
Foto da Agência Brasil- Arquivo
Plurale republica hoje a última entrevista de Vieira de Mello, dada à editora Sônia Araripe poucos dias antes do atentado em Bagdá, onde cumpria missão como Alto Comissário da ONU - 22 anos após a sua publicação e do atentado
"Os iraquianos voltaram a viver"
(Publicada originalmente no Jornal do Brasil, no dia 17 de agosto de 2003)
Sergio Vieira de Mello, comissário da ONU, acredita que país árabe começará a voltar ao normal em 2004 e defende ação de aliados
- Não posso me queixar. Gosto do que faço. Acho que tenho uma missão no mundo - resume o carioca de 55 anos anos em entrevista de uma hora exclusiva ao Jornal do Brasil, por telefone, da capital iraquiana na última quinta-feira.
- Não dizemos que Deus é brasileiro? Tenho certeza de que ele me protege.
Quem espera encontrar um homem envaidecido dos próprios feitos, fica encantado com o charme de excelente contador de histórias. De uma simplicidade desconcertante, o filho de embaixador conhece o mundo como a palma da mão. Viajou desde que completou 21 dias de nascido. Não se sente frustrado por não ter seguido a carreira de embaixador.
- Não fiz prova para o Itamaraty por um motivo forte. Cassaram meu pai em 1969. Não faria sentido seguir essa carreira.
Como lidar e intermediar a paz com facínoras e homens do bem? Vieira de Mello defende o papel das Nações Unidas como parceiro indispensável no processo de estabilização, de pacificação de uma sociedade que está emergindo de um conflito ou de uma crise.
- O importante em nosso trabalho, o essencial para ser considerado um verdadeiro parceiro, independente e imparcial, é justamente estar aberto ao diálogo com o leque completo da sociedade. Inclusive daquelas forças do mal. É nesse diálogo que vamos nos transformando em uma espécie de ponte, de elo, de laço.
- É um trabalho de andar para frente e para trás, todos os dias. Há sabotagens nas obras que estão sendo feitas na rede elétrica e em todo o país. Bagdá ainda é um lugar muito perigoso. Ninguém passeia aqui. Há assaltos e crimes.
Basta lembrar, registra o alto comissário, que, antes de cair, Saddam Hussein soltou cerca de 30 mil prisioneiros.
Vieira de Mello ressalta que não tem bola de cristal, mas prevê que em 2004 (quando já estiver retornado à rotina de trabalho em Genebra) será possível esperar a volta de eleições e o começo da vida voltando a pulsar em um ritmo mais normal para os iraquianos. O custo pode ser em torno de US$ 20 a 25 bilhões por ano nesta reconstrução.
- Não encontramos armas de destruição em massa. Mas encontramos muitos corpos em valas comuns. Temos confirmações e provas de violação em massa dos Direitos Humanos. Isso é suficiente. Os iraquianos voltaram a viver."
Preocupado com a forma física, Vieira de Mello procura levar uma vida relativamente normal mesmo no epicentro da Bagdá destroçada pela guerra. Sempre que pode, deixa o escritório da ONU no centro da capital iraquiana e faz cooper no fim do dia, para aliviar tensões.
- Faz um calor de 54 graus. É insuportável - conta.
Como as empresas iraquianas eram quase todas estatais, o pós-guerra tem sido traumático.
- Vai se levar muito tempo para privatizar essas companhias e atrair investidores para esses setores básicos - prevê o comissário da ONU.
Os caminhões de lixo voltaram a circular com regularidade na capital, mas ainda não há cobrança dos serviços básicos. A segurança nas cidades é um item que preocupa muito os envolvidos na missão de recuperar a cidadania dos iraquianos.
Há regiões mais dramáticas, como Mossul, no Sul do país. É para lá que o carioca segue esta semana, a caminho de persistentes focos de guerra.
Sempre, é claro, rezando para Deus não esquecer o filho ilustre.(Por Sônia Araripe)
- É uma forma de aplicar a filosofia ao trabalho que fazemos, de promoção da compreensão, da tolerância, da paz e da segurança. Não é filosófico?
- Tenho duas garantias, dois coletes à prova de bala, digamos assim. Deus é brasileiro e procuro estabelecer boas relações com todas as partes envolvidas no conflito.
O trabalho de negociador no Iraque inclui ouvir e convencer todos os lados a participar da reconstrução do país e do resgate da democracia. Na última quinta-feira, por exemplo, Vieira de Mello desempenhava no escritório uma missão importante. Eram advogados da Liga Árabe, uma espécie de OAB dos países daquela região. O alto-comissário da ONU procurava o apoio do grupo para preparar a Constituição, o novo Congresso, as novas eleições.
Evitando cravar uma data, o comissário confia que o processo estará concluído em 2004. Depois que já estiver de volta à família, em Genebra. A missão em Bagdá termina em setembro, quando a ONU vai enviar outro representante.
- Não é possível prolongar a ocupação do Iraque e a presença das forças da coalizão, além do ano que vem.
Diplomático ao extremo, Vieira de Mello contorna, evita as perguntas sobre a determinante participação dos governos de George Bush e de Tony Blair no processo que buscou aliados para convencer que Saddam tinha armas de distribuição de massa e era preciso invadir o Iraque. Mas defende a invasão. E sobre o crescimento do sentimento antiamericano no Iraque e em outros países? Ele admite que a falta de luz, água e serviços básicos gera uma certa revolta.
- É preciso ter cuidado para não exagerar na avaliação. A situação varia de uma região para outra. Agora, eu não tenho bola de cristal para prever se isso vai aumentar ou diminuir.
Morador nos últimos meses de Bagdá, o carioca sabe que precisa tomar cuidados redobrados.
O fato de Saddam ainda não ter sido descoberto - vivo ou morto - não chega a ser determinante, diz. Ele relata que há poucos simpatizantes do ditador e torce pela sua captura vivo.
- Isso seria muito bom. Ele terá que prestar contas das atrocidades que praticou. (Por Sônia Araripe)
- Devemos lembrar do terrorismo na Itália, na Alemanha, no Japão. Tudo isso, felizmente, sumiu.
A resposta será só repressão e recrudescimento da liberdade de inocentes? O alto-comissário da ONU reforça que foram encontradas respostas não só repressivas e policiais. Os episódios recentes em diferentes pontos assusta, especialmente os ataques de 11 de setembro em Nova Iorque.
Vieira de Mello lembra que existe uma vontade coletiva, incluindo o Conselho de Segurança da ONU, de organizar uma estratégia de resposta eficaz à forma moderna do crime transnacional, organizado.
- Por isso, acredito que, com essa estratégia, e com outras respostas que não são repressão ao crime, esse fenômeno será superado.
Otimista? O brasileiro admite que sim. Mas com a experiência de quem lida direto com esse tipo de problema, o comissário acredita que não há outra opção.
Diplomaticamente, como tudo o que envolve sua trajetória, o negociador em tempos de guerra e paz pede desculpas para encerrar a conversa. A TV árabe Al Jazira aguardava para uma entrevista com o brasileiro. Dialogando em árabe, inglês e português, como quem apenas troca o rádio de estação, o ''superembaixador'' se despede.(Por Sônia Araripe)
Sônia Araripe
- Você me desculpe. É que o tempo é curto. E temos um trabalho intenso. Precisamos ser breves - desculpou-se, logo de início.
Refeita do mal-estar da gafe inicial de tê-lo chamado de embaixador, percebi que tinha, do outro lado do telefone, a meio mundo de distância, um dos mais intrigantes personagens que já entrevistei em 20 anos de carreira.
- Faço meu trabalho tranqüilamente. Não sou um aventureiro, um caubói. Tomo precauções. Tenho cuidado. Apesar das missões que já realizei, cá estou. Passei perto de situações críticas. Devo ter nascido sob uma estrela favorável.
E diante da curiosidade jornalística, da insistência sobre se ele usava colete à prova de bala ou se tinha seguranças pessoais, o diplomata voltou a mostrar desprendimento.
- Bato três vezes na madeira. E tenho dois coletes à prova de balas. Sou um funcionário das Nações Unidas e Deus é brasileiro.
Charmoso, pai de dois filhos que estudam em Paris, ele entremeava as frases com discretos risos, com irresistível simpatia e bom humor. De alguém que soube aproveitar a vida. Ainda que perigosamente. Não era um burocrata. Contou que fazia cooper na Bagdá do pós-guerra, num calor de 54 graus. Durante a entrevista, Vieira de Mello irradiou energia, a mesma com que defendia o fim da ocupação do Iraque por tropas aliadas até 2004. Ele relatou como tem sido humilhante para o povo iraquiano ver tanques nas ruas, ficar sem luz, água ou coleta de lixo.
- Ninguém passeia em Bagdá. Não se sabe quando e nem onde a próxima bomba vai explodir ou a próxima granada será atirada.
No domingo, quando o JB publicou a reportagem, a família dele, no Rio, acompanhou com atenção suas palavras. A mãe, Dona Gilda, se emocionou. Com o orgulho de quem criou o filho literalmente para o mundo. Para buscar a paz no mundo. Num Brasil que cede embaixadas como prêmio de consolação política, o superembaixador morreu depois da última missão. Mostrou que é possível lutar pelo que se acredita. E que nada foi em vão, já que outros levarão adiante sua incansável bandeira pelo diálogo. Como ele mesmo se definiu, era ''uma ponte entre dois mundos''.
- Você me desculpe. É que o tempo é curto. E temos um trabalho intenso. Precisamos ser breves - desculpou-se, logo de início.
Refeita do mal-estar da gafe inicial de tê-lo chamado de embaixador, percebi que tinha, do outro lado do telefone, do outro lado do mundo, um dos mais intrigantes personagens que já entrevistei em 20 anos de carreira.
- Faço meu trabalho tranqüilamente. Não sou um aventureiro, um caubói. Tomo precauções. Tenho cuidado. Apesar das missões que já realizei, cá estou. Passei perto de situações críticas. Devo ter nascido sob uma estrela favorável.
E diante da curiosidade jornalística, da insistência sobre se ele usava colete à prova de bala ou se tinha seguranças pessoais, o diplomata voltou a mostrar desprendimento.
- Bato três vezes na madeira. E tenho dois coletes à prova de balas. Sou um funcionário das Nações Unidas e Deus é brasileiro.
Charmoso, pai de dois filhos que estudam em Paris, ele entremeava as frases com discretos risos, com irresistível simpatia e bom humor. De alguém que soube aproveitar a vida. Ainda que perigosamente. Não era um burocrata. Contou que fazia cooper na Bagdá do pós-guerra, num calor de 54 graus. Durante a entrevista, Vieira de Mello irradiou energia, a mesma com que defendia o fim da ocupação do Iraque por tropas aliadas até 2004. Ele relatou como tem sido humilhante para o povo iraquiano ver tanques nas ruas, ficar sem luz, água ou coleta de lixo.
- Ninguém passeia em Bagdá. Não se sabe quando e nem onde a próxima bomba vai explodir ou a próxima granada será atirada.
Domingo, quando o JB publicou a reportagem, a família dele, no Rio, acompanhou com atenção suas palavras. A mãe, Dona Gilda, se emocionou. Com o orgulho de quem criou o filho literalmente para o mundo. Para buscar a paz no mundo. Num Brasil que cede embaixadas como prêmio de consolação política, o superembaixador morreu depois da última missão. Mostrou que é possível lutar pelo que se acredita. E que nada foi em vão, já que outros levarão adiante sua bandeira pelo diálogo. Como ele mesmo se definiu, era ''uma ponte entre dois mundos''.











