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Gourmetização das Inovações Sociais: para além do “Canto de Sereia” dos Negócios de Impacto

Ramon Jung Pereira

Mestre em Administração pelo PPGA / PUC Minas

ramonjung@hotmail.com

Armindo dos Santos de Sousa Teodósio

Professor do PPPGA/ PUC Minas

armindo.teodosio@gmail.com

No rádio, na Internet e suas mídias sociais, nas revistas de uma companhia aérea, na universidade, na televisão, nos jornais... sim! Lá estão eles: os Negócios de Impacto e suas inovações sociais estão por toda parte. Acho que você também já deve ter notado. Nunca antes houve tanto foco em empresas desse tipo. Vivemos um boom nacional. Não é por menos, o Brasil é um dos principais mercados de Negócios de Impacto da América Latina. Parece ser o momento deles... ou seria... o momento das pessoas por detrás dessas iniciativas sociais... Mas, de quais pessoas?! As pessoas de comunidades periféricas, das classes populares à frente desses empreendimentos?!

Negócios de Impacto é um dos nomes, dentre vários, para um tipo de empreendimento que se propõe a resolver problemas sociais e ambientais através da venda de produtos e serviços. Empresas Sociais, Negócios Sociais, Benefit Corporation (ou B Corp), Negócios na Base da Pirâmide e até mesmo Empreendedorismo Social são nomes que surgem nessa verdadeira polissemia de expressões que tentam designar um fenômeno que afirmam ser recente na trajetória dos mercados e das sociedades. Porém, um olhar mais preciso e abrangente nos revela que não é um fenômeno dos tempos atuais, sempre esteve presente desde os primórdios do capitalismo e até mesmo antes dele. Mas, na era de novidades que movem moinhos, consultorias, palestras e comunidades inteiras ou, como costumam denominar, Ecossistemas de Negócios de Impacto, seriam bem menos atrativos se fossem reconhecidos não como novidade, mas como fenômeno de longa trajetória.

Embora também apresente uma grande diversidade de abordagens e conceitos desde a década de 70, um ponto em comum nos diferentes conceitos sobre Negócios de Impacto é que tem como objetivo comum a busca da resolução ou minimização das mazelas sociais através da participação e cooperação dos atores envolvidos para gerar inovações, ou seja, soluções que alcancem grupos, comunidades e a sociedade em geral. Geralmente, os Negócios de Impacto abarcam em sua essência inovações sociais.

Inovação Social parece ser um conceito abstrato, contudo, é de identificação relativamente fácil. O Programa Um Milhão de Cisternas (P1MC), cujo objetivo é coletar e armazenar a água da chuva em cisternas construídas ao lado de cada casa de famílias que vivem na zona rural dos municípios do semiárido brasileiro, é um exemplo de inovação social.

Assim como os Negócios de Impacto, Inovação Social não é um fenômeno contemporâneo. A primeira biblioteca pública do mundo, erguida pelo rei Assurbanipal II, por volta do século 7 a.C., em Nínive, no atual Iraque, também foi um exemplo de inovação social. Ainda antes na linha do tempo, podemos também dizer que o primeiro “Corpo de Bombeiros”, criado pelo imperador Augusto, em Roma em 27 a.C., era um exemplo de inovação social. Pode até parecer que o advento da inovação social é algo contemporâneo tendo em vista a notoriedade que certas ações vêm tendo no Brasil atualmente. Contudo, podemos dizer que tais ações e iniciativas sempre estiveram presentes.

É importante salientar as diferenças entre a visão tradicional sobre inovação e inovação social, demonstrando o porquê de sua relevância. A visão tradicional de inovação, desde os escritos do economista austríaco Joseph Alois Schumpeter, tem um viés baseado no desenvolvimento econômico, nas atividades mercantis e nos ambientes competitivos industriais. Contudo, estariam contidos nessas abordagens avanços nas condições de vida das pessoas? Diversos pesquisadores, sobretudo aqueles que se baseiam em uma concepção de mundo fundada na radicalização da liberdade econômica, os chamados “neoliberais”, apontam que sim, ou seja, apontam que o desenvolvimento econômico geraria bem-estar e melhoria nas condições de vida das pessoas, algo chamado de “Efeito Transbordamento” nos estudos sobre Economia do Desenvolvimento. Tal afirmação é extremamente contestada e são diversos os fatores que apontam na refutação dessa afirmação. Podemos dizer, em síntese, que o simples fato de haver desenvolvimento social ou tecnológico não é capaz de atender as demandas sociais existentes, como o combate à desigualdade social e a mitigação da pobreza, fome e miséria, enfim, todas realidades nas quais se encontram pessoas, grupos sociais, comunidades e até sociedades inteiras em situação de risco e vulnerabilidade socioambiental.

A Inovação Social ganha força e se destaca através do debate público sobre desenvolvimento e da pressão de distintos grupos sociais para transformações ou mudanças sociais mais profundas. É evidente a diferença entre as abordagens e também a importância de cada uma. Contudo, aqui, uma outra indagação se apresenta: estariam os Negócios de Impacto empregando inovações sociais efetivas? Estariam sendo esses Negócios de Impacto mais “empresas” do que “impacto social e ambiental positivos”? Estariam causando impacto real nas comunidades que realmente precisam de impacto positivo?

Estudos recentemente realizados pelo Núcleo de Pesquisa em Ética e Gestão Social (NUPEGS) apontaram uma situação no mínimo inusitada, para não se dizer contraditória e paradoxal,– no contexto dos Negócios de Impacto em Minas Gerais. Em uma pesquisa que objetivava realizar o mapeamento de empresas sociais atuantes no estado de Minas Gerais, identificando sua distribuição geográfica, áreas de impacto, públicos impactados e, consequentemente, as possíveis variáveis que influenciam diretamente ou indiretamente na sua dispersão geográfica, os resultados apontaram uma expressiva aglomeração de Negócios de Impacto em regiões com boa infraestrutura, alta concentração de renda e com baixo ou baixíssimo índice de vulnerabilidade social. Ao mesmo tempo, apontaram um grande distanciamento ou até mesmo inexistência justamente nas regiões nas quais se encontram os mais graves problemas sociais e ambientais de Minas Gerais. Dos mais de duzentos Negócios de Impacto identificados, pouco mais de 5% estão presentes em regiões como o Norte de Minas, Vale do Mucuri e Vale do Jequitinhonha, regiões com os maiores índices de vulnerabilidade social do estado.

Mais uma vez, surgem então indagações bastante incômodas: Se os Negócios de Impacto buscam através de atividades empresariais sanar problemas sociais, por qual motivo seria tão incipiente a participação efetiva em localidades como o Norte de Minas e seu entorno, que demandam mais urgentemente tais ações? Se a intenção é promover iniciativas que impactam a vida de pessoas socialmente vulneráveis, por que isso não ocorre nas regiões mais pobres? Tais inovações sociais estão ocorrendo onde existem demandas sociais e ambientais para negócios deste tipo ou em regiões onde se encontra boa infraestrutura e investimentos? Se são Negócios de Impacto Social, por que não estão onde deveriam estar?

Alguns podem afirmar que com o avanço das tecnologias de comunicação, das mídias sociais e do home office, tal distanciamento não se constituiria em um problema maior. No entanto, quando o foco são Inovações Sociais, o distanciamento geográfico e presencial também pode expressar um distanciamento cotidiano e uma concentração de poder, status, visibilidade social e capacidade econômica na mão de alguns, e nunca nas comunidades e grupos locais. Ou seja, esses resultados preocupam e deveriam preocupar toda a comunidade do Ecossistema de Negócios de Impacto no país, pois denotam baixo protagonismo, autonomia e centralidade dos grupos locais e periféricos na criação, gestão e aprimoramento dos Negócios de Impacto em Minas Gerais.

Quando se abre o campo de visão e busca-se um posicionamento mais global da situação é possível verificar que tal fenômeno dos Negócios de Impacto no Brasil contemporâneo tem sido marcado pelo elitismo e concentração de atenções, visibilidade midiática e poder simbólico e econômico em alguns atores econômicos, aqueles que ocupam lugar de centralidade no Ecossistema de Negócios de Impacto como geradores de pesquisas acadêmicas, consultoria e educação gerencial.

Sim, algo como um boom seletivo. Algumas entram, outras não, mesmo tendo características iguais ou até mais relevantes do que os exemplos mais benquistos. Você saberia dizer a diferença entre uma organização informal de agricultores que se mobilizam para cultivar, plantar e vender frutas e verduras livres de agrotóxicos daquele negócio de impacto – uma fazenda urbana dentro de um shopping center – que se propõe a melhorar a experiência do consumo sustentável por meio de alimentos saudáveis? De fato, são bem parecidas, não são? Ainda, por que as pessoas estariam mais dispostas a pagar um preço mais caro por produtos advindos do negócio de impacto do que da iniciativa dos agricultores? Talvez existam maiores possibilidades de a iniciativa dos agricultores gerar mais impacto positivo para os envolvidos, suas famílias e seus clientes do que a “fazendo urbana”. Por que, então, para essa parcela de organizações a notoriedade ainda não chegou – e talvez não chegue? Aliás, como dito anteriormente, tais ações não são novas. Elas sempre estiveram por aí... por aqui... Seriam elas menos importantes? Ou seriam elas mais sociais do que os Negócios de Impacto? Ou, até mesmo, não seriam tão “descoladas” como os Negócios de Impacto protagonizados por pessoas e grupos que tem uma trajetória de acumulação de privilégios sociais? Tais constatações de discrepância não estão apenas restritas ao mundo da alimentação saudável, mas em diversas outras áreas, como iniciativas voltadas para a educação, cidadania, tecnologias verdes, saúde e cultura, enfim, uma infinidade de possibilidades de verificação de tais circunstâncias seletivas – ou “gourmetizadoras”.

Uma forma de mitigar essa “Gourmetização” é inserir alguns protagonistas nos espaços de fala e visibilidade, em vários das dezenas de eventos que se multiplicam no Ecossistema de Negócios de Impacto no país. Mas, é sempre uma inserção pontual, em um momento desses encontros, quase que reproduzindo uma lógica que muitos pesquisadores do campo da chamada “Cultura de Consumo” chamam de “consumo das causas sociais e ambientais”. Se a maioria da população em situação de vulnerabilidade e risco socioambiental no país está nas classes populares, entre os negros e negras, formada por mulheres e LGBTQIA e sem educação formal, apenas alguns desses falam nesses encontros, dominados pela fala dos educados formalmente, geralmente com avançada formação no campo das Ciências Gerenciais, pelos filhos da classe média e das classes altas e por aqueles com capacidade de reprodução dos capitais simbólicos e econômicos que geram também desigualdades.

Novamente, para as mentes habituadas a imaginar que Inovação é atributo de pesquisa complexa, sofisticada e feita em laboratórios, mas nunca algo protagonizado por gente simples, “gente como a gente”, não haveria maiores problemas com isso. Porém, para quem se preocupa com Inovação Social, um dos pilares do “sonho dourado” do Ecossistema de Negócios de Impacto no Brasil, nada mais preocupante, visto que Tecnologias Sociais e Inovações Sociais não acontecem e são protagonizadas por grupos elitizados, é justamente o contrário. E é justamente no saber cotidiano, local, culturalmente localizado e ambientalmente conectado com os territórios que podem surgir e surgem inovações necessárias para a transição em direção à Sustentabilidade.

Muitas vezes, o debate, quando se tenta incorporar uma visão crítica para a análise dos Negócios de Impacto, é marcado por lugares comuns e fugas. É como se o senso crítico não pudesse fazer parte do repertório de quem pesquisa, pratica extensão universitária, dá consultorias e atua junto a comunidades. Partimos aqui do pressuposto oposto a isso. Só com visão crítica é possível transformar efetivamente, ou novamente, gerarm o tão almejado e sempre tão distante impacto social. E, longe de propormos dicotomias analíticas bem ao sabor de quem adora rotular e tem menos afinidade em debater e refletir criticamente e com bastante autocrítica.

É necessário ser crítico. Inovação social, quando efetiva, deve ser desenvolvida com as pessoas e não para as pessoas. Elas são os atores principais nessa dinâmica. Onde estariam eles então? É preciso parar, pensar, refletir e ponderar se de fato estamos no caminho certo ou criando uma nova roupagem, mais bonita, menos agressiva, aceitável do nosso modelo tradicional de fazer negócios e do impacto causado por eles. No campo das Ciências Gerenciais, tão rico, infelizmente, em exemplos do que poderíamos chamar de “A Roupa Nova do Imperador”, muitos modismos, ideias e propostas sempre se apresentam como a modernidade momentânea, em oposição a todo o resto, sempre rotulado como passado e anacronismo. E, invariavelmente, como na história infantil do imperador nu, esses “cantos de sereia” só levam a novos desencantos. Como Betinho uma vez disse, “quem tem fome tem pressa”, portanto, é urgente que mais reflexividade, criticidade e reposicionamentos aconteçam entre todos que compõem o Ecossistema de Negócios de Impacto no país.

É necessário se atentar ao processo de “elitização” das ações sociais. Ter menos foco no empreendedor, menos show e espetáculo, e mais foco nas pessoas no cotidiano das comunidades e da gestão, na gestão do cotidiano. Elas são e elas devem ser as protagonistas.







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