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PLURALE EM REVISTA, 76 - Saúde mental pandêmica

Por Dra. Melissa de Oliveira Pereira (*)
Especial para Plurale em revista, Edição 76

Em um serviço de saúde mental, a mulher segura receitas e exames, enquanto equilibra um copo de água na mão. Através da máscara, afirma para a entrevistadora: “Tem que achar uma solução para ela, nem que seja um calmante. Ela precisa dormir. É ansiedade, fica tremendo, ficam geladas as mãos”. A cena se encerra com a testa franzida e o olhar preocupado da acompanhante.

A câmera entra na casa de paredes descascadas, a cozinha com as tigelas sobrepostas e a louça na pia, enquanto o vapor sai da panela areada: “Tem dia que eu levanto animada, quero fazer tudo, mas tem dia, minha filha, que se eu pudesse… eu largava tudo e ia deitar”, conta a mulher de cabelos grisalhos, enquanto prepara a refeição.

A reportagem do Programa Profissão Repórter, exibida na Rede Globo em 28/4/2021, segue com outras mulheres e homens: realidades distintas, condições de trabalho múltiplas, idades diferentes, mas uma experiência compartilhada: a certeza de que, na pandemia, a saúde mental não vai bem. Seja através da insônia, da irritabilidade, do choro frequente, da falta de vontade para afazeres antes prazerosos, do ganho de peso excessivo, do emagrecimento sorrateiro, entre outras histórias, os entrevistados revelam aquilo que muitos brasileiros vêm vivenciando desde o início do ano anterior.

O medo da morte, o receio com a contaminação, o perigo da falta de leitos e de respiradores não se deram sem os riscos do desemprego que começou a crescer, das contas que não pararam de aumentar, das problemáticas que envolvem as convivências forçadas e que se conjugam aos distanciamentos compulsórios. Para muitos, o lockdown que nunca veio! Como ficar bem neste contexto?

Já em meio à chamada quarta onda pandêmica, os impactos em saúde mental da pandemia não tardaram, especialmente quando falamos do Brasil - considerado o país mais estressado do mundo em 2020, segundo uma pesquisa preliminar realizada pela Universidade do Estado do Rio de Janeiro (Uerj). Os desdobramentos em vivências profundas de mal-estar parecem inevitáveis. Foi o que revelou a pesquisa realizada pelo Instituto IPSOS e pelo Fórum Econômico Mundial, através da qual acompanhamos que 53% dos brasileiros consideram que seu bem-estar piorou “um pouco ou muito” após a chegada do vírus no país. Em outra pesquisa, realizada pelo IPEC em grandes centros urbanos, são apresentados outros sinais preocupantes: 38% das pessoas entrevistadas relataram insônia, 53% irritabilidade e 48% tristeza.

As urgências materiais e subjetivas trazidas pelo novo cenário não deixaram ninguém de fora. Longe de afirmarmos uma rota comum, porém, vale ponderar que há marcações diferenciadas nas relações entre saúde mental e as diferentes condições de vida dos sujeitos. É o caso das mulheres, que já preocupavam a OMS e da ONU Mulheres desde o início das contaminações, e que vivenciaram maiores dificuldades na manutenção da subsistência, no aumento da exposição à violência doméstica e na sobrecarga de trabalho familiar, além das dificuldades vinculadas ao próprio exercício profissional (lembrando que são estas a maioria de profissionais de saúde, professoras e profissionais de serviços fundamentais). Neste contexto, não é surpreendente que, em pesquisas nacionais e internacionais, as mulheres apareçam como aquelas que se destacam nas queixas e no sofrimento psíquico durante este período. Aquelas que abrem este artigo representam milhares de outras que, submersas nas durezas do cotidiano pandêmico, passaram a vivenciar processos intensos de insônia, ansiedade, tristeza e dificuldades de manutenção da vida.

Ao tomarmos o gênero como um marcador estrutural para qualquer análise pandêmica, vale entender, no entanto, que as mulheres não são um grupo homogêneo. As dificuldades - e, logo, suas repercussões na saúde mental - se aprofundam quando unimos ao gênero outras relações sociais, como classe, renda, raça, orientação sexual e identidade de gênero, entre outras. Por isso, quando nos voltamos para as mulheres negras, vamos falar daquelas que, em nosso país, sobrevivem com as menores rendas e estão mais expostas às desigualdades sociais. Foram estas, também, as principais vítimas do vírus e as que mais tiveram dificuldade no acesso à vacinação, o que faz com que a promoção da saúde mental se torne um tema ainda mais complexo, quando consideramos as especificidades que permeiam este público.

Lançar luz sobre as relações de classe, gênero e raça nos parece, assim, ponto de partida para nos voltarmos aos impactos do COVID-19 na saúde mental da população brasileira e às respostas condizentes para esta problemática. Marcados por diferentes condições de vida, de acesso a bens materiais e mesmo de garantia de isolamento social e proteção frente ao vírus, os sujeitos continuam a se deparar com distintas condições de promoção de saúde mental, assim como de tratamento adequado.

Sabemos pelo psicanalista René Kaës que a crise psicossocial transcende um quadro clínico específico - e se apresenta tanto a partir de sintomas e queixas quanto de vivências insuportáveis, que colocam em xeque a organização psíquica e social dos sujeitos. O sofrimento, que passa a ganhar a cena, atualiza as histórias de vida e a produção de subjetividade no contexto das precariedades sociais e afetivas, que passam a ser diretamente determinantes nas demandas em saúde mental e nos próprios caminhos da crise, fazendo-se necessárias respostas múltiplas e singulares aos sujeitos em questão.

Neste sentido, as ações e iniciativas construídas pelos sujeitos, em contexto pandêmico, merecem destaque. Online e presencialmente, organizadas por entidades ou coletivos de profissionais, apresentaram-se ofertas de atendimentos psicoterápicos por psicólogas e psicólogos, ou mesmo cuidados terapêuticos ampliados, seja pelo caminho das Práticas Integrativas e Complementares (PICS) ou por outras especialidades, que se voltaram para estratégias conjuntas. Neste contexto, a Rede de Atenção Psicossocial foi um dos pontos de apoio à continuidade dos tratamentos da grande maioria da população. Tanto as Unidades Básicas de Saúde quanto os Centros de Atenção Psicossocial precisaram reorganizar seus atendimentos - e reformularam os atendimentos individuais e grupais, as Visitas Domiciliares, a oferta medicamentosa e o acolhimento, tanto àquelas pessoas já atendidas anteriormente quanto àquelas que se tornaram usuárias de saúde mental neste novo cenário.

Parece-nos que, apenas a partir de um desenvolvimento das políticas públicas gerais, podemos falar de uma assistência em saúde mental integral, que fuja dos modelos prontos e formatados, mas que considere os sujeitos, suas territorialidades, histórias de vida e relações sociais a partir de seus sofrimentos, ainda mais marcados pelo COVID-19, mas caminhando para respostas que transcendam este momento.

(*) Melissa de Oliveira Pereira é Psicóloga, Doutora em Saúde Pública e Professora Universitária

(*) Este é um artigo de opinião, de inteira responsabilidade da autora, e não, necessariamente, reflete a posição de Plurale acerca dos assuntos comentados no texto.







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