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PLURALE EM REVISTA 77 - Egito, viagem fantástica para conhecer as belezas natural, cultural e sua gente

Por Adriana Boscov, do Egito, Especial para Plurale

Fotos por Adriana Boscov e Leonardo Moraes de Souza

Conhecer o Egito sempre foi um dos meus sonhos desde as minhas primeiras aulas de história quando aprendi que mais de 10.000 anos antes de Cristo já existia uma civilização que tinha sua própria escrita, cálculos de engenharia que até hoje poucos entendem e uma cultura riquíssima. E este sonho se realizou quando completei nada mais que meio século em 2021.

É claro que o Egito dos faraós está muito distante do Egito atual: caótico e desordenado, com milhares de pessoas vivendo na pobreza extrema, e rodeado por países que pregam o terrorismo. Mas todo aquele charme e luxo dos faraós persiste nos monumentos e museus espalhados por todo o Egito. Soma-se a essa riqueza cultural, sua riqueza natural e belezas ímpares para se conhecer além das relíquias históricas.

Sempre gostamos de organizar nossas viagens ao invés de nos juntar a grupos guiados e devo dizer que no Egito isso fez toda a diferença. Se você é como a gente, provavelmente vai ficar se perguntando o mesmo que eu e Léo, meu marido e companheiro de aventuras, pensamos: mas será que é seguro? E a resposta é sim. O Egito, apesar de todas as notícias que vimos na TV e da presença constante das forças armadas e polícia nas ruas, foi um dos países onde nos sentimos mais seguros.

O maior problema é a língua. O árabe não se assemelha a nenhuma das línguas que estudei. Soma-se a isso 80% da população é de muçulmanos e a presença militar ostensiva, me fizeram questionar minha segurança como mulher viajando somente com meu marido em terras onde o próximo posto de gasolina pode estar a 6 horas de viagem no deserto. E foi somente por isso que optamos pela primeira vez em não alugar um carro e contratar um guia local, com transporte privado.

Ter um guia faz uma diferença incrível porque não precisamos nos preocupar em ser compreendidos e sabíamos que teríamos todos os passes necessários para nossa mobilidade pelas estradas – sim, você como estrangeiro no Egito precisa ter passes de mobilidade onde são registrados seu nome, número de passaporte, local de hospedagem, itinerário, nome do guia e nome do motorista.

Nossa viagem começou dois meses antes quando iniciamos as conversas com nossa superguia Catherine. Primeiramente ela nos ofereceu um roteiro padrão que é o que ela costuma fazer com os viajantes, que juntamos com pesquisas em sites e Blogs sobre o Egito, guias e livros, tudo para entender quais eram os diferenciais, aqueles lugares especiais para além desses roteiros. E nessas pesquisas e conversas descobrimos um Egito desconhecido para a maioria dos brasileiros que nos encantaram.

Forte em Alexandria - Egito - Foto de Adriana Boscov/ Plurale

Um país inteiro para conhecer - O Egito é muito mais do que Cairo, Alexandria, Luxor, Assua e o Nilo. Esse país rodeado pela aridez do deserto tem locais incríveis como o deserto de Siwa próximo à fronteira da Líbia com suas piscinas verde esmeralda infindáveis para mineração de sal; o mar Vermelho com os melhores mergulhos do mundo e a Península de Sinai onde Moisés recebeu os 10 mandamentos. História e beleza natural se fundem nesses lugares.

Aqui vai a primeira dica: comprar os passes do Cairo e de Luxor para quem vai ficar alguns dias em cada uma dessas cidades. Os passes podem ser comprados no Cairo e em Luxor em alguns pontos turísticos ou no Ministério das Antiguidades e dão direito a entrada na maioria das atrações por bem menos do que se fosse pagar cada uma delas. Não são baratos – US$ 100 pelo Passe Cairo e US$ 200 pelo passe Premium de Luxor que dá direito a visita as tumbas de Seti I e Nefertari, na minha opinião as mais lindas-, mas se você comprar os dois juntos você ganha 50% de desconto no segundo.

Nossa viagem começou com uma breve estadia de dois dias no Cairo para conhecermos Saqqara, um cemitério do antigo império onde foram descobertas novas tumbas nos últimos anos. A pirâmide escalonada de Djoser construída pelo famoso arquiteto Inhotep e as tumbas de Serapeum foram nosso primeiro contato com a história antiga do Egito antes de seguirmos para Luxor para conhecer o novo império dos famosos Seti I e Ramsés II. Para realmente conhecer as maravilhas de Luxor recomendo pelo menos 3 dias inteiros. O Templo de Luxor (1.400 a 1.00 a.C.) e o de Karnak (2.200 a 360 a.C.) com suas colunas e obeliscos gigantes do Grande Salão Hipostilo são simplesmente fascinantes. Aqui uma dica importante: Karnak tem vários templos e espaços com muita história, cobrindo uma área de 2.400 metros de perímetro, e por isso merece uma visita longa e tranquila. A sugestão é ir bem cedo pela manhã antes dos grupos que começam a chegar por volta de 10:00 ou no fim do dia quando o pôr do sol enche o templo de cores magníficas. Não perca a oportunidade de fazer um pedido ao escaravelho que fica em frente ao lago dando 7 voltas em torno dele. Se os faraós o faziam, por que não tentar a sorte?

Chegue cedo no Vale dos Reis - Em Luxor também aproveite para fazer um passeio de balão sobre o Vale dos Reis e Vale das Rainhas ao amanhecer (saída do hotel às 4:00-5:00). É um passeio inesquecível sobre os vales verdejantes do Nilo e o deserto que guardam as tumbas e templos dos faraós mais impressionantes. Outra dica para sua estadia em Luxor: no Vale dos Reis chegue cedo para não pegar as multidões dos turistas que vêm de ônibus do mar vermelho e dos cruzeiros. Chegamos as 7:00 quando abrem os portões e além de estar muito mais fresco – lembre-se você está no deserto aonde as temperaturas chegam facilmente a 50º C -, éramos os únicos dentro das tumbas e por isso conseguimos tirar fotos incríveis e ficar muito mais do que os 20 minutos permitidos aos turistas. A partir de 9:30 os grupos começam a chegar e as tumbas mais parecem formigueiros de gente entrando e saindo para fazer aquela selfie para postar nas mídias sociais. Agora cuidado com as armadilhas dos guardas que ficam dentro das tumbas: eles chamam o tempo todo para tirar fotos em locais proibidos e depois pedem dinheiro (inclusive brigam com você se acham que foi pouco). Nas primeiras é até divertido, mas depois da décima a paciência acaba.

Ainda em Luxor, dois templos pouco visitados, mas que valem a pena pegar algumas horas de estrada são o Templo de Abidos e o Templo de Dendera. O Templo de Dendera é simplesmente fascinante por ser o mais bem preservado de todo o Egito. Datado de 2.250 a.C., o templo tem as mais incríveis pinturas e entalhes em suas colunas, paredes e teto. Em uma sala você poderá ver o Zodíaco de Dendera, em outra as pinturas entalhadas de Noot (deusa da noite) e abaixo do Templo, as tumbas subterrâneas onde se encontram os famosos entalhes das “lâmpadas”, ainda inexplicáveis. Já o Templo de Abydos fica em uma vila que tem o melhor pão árabe que comemos em todo o Egito: saído do forno ainda quente! Este templo também conhecido como Templo de Seti I é austero e traz uma série de entalhes que mostra a vida de Seti I como pai de Ramsés II. Para quem leu a trilogia, é como entrar no livro e vivenciar nas imagens todas as aventuras lá descritas.

Barco a vela típico do Rio Nilo - Depois de três dias em Luxor pegamos nosso Cruzeiro pelo Nilo em uma Dahabya, um barco a velas típico do Nilo que leva quatro dias na viagem entre Luxor e Assua. São barcos menores que os cruzeiros com seis a 12 cabines. O valor é mais caro do que os grandes cruzeiros que lotam o Nilo, mas por ser um barco pequeno a experiência é única: paramos em uma ilha fluvial para colher tâmaras direto do pé, pescamos as famosas tilápias do Nilo em uma vila de pescadores, nadamos em uma praia de areia e fizemos um churrasco a luz da lua cheia as margens do Nilo. Momentos gravados em nossas mentes e corações para sempre!

Assua foi a próxima parada e onde optamos por relaxar um pouco. Passeamos pela cidade com um guia que nos levou ao mercado, a mina de pedras onde está o obelisco não finalizado e passeamos de Feluca, uma versão mini da Dahabya, pelo Nilo no pôr do sol. Também visitamos o incrível Templo de Philae, dedicado a Ísis, que foi removido e reconstruído em outro local quando da construção da represa da hidrelétrica de Assua. A cidade também é o ponto de partida para um dos templos mais incríveis (também reconstruído em outro local quando do alagamento da represa): Abu Simbel, uma dedicação de amor sublime do faraó Ramsés II a sua esposa Nefertari. Outra dica: chegue na primeira hora quando os portões se abrem ou fique depois que os grupos vão embora. Você estará sozinho em todas as fotos! Os templos de Ramsés e Nefertari tem as estátuas e pinturas de parede mais incríveis que vimos em todo o Egito. Vale a pena pegar duas horas de estrada para visitar este lugar incrível cercado pelas águas da represa.

Mergulho no Mar Vermelho - De Assua pegamos um voo para Sharm El Sheik no Mar Vermelho onde se encontram os melhores pontos de mergulho do mundo e uma das maiores concentrações de resorts da África. Decidimos ficar em Dahab, há uma hora de carro na Península do Sinai. Em Dahab a maior parte dos turistas é local (egípcios) ou de Israel que fica há cinco horas de carro. O mar é completamente transparente e com corais incrivelmente preservados e coloridos, com uma abundância de vida marinha pouco vista por aí. De Dahab contratamos um motorista para visitar o famoso Mosteiro de Santa Catarina onde se encontra a sarça ardente, ou o arbusto ardente em chamas que Moisés encontrou quando em sua jornada pelo deserto na Península do Sinai. O mosteiro é bem pequeno e tem um pequeno museu com obras e relíquias da era bizantina, mas o mais impressionante são as vistas do mosteiro e do Monte Sinai que podem ser vistas de trilhas nas rochas em frente ao mosteiro.

Depois de alguns dias relaxando, mergulhando e comendo os melhores frutos do mar, seguimos para o Cairo onde pernoitamos em um hotel em frente as pirâmides de Guizé e da tão famosa esfinge. Acordar com aquela vista foi uma emoção que eu ainda não compreendo. Era como se eu tivesse entrado nos livros de história e estivesse na época dos faraós. Vale lembrar que descobertas recentes remetem a construção original da Esfinge a mais de 2.500 anos a.C. ou quase 5.000 anos atrás! Mas ainda não ficamos no Cairo para conhecer esse lugar mágico. Depois de um bom café da manhã com uma das melhores vistas do Cairo, seguimos pela estrada que leva ao norte do Egito rumo a uma das melhores partes da nossa aventura: o deserto de Siwa.

Lagos Salares em Siwa - Egito - Foto de Adriana Boscov/ Plurale

Para chegar ao Oásis de Siwa, localizado a aproximadamente 800 km do Cairo no deserto do Saara, você precisa fazer uma viagem de cerca de 10 horas de carro, sendo que durante quase seis horas, a única paisagem que os olhos avistam são pedras, dunas e camelos. Prepare-se para as barreiras militares frequentes uma vez que essa estrada está a poucos quilômetros da Líbia, maior refúgio de terroristas da região. Malas revistadas, passaportes recolhidos e muitas perguntas em árabe ao motorista e guia são algumas das coisas que você pode esperar nesta estrada. Mas vale cada momento! A chegada ao Oásis de Siwa é uma visão incrível: uma mancha verde com centenas de milhares de tamareiras e dois lagos verde esmeralda com 30 a 50 quilômetros de extensão brilhando no sol do deserto e as dunas ao fundo realmente é uma imagem inesquecível. O oásis tem dezenas de atrações que passam pelo poço de Cleópatra às piscinas das minas de sal e o safari nas dunas gigantes. A experiência de estar no deserto é algo que não se pode explicar. O silêncio e a solitude do deserto trazem uma paz a alma e uma certeza de que nossa passagem pela Terra é ínfima se comparada ao poder da natureza.

A cultura dos beduínos - Depois de alguns dias passeando pelo deserto, aprendendo sobre a cultura dos beduínos, nos banhando em águas transparentes, salgadas e quentes, desbravando as grandes dunas do Saara e comendo as mais deliciosas tâmaras, iniciamos nosso caminho de volta ao Cairo para nossos últimos dias de viagem. Mas antes, uma parada na famosa cidade de Alexandria onde se encontrava a maior e mais antiga biblioteca do mundo que hoje abriga uma gigante biblioteca moderna.

Mercado no Cairo - Egito - Foto de Adriana Boscov/ Plurale

Finalmente chegamos ao nosso destino final no Cairo para nossos últimos dias de viagem. Optamos por alugar um apartamento na ilha Zamalek onde encontramos muitos restaurantes, lojinhas, padarias e supermercados. A ilha abriga os melhores hotéis da cidade e também as principais embaixadas. Nosso dia começou cedo para não variar com uma visita ao Museu Egípcio do Cairo onde pudemos ver as múmias, sarcófagos e estátuas descobertas em diferentes regiões do Egito sob as dunas e tumbas. Uma ala dedicada a Tutankamon mostra os incríveis tesouros descobertos na única tumba não violada do Vale dos Reis. Prepare-se para passar algumas horas perambulando por corredores e galerias infindáveis cheios de história. De lá seguimos para o famoso mercado Khan-El Khalili onde comemos o famoso pombo recheado (essa é uma comida típica das famílias egípcias) e passamos a tarde descobrindo vielas e lojas milenares de ervas, joias, e objetos de decoração. A noite assistimos a um show de dança folclórica, a Al Tanoura, dançada somente por homens com suas multicamadas de saias coloridas fazendo acrobacias. Foi um espetáculo impressionante!

Al Tanoura, dançada somente por homens com suas multicamadas de saias coloridas fazendo acrobacias - Cairo/ Egito - Foto de Adriana Boscov/ Plurale

Grandes pirâmides de Guizé - Nosso segundo dia no Cairo foi dedicado a explorar as grandes pirâmides de Guizé. Chegamos a Necrópole de Guizé bem cedo para evitar as hordas de turistas, mas infelizmente neste ponto turístico isso é quase impossível de se conseguir. Com o Cairo Pass conseguimos entrar na pirâmide de Quéops. Indescritível entrar pelos túneis de um metro por um metro com centenas de degraus que chegam a salões gigantescos com pé direito de mais de 4 metros de altura e uma umidade que quase não nos deixa respirar. Conhecer as pirâmides por dentro é uma experiência de vida porque se achamos que elas são complexas de se construir por fora, imagine como é colocar pedras de toneladas umas sobre as outras e conseguir montar salões de dez metros quadrados com um altar e túneis infindáveis que levam a outras salas? Fomos então fazer o famoso passeio de camelo que são lindos para se tirar fotos, mas o cheiro nada agradável. Seguimos então para uma visita a duas pirâmides de Dahashur: a Pirâmide Vermelha e a Pirâmide Sneferu, ou pirâmide dobrada (essa é a única pirâmide no Egito que tem seu topo em um ângulo diferente que parece ter sido dobrada ou que a estrutura tenha caído), cada uma com seus corredores apertados, escadarias e galerias que nos fazem imaginar que tipo de seres humanos (ou não) teriam tamanha tecnologia para construir uma obra tão intrincada.

O último dia no Cairo foi reservado para os bairros Islâmico e Cristão Cóptico e o novo museu de arqueologia do Cairo onde se encontram todas as múmias dos grandes faraós de dezenas de dinastias, incluindo Seti I, Ramsés II e Hatshepsut, a única mulher faraó do Egito (você vai ter que ler sobre isso pois é uma história fascinante!). A grande mesquita do Cairo traz uma paz quando caminhamos nos arredores e seu interior é uma obra de arte com centenas de luzes brilhando como estrelas no céu. De lá seguimos ao bairro Cóptico cristão onde José e Maria se esconderam com Jesus Cristo durante a perseguição de Herodes ao filho de Deus. Estar nessa capela, agora no subsolo de uma igreja, traz uma energia e paz incrível a quem passa por lá. E nossa última parada foi o moderno Museu Nacional da Civilização Egípcia. Neste museu é possível acompanhar a evolução da civilização egípcia desde os tempos das cavernas até o período de maior riqueza dos faraós e suas dinastias. A galeria das múmias é simplesmente incrível e nos faz refletir sobre a grandeza dos seres humanos e da ciência, capaz de manter corpos intactos, com unha e cabelos, por mais de 4.000 anos.

Realmente o Egito foi uma aventura muitos anos ansiada, mas que nos apresentou muito mais do que poderíamos ter um dia sonhado. A pergunta que fica é: como uma civilização tão rica, com tanta ciência e conhecimento, evaporou do mapa sem deixar registro de seu extermínio?







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