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Pelo Brasil

Exposição promove encontro entre artes brasileira e chinesa

“Atrás da grande muralha”, que vai até final de maio, busca artistas dos dois países para um diálogo marcante entre culturas ainda em fase de descoberta.

Por Hélio de Mendonça Rocha, articulista e repórter de Política Internacional

Da China Radio International (em português)

Entrada da exposição

Entrada da exposição

O estreitamento cultural entre o Brasil e a China é um objetivo que vem sendo incessantemente perseguido por ambos os países. Fortes parceiros na política e na economia, brasileiros e chineses ainda permanecem mais distantes do que deveriam, quando o tema é o intercâmbio de cultura e comportamentos. Por isso, o Museu de Arte de Brasília promove, até de 22 de maio, a mostra Atrás da Grande Muralha, que reúne diversos trabalhos artísticos que têm em comum o intercâmbio sino-brasileiro. A premissa é de que, se os dois países figuram entre os maiores do mundo e futuras potências do mundo multipolar, o compartilhamento da cultura se faz necessário para estabilizar uma parceria de sucesso para o século XXI.

Este futuro pode estar no trabalho do artista chinês radicado no Brasil Wang Hsiao Po, nascido na cidade de Hangzhou, província de Zhejiang, e emigrado ao Brasil no final dos 1970. Um verdadeiro embaixador da cultura chinesa, introduziu elementos culturais como o wushu, a acupuntura e a pintura tradicional chinesa. Na mostra, ele apresenta obras extremamente leais ao padrão clássico da pintura de seu país, servindo como ponto de partida para as experimentações de artistas mais jovens, que buscam o diálogo entre a arte brasileira e a chinesa.

“Moro no Brasil há 33 anos, em Brasília. Amo caligrafia chinesa e pintura a tinta desde criança. As quatro obras que selecionei são baseadas na história, cultura e arte chinesas. Foquei em China e Brasil, intercâmbios culturais e artísticos, buscando a criação e troca amistosas, para o desenvolvimento de uma arte moderna. China e Brasil são amigos há décadas, e hoje têm obras de arte expostas na mesma sala de exposições, o que marca a concretização das trocas amigáveis e plataforma de intercâmbio entre os dois países no pensamento filosófico e nos valores artísticos, que não são afetados pelas fronteiras nacionais.”

A harmonia se manifesta no encontro das linguagens artísticas

Uma parte importante da mostra são os artistas brasileiros que, ao tomar contato com a arte chinesa, ressignificaram suas obras do ponto de vista estético e filosófico. Entre eles está Dulce Schunk, nascida em Porto Alegre, Rio Grande do Sul. Ela faz um trabalho que obtém as tintas de recursos que ela mesma busca na natureza para transformar em tinta. Para o evento, ela apresentou trabalhos da série “Flora do cerrado”, em que retrata a vegetação local em representações muito ampliadas de trechos de flores, folhas e outros elementos naturais. Entre as obras está Calliandra, uma pequena flor vermelha do ecossistema do cerrado, que possui um aspecto exuberante e resiliente.

Coleção Flores do Cerrado, de Dulce Schunk

Coleção Flores do Cerrado, de Dulce Schunk

“Calliandra é um exemplo heroico da firmeza e da coragem, trazendo a lembrança do ciclo da vida. Meu trabalho estabelece um laço com a arte chinesa pela exuberância cromática, profusão de linhas marcantes, o uso de cada cor como as antigas gravuras chinesas, a presença marcante do vermelho e as direções enérgicas das linhas. A coragem de transitar entre o abstrato e o figurativo.”

Calliandra, de Dulce Schunk

Calliandra, de Dulce Schunk

Outro artista plástico é Christus Nóbrega, natural de João Pessoa, Paraíba, que fez residência artística na China em 2015, na Academia Central de Belas Artes, em Beijing. Desde então, trabalhou muitas vezes com o tema China-Brasil. Nesta exposição, Nóbrega apresenta trabalhos de duas séries: “A roupa nova do rei” e “Vermelho”. A primeira são autorretratos, sobrepostos por papéis chineses de arroz, recortados à mão com técnicas chinesas, e prendidas por alfinetes de ouro, desenhando traços da arte chinesa.

Obra de A Nova Roupa do Rei, outra coleção dele

Obra de A Nova Roupa do Rei, outra coleção dele

Vermelho, uma das coleções do artista Christus

Vermelho, uma das coleções do artista Christus

Já a coleção “Vermelho”, desenvolvida especificamente para a exposição, figura a cor símbolo da nação e da cultura chinesas, como princípio que traz o elo para a cultura brasileira, que aparece em desenhos abstratos, fotos ou ilustrações carregadas da cor vermelha.

Isto porque o Brasil tem o vermelho na sua origem, uma vez que os portugueses lhe deram o nome de uma madeira vermelha somente encontrada nessas terras. O pau-brasil, ou “pau da cor da brasa”, deu o nome ao país. A cor também está no sangue derramado pelos povos que construíram o país em meio à colonização. “Pensar esta cor é pensar na luta por libertação. No país colonizado pelos portugueses, escravização dos africanos e extermínio dos indígenas.”

Encontro constrói pontes para a arte

Segundo o curador da mostra, Clay d’Paula, a exposição não é somente uma promoção do intercâmbio binacional, mas sobretudo uma oportunidade para o público e artistas desenvolverem novas percepções de arte, e assim possibilitar novas linguagens no processo criativo das artes plásticas.

Wang Hsiao Po com o curador

Wang Hsiao Po com o curador

Ele exemplifica com um dos principais artistas da exposição, o renomado chinês Sun Xun, que enriqueceu sua forma de pintar ao passar um tempo no Brasil.

“Ele normalmente pinta tons cinzentos, uma paleta de cores que varia em tons escuros, sóbrios, não abrindo mão dessa identidade visual. Quando veio ao Brasil, seus anseios o conduziram a uma obra colorida, tomada por uma alegria bem brasileira, o que deixou de legado uma obra bem característica. Ela está na exposição.”

Obras de Sun Xun

Obras de Sun Xun

D’Paula conclui que o mais importante é a promoção dessa troca como vanguarda cultural, já que a arte chinesa ainda é uma novidade para o repertório ocidental, o que permite uma ampliação de horizontes que há décadas não se imaginava. “Eu estudei na Austrália e lá existe o mesmo movimento, que tenho ajudado a trazer para cá. É um caminho natural e desejável para as artes e a superação de linguagens óbvias.”







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