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PLURALE EM REVISTA, 85 - Entrevista exclusiva com Claudia Costin

Por Felipe Araripe e Sônia Araripe, de Plurale

Fotos de Divulgação e Agência Brasil/ Arquivo

Com a serenidade de quem reconhece os méritos de professor, de uma boa gestão e a importância do saber, Claudia Costin sabe muito bem o valor da Educação. Estuda e trabalha com o tema há mais de 30 anos. Hoje é presidente do Instituto Singularidades, um centro de referência em formação de professores e especialistas em educação.

Nesta entrevista à Plurale, a especialista traça um cenário de como está hoje o ensino no Brasil. Claudia admite que há imensos desafios, é claro, mas há também muitas oportunidades. “Nas minhas andanças pelo Brasil, o que tenho notado primeiro é uma consciência maior de que o ensino tem que melhorar. Mas melhorar não quer dizer dar aulas expositivas melhores; quer dizer ensinar o aluno a pensar”, destaca.

A professora e economista alerta para o risco do uso excessivo de celulares e tablets em sala de aula, mas admite que os tempos são outros, diferentes de quando nós estivemos em fase de aprendizagem.

Claudia Costin fundou e dirigiu o Centro de Políticas Educacionais da Fundação Getúlio Vargas. Foi Diretora Global de Educação do Banco Mundial e foi membro da Comissão Global sobre o Futuro do Trabalho da Organização Internacional do Trabalho (OIT). É professora visitante da Faculdade de Educação da Universidade de Harvard; lecionou também na PUC-SP, no Insper e na Enap (Canadá). Foi Ministra da Administração e Reforma do Estado, secretária de Cultura do Estado de São Paulo e secretária de Educação do município do Rio de Janeiro. É cofundadora do movimento da sociedade civil Todos Pela Educação. Integra, desde o final de 2020, o UIL - Instituto para Aprendizagem ao Longo da Vida - Institute for Lifelong Learning - da Unesco e o Conselho da Qatar Foundation.

Acompanhe a seguir a entrevista de Claudia Costin à Plurale.

Plurale - Temos grande orgulho de ser filhos, netos e bisnetos de professoras. Em família de classe média. Fruto de educação zelosa em casa e em escolas públicas. Lembramos dos nomes de professores, guardamos as melhores lembranças do ensino. Amamos a leitura. Lemos os principais autores brasileiros e globais. Mas não sabemos onde este elo, esse orgulho se perdeu... uma sucessão de erros, de fatos. A Educação no Brasil parece perdida, sem rumo nos últimos anos. Na sua avaliação, como profunda estudiosa do tema, é possível ainda ter esperanças? A educação no Brasil tem solução?

Claudia Costin - A educação no Brasil tem solução! É importante entender que o Brasil demorou muito para universalizar o acesso à educação primária. Isso se a gente olhar para os dados no final da década de 1960, quando muitos dos nossos pais ou avós - e no meu caso, eu mesma - estudavam no ensino já ginasial. Nessa época, o Brasil tinha apenas 40% das crianças no ensino primário.

Então é muito recente a universalização do acesso ao chamado Ensino Fundamental. Foi só na primeira década do Século XXI que o Brasil universalizou, diferentemente de outros países da América Latina, como Argentina e Chile. No Chile, em 1930, 73% das crianças já estavam no ensino primário. Nesse mesmo ano de 1930, por exemplo, a Argentina tinha 62% das crianças no ensino primário, enquanto o Brasil tinha só 21,5%. No nosso caso, essa universalização tardia do Ensino Fundamental, tanto no primário quanto no fundamental, gerou um impacto nos alunos. O Naércio Menezes diz que 68% das chances de sucesso escolar de uma criança dependem de quantos anos de escolaridade seus pais têm. Então, se os pais estudaram um pouco, isso impacta nas chances de sucesso escolar dos filhos. Além disso, nós tivemos um outro problema na década de 1980 - que foi quando, finalmente, começamos a colocar as crianças na escola com mais velocidade. Foi na mesma época em que o mercado de trabalho se abriu para a mulher. Antes disso as mulheres eram enfermeiras, professoras... Raras vezes tinham outras profissões. E a atratividade da carreira do professor, quando finalmente os pobres entraram na escola, caiu bastante. Então, esse conjunto de elementos trouxe alguns problemas para a qualidade da educação. Mas nós temos outros problemas para enfrentar; por exemplo, a baixa atratividade da carreira não se deve a uma queda geral de salários. Ao contrário, hoje se paga mais para os professores do que se pagava, digamos, há 30 anos atrás. O problema é que nós temos essa baixa atratividade da carreira porque os salários são, ainda, expressivamente mais baixos do que os salários de profissões que demandam a mesma formação. Há uma fragmentação dos contratos porque a carga horária no Brasil é muito pequena, quatro horas de aula - o que significa que, no Fundamental 2 e no Ensino Médio, em que o ensino é ministrado por disciplinas, o professor tem contrato de trabalho de 10 horas, de 16 horas, o que o obriga a dar aulas em mais de uma escola - e, muitas vezes, em mais de um município.

A atratividade da carreira também é marcada pela visão que a opinião pública tem em relação ao professor. O professor não é percebido como alguém perverso ou ruim; pelo contrário, é percebido como alguém que merece pena, não respeito e admiração profissional - porque o cargo de professor não é percebido pela sociedade, nem sequer pelos próprios profissionais, como uma profissão. Também o fato da carreira de professor ter baixa atratividade não quer dizer que não haja muita gente tentando fazer as licenciaturas e pedagogia. Mas, por vezes, esses cursos não são escolhidos necessariamente porque haja um desejo de trabalhar nessas profissões, mas porque o acesso à universidade é um pouco menos competitivo. Isso leva a alguns problemas, O terceiro motivo que eu queria destacar, e que prejudica a nossa educação para além da baixa atratividade da carreira, é a formação que o professor recebe no ensino superior. Ao contrário do que ocorria na época em que seus pais e avós estudaram, a formação é muito desconectada da prática profissional. Nós formamos professores de uma forma muito diferente, por exemplo, de como nós formamos médicos. Nós formamos médicos num curso essencialmente profissionalizante, em que há diálogo entre teoria e prática. O futuro médico, desde o primeiro ano, está presente no Hospital Universitário. Não é assim na educação, onde há um excesso de teoria e quase nada de prática. E para complicar, sete em cada dez professores são formados exclusivamente por EAD. E, nesses casos, também a prática não é tematizada. A educação tem solução, mas que passa por aumentar a atratividade da profissão docente, colocar cada vez mais as escolas brasileiras em tempo integral, para que se possa ter um modelo de ensino mais contemporâneo, mais em tempos de Chat GPT, de Inteligência Artificial. Precisamos ter um modelo de ensino muito mais dialogado, uma educação com a mão na massa. Com experimentação, como recomendavam Dewey, Maria Montessori, o próprio Paulo Freire - que se formem pessoas para ter autonomia - e nós não fazemos nada disso. Precisamos passar a ter tempo integral, com professores dedicados a uma única escola, como predomina nos países que têm bons sistemas educacionais.

Plurale - Os números do Pisa traçam um cenário real da Educação no Brasil. Mas podem até estar subestimados. Nas suas andanças pelo país, conversas com autoridades e especialistas, há desafios e oportunidades. Como a senhora analisa estes dados?

Claudia Costin - Esse último Pisa foi focado em matemática; eles mostram um desempenho muito ruim. Não só na escola pública, onde estuda a maioria dos alunos brasileiros; 84% dos alunos da Educação Básica estão em escolas públicas. Mas, mesmo entre os de escolas particulares, 73% dos estudantes brasileiros, por exemplo, estão no nível dois em matemática, que é o nível mínimo; realmente, nós não nos saímos bem.

Nas minhas andanças pelo Brasil, o que tenho notado primeiro é uma consciência maior de que o ensino tem que melhorar. Mas melhorar não quer dizer dar aulas expositivas melhores; quer dizer ensinar o aluno a pensar. A pensar matematicamente, historicamente e cientificamente.

O que o Pisa demanda é saber raciocinar matematicamente. Para isso, precisamos de mais tempo de aula, como eu disse anteriormente, para que a aula possa conduzir raciocínio. Um certo conceito de sala de aula invertida, que tem sido muito utilizado em países que têm uma inclusão digital melhor, nos quais o que nós chamamos de “aula expositiva” vai para casa, por meio de uma pequena pesquisa ou de um vídeo que o aluno assiste, designado por seu professor, como aula expositiva. E o professor usa o melhor do seu talento para ensinar o aluno a aplicar aquilo que ele aprendeu na aula expositiva, ou na pequena pesquisa que ele fez em situações da realidade. Ou seja: aprender a pensar matematicamente.

Sobre oportunidades, muitos estados têm buscado replicar o caso de Pernambuco, que é o melhor Ensino Médio brasileiro. Lá os alunos passaram a ter de sete a nove horas de aula por dia, com um projeto muito focado em protagonismo do aluno, para que ele aprenda a conectar o que está aprendendo na escola com o seu projeto de vida. E os professores têm mais tempo de dar uma aula que de fato ensine a pensar. A Paraíba já tem praticamente todas as suas escolas de ensino médio em tempo integral, como tem Pernambuco. O Espírito Santo vem avançando muito rapidamente nessa direção também; São Paulo está com 1/3 das escolas em tempo integral. Se a gente olhar para o ensino fundamental, para a alfabetização, o exemplo bem-sucedido de Sobral, que alfabetiza todas as crianças no primeiro ano e começa o processo de alfabetização na pré-escola, vem inspirando também muitos municípios. O Brasil avançou numa certa ênfase na educação infantil. Quando a gente colocou a ousada meta de universalizar o acesso à pré-escola - e a gente ainda não concluiu essa universalização, mas avançamos bastante - nós acertamos. E quando a Base Nacional do Currículo Comum colocou que nós precisamos ter uma certa introdução à alfabetização na pré-escola, como a Magda Soares recomendava também, nós avançamos um pouco nisso. Imagino que, se a gente se inspirar nesses bons exemplos, destaco aqui o caso de Teresina, que é a melhor capital e fica no estado mais pobre do país, nós vamos ter sucesso em encontrar caminhos para o Brasil.

Plurale - Que avaliação faz da atual Política de Educação do governo Lula?

Claudia Costin - Bom, é difícil avaliar o governo Lula porque só há um ano letivo até agora. E também é difícil comparar com o governo anterior - que, com quase cinco Ministros de Educação, cuidou bem mais de guerras ideológicas com universidades do que propriamente da Educação Básica. Houve apostas importantes - e eu tenho algumas preocupações. Uma aposta é a alfabetização inicial, ou seja, tentar alfabetizar todos os alunos na idade correta, que vem avançando com um certo auxílio da sociedade civil, com uma lei de ICMS inspirada no que fez o governo do Ceará; isso vem avançando. Outra coisa que foi levantada como uma prioridade foi a Escola em Tempo Integral. Se realmente houver, como foi anunciado, o incentivo aos Estados para colocar pelo menos as estaduais em tempo integral, para avançar da maneira como estava previsto, nós vamos ter a solução de uma série de problemas na educação. Mas lembrando que não há milagre para a educação; as soluções são sempre sistêmicas, ou seja, você tem que apostar em educação em tempo integral, você tem que melhorar a formação inicial do professor, que hoje é muito descolada da prática; você tem que ter materiais conectados com a Base Nacional Comum Curricular. A minha preocupação é que o Conae anunciou duas coisas que me preocuparam muitíssimo; primeiro revogar o novo ensino médio, o que seria um desastre. Nenhum país que tem um bom sistema de ensino coloca 13 matérias espremidas em quatro horas de aula, como nós fazíamos antes da reforma do ensino médio. Gastamos algo em torno de 3 bilhões de reais na preparação do novo ensino médio, processo que foi muito conturbado, devido à pandemia e à inoperância do MEC no governo Bolsonaro. Agora, jogar fora tudo que foi construído ao longo desses anos, jogar a Base Nacional Comum Curricular fora, aí sim, nós caminharemos para um grande retrocesso. Então eu tenho algumas celebrações em relação à escolha de prioridades e alguns temores. Um dos temores também é o de que os avanços alcançados pelo Conselho Nacional de Educação, em relação à formação de professores, com diálogo entre teoria e prática, seja completamente desconstruído - e que não seja colocado nada no lugar!

Plurale - Especificamente no que diz respeito ao novo Ensino Médio: o programa “pé de meia” é ou não eficaz? Temos uma grande legião de “nem-nem”; não estudam e nem trabalham. Os dados só crescem, com a evasão escolar... o enfrentamento está sendo feito corretamente?

Claudia Costin - Eu acho uma boa ideia o programa pé de meia. Lembrando que tem que ser sistêmico; não basta dar mais dinheiro para o aluno se manter no ensino médio e concluir o ensino médio, inclusive prestando o Enem. Acho uma ideia boa, que tem que ser complementada com aquilo que fazem os países que têm bons sistemas, como manter as áreas de aperfeiçoamento escolhidas pelos alunos, a partir de um determinado momento no Ensino Médio; e nesses casos, essa escolha se faz ainda no fim do Fundamental 2. Nós fazemos no primeiro ano Ensino Médio. Mas acho possível. Vale lembrar que, para o Ensino Médio vigorar, mais do que no Ensino Fundamental, é importante você ter tempo integral.

Plurale - O mundo mudou, sem dúvida. A tecnologia trouxe inovação, mas também desafios para o ensino. Como conciliar estes dois eixos? A Prefeitura do Rio de Janeiro – e também de outras cidades – proibiu o uso de celulares nas escolas municipais recentemente. Decisão acertada ou exagerada?

Claudia Costin - Bom, em relação ao mundo, a transformação mais importante que houve nos últimos anos é a revolução digital. No mundo do trabalho, postos de trabalho vêm sendo substituídos por máquinas. Poderíamos imaginar que a solução para isso é avançar muito rapidamente para soluções digitais nas escolas, mas eu teria uma certa cautela. Acho que, quando a gente compete com inteligência artificial no mundo do trabalho, temos que fortalecer no processo de ensino, aquilo que nos define como humanos - como saber resolver problemas colaborativamente, com criatividade, coisa que os robôs não são capazes de criatividade. E também reforçar o pensamento sistêmico e o crítico - o que não quer dizer decorar a visão de mundo do professor e devolver numa prova; é aprender a pensar autonomamente. De novo, a questão da experimentação, uma aprendizagem mais experimental, mais mão na massa. Com relação ao desenvolvimento de competências digitais nos alunos, acho extremamente importante; mas isso não quer dizer aprender a usar o celular ou aprender a usar o computador. É usar para fins de aprendizagem, para fins de pesquisa - e ter as duas coisas. Acabar com os laboratórios de informática e colocar as salas de leitura ou as bibliotecas escolares com livros físicos e equipamentos para pesquisa.

Com relação à decisão do Rio de Janeiro de proibir celulares, eu acho acertada. Nós, adultos, nos dispersamos muito com os celulares; por exemplo, em reuniões, há pesquisas que mostram que a mera presença do celular ao lado nos distrai. Agora, imagine uma criança que ainda não tenha o córtex pré-frontal maduro.

O que países com bons temas têm feito é o seguinte: o celular não vai para escola ou fica guardado em alguma estante, com o nome do aluno identificado. E, se nos momentos em que for necessário usar para fins instrucionais, ou os alunos usam esses celulares nessas horas, ou utilizam tablets e equipamentos que funcionam melhor - com a vantagem de não ter essa comunicação constante com coisas que não interessam ao processo de aprendizagem. Eu concordaria com o Rio - inclusive de não permitir no recreio, como muitas escolas estão fazendo agora. Porque a criança e o pré-adolescente, que são o público do Rio, precisam brincar ao ar livre, interagir com os colegas. A escola não serve só para depositar competências cognitivas ou para desenvolver competências cognitivas nos alunos. Ela serve também para introduzir o aluno na sociedade maior do que a sua família. Ensinar hábitos de convivência tem todo um outro lado que também é importante.

Plurale - Os professores ganham muito pouco e nunca foram tão desprestigiados. As estatísticas e notícias mostram o crescimento da violência de alunos contra professores. Como enfrentar este desafio? Cada vez menos jovens querem seguir o Magistério... seria possível melhorar esta procura pela carreira de professor?

Claudia Costin - Curiosamente, os professores hoje ganham mais do que há 20, 30 anos atrás. Ganham mais, inclusive proporcionalmente. A nossa questão não é essa; a questão é que eles têm cargas horárias diminutas, no caso do Fundamental 2 e no Ensino Médio. Com isso, as condições de trabalho deles estão muito degradadas. Mesmo assim, nós pagamos menos da metade do que pagam países com sistemas escolares melhores que os nossos. Nós temos que avançar mais em salários, temos que colocar os professores preferencialmente numa única escola e temos que começar a olhar com mais seriedade para o professor como uma profissão, que é o que ela é. É possível melhorar com um conjunto de fatores, inclusive tornar mais seletivo o acesso à profissão de professor, educar as famílias para valorizar a profissão e desenvolver uma educação para convivência que respeite o papel do professor.

Plurale - Há uma tendência mundial, que não é só do Brasil, de crescimento da violência nas escolas. Entre alunos, atingindo professores. Crimes sem explicação em creches, escolas de crianças e jovens. Como explicar esta raiva tão incontrolável em ambientes que deveriam ser só acolhimento e fraternidade?

Cláudia Costin - Nunca foi tão urgente educar para a paz, educar para uma convivência pacífica na diversidade. O ODS 4 tem, especificamente, uma meta voltada para educar para a paz e para a dignidade do outro. Isso significa ensinar, na escola, uma comunicação não violenta. O próprio professor deve modelar a comunicação não violenta com os alunos, introduzindo cada vez mais condições para um diálogo construtivo dentro da escola, como clubes de debate, por exemplo, para ensinar a respeitar a posição do outro. É importante lembrar que o bullying, tão prevalente nos nossos tempos, não começou agora. Começou já nos anos 1980. E os adultos praticam bullying entre si! Então vai ser muito difícil que a escola, sozinha, resolva essa questão. A escola tem que combater o bullying, ensinando e fomentando a empatia; mas também por meio de escolas de parentalidade, nas reuniões com os pais, haja o fomento de uma comunicação não agressiva dentro das famílias, porque as crianças replicam na escola o que veem os pais e seus mestres fazendo.

Plurale - O atual Governo tem se preocupado com a educação para quilombolas e indígenas, fazendo o resgate antropológico destes povos originários. Temos uma dívida histórica na educação para estes povos?

Claudia Costin - Sem dúvida há uma dívida histórica nossa com a população que foi escravizada; nós fomos um dos países que mais teve escravos no mundo, escravos de origem africana. Nós temos, sim, uma dívida, mas como temos em relação aos indígenas e em relação aos quilombolas que vieram dessas populações escravizadas, mas que tiveram a força de lutar e preservaram os seus costumes e valores. Oferecer uma educação específica para quilombolas é importante; também se deve expor essas populações tanto à cultura própria do seu grupo quanto ao patrimônio cultural acumulado pela Humanidade, para que essas populações possam fazer suas escolhas e saber dialogar em culturas distintas. No fundo, eu estou dizendo que a gente tem que ter uma educação multicultural.

Plurale - Qual a sua avaliação sobre o Plano de Educação a ser entregue como projeto de lei ao Congresso Nacional? Estamos na direção correta?

Claudia Costin - Eu gosto muito da ideia de o Brasil ter um plano plurianual de educação. Começou há alguns anos, mas é muito importante que esse plano tenha um caráter mais sistêmico; que não seja um amontoado de metas que cada setor pressionou para que aparecessem no Plano. E que essas metas dialoguem com a disponibilidade de recursos. Não adianta o Brasil colocar que vai ser o único país do planeta a ter 10% do gasto do PIB em educação sem ter fonte de recursos para isso. Vamos ter que continuar gastando em saúde, em segurança pública, em estradas etc. Então é importante ter um plano realista e ousado ao mesmo tempo. Para mim, nós deveríamos ser ousados em assegurar a qualidade na educação, que passa por garantir mais horas de aula para todos, garantir que os professores tenham condições de trabalho adequadas e estejam em uma única escola; que toda criança saia alfabetizada no final do primeiro ano, pelo menos na alfabetização inicial; e que não nos rendamos a uma visão corporativista. Isso significa que, ao invés de eu olhar principalmente para o que esse cidadão que está em formação vem recebendo de formação, como ele está se desenvolvendo, eu olho mais para as demandas corporativistas específicas de cada categoria do professor. Nesse plano de educação, há que se olhar para a primeira infância, que é quando a gente nivela as diferenças de origem socioeconômica no desempenho escolar futuro e garante as condições para essa criança se desenvolver plenamente.

Plurale - A primeira infância é onde tudo começa. Sinapses que podem ser formadas ou não, a depender do que a criança passar. E há todo o contexto social envolvido. Existe o Grupo de Trabalho voltado para este ensino tão decisivo. Favor compartilhar a sua opinião sobre o tema.

Claudia Costin - A primeira infância aparece em uma meta do ODS 4 da Agenda 2030, que fala em programas para a primeira infância e não só em termos da educação, porque é na primeira infância que é mais urgente que diferentes políticas públicas, como saúde, educação e assistência social, estejam em diálogo. Não é escolarizando precocemente crianças que a gente vai resolver todo o problema. É importante a atuação do agente comunitário de saúde, da visitação domiciliar, inclusive de assistência social, que vai olhar para a formação de vínculos afetivos na primeira infância. É necessário que a gente não coloque a criança na creche antes dos seis meses, porque essa etapa em que nós deveríamos favorecer o aleitamento exclusivo e a formação de vínculo entre pai, mãe e criança. E também aumentar as licenças de maternidade e paternidade, estimular o cérebro dessa criança. Isso pode e deve ser feito tanto em casa quanto na escola. É por isso que escolas de parentalidade são importantes, especialmente nessa etapa. Além disso, as creches e pré-escolas têm que ter uma infraestrutura adequada. A etapa na qual a infraestrutura conta ainda mais é na educação infantil, com livrinhos de bebês disponíveis, desde que eles entrem, como eu disse antes, retardando a entrada dessas crianças na creche. Muitos países só permitem entrada de bebês em creches, a não ser em casos sociais gravíssimos, aos dois anos - e optam por ampliar as licenças. Esta é uma ideia em que o Brasil poderia se inspirar, já que o efeito da creche é muito mais importante aos dois a três anos do que do zero aos dois anos, a não ser que haja riscos alimentares. Isso é um ponto importante de atenção para nós; ao mesmo tempo que haja professores formados para atuar nessa etapa, planejar a primeira infância da Educação Infantil é mais importante até do que o ensino médio. E é mais complexo; por isso é que precisamos de professores de educação infantil preparados e com condições de trabalho adequadas. Assim, foi criado um grupo de trabalho do Conselhão para a primeira infância, que vem discutindo esses temas que acabei de levantar.







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