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PLURALE EM REVISTA, 77 - ESG e Metaverso: o caminho para o capitalismo de entorno

Por Luiz Fernando de Almeida Bello, Colunista de Plurale (*)

Artigo é destaque na Edição 77 de Plurale em revista

"No início era o Verbo, e o Verbo estava voltado para Deus, e o Verbo era Deus. Ele estava, no início, voltado para Deus. Tudo foi feito por meio dele; e sem ele nada se fez do que foi feito. Nele estava a vida, e a vida era a luz dos homens, e a luz brilha nas trevas, e as trevas não a compreenderam. A abertura do primeiro capítulo do Evangellho de João” constitui excelente metáfora para descrever a evolução da influência dos princípios ESG na gestão de empresas e de empreendimentos em geral. Serve também para qualificar o desenvolvimento de tecnologias que permitem incluir em programas de realidade virtual todo um universo: o metaverso.

Todos os prognósticos para o comportamento do mercado de ações para 2022, realizados no final do ano passado, destacam as perspectivas favoráveis para a alta dos preços das ações de empresas que adotaram e vivem os princípios ESG - e das empresas que investem na criação de universos virtuais. Quais as consequências possíveis da aplicação de técnicas do Metaverso sobre as melhores práticas ESG? Serão positivas ou negativas? Para responder às questões (se nos dias de hoje for possível), torna-se necessário verificar como tudo começou.

A preocupação com a sustentabilidade da terra ganhou força com a constatação de que a atividade produtiva gera a mais variada gama de poluentes, especialmente carbono, que provocam aquecimento “anormal” do planeta. Cada grau de temperatura a mais provoca derretimento acelerado do gelo nos polos terrestres, com consequências devastadoras. A conferência Rio 92 marcou o início do processo de conscientização sobre as ameaças geradas à sobrevivência da humanidade pelo aquecimento global. A preocupação com a sustentabilidade levou consumidores, investidores e um significativo grupo de empresas a procurar soluções para o problema.

Surge então o conceito ESG, resultado de uma iniciativa da Organização das Nações Unidas (ONU) e do Banco Mundial, lá em 2005. Na ocasião, 20 instituições financeiras de 9 países – inclusive o Banco do Brasil – se uniram para buscar uma forma de incluir questões ambientais, sociais e de governança no mercado de capitais. A partir disso, nasceu o conceito ESG. O nome dado ao relatório foi “Who Cares Wins” (“Ganha Quem se Importa”, em português). Além disso, o termo ESG ganhou bastante destaque no Fórum Econômico Mundial que ocorreu em Davos, no ano de 2020. Na época, a pandemia de covid-19 acelerou e emplacou critérios ESG como centrais nas discussões da perenidade do negócio.

Adotar o conceito ESG, diretamente ligado ao universo dos investimentos, significa direcionar as empresas para obter o equilíbrio dos aspectos ambiental, social e de governança na gestão dos seus negócios, articulando os aspectos econômicos, de transparência e de ética, em busca de assegurar a competitividade e a perenidade de uma empresa. Como bem definiu a Raizen em seus relatórios, a sigla ESG vem do inglês e significa Environmental, Social and Governance (Ambiental, Social e Governança). Conceito que tem usos diferentes, podendo ser aplicado internamente, na gestão da empresa ou, externamente, para analisá-la.

Bom exemplo de aplicação do conceito ESG são os dez princípios do Pacto Global acordado por diversas organizações/empresas que se comprometeram a segui-los no dia-a-dia de suas operações. Os princípios foram derivados da Declaração Universal de Direitos Humanos, da Declaração da Organização Internacional do Trabalho sobre Princípios e Direitos Fundamentais no Trabalho, da Declaração do Rio sobre Meio Ambiente e Desenvolvimento e da Convenção das Nações Unidas Contra a Corrupção. São eles: relativos a diretos humanos, as empresas devem apoiar e respeitar a proteção de direitos humanos reconhecidos internacionalmente e assegurar-se de sua não-participação em violações destes direitos; referentes ao trabalho, as empresas devem apoiar a liberdade de associação e o reconhecimento efetivo do direito à negociação coletiva, a eliminação de todas as formas de trabalho forçado ou compulsório, a abolição efetiva do trabalho infantil e eliminar a discriminação no emprego; e direcionados à proteção do meio ambiente, as empresas devem apoiar uma abordagem preventiva aos desafios ambientais, desenvolver iniciativas para promover maior responsabilidade ambiental e incentivar o desenvolvimento e a difusão de tecnologias ambientalmente amigáveis. Por último, mas não menos importante: as empresas devem combater a corrupção em todas as suas formas, inclusive extorsão e propina.

Se seguir de fato os princípios do Pacto Global e os princípios de Governança Corporativa (sistema pelo qual as empresas e demais organizações são dirigidas, monitoradas e incentivadas, envolvendo os relacionamentos entre sócios, conselho de administração, diretoria, órgãos de fiscalização e controle e demais partes interessadas), a organização/empresa será bem avaliada em termos de ESG. Entretanto, no início era a propaganda, e a propaganda estava voltada para enganar. A situação vem melhorando gradativamente, conforme investidores apertam os controles, como, por exemplo, o PRI (Princípios para o Investimento Responsável) criados por investidores que se obrigaram a cumpri-los (mais de 1400 que administram ou detém US$ 59 trilhões de ativos). São seis os princípios, todos voltados para apuração e análise, objetivando verificar a efetividade do comportamento ESG da organização/empresa analisada.

As instituições que determinam regras de apuração e divulgação de resultados contábeis também estão fazendo sua parte. Recentemente, a Fundação IFRS - International Financial Reporting Standards (conjunto de normas internacionais de contabilidade emitidas e revisadas pelo IASB - International Accounting Standards Board – conselho normativo que tem como objetivo uniformizar os procedimentos contábeis e as políticas existentes entre os países, melhorando a estrutura conceitual e proporcionando a mesma interpretação das demonstrações financeiras) anunciou a formação de um novo Conselho Internacional de Padrões de Sustentabilidade (ISSB) para desenvolver – no interesse público – uma linha de base global abrangente de padrões de divulgação de sustentabilidade de alta qualidade,a para atender às necessidades de informações dos investidores. A Fundação IFRS completará a consolidação do Climate Disclosure Standards Board (CDSB—uma iniciativa do CDP) e da Value Reporting Foundation (VRF—que abriga o Integrated Reporting Framework e os Padrões SASB de sustentabilidade). O desenvolvimento e a utilização dos padrões facilitará a vida de todos aqueles que relatam ou analisam.

O conceito ESG nasceu da propaganda do caos que o planeta viveria se não viesse a deter o seu aquecimento e, inicialmente, serviu apenas como elemento de marketing para atrair consumidores e investidores para os produtos de empresas bem intencionadas, mas que jamais saíam da intenção. O metaverso, como elemento de atração de investidores, também se origina de propaganda. Da propaganda do Mark Zuckerberg, cuja empresa, Facebook, mudou de nome para Meta no ano passado, com ampla divulgação na mídia sobre o futuro brilhante da realidade virtual extrema, além de ter comprado por US$ 2 bilhões a produtora de óculos de realidade virtual Oculos VR. Originou-se também da propaganda das robôs (Lu da Magalu e outras) e dos jogos eletrônicos, mercado no qual uma das empresas líderes, a Epic Games, vai investir US$ 1 bilhão em sua visão/expectativa de longo prazo para o metaverso.

Aparentemente, seria o metaverso uma versão mais sofisticada da tecnologia de realidade virtual, mas trata-se de coisa com possibilidades de uso muito maiores, mas também muito mais complexa. A criação de universos virtuais, na verdade novos espaços on line, permitirá vivenciar o conteúdo digital com interações multidimensionais, possibilitando completa imersão do usuário. No admirável mundo novo, o usuário não ficará limitado a imagens e sons. Tato, olfato e paladar entrarão em ação. No momento, as empresas e laboratórios trabalham com o desenvolvimento de novos dispositivos de realidade virtual, como trajes corporais e esteiras omnidirecionais.

Em suma, sem sair da poltrona será possível testar o carro dos seus sonhos, sentindo todas as sensações físicas por eletroestimulação e, até mesmo, sentir o “cheirinho de novo”. Neste ponto, o metaverso se liga ao conceito ESG, pois evita o consumo de combustíveis e a emissão de carbono. A qualidade de reuniões virtuais aumenta, inibindo viagens. Os testes de aceitação de roupas poderão ser feitos virtualmente, tornando desnecessária a confecção de milhares de provas (a indústria da “moda” gera 10% das emissões de carbono do planeta). O metaverso também torna mais efetiva a fiscalização das práticas ESG pela maior interação com as empresas analisadas.

A segurança dos passeios pelo metaverso será garantida por tecnologias como blockchain e pelo uso de NFT (Non Fungible Token), símbolos perfilados por códigos numéricos com registro digital. Os NFT não são mutuamente intercambiáveis, ao contrário de outros tokens utilitários, como as criptomoedas, o que lhes dá a característica de “objetos colecionáveis”.

Hoje, a conclusão pende para a positividade do uso do metaverso em termos de ESG. As janelas de oportunidade abertas pelo metaverso em comunicação e mobilidade somente virtual podem contribuir para o desenvolvimento do capitalismo de entorno, no qual as empresas não têm obrigações apenas com seus acionistas. Até mesmo para gerar valor para seus sócios, as empresas têm que cumprir obrigações com o bem-estar de toda a sociedade. A obrigação social das organizações com fins lucrativos deixa de ser somente gerar lucro, como pregava Peter Drucker.

No início era o verbo, e o verbo estava voltado para o ser humano e para todos os seres vivos, inclusive o planeta que habitamos. Terra.

(*) Luiz Fernando de Almeida Bello, economista pela UFRJ, conselheiro e diretor da APIMEC. Foi superintendente financeiro e de cooperação internacional da FINEP, diretor presidente da Fundação da FINEP, do IPEA e do CNPq, e gestor de investimentos da AIG no Brasil e do grupo Sul América.







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2 comentários | Comente

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Paulo César Vieira Helayel |
Bello Iluminando as mentes .

Nelson Tucci |
Taí mais um ótimo artigo do Bello. Reflexão pertinente e atualizadíssima como, aliás, é o estilo desse economista. Parabéns!

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