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PLURALE EM REVISTA, 77 - `Ecochatos'...Ativistas...'Greenwashing' ... ESG

Por Fernando Thompson, Colunista de Plurale (*)
Com certeza vocês já ouviram alguma dessas palavras aí de cima. Vivemos uma sopinha de letrinhas sobre um dos temas mais importantes do século XXI: o respeito ao outro. Este outro pode ser um negro, um gay, um deficiente, ou mesmo um planeta.

No século passado, “ecochato” era aquele que defendia o meio ambiente em todos os lugares, até em festa de família. Mas naqueles tempos, este era um tipo de assunto que pouco envolvia a sociedade, não se tinha ideia de como a ação do homem estava a arruinar o equilíbrio do planeta. Os resultados eram os “guetos” para discussão sobre assuntos como aquecimento global, tratamento de resíduos, rios flutuantes (nuvens de chuvas que se formam na Amazônia e viajam o planeta levando água, que depois voltam à terra, em forma de chuva...).

Quer um exemplo? Voltemos a 12 de setembro de 1981. Final do festival MPB Shell, organizado pela Rede Globo. Naquela noite, o Maracanãzinho assistiu à maior vaia da sua história. Foi quando Lucinha Lins subiu ao palco para cantar a música vencedora da noite: “Purpurina”, composta pelo gaúcho Jerônimo Jardim. Mas o público torcia por outra, “Planeta Água”, de Guilherme Arantes. Veja a cena no link: https://www.youtube.com/watch?v=7JB9h5y_nGY&t=64s

O brilhante jornalista André Barcinski escreveu, em 2021, belo artigo por conta dos 40 anos daquele festival. ‘A disputa entre “Purpurina” e “Planeta Água” simbolizou um racha que chegava ao auge exatamente naquele início dos anos 1980: a briga entre a “velha” MPB de origem bossa-novista e o “novo” pop brasileiro. Lucinha Lins e Guilherme Arantes encarnavam os estereótipos de cada estilo: ela, uma linda, fria e elegante crooner, apresentando uma canção sofisticada e apolínea; ele, um jovem rebelde de cabelos desgrenhados e pinta de galã teen, enchendo o peito para cantar uma música de letra simples e forte apelo pop. Essa “briga” não se limitava às arquibancadas do Maracanãzinho, mas chegava também às ondas do rádio, onde o velho domínio das estações AM estava sendo destruído por uma revolução jovem: as FMs’.

Esse caldeirão cultural e revolucionário chegou ao meio ambiente. Era uma época em que a ecologia saía dos livros e ganhava as ruas, as mesas dos bares. Mas isso não se refletia no mundo corporativo, onde os gases do efeito estufa eram prática comum.

A miopia das organizações vai além do clima. Mesmo em um negócio da ordem de US$ 68,7 bilhões, que envolva duas gigantes do mundo da internet. Em janeiro deste ano, a Women Friendly publicou texto no LinkedIn: “Para quem ainda não entendeu o quanto vale a pena proteger funcionários e funcionárias: Nesta semana, a indústria de games foi impactada pela notícia de que a Microsoft comprou a Activision Blizzard, responsável por jogos famosos, como Call of Duty, Warcraft e Diablo. Segundo a agência Bloomberg, o estopim da transação envolveu os mais de 700 casos de assédio sexual e sexismo, além de um caso de estupro de uma funcionária por seu superior. O RH da empresa tentou encobrir as provas, destruindo papéis e deletando e-mails sobre reclamações de funcionárias que tinham sido ignoradas. Esta é mais uma prova de que a prevenção e o combate ao assédio devem ser um pilar da cultura de todas as organizações, já que influencia diversas questões, desde lucro até turnover e employer branding. Cuidar de seus funcionários no ambiente de trabalho é uma forma de garantir impacto social, inclusive ESG, é uma critério de avaliação de investidores e também de consumidores”.

Mas afinal o que é essa tal de ESG? A sigla ESG está em inglês e significa “Environmental, Social and Governance”. Em português, podemos falar de investimentos ASG, sigla para as palavras Ambiental, Social e Governança. Basicamente, os investidores ou gestores de fundos, em busca de ativos ESG, procuram empresas que sejam bem classificadas nos fatores de responsabilidade ambiental, cuidado social e governança corporativa. Os critérios ESG não se limitam apenas a valores pessoais, mas também têm relação com o sucesso e a perspectiva de futuro de um negócio. O ESG não trata apenas de investimento em si, mas sim de uma estratégia utilizada para selecionar ativos. Em outras palavras, o investidor terá esses elementos em mente na hora de direcionar seus recursos no mercado de capitais.

O ponto central é que o negócio tenha evidente preocupação e comprometimento com a melhoria ambiental e socioeconômica do seu entorno. Além, claro, de apresentar transparência e qualidade na relação com seus funcionários, líderes e investidores.

Ser uma empresa ESG não é apenas ser “moderninha”. Estamos falando de um universo de bilhões de dólares:

A disputa por todo este dinheiro está cada vez mais acirrada. O CEO da BlackRock, maior gestora do mundo com 9,5 trilhões de dólares sob gestão, Larry Fink, escreve anualmente uma carta endereçada a investidores e empresas investidas. Reportagem da revista Exame de janeiro/2022 mostra que, na carta deste ano, Fink diz: a luta não será apenas por mais ética nos negócios. É por resultados. “O capitalismo de stakeholder não se trata de política. Não é uma agenda social ou ideológica. Não é “justiça social”. É capitalismo, conduzido por relacionamentos mutuamente benéficos entre você e os funcionários, clientes, fornecedores e comunidades dos quais sua empresa depende para prosperar. Esse é o poder do capitalismo”, escreve o CEO na carta deste ano. O trabalho de Fink será desafiador, já que o fundo ainda detém importantes participações em empresas de petróleo, um dos setores mais poluidores do planeta.

No Brasil, o cerco sobre as empresas está se fechando. No fim de 2021, o site Reset trouxe uma notícia animadora: a Comissão de Valores Mobiliários (CVM), o xerife do mercado de ações por ações, publicou novas regras para a prestação de contas na agenda ESG, com impacto importante nas questões de diversidade e inclusão. A partir de 2022, as empresas de capital aberto precisarão prestar informações mais detalhadas em seus formulários de referência, documento que é compartilhado com o mercado anualmente. Especificamente no tema de diversidade, será necessário informar o número de funcionários por gênero, raça e idade em todos os níveis hierárquicos, da base ao conselho de administração. As disparidades salariais também precisarão ser detalhadas.

Obs: Mais detalhes podem ser encontrados no link: https://www.capitalreset.com/cvm-passa-a-exigir-informacoes-esg-de-companhias-listadas/

Como vimos acima, no título e no texto, não se trata mais de um jogo de palavras ou de conversa de bar. Acabou o tempo do “marketing verde”. A sociedade não aceitará mais “banhos de loja”. Os gestores que não entenderem isso serão postos fora do jogo. O tempo está acabando. Tic...Tac...Tic...Tac.

(*) Fernando Thompso é jornalista, consultor e Doutorando em comunicação na Universidade Nova de Lisboa.







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