Por Fernando Thompson, Colunista de Plurale, de Lisboa*
A União Europeia caminha — ou ao menos tenta caminhar — rumo à sustentabilidade. Mas o percurso é cheio de contradições: enquanto pressiona o Mercosul por ações contra o desmatamento, falha em descarbonizar sua própria economia. Um relatório recente do Parlamento Europeu deixa esse paradoxo claro.
O documento “An update on the economic, sustainability and regulatory effects of the trade part of the EU-Mercosur Partnership Agreement”, encomendado pelo Parlamento Europeu e publicado em junho de 2025, oferece uma avaliação técnica dos efeitos econômicos, ambientais e regulatórios do acordo UE-Mercosul. Entre os destaques: um modesto ganho de 0,1% no PIB europeu, advindo principalmente do setor industrial da UE. Além disso, o relatório mostra que a retórica sustentável — como os padrões “livres de desmatamento” e os direitos trabalhistas — é reforçada do lado europeu independentemente do tratado (europarl.europa.eu).
Link para o relatório:
Relatório Parlamento Europeu – Efeitos econômicos, sustentabilidade e regulação do Acordo UE-Mercosul
União Europeia entre ambição climática e morosidade real
Os Estados-membros adotaram o Green Deal, prometeram reduzir em 55% suas emissões até 2030 e neutralizar o carbono até 2050. No papel, avanços são muitos. Na prática, faltam resultados efetivos. Relatórios como o Europe Sustainable Development Report 2023/24 mostram que o ritmo de cumprimento dos Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS) caiu de 0,73 pontos por ano (2015–2019) para apenas 0,24 pontos (2019–2022) (Expert Editora). Além disso, mecanismos como o Carbon Border Adjustment Mechanism (CBAM), que impõem tarifas sobre emissões das importações, esbarram em dificuldades técnicas — falta de dados, resistência industrial e falhas de implementação — tornando-os questionáveis em eficácia real.
Essa mesma UE exige do Mercosul a redução do desmatamento e políticas ecológicas rígidas. É o famoso faça o que eu mando, mas não faça o que eu faço.
O novo acordo comercial prevê, por exemplo, cláusulas de aderência ao Acordo de Paris e suspensão de benefícios caso não haja cumprimento ambiental — em teoria, claro. Mas críticos europeus alertam: a liberalização de importações de produtos como carne e soja pode impulsionar o desmatamento na Amazônia, sem garantias efetivas de controle (Le Monde.fr, CAN Europe, Reuters, AP News).
Isso revela a contradição: a UE se apresenta como protetora do clima, mas continua consumidora voraz de produtos de alto impacto ambiental, enquanto enfrenta dificuldade em avançar internamente em sua transição energética.
Por que a UE não avança de forma robusta internamente?
Três fatores destacam-se:
Interesses industriais e sociais: setor agrícola, metalúrgico e sindicatos alertam que políticas verdes podem destruir empregos e elevar custos;
Fragmentação política: países como Polônia, Hungria, França e Itália resistem a normas climáticas mais duras, enfraquecendo unanimidade nas políticas comuns da UE (Financial Times).
Complexidade técnica: estruturar dados sobre emissões, adaptar cadeias produtivas e criar instrumentos financeiros verdes esbarra em burocracia e falta de capacidade. O próprio relatório mostra que apenas 11% das recomendações macroeconômicas foram implementadas até agora (Financial Times).
É moralmente complicado exigir ações ambientais do Mercosul, quando a própria UE falha em implementar as suas metas. O discurso verde torna-se seletivo: infla-se controladamente o desmatamento na Amazônia — enquanto continua a subsidiar sua agricultura com energia fóssil, e a perder terreno doméstico em inovação limpa.
A coerência exigir que, se a UE quer cobrar sustentabilidade externa, precisa, primeiro, demonstrar avanço em casa. Sem isso, corre o risco de prejudicar o diálogo Sul-Sul, prejudicar parceiros e alimentar o discurso de colonialismo ambiental europeu.
A UE traça o caminho para ser líder climática, mas tropeça em seu próprio terreno. Para cobrar ações robustas do Mercosul, precisa primeiro provar que sua casa está em ordem. Caso contrário, ecoa a velha acusação de que desenvolver exige sofrer e preservar exige hipocrisia.











