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PLURALE EM REVISTA, 78 - De volta ao jogo

Por Christian Travassos, Colunista de Plurale, economista (Puc-Rio) e mestre em Ciências Sociais (CPDA/UFRRJ)

A ressaca foi forte. “Mais alto o coqueiro, maior é o tombo do coco.” Afinal, as expectativas geradas pela realização de megaeventos internacionais ao longo da década de 2010 colocaram o Rio de Janeiro na crista da onda. A despeito, porém, do otimismo à época, deu-se, na prática, uma sucessão de reveses ao ansiado renascimento da cidade.

Na esteira da Operação Lava-Jato, intempéries políticas e jurídicas válidas para o país tiveram no Rio um de seus epicentros. Em paralelo, inflação e desemprego mais altos passaram a impactar consumidores e empresas, num marasmo que coincidiu com a queda dos preços do petróleo no mercado internacional, com reflexos sobre a economia de cidades produtoras e o repasse de royalties. Em março de 2020, veio a Covid-19. Deu ruim.

Mas se o carioca é conhecido por sua capacidade de improviso, a Cidade Maravilha Mutante não poderia refletir melhor outra qualidade. Plasmada na dança do rochedo com o mar, na biodiversidade da Mata Atlântica, entre a melodia da Bossa Nova e a batida do funk, na miscigenação consentida por séculos de protagonismo político, econômico e cultural, a capital do Carnaval emana criatividade apesar das circunstâncias. Ou instigada por estas.

O Rio é a principal marca do Brasil, já disse uma vez o publicitário Nizan Guanaes. O mundo da tecnologia fez essa mesma descoberta. Não por acaso, o Riocentro vai receber, em maio de 2023, o maior evento global de tecnologia, até então realizado anualmente em Lisboa. Pela primeira vez, o Web Summit acontecerá na América Latina, com expectativa de reunir 10 mil pessoas e empresas que estão “redefinindo a indústria de tecnologia”.

Em abril deste ano, a cidade foi sede do Rio2C, “o maior encontro de criatividade e inovação da América Latina”, de acordo com os organizadores. Realizado na Cidade das Artes, abrigou mais de 200 mesas de discussão e 1,6 mil palestras.

Iniciativas como as do Chapter da SingularityU Brazil e o Hacking Rio, da CEO Lindalia Junqueira, já chamavam atenção na cidade. Mas a realização do Rio Innovation Week, em janeiro de 2022, foi um ponto de inflexão. O evento reuniu 200 expositores no Jockey Club Brasileiro, numa imersão em novas tecnologias e tendências. Além da oportunidade de estabelecer contatos e parcerias, o público teve acesso a mentorias e a 760 horas de conteúdo nos diversos palcos montados. No balanço da organização, o potencial de negócios girou em torno de R$ 300 milhões.

Claudio Tangari, da Célula de Inovação do Senac RJ, acredita que o Rio tenha os principais pré-requisitos de que Lisboa dispunha na transformação gerada pelo Web Summit – sendo Segurança Pública uma lacuna a ser preenchida. A cidade se beneficiou historicamente da “presença de grandes empresas estatais, como Petrobrás e Eletrobrás, o que serviu de mola propulsora à criação e ao mercado de softwares e processamento de dados.”

Infraestrutura e serviços de telecomunicações para a Web 3.0 já estariam garantidos no horizonte, dado “um conjunto de licitações realizadas”. O que se apresenta como fronteira é “a formação profissional, a oferta de mão-de-obra capacitada” para ocupar os postos requeridos para – e gerados com – a transição econômica, foco atual do Senac RJ, que participou das negociações para a vinda do megaevento para o Rio.

Para o economista Gabriel Pinto, especialista em inovação, o Web Summit transformou Portugal e tem tudo para fazer o mesmo com o Rio – uma oportunidade única para que a cidade demonstre sua capacidade de ser mais que um destino bonito para turistas descolados interessados em praia e Carnaval. Ele participou do grupo de trabalho por trás do Portomaravalley, área do Porto Maravilha que conta com isenção fiscal para empresas de tecnologia.

A seu ver, o incentivo fiscal é um passo importante, mas, para ir além de um projeto imobiliário, a cidade precisa de uma “injeção de anabolizante”, só viabilizada pelo conhecimento. As universidades seriam as impulsionadoras de um movimento capaz de tornar o Rio um “centro gravitacional” de empresas e profissionais de tecnologia. Para isso, devem romper com a lógica de “formar empregados para as empresas” e incorporar uma visão mais ampla de negócio, como programas transversais de empreendedorismo.

Diálogo mais franco entre institutos de pesquisa e empreendedores e maior segurança jurídica para quem pretende investir e empreender formam as bases de um ambiente propício à inovação. Como segunda economia do país, o estado possui relativamente poucas startups – e muitas que aqui surgem saem em busca de praças mais favoráveis. O Instituto de Matemática Pura e Aplicada – IMPA, por exemplo, agora oferece graduação em tecnologia. Falta romper com algumas barreiras e fazer as pontes certas.

Empresas e profissionais já querem visitar o Rio. Os novos nômades digitais já não têm raízes e vínculos profundos, ainda mais depois da pandemia. Podem voar para o Rio, encantados por seu soft power, e não ir mais embora, conclui o economista.

Luiz Mandarino, sócio da empresa Sai do Papel, plataforma de empreendedorismo e inovação, e idealizador do Energy Hub Ventures, de construção e investimento em startups do mercado de energia, concorda que os megaeventos são o primeiro passo, “uma pedra no lago” – “dão um impulso, mas, isolados, têm alcance limitado. É preciso encontrar formas de perenizar”. A receita de sucesso de um “ecossistema de inovação” passa por i) conectar boas universidades, ii) apoio governamental, iii) atrair capital de risco com interesse em investir aqui, iv) estimular empresas e v) empreendedores a gerar negócios no longo prazo.

O processo de desindustrialização por que passou o Rio ao longo de décadas deu lugar ao protagonismo na economia criativa, no turismo e no setor de energia, pelo debate em torno da transição energética. Não à toa, a cidade passou a exercer liderança na pauta da sustentabilidade, a começar pela Eco-92, passando pela Rio+20, e, agora, pelo Rio 2030, plataforma de soluções -criadas na “capital mundial do meio ambiente”.

“Eventos como Copa do Mundo e Olimpíadas ampliaram a visibilidade do Rio para o mundo e geraram confiança em sua capacidade de entrega”, acredita Mandarino, membro ainda do conselho de um projeto com o MIT (MIT REAP -Rio), que escolheu o Rio como primeira capital brasileira a receber uma “metodologia de aceleração do empreendedorismo regional” – presente em 52 países. “Temos a visão de transformar o Rio no Vale do Silício da energia e da sustentabilidade”, conclui o executivo.

Para Liliana Pinelli, da Impact Hub Rio, a cidade está voltando a ser vista como um polo de cultura e de inovação, por sua vocação em aliar criatividade e negócios de impacto social, em meio à valorização dos referenciais ODS e ESG: “o que existe por trás de um emprego gerado, por exemplo, está passando a ser um conceito estrutural nas empresas, não periférico.” A “mensuração de impacto” casa bem com o empreendedorismo que emerge nas comunidades cariocas, como um “veículo de transformação social”.

Uma das dificuldades seria conseguir “colocar todo mundo para conversar”, “pensar um projeto único” num tecido social onde o individualismo predomina historicamente – “os megaeventos funcionam como vitrine, o que você faz entre os eventos é o que mantém.” Para Pinelli, a desigualdade social no Rio, ao mesmo tempo que atrai iniciativas, precisa ser considerada na construção de um ecossistema de inovação, “para não excluir os já excluídos. Não dá mais para a educação não estar dentro.”

Luiz Coelho é consultor de inovação em empresas, Setor Público e instituições de ensino. Ele lembra que, num ambiente de crise como o atual, com inflação e juros elevados, “muitas empresas evitam colocar seu capital em risco” e o mercado financeiro passa a atrair ainda mais recursos em comparação a novos empreendedores.

O especialista elenca algumas iniciativas em curso no Rio, como incentivos fiscais localizados, Desafios a startups promovidos pelo Centro de Operações Rio da Prefeitura, o programa Startup Rio, do Governo do Estado, e os laboratórios do Projeto Manancial, da Cedae. Mas alerta que, em geral, os incentivos não alcançam quem mais precisa. “O carioca do subúrbio é quem cria, o improviso a gente vê na periferia” e “esse empreendedor raiz não tem acesso aos meios que empresas já consolidadas têm. O espaço da inovação no Rio, além de estreito e abaixo de seu potencial quando comparado ao de outras capitais brasileiras, é elitizado”, define.

O consultor acredita que em torno de 90% dos empreendimentos populares cariocas não conseguirão se sustentar por mais de dois anos. “O empreendedor não consegue conectar a solução dele a uma dor de mercado, não tem como montar um planejamento estratégico”, porque “não tem ferramenta, formação ou acesso a informações para desenvolver novos negócios”.

Anne-Catherine Wambersie, presidente do Projeto Hub Santa Marta, vive esses desafios na prática. A iniciativa oferece treinamento e orientação a jovens adultos na comunidade do bairro de Botafogo, Zona Sul carioca. São selecionados para participar moradores com algum negócio – em curso ou em mente -, “de preferência aqueles com potencial de gerar renda e impacto social no entorno.”

Os primeiros 11 meses são dedicados à formação voltada ao empreendedorismo, valorizado sob suas diferentes dimensões sociais: “o responsável por um centro esportivo, por exemplo, tem condições de beneficiar dezenas de famílias ao atender crianças da comunidade em suas turmas.”

A sala de co-working do projeto funciona na Igreja Metodista localizada em frente ao Morro Dona Marta, onde os participantes contam com computador, Wi-Fi, impressora e um ambiente propício a mentorias individuais e reuniões. “Uma vez por mês acontece nosso Pizza-Hub, para criar uma rede entre empreendedores”, de forma a compartilhar desafios e soluções. Já na Clínica-Hub, “empreendedores da turma em andamento ou que já deixaram o projeto podem acessar conteúdos ministrados por profissionais voluntários, focados na solução de um problema específico do negócio”, explica Wambersie.

“Onde se trabalha junto, os resultados são melhores. Mas são poucos os casos em que os atores trabalham juntos. Para isso, precisamos preparar as pessoas lá na base.” É o que pensa José Alberto Aranha, assessor de Inovação no Senac RJ. O carioca é hospitaleiro para receber amigos e turistas, por exemplo, mas “não tão receptivo para trabalhar junto”. Diante das novas oportunidades em jogo, “como o Rio vai se posicionar?”, questiona.

As cidades que conseguiram os melhores resultados em termos de ambiente de negócios e tecnologia precisaram ir além da inovação. Na opinião do especialista, tão importante quanto oferecer infraestrutura de ponta ou financiamento é incentivar um comportamento social mais colaborativo, uma cultura amparada em mais “consciência, respeito e cooperação”. E isso se faz na escola, no Ensino Fundamental. “As cidades mais desenvolvidas do mundo já têm 5G, mas avançaram também no comportamento.”







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