e jovens foram excluídos da possibilidade de acompanhar as atividades educacionais das suas escolas.

Cenas inusitadas aconteceram em todas as casas. Crianças, gatos e cachorros em cima de teclados, participando das reuniões do zoom. Fecha o som, abre a imagem! Seu microfone está fechado! Caí! Sim, acabamos todes caindo nas lives que aliviavam um pouco nossas angústias. Santa Teresa Cristina! Pouco a pouco, o anormal foi virando o normal. Muitos, da nossa elite tacanha, se deram conta da triste realidade da falta de proteção às nossas favelas, à nossa população na miséria. Um enorme desafio!

A morte arrasaria, como arrasou... morreram mais negros, mais mulheres, mais pobres. Quem podia, ganhou um tempo na casa da praia ou da serra. Perto dali, a pergunta era: como lavar as mãos se a água não chega, como ter dinheiro para comprar álcool gel e máscara? Como fazer isolamento dormindo cinco pessoas, talvez crianças, num colchonete na sala?

A ação imediata foi das mulheres: sempre elas, tanto nas favelas, periferias, nas populações indígenas, quilombolas. As máquinas de costura começaram a produzir máscaras de pano loucamente, algumas ganhavam alguns trocados para o feijão e a farinha, mas espera lá... por que estou falando no passado? Não, não passou. Os coletivos de mulheres continuam na luta para proteger as suas famílias e comunidades. Mulheres e crianças colhendo violência de seus pais ou maridos, companheiros desempregados e tristemente enlouquecidos pelas bebidas alcoólicas, que venderam como nunca. As mulheres com mais recursos também se sensibilizaram e saíram distribuindo o essencial para um prato de comida. Fazendo quentinhas e montando cestas básicas. As mulheres, quase sempre, nas empresas, também correram para não ficar ausentes desse movimento de salvamento dos humanos que excluímos, sem pensar, ao longo de décadas. Doaram cestas básicas, álcool gel e máscaras. Aqui o verbo pode ficar no passado.... ser solidário foi cansando... A miséria deixou de ser olhada, que a máxima é verdadeira: “quando os olhos não veem, o coração não sente....” E fomos nos fechando à realidade como podíamos.

A miséria foi consequência da falta de empregos, da precarização dos empregos, mas também do fim do “corre”. Já fazia tempo que os bicos pagavam o que ia para o prato no dia-a-dia: vendendo bala, encontrando algo para fazer por um ou dois dias. Tudo isso foi minguando... o “corre” também correu menos. O governo se associou ao vírus numa estrada para a morte. Resultado: a fome - e nem vamos falar da insegurança alimentar, que há muito está afetada no Brasil. Aliás, um dos primeiros atos desse governo que aí está foi a destituição do CONSEA, Conselho de Segurança Alimentar, lançado no governo Itamar por estímulo do sociólogo Betinho e de Dom Mauro Morelli. O que nos diria Betinho, agora que as pesquisas apontam 29 milhões de pessoas passando fome, um número tão próximo dos 32 milhões que eram a realidade quando a campanha da Ação da Cidadania começou? E pensar que saímos do mapa da fome! Muitos hoje não sabem quem foi Betinho (procura no Google, por favor), mas se houve alguém, por essas terras do Brasil, mãe gentil de triste lembrança, que escancarou a indignidade da fome, foi esse sociólogo. Foi contaminado numa transfusão de sangue pelo estado, junto com seus dois irmãos, e todos morreram em consequência da Aids. Um deles, o Henfil, cartunista que criou a Graúna, um dos seus mais conhecidos personagens, nos leva a pensar: como estaria a Graúna hoje? Estrebuchando com nossa conjuntura? Até nosso verde e amarelo foi roubado para cobrir a terra plana.

A imagem da Idade Média nunca ficou tão nítida na modernidade; basta um olhar para as calçadas do centro das cidades! Enquanto isso, ampliando o olhar da câmera, nos deparamos com o maior desmonte pelo qual passou o estado brasileiro. O objetivo é excluir mais, muito mais! O normal diário do nosso anormal. Pessoas, instituições, a cultura, a educação, o nosso meio ambiente. As florestas queimando junto com as realizações da minha geração. As empresas cresceram o olho com ESG, os 17 ODS – Objetivos do Desenvolvimento Sustentável – que estão nas caixinhas. São muito faladas, mas suas metas já estão ameaçadas de só serem atingidas em 2080... longe, muito longe de 2030, ano para o qual foram estabelecidas pela ONU.

Futuro? Que novo normal, anormal, será o futuro na emergência climática? Nossas chuvas literalmente estão virando poeira. Nossa floresta, deserto... e estamos tristes. Estamos todes um pouco doentes! Mesmo os que têm pouca consciência de tudo isso estão tristes.... Não sabemos como será o que será. Não sabemos o que fazer com a fome, a exclusão, a inflação, a falta de habitação, esgoto, com florestas queimando e com a ameaça de apagões. Não teremos chuva? Nem energia?

Saberemos o que fazer com o online que já virou rotina, depois, no tal novo normal? Onde ficará o presencial? Como vamos dormir nas aulas e nas reuniões? As janelas fechadas, a voz bloqueada... como ficarão na hora que nossos corpos forem exigidos a estar presentes? E quando tivermos que nos vestir da cintura para baixo e colocar sapatos? Como será gastar duas, três horas no trânsito, de novo, para chegar ao escritório? Como sair do home office? Como vamos driblar os miseráveis pelas calçadas e ruas? Vamos esquecer esse período de mortes?

Como vamos reconstruir os nossos direitos, que já eram poucos, e foram fuzilados na liberação das armas e das mentiras? Como será sair do normal das Fake News e tentar viver um pouco de verdade? Onde fica, ou ficou, o que chamávamos loucamente de normal?

Não temos nada normal. Não tínhamos nada normal, se considerarmos o que podia dar continuidade à vida no planeta. A corrida para o consumo, o egoísmo, o etnocentrismo, nada era normal. Tudo completamente anormal, da pandemia ao pandemônio. Acho melhor esquecermos o que foi normal (ele nos trouxe até aqui), e o que sonhamos como “novo normal”, fantasiando um mundo bom.

Vamos arregaçar as mangas! Começar tudo de novo... num singelo ponto de partida: somos uma espécie animal no planeta que precisa entender que não é dona do mundo, que precisa respeitar o que tem vida: outros animais, rios, florestas, mares, pessoas... e construir uma forma de viver que não exclua. Respeitar o ar, a água e a terra. Que as lives com tantos, especialmente com Aílton Krenak, não tenham sido em vão! Que tenhamos desenvolvido outros medos e que eles sejam a força motora para mudarmos tudo! Para que as empresas reajam. Para que tenhamos governo de verdade. Que a cidadania lute como uma criança pelo que gostaria que fosse. A criança grita pelo que deseja, teima, se joga no chão! E nós????

Bem-vindas as mulheres, bem-vindo o movimento negro, bem-vindos os indígenas que estão na luta para construir um novo tempo – porque, para eles, nada, nunca, foi normal. Vou concentrar minha atenção naqueles que não pararam de fazer. Nos piores momentos, foram capazes de sonhar, esperançar, como poderia nos dizer Paulo Freire. E que se abram portas para sairmos do anormal e do normal, pois nenhum deles nos fez feliz, nem garantiu um planeta para morarmos todos juntos, com respeito e conforto. Caso vá existir um ‘novo normal” para todes, ele dependerá de nós. Só de nós. Na remoção e na reconstrução!

(*) Nadia Rebouças, Colunista Plurale, é Consultora de Comunicação para Transformação.







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Marilene Lopes |
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