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Mamãemedisse

Por Nádia Rebouças, Colunista de Plurale

Não foi só minha mãe. Foram minhas avós, minha tia, minhas professoras. Só podem ter sido elas que plantaram em mim a semente de se deixar ser mulher em toda sua complexidade. Se eu pensar bem, até meu avô e meu pai me alertaram sobre os tipos de macho que eu encontraria pela vida afora. Eram machistas conscientes. E como os encontrei! Semana passada tivemos um exemplo escancarado do tipo. Na maioria das vezes as coisas são bem mais sutis... no trabalho, nas relações afetivas, nas ruas de todas as cidades e hoje nas redes sociais. A semente plantada na infância se fortaleceu na adolescência e daí foi só florescendo. Nunca pensei em ser forte e independente, apenas fui. Sou.

Olho para as mulheres árvores que soltam novas sementes, se enfeitam de flores, dão frutos todos os dias, fincadas na terra, acessando as águas do subsolo. Assisto a força delas no meu trabalho, nas favelas e agora na guerra. É nelas que precisamos investir porque elas é que tem coragem para seguir, sejam quais foram as condições. Amam, protegem, se rebelam, buscam soluções para grandes e pequenos desafios, lutam para estudar, ter um trabalho com propósito, para simplesmente ser. São exemplos de força, coragem, magia. Quanto mais massacradas, com mais força renascem! Aí estão por toda parte se organizando, se apoiando, distribuindo coragem. Sem elas a pandemia teria sido um desastre ainda maior no Brasil. Mamãefalei não escutou, não enxergou. São tantos assim que só a nossa luta contínua pode, no correr da história, trazer um mundo menos injusto para minha neta!

Hoje não é dia de flores e lindas imagens. É dia de recordar quantas de nós, mesmo recebendo flores num dia, tiveram que ser resistentes em todos os outros. Quanta morreram depois de receber flores. Como cada conquista foi uma luta. É dia de olhar para quanta luta temos ainda pela frente para construir um mundo melhor. Fazemos gente, produzimos vida, por isso, está na nossa essência o amor. Muitas de nós não dão conta, mas milhões estão aí fazendo de conta que são muito poderosas e por isso magicamente conquistam coisas impensáveis. Não sem lágrimas. Sabemos chorar e não molhar nossa coragem. Quero dedicar esse dia às mães que perdem seus filhos por atos de violência, não há dor maior! Às mães que sabem de antemão como será difícil para suas filhas enfrentar os preconceitos, o racismo estrutural. Às mulheres que perdem seus companheiros para a violência e que muitas vezes vivem a violência diariamente. Às mulheres trans que são mortas por esse país. Às vítimas de feminicídio que não conseguimos salvar! A todas, todes que só querem ser! As muitas mulheres, e são elas, que não tem medo da tecnologia, que saem para se alfabetizar e encarar todas as mudanças dessa nossa época! Às mulheres da Amazônia, protetoras da floresta, fazedoras de medicamentos. Às indígenas e sua sabedoria. Eu quero dedicar esse dia às meninas do mundo todo, que sabem quanta coragem vão precisar ter para viver, florescer, frutificar e fazer nascer, quanto desamor vão precisar viver para seguir no amor. Coragem. Por um lado, temos que comemorar as vitórias, mas por outro temos que nos preparar para mais e mais lutas. A beleza e a magia estão aí... e ainda sabemos sorrir, nos enfeitar e dançar. Ainda nos deslumbramos com o pôr do sol e a lua. Hoje vamos dar um profundo respirar e seguir.







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4 comentários | Comente

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nadia rebouças |
Amália querida muito grata por seu comentário! Você é uma pessoa e profissional admirável!

Amalia E Fischer P |
Nadia, equilibradas reflexoes fora do âmbito dicotômica, tocando a complexidade da ternura e da potencia da força das diversas resistencias, nestes tempos sombrios, de narrativas misoginas, odios, guerra e odas as armas. Tenho uma amiga colombiana que frente a guerra em Colombia, falava já nos 80 : Nos mulheres criamos vida, nossos corpos podem produzir vida, em tanto muitos deles, os patriarcas criam morte. Quando ira acabar esta dicotomia patriarcal?

Emocionante e compartilhando |
Emocionante e contagiante reconhecer que a luta continua

Luiz |
Mais um texto inspirador da Professora Nádia. Que beleza!

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