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No Sovaco do Cristo!

Por Téo (Armindo dos Santos de Sousa Teodósio) *

Gente, vão minerar no sovaco do Cristo. O Rio parou!? Nem tanto, a vida continua rápida nesses tempos de muitos zaps e pouca conversa, muitas informações fugazi, fakes ou mentirosas se preferirem, e pouca opinião pública, de tantas insanidades em nome de uma racionalidade econômica, que nunca foi santa, e agora se revela demoníaca.

Justo no Sovaco do Cristo !? Não é possível! Será que ele vai continuar abençoando o Rio e o mundo?! Será que ele vai abençoar os trabalhadores da mineração, que agora vão escavar, com o melhor da tecnologia de fazer buracos pelo mundo afora, que as corporações do extrativismo mineral, cheias de ESG e muito lero-lero com os stakeholders, nos brindam no século XXI!?

Fiquem tranquilos, irmãos cariocas e todos aqueles que amam essa linda cidade. O buraco na alma não será feito na base da pedra do Cristo Redentor. Será feito algumas centenas de quilômetros adiante, nas Minas Gerais. Outro buraco desses está em evolução, destruindo outro patrimônio de todos nós mineiros e brasileiros, a Serra da Piedade, também em Minas Gerais. Mas, agora o extrativismo mineral mira seu olhar ganancioso para a Serra do Curral, símbolo de Beagá.

Será que as bênçãos do Cristo, com seus braços abertos vão alcançar a Serra do Curral em Belo Horizonte!? Será que agora só as preces desesperadas vão nos livrar dos homens e seus “podres poderes”?! Haja Caetano e música das Gerais, regados a uma boa caninha feita entre algum lugar no caminho entre BH e Rio, para aguentar o governador de Minas dizer que gente simples, pessoas comuns e cidadãos em geral não tem nada que opinar sobre a mineração na Serra do Curral, pois isso é assunto de técnicos.

Deixem apenas técnicos questionarem técnicos. Tudo feito por técnicos muito competentes na burocracia pública e empresarial, capazes de provar qualquer coisa com estudos, análises e discussões para lá de técnicas. Se são mal feitas, se são baseadas em visões de mundo do passado, se dizem meias verdades ou se se escondem nas manhas e artimanhas do tecnicismo e da burocracia pública, supostamente desinteressada, mas sempre ávida pra ser desinteressada pelo bem público e muito interessada nos interesses privados, não importa, pois o ilustre governador nos brindou com mais uma de suas pérolas nada republicanas. Continuemos lidando com todos os malefícios da mineração e da cavação de buracos em toda Minas Gerais, sem questionar os sacra-santos técnicos que tudo sabem, mesmo que não tenham sabedoria alguma. Deixemos tudo nas mãos de Zema e seu séquito de técnicos vindos do mundo empresarial, que demonstram desconhecer o espírito e os fundamentos essenciais da gestão pública e da ética do espaço público.

Não, amigos do Rio de tantos carnavais essenciais, reunidos em um dos blocos que são patrimônio cultural da terra do Corcovado, o bloco “Sovaco do Cristo”, não vamos deixam passar impune o lesa-pátria que querem fazer ao minerar a Serra do Curral. E não adianta empresários de muito espaço na cobertura jornalística e pouco compromisso com a sociedade, como aqueles à frente da FIEMG, virem dizer que a oposição à mineração na Serra do Curral está eivada de distorções e calúnias, tentando fazer um cala boca da sociedade civil. Parece até enredo de novelas de gosto duvidoso. Governador diz que análise da mineração na Serra do Curral tem que ser elitista e insulada na burocracia pública e empresários rotulam de lunáticos e caluniadores os ativistas da sociedade civil, que denunciam esse verdadeiro crime público e empresarial contra um patrimônio natural, cultural, social e inclusive econômico das Terras Gerais.

Mas, entre as montanhas de Minas não se elaboram só novelas de péssimo gosto e ética duvidosa, como essas artimanhas públicas e privadas para esburacar a Serra do Curral. De Minas, brindamos o mundo com enredos essenciais como aqueles de Fernando Sabino. E estamos construindo um enredo público e de mobilização social que tem a essencialidade de um “Encontro Marcado”. Nesse encontro, os desencontros, maneirismos e os jeitinhos da burocracia estatal e dos técnicos da mineração já estão sendo desnudados.

Minerar na Serra do Curral, como em todo o nosso estado, campeão em buracos de mineração e barragens de rejeitos das mineradoras, no estado que vive cotidianamente o “terrorismo das barragens”, não gera a prosperidade e bem viver, um direito de todos os cidadãos e um dever daqueles que merecem ser chamados de homens públicos.

Não se vive só pela boca e o estômago. Não se vive só pelo dinheiro. E quando o econômico passa a ser um fim em si mesmo, ele perde sua finalidade essencial. Função lembrada desde a antiguidade por Aristóteles, o econômico deve ser sempre oikos nomos, a expressão grega que dá origem à palavra economia e que significa o cuidado com a casa. Economia serve para servir à sociedade e não se servir dela, como nos lembra a convocação do Papa Francisco para “realmarmos” a economia e a política a partir dos princípios de Francisco e Clara de Assis, através da chamada Economia de Francisco e Clara.

Destruir o símbolo de Belo Horizonte, que nos dá sentido de existência na capital de Minas, pois delimita o horizonte e nos faz lembrar sempre o que é viver entre as montanhas, é destruir a alma do povo de Beagá e de todo o estado. Esse preço, nenhuma concentração de lucros nas mãos de empresários mineradores e empregos que passarão, porque minério acaba, faz valer a pena permitir uma mineração na Serra do Curral.

BH já se desenvolve, a despeito da mineração, e não precisa de mais um empreendimento desse porte, supostamente dentro das melhores práticas ambientais da mineração, o que ainda é muito pouco para pensarmos em uma mineração sustentável. BH é a terra dos botecos, da boa comida, do povo que sabe prosear ao redor da boa música, das belas artes e das cervejas artesanais mineiras, que precisam da água, que pode desaparecer com a mineração na Serra do Curral. Uma capital de serviços e das empresas de tecnologia, como no chamado “São Pedro Valley”, um bairro da capital mineira no qual se concentram centenas de empresas de outra economia, muito menos destrutiva que aquela baseada em cavar buracos na terra e nas almas, concentrando riquezas nas mãos de poucos, exportando nosso patrimônio à custa do trabalho negro, escravizado, mal remunerado e atravessado ao longo de toda a história da mineração por muitas mortes e não apenas as inaceitáveis 270 joias perdidas de Brumadinho.

Ninguém vai minerar no sovaco do Cristo! Ninguém vai minerar nos horizontes das Terras Gerais! Os horizontes são nossos. Políticos sem espírito público e empresários acostumados à impunidade e ao embuste passarão. Os horizontes e a altivez do povo de Beagá e das Minas Gerais permanecerão. Nos tempos de hoje, começamos a escrever a aurora de novos tempos, nos quais nos libertaremos da escravização imposta pela mineração, pois “libertas quae sera tamen”.

(*) Professor do Programa de Pós-Graduação em Administração

Pontifícia Universidade Católica de Minas Gerais







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3 comentários | Comente

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Armindo Teodósio |
Muito obrigado. Fico grato pelos elogios ao ensaio. Continuamos na luta socioambiental.

Franklin |
Excelente

Vanderlei |
Parabéns pela reflexão e provocação! Precisamos ver além das aparências e dos buracos... A vida precisa ganhar destaque nos empreendimentos humanos e dos negócios.

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