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Petrobras abre mão do ESG ao aumentar preços

Por Kelly Lima, Jornalista (*)

Especial para Plurale

A alta no preço do diesel, gasolina e gás de cozinha na última quinta-feira, de 24,9%, 18,8% e 16% respectivamente, não é provocada pela Guerra da Rússia com a Ucrânia, nem pela Pandemia, nem uma herança da Lava-Jato e muito menos pode ser creditada apenas aos reajustes de ICMS dos estados, que é apenas um percentual sobre o valor total. Se os preços reajustam, o percentual vai junto.

A alta – maior em um único dia na série histórica de 22 anos – é resultado da política de Preço de Paridade de Importação (PPI), adotada em outubro de 2016, e mantida com afinco pelo atual governo. Com o PPI, os preços internos dos combustíveis são reajustados com base nas cotações internacionais do petróleo, variação cambial e custos de importação de derivados.

Desde sua adoção, a gasolina e o óleo diesel, na refinaria, tiveram reajuste de 157%, ante uma inflação de 31,5% no período. No gás de cozinha, a alta acumulada foi ainda maior, de 349,3%, ou seja, 11 vezes a inflação do período. A opção de fazer valer o PPI ignora que o País importa entre 27% e 30% do GLP (Gás Liquefeito de Petróleo, o gás de cozinha) que consome, 25% do óleo diesel e entre 6% e 8% da gasolina.

Mais do que isso, a empresa opta por investir menos em sua autossuficiência, do que na distribuição de dividendos recordes entre seus acionistas. Foram definidos R$ 104 bilhões para serem distribuídos.

Pelas lentes da sigla ESG, a empresa derrapa nas três letras. "A empresa estatal e de economia mista tem sua função social voltada ao interesse coletivo, logo, deverá adotar práticas compatíveis com o seu mercado de atuação", destaca o livro ESG: O Cisne Verde e o Capitalismo de Stakeholder.

No "capitalismo de stakeholders", as empresas produzem resultados positivos para os negócios, para a economia, para a sociedade e para o planeta. Os impactos da política de preços da Petrobras contribuem com o aumento da desigualdade, e afetam diretamente a população mais pobre, já que os alimentos sobem desenfreadamente com a inflação. A empresa também foge do ESG, ao optar por não investir na autossuficiência, ou na substituição de combustíveis fósseis, privilegiando acionistas no curto prazo.

"Sem resultado financeiro, não existe negócio, mas as crescentes discussões sobre sustentabilidade, responsabilidade social e governança mostram que o lucro é um meio e não finalidade da operação, cuja razão de existir vai além". A frase é do CMO do Mac Donald's, João Branco.

É curioso que uma das marcas símbolos do capitalismo possa dar conselhos a uma estatal sobre como enxergar para além do lucro.

(*) Kelly Lima é jornalista e sócia fundadora da Alter Conteúdo Relevante. É também fundadora do portal Estratégia ESG.







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