Texto de MAURETTE BRANDT, especial para PLURALE
Fotos de MAURETTE BRANDT e DOUGLAS SHINEIDR/ DIVULGAÇÃO

Um céu de brigadeiro se abre neste sábado ensolarado sobre o centro histórico de Vassouras, cidade colonial encantadora, plantada há séculos na região do Vale do Café, no estado do Rio. Suas terras férteis e temperatura que já foi bem mais amena fizeram a fortuna daqueles que a história batizou de Barões do café.
Hoje o céu está tão lindo, diria o saudoso Tim Maia, se estivesse agora na praça da cidade de Vassouras e olhasse para cima, rumo à copa das centenárias palmeiras imperiais que buscam o infinito. A praça, o belo chafariz de pedra e a Igreja Matriz, mais que centenária (quando teria sido construída não sei dizer), rutilam agradecidas. É festa para a cidade e para a cultura.
Bem no alto, à direita da Igreja, um garboso prédio, construído em 1848, meticulosamente restaurado, contrasta sua brancura imaculada com o céu azul de anil: é o Museu Vassouras, que está prestes a ser inaugurado, após seis anos de obras respeitosas e acessíveis que literalmente ressuscitaram, para a cidade e para todo o interior do Médio Paraíba Fluminense, o imóvel que abrigou a Santa Casa de Misericórdia, o primeiro hospital de Vassouras, que mais tarde seria transformado em asilo - além de sofrer um incêndio e de resistir, por pura teimosia, ao longo de incontáveis anos de abandono.
Contemplo as paredes brancas, a imponente porta de madeira e a nova identidade visual, escrita com letras num leve tom prata contra a branca parede e formam um cubo: a palavra museu sobe na vertical e abraça as três sílabas no nome vas-sou-ras. Nada mais simples e forte.
Entro no prédio, enfim, em meio à intensa luz branca que revela as grossas paredes, as grandes janelas que recebem luz por todos os lados, o pé direito altíssimo, a estrutura do teto, o ar respirável.
Um grupo de harpistas de várias idades, formado por adultos e crianças, nos recebe com música celestial, ao comando do maestro. Os músicos fazem parte de um projeto social da cidade, que mantém 175 jovens e crianças estudando harpa em Vassouras. A inspiração veio da harpista Cristina Braga, que tem raízes na região e é a criadora do Uaná Eté, um deslumbrante jardim e oásis próximo da idade.
Harpistas recepcionaram os convidados. Foto de Maurette Brandt/ Plurale.
O prédio restaurado está na beira da rua, mas tem três andares descendentes, que são revelados não só pelas janelas gigantes, mas que podem ser acessados por escadas ou por elevador. O projeto arquitetônico é de Maurício Prochnik e o planejador do Retrofit é Mozart Serra.

Um lugar especial: o Memorial Judaico
No andar mais baixo, o projeto original de Roberto Burle Marx guarda um grande tesouro que também tem história: o Memorial Judaico, que tem curadoria de Ilana Feldman. Estão presentes no espaço as lápides de Benjamin Benatar, enterrado em 1859, e de Morluf-Levy, enterrado em 1878. Os dois, que viveram como cristãos-novos na cidade por longos anos, foram enterrados no terreno da Santa Casa, com autorização de Roma e da Igreja local, pois desejavam morrer como judeus - e na cidade não havia um cemitério judaico. Em 2005. as cinzas de Egon Wolff, falecido antes da inauguração oficial do Memorial Judaico, foram ali depositadas. Documentos informam que Benatar e Levy foram enterrados naquele local. A lápide de Levy foi preservada, enquanto a de Benatar foi reconstituída por meio de documentação recuperada.
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Ronaldo Cézar Coelho e André Esteves, Chairman do BTG Pactual. Foto de DOUGLAS SHINEIDR/ DIVULGAÇÃO
O memorial desperta muita emoção, por seu clima de elevação. Até as plantas escolhidas para decorar esse local de reflexão e reverência falam à espiritualidade. Os ciprestes, árvores esguias e alongadas, reforçam o caráter solene e reflexivo, conduzindo o olhar ao céu. A liríope, planta herbácea de folhagem densa e flores delicadas, circunda os ciprestes e reforça a ideia de unidade, permanência e respeito. Por fim a hera-roxa, planta rasteira de folhas largas e arroxeadas, dialoga com o silêncio do espaço e simboliza a base viva da memória coletiva. Dois paineis, instalados no local, oferecem aos visitantes as informações históricas sobre o Memorial.

Evento concorrido, várias autoridades presentes. Foto de DOUGLAS SHINEIDR/ DIVULGAÇÃO
Os caminhos do Museu Vassouras
Toda essa transformação de um espaço antes abandonado num Museu digno de qualquer metrópole começou bem lá atrás, por iniciativa dos irmãos Ronaldo Cezar Coelho e Arnaldo Cezar Coelho, controladores da TV Rio Sul, repetidora da TV Globo na região, que decidiram comprar e restaurar o imóvel. Na verdade, porém, foi um processo a muitas mãos, com idelização decisiva do jovem Guilherme Cezar Coelho, diretor de cinema e filho de Ronaldo; com apoio de vários governantes, de empresários locais e de autoridades brasileiras em vários níveis - como citou, emocionado, Ronaldo Cezar Coelho, em seu discurso inaugural.
- O que era um sonho foi crescendo pouco a pouco, até este Museu nascer - revela. - Foi trabalho de muita gente, pessoas que nos ajudaram a construir esta realidade que hoje inauguramos, aqui em Vassouras. A lista é tão grande que nem sei onde começa ou termina - conta, feliz, sob os olhares de muitas pessoas da comunidade e também das autoridades presentes - como a prefeita de Vassouras, Rosi Silva; o prefeito do Rio de Janeiro, Eduardo Paes; e o governador do estado, Cláudio Castro. E sobretudo com a presença do Ministro Luís Roberto Barroso, natural de Vassouras e atual Presidente do Supremo Tribunal Federal. Em seu discurso, Barroso relembrou seus tempos de criança na cidade onde aprendeu a andar de bicicleta e onde coleciona amigos até hoje. Elogiou também a iniciativa de Ronaldo Cezar Coelho, de semear cultura e conhecimento, ao levar a cabo a restauração do espaço e a criação do Museu Vassouras.

Guilherme Cezar Coelho com o Presidente do STF, Ministro Luís Roberto Barroso. Foto de DOUGLAS SHINEIDR/ DIVULGAÇÃO
Além de anunciar o nome da Diretora Artística do Museu, Catarina Duncan, Ronaldo Cezar Coelho agradeceu ao curador Marcelo Campos, organizador da primeira exibição que ocupará o Museu em breve. Agradeceu também a todos os membros da equipe responsável pela operacionalização do espaço, daqui em diante.

Arnaldo Cezar Coelho contempla a exposição. Foto de Maurette Brandt/ Plurale
Próximo passo: o Bosque Eufrásia Teixeira Leite

Ronaldo Cezar Coelho discursando em evento. FOTO DE DOUGLAS SHINEIDR/DIVULGAÇÃO
Ronaldo Cezar Coelho anunciou, na solenidade, que em breve empreenderá um amplo projeto de reflorestamento no entorno da cidade, onde vai criar o Bosque Eufrásia Teixeira Leite.
- O pai desta mulher brilhante, nascida em Vassouras, era Custódio Teixeira Leite, o Barão de Aiuruoca, que aconselhou a filha a não se casar com nenhum dos primos que a cercavam: - Não case com nenhum deles! Eles só querem o seu dinheiro! - alertou o pai, contou Ronaldo.
Eufrásia foi noiva de Joaquim Nabuco por alguns anos, mas os dois não se casaram. Enquanto Eufrásia iinsistia em se casar na França, cuja legislação não obrigava a mulher a transferir seus bens ao marido, Nabuco fincava pé em se casar sob as leis brasileiras, segundo apurações desta repórter. O noivado, portanto, não prosperou.
- E o que Eufrásia fez? - perguntou e respondeu Ronaldo. - Pegou um vapor, foi para Paris e fez investimentos importantes no exterior, que multiplicaram sua fortuna! - prosseguiu, entusiasmado.
Anos mais tarde, Eufrásia retornaria a Vassouras e doaria grande parte de sua fortuna à cidade, o que incluiu vários imóveis destinados a escolas e outros serviços à comunidade.

Algumas presenças
A inauguração do Museu Vassouras foi muito prestigiada; além das autoridades já citadas, estava presente o Príncipe D. João de Orleans e Bragança. Compareceram também o jornalista Ancelmo Góes, colunista de O Globo, e a jornalista Ana Flor, comentarista da GloboNews, além da apresentadora Carla Vilhena e da apresentadora do programa CNN Viagem & Gastronomia, Daniela Filomeno. Marcaram presença também Ilana Feldman, curadora do Museu Judaico, o publicitário Armando Strozenberg, o Rabino Nilton Bonder e sua esposa, a artista plástica Esther Bonder, entre outras peesonalidades.
Recepção na Fazenda São Fernando
Após a solenidade inaugural, Ronaldo Cezar Coelho recebeu os convidados para um almoço informal em sua Fazenda São Fernando, que também foi totalmente restaurada segundo todos os padrões construtivos da época. O empresário aproveitou para mostrar alguns ambientes especiais da fazenda, como a sala do piano e a capela, que abriga belos exemplares de estatuário religioso.
Presença de PLURALE
Maurette Brandt com a jornalista Ana Flor. Selfie de Ana Flor.
A mais recente edição da Revista PLURALE circulou entre os convidados, como o colunista Ancelmo Góis, a artista plástica Esther Bonder, o Príncipe Dom João de Orleans e Bragança e a Diretora Artística do Museu Vassouras, Catarina Duncan, entre outros.
Um grande Museu renova o interior do estado
O Museu Vassouras é uma conquista gigante para a região do Médio Paraíba Fluminense. Cidades como Valença, Paulo de Frontin, Barra Mansa, Volta Redonda, Conservatória, Barra do Piraí, Resende, Itatiaia, Piraí e tantas outras têm, agora, uma fonte acessível de cultura onde podem se abastecer.
Um museu vivo e vibrante oferece muitas possibilidades: exposições, eventos, projetos educacionais, música, literatura, teatro - enfim, o céu é o limite. No último domingo, dia seguinte à inauguração, o Museu Vassouras promoveu um evento de portas abertas para que toda a comunidade pudesse conhecer o espaço, com diversas manifestações culturais, visitas guiadas e atividades distintas.
A partir de agora, Vassouras - um belo e delicado enclave em meio à história da região - jamais será a mesma, após a chegada de um grande museu para chamar de seu. E toda a redondeza, decerto, vai bater lá. É uma fonte de inspiração, educação, cultura, energia - enfim, movimento que renova, que amplia os horizontes e que vai não só plantar sementes, mas provocar florestas reais, imaginárias, literárias e artísticas. É um rio de beleza e energia que, decerto, não pára mais.
Estamos, todos, no tempo do Museu Vassouras! Que ele seja devidamente povoado com nossa sede de cultura, informação e arte!













