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PLURALE EM REVISTA, 76 - A pandemia e a máquina de geração de desigualdade

Por Marcelo Néri, Especial para Edição 76 e Plurale em revista (*)

Indicadores objetivos de performance trabalhista, como desigualdade e média baseadas em renda per capita do trabalho, apresentam piora inédita na pandemia, medida do último trimestre de 2019 ao segundo trimestre de 2020. A média das rendas individuais do trabalho na população, incluindo os informais e os sem trabalho, caiu 9.34% na pandemia; a queda de renda da metade mais pobre foi de 21.5%, duas vezes maior que a da média. Confira no endereço https://cps.fgv.br/DesigualdadePandemia

Indicadores subjetivos de curto prazo, como satisfação com a vida, apresentaram queda maior na base da distribuição de renda. A diferença de satisfação com a vida entre os extremos de renda, que era de 7,9% em 2019, sobe para 25,5%. Ou seja, há aumento da desigualdade de felicidade na pandemia. Confira em https://cps.fgv.br/FelicidadeNaPandemia

Mas quais serão os efeitos de longo prazo da pandemia na prosperidade e na desigualdade? A pandemia acentuou a desigualdade de políticas relacionadas a ativos ambientais e a acumulação de capital humano? Segundo as percepções dos cidadãos na ponta, a resposta é afirmativa no Brasil e negativa numa escala de 40 países representativos da escala global. Na evolução média entre 2019 e 2020, os resultados demonstram piora sistemática do universo tupiniquim vis-à-vis a esfera mundial.

Esta nova pesquisa - https://cps.fgv.br/PoliticasPandemia - lança mão de dados internacionais do Gallup World Poll para aferir o impacto relativo da pandemia sobre a percepção da população em relação a políticas públicas determinantes de perspectivas futuras, tais como saúde, educação e meio ambiente. Comparamos a performance brasileira nestas dimensões com a média simples de um grupo de 40 países, contrastando os resultados colhidos durante a pandemia com os observados logo antes do seu início. Comparamos mudanças da média dos países e da desigualdade dentro dos países.

Como a pandemia do Covid-19 impacta todo o mundo, a avaliação da eficácia de políticas sociais brasileiras adotadas pode se beneficiar do contraste com a performance social de outros países, antes e durante a pandemia. Tudo se passa como uma corrida em que a diferença da distância percorrida é a métrica de medição de desempenho relativa aferida. Usamos, como quase experimento, a comparação do Brasil com a média 40 outros países pesquisados, que cobrem desde países como a Áustria, passando pela China e chegando a Zimbawe.

O Brasil teve queda na proporção de avaliações satisfatórias da população sobre políticas de saúde e ambientais, em torno de 5 pontos de porcentagem cada, durante a pandemia - enquanto as mesmas percepções melhoraram de 1 ponto percentual na média de 40 países do mundo analisados. Agora, quando comparamos os 40% mais pobres brasileiros com os globais, a queda relativa destes dois itens foi duas vezes maior aqui. Isto sem falar na queda da avaliação de educação, que cai 22 pontos percentuais entre os pobres brasileiros, maior que a das médias brasileiras e internacionais, de 15 e 3.75 pontos percentuais, respectivamente.

Tendências Invertidas - A comparação de mudanças em trechos da distribuição de renda entre os universos geográficos permite contrastar efeitos distributivos dentro dos países. As imagens a seguir valem mais que mil palavras. Enquanto as desigualdades de todas as dimensões analisadas caem no mundo durante a pandemia, todas aumentam no Brasil, no mesmo período. O Brasil, nos tempos da pandemia, ampliou uma série de desigualdades presentes, com consequências futuras.

Lição: Além da piora maior para a média brasileira de políticas ligadas a ativos como um todo, ela piora mais para os mais pobres aqui, mas não alhures. No mundo, as desigualdades de políticas de saúde, educação e meio ambiente percebidas pelo cidadão na ponta caem. Somos a imagem invertida no espelho. O Brasil, na pandemia, virou uma máquina ímpar de gerar desigualdades.

(*) Marcelo Néri é Diretor da FGV Social, Professor da EPGE/FGV, ex-presidente do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (IPEA), ex-Ministro de Assuntos Estratégicos do Governo Dilma Rousseff e ex-Secretário do CDES (Conselhão).

(*) Este é um artigo de opinião, de inteira responsabilidade do autor, e não, necessariamente, reflete a posição de Plurale acerca dos assuntos comentados no texto.







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