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Seguro: O Agente Estratégico do Financiamento Climático Global

Setor de Seguros assume protagonismo empoderador para a sustentabilidade do financiamento da transição climática

Por Antonio Carlos Teixeira e Sônia Araripe, de Plurale

Fotos de Felipe Araripe/Plurale e de Divulgação

A sociedade global está diante de um dos seus maiores e mais complexos desafios de sobrevivência: o estado de emergência internacional causado pelas mudanças climáticas e os seus catastróficos efeitos, que já estão sendo vivenciados em todos os cantos e continentes do planeta. Das alterações bruscas de temperatura a enchentes e inundações devastadoras, passando por tempestades avassaladoras, chuvas torrenciais drásticas, secas aniquiladoras, ondas de calor insuportáveis, incêndios quilométricos letais e derretimentos perigosamente acelerados de geleiras, a crise no clima já é uma ameaça real à vida humana, cuja sobrevivência, segundo cientistas do Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas (IPCC/ONU), está por um fio, ou melhor, por 1,5 grau de aquecimento da temperatura da Terra. Para barrar esse apocalipse climático-ambiental, instituições da sociedade civil mundial e governos nacionais (principalmente os dos países que integram o chamado Sul Global) veem no financiamento climático um meio para captação de recursos com o objetivo de criar condições e infraestruturas necessárias e urgentes para barrar os efeitos provocados pela crise do clima e, ao mesmo tempo, frear o aumento da temperatura do planeta. O tema será a principal discussão da COP30, a Conferência das Partes da Convenção-Quadro das Nações Unidas sobre a Mudança do Clima (UNFCCC), cuja próxima edição será na cidade de Belém (a “Metrópole da Floresta Amazônica” e capital do estado do Pará), entre os dias 10 e 21 de novembro desse ano. Mas somente para bancar a transição e a adaptação climática dos países em desenvolvimento são necessários atualmente cerca de US$ 1,3 trilhão. Neste sentido, a reportagem de Plurale ouviu representantes do Setor de Seguros e de uma organização da sociedade civil ligada à questão climática para saber como a Indústria Seguradora tem colaborado para a sustentabilidade do financiamento da transição climática e a mitigação do aquecimento global.

O que é financiamento climático? – De acordo com o UNFCCC, “refere-se ao financiamento local, nacional ou transnacional – obtido de fontes públicas, privadas e alternativas de financiamento – que busca apoiar ações de mitigação e adaptação relacionadas às mudanças climáticas.” Os esforços globais para reverter, ou pelo menos frear a elevação da temperatura, começaram no final da década de 1980 com a criação do IPCC pela ONU e a Organização Meteorológica Mundial (WMO). O assunto ganhou destaque internacional quando foi discutido durante a Eco 92/Cúpula da Terra/Rio-92, como ficou conhecida a Conferência das Nações Unidas sobre Meio Ambiente e Desenvolvimento, realizada na cidade do Rio de Janeiro em 1992, que se tornou um marco na história do enfrentamento da emergência climática global. O objetivo é viabilizar a transição para uma economia de baixa emissão de carbono (descarbonização) e demais gases de efeito estufa (GEE) e aumentar a resiliência aos impactos climáticos, sendo um tema central em negociações internacionais relacionadas ao assunto, como as COPs.

Um marco fundamental para o financiamento climático foi o Acordo de Copenhague (Dinamarca), no âmbito da COP 15 (2009), quando os países desenvolvidos se comprometeram a contribuir com US$ 30 bilhões entre 2010 e 2012 para que os países em vias de desenvolvimento pudessem implementar ações de mitigação e de adaptação às alterações do clima da Terra. Seis anos depois, no Acordo de Paris (França), durante a COP21 (2015), os valores previstos para financiar a transição climática dos países em desenvolvimento já alcançavam US$ 100 bilhões de dólares anuais até 2020, estendendo-se até 2025.

Financiamento climático no Brasil e em nível global – Dois relatórios lançados recentemente pelo Climate Policy Initiative (CPI/PUC-Rio) revelam uma alta nos fluxos de financeiros destinados a financiar a transição climática no Brasil e em nível internacional. O “Mapeamento de Financiamento Climático Internacional para o Brasil” indica que o volume de financiamento climático internacional para o país atingiu R$ 26,6 bilhões/ano em 2021-2022, o que significa um aumento de 84% no financiamento em relação a 2019-2020. Já o desempenho do financiamento climático internacional, segundo o documento, registrou um crescimento de 28% entre os biênios acima citados. Joana Chiavari, diretora de Pesquisa do CPI/PUC-Rio, analisa que os resultados apresentados pelo Brasil são “sinais positivos sobre a capacidade do país de atrair recursos internacionais para a agenda climática.” Segundo ela, o capital externo é fundamental para complementar os investimentos domésticos na transição para uma economia de baixo carbono. Já o “Panorama Global do Financiamento Climático 2025” revela que o financiamento climático global atingiu um máximo histórico de US$ 1,9 trilhão em 2023, e chegou a ultrapassar US$ 2 trilhões pela primeira vez em 2024.

CNseg lança Casa do Seguro na COP30 e prevê novos produtos

O Setor de Seguros marca presença na Conferência do Clima de Belém do Pará. O presidente da Confederação Nacional das Seguradoras (CNseg), Dyogo Oliveira (foto acima, de Felipe Araripe/Plurale), anunciou em agosto que iriam lançar a Casa do Seguro na COP30, e antecipou que em Belém serão lançados alguns novos seguros, como para florestas e para carbono. O anúncio foi feito durante o workshop de mudanças climáticas para jornalistas, realizado na sede da Confederação, no Rio de Janeiro.

O presidente da CNseg, Dyogo Oliveira, advertiu que as mudanças climáticas são ainda mais perversas porque, primeiro, atingem os países mais pobres, que menos contribuíram para esse cenário global, e depois, porque, nos países mais pobres e em outros igualmente atingidos, o grupo mais vulnerável da população é o que mais sofreu nos últimos 10 anos. As perdas causadas por eventos climáticos superaram a casa de U$ 300 bilhões de dólares no mundo. “Desde a COP de Dubai, COP28, o tema principal é a transição justa. Achei muito conveniente. Mas, me preocupo muito que as ações que são efetivamente tomadas não estão indo muito na direção da justiça, da transição justa, muito pelo contrário. As ações que estão sendo tomadas, de novo, estão colocando um encargo e um custo de adaptação sobre os países mais pobres, enquanto os países mais ricos se furtam a assumir os custos dessa transição”, destacou. Dyogo destacou a polêmica em torno da discussão no âmbito da COP sobre a criação dos fundos de compensação e o pagamento por serviços ambientais. “Nada disso anda. Então, acho que há todo um processo de discussão e não está realmente trazendo essa justiça na transição climática”.

O Setor de Seguros, segundo o executivo, tem feito a sua parte, ajudando a liderar a agenda de debates sobre as mudanças climáticas e como proteger as pessoas de fatores extremos: “Nossa sugestão é um PIX emergencial, que indenizará os atingidos em R$10 mil, pelo PIX, em situações de emergência. Há um longo caminho pela frente. Virão novos produtos para serem lançados na COP30”. Questionado pela imprensa, ele citou como exemplo, os seguros de florestas e o seguro de carbono, porém, sem dar detalhes sobre os desdobramentos.

A Casa do Seguro será um hub de conhecimento sobre a área na Conferência do Clima em Belém. Estruturada para ser a "Embaixada do Seguro" na capital paraense, a Casa foi idealizada para ir além de um estande tradicional, estabelecendo-se como um ambiente inovador para debates, encontros multissetoriais, workshops de capacitação e articulações entre líderes empresariais, representantes governamentais, especialistas ambientais e sociedade civil. Sua infraestrutura foi projetada para garantir as certificações de Evento Neutro e Resíduo Zero, empregando desde o uso eficiente de energia e cenografia ecologicamente responsável até sistemas de gestão ambiental integral, cobrindo todas as fases do evento — da montagem à desmontagem. Para Claudia Prates, diretora de Sustentabilidade da CNseg, o projeto da Casa do Seguro é carregado de simbolismo, por exemplificar como o Setor de Seguros pode ser peça-chave no enfrentamento da crise climática. "Esse projeto é emblemático por sinalizar o compromisso concreto do Setor de Seguros com a agenda climática, não apenas no discurso, mas também na prática. Dentro da COP30, ele ganha um papel ainda mais relevante ao demonstrar como eventos podem ser planejados com responsabilidade ambiental, servindo de exemplo para outras organizações e setores econômicos", destaca a executiva.

Professor Paulo Artaxo faz alerta

O professor da USP, Paulo Artaxo (foto acima, de Felipe Araripe/Plurale), um dos maiores especialistas em mudanças climáticas no mundo, alertou sobre o impacto deste cenário atual no mundo, citando o Setor de Seguros como: “O mais vulnerável às mudanças climáticas, que estão modelando os setores de maneira muito forte. Precisamos construir uma sociedade baseada nos 17 ODSs (Objetivos de Desenvolvimento Sustentável) e a mudança climática faz parte do processo, no qual a humanidade está passando na sua evolução, para agora um mundo sustentável. O modelo atual não é sustentável a longo prazo”. Paulo Artaxo advertiu que o planeta sofreu um aquecimento na média de 1,55°C, porém, como 75% da superfície terrestre é coberta por oceanos, os continentes, onde vivem as populações e se concentram as atividades econômicas, já ultrapassaram 2,2°C de aumento. “Provavelmente, chegaremos a um aumento médio de temperatura da ordem de 3°C ao longo deste século. No Brasil, isso significa até 4°C a mais, em algumas regiões”, alertou. Concluindo sua palestra, o professor Artaxo lembrou a importância da próxima Conferência do Clima, a COP30, em Belém, que deve ser “a COP da virada”. Na sua opinião, será necessário reduzir emissões tanto de combustíveis fósseis quanto do desmatamento, estruturar mecanismos de financiamento climático para países em desenvolvimento, investir em adaptação e reforçar o multilateralismo.

Outro destaque do workshop foi Lincoln Muniz Alves, coordenador-geral do Ministério de Meio Ambiente e Mudança do Clima (foto acima, de Felipe Araripe/Plurale). Lincoln trouxe a perspectiva do setor público sobre inovação nos setores da economia e que para haver transformações no aumento dos padrões de temperatura e clima, a mídia precisa desempenhar a conscientização da sociedade: “Nada disso vai adiantar se não tivermos uma mudança de comportamento, qualquer mudança começa na transformação das pessoas e setores, daí que vêm vocês jornalistas. Fico feliz de ver a evolução nos últimos 10 anos, o engajamento do setor de seguros nas mudanças do clima. A CNseg está dando passos importantes trazendo hub de conhecimento para o setor.”

Seguro: agente estratégico para o financiamento climático – Com potencial significativo para direcionar o sistema financeiro para uma economia mais sustentável e de baixo carbono, com investimentos sustentáveis, projetos de infraestrutura resiliente, energias renováveis e soluções de adaptação climática alinhadas às metas globais de financiamento climático, o Setor de Seguros é um dos principais investidores institucionais do mundo. Neste sentido, diante da crescente frequência de eventos climáticos extremos em todo o mundo, o Setor se posiciona como um ator fundamental para impulsionar a transição para uma economia de baixo carbono e aumentar a resiliência da sociedade. A avaliação é de Fatima Lima, diretora de Sustentabilidade da seguradora MAPFRE (foto acima, de Divulgação), que detalhou como a indústria pode e deve colaborar com os esforços globais de financiamento climático.

Segundo Lima, o papel do Setor vai muito além da simples proteção contra perdas. “O Setor de Seguros é um agente estratégico para o financiamento climático, uma vez que consegue alocar recursos, precificar riscos, estimular a adaptação e moldar comportamentos econômicos e sociais”, assinalou. Na avaliação da executiva, as seguradoras têm a capacidade de mobilizar não apenas capital, mas também conhecimento técnico para direcionar o sistema financeiro rumo a um modelo mais sustentável e de baixa emissão de carbono.

Liderança resiliente para a sustentabilidade – Questionada sobre como o Setor deve se apresentar frente aos esforços da sociedade global para alcançar o financiamento climático necessário para realizar a transição energética, a diretora da MAPFRE foi enfática: o posicionamento do Seguro deve ser “totalmente a favor”. Fatima Lima argumenta que, para um negócio focado em gerenciar riscos, identificar e avaliar antecipadamente os impactos de possíveis ocorrências climáticas é uma questão de coerência e estratégia aumentar a resiliência das operações, garantir a sustentabilidade do Setor no longo prazo e aumentar a previsibilidade dos riscos. “Diante de um cenário de riscos iminentes e crescentes, essa é uma oportunidade concreta de liderar a construção de um futuro mais seguro, resiliente e sustentável”, frisou a executiva da MAPFRE, que estará presente na Casa do Seguro, da CNseg, realizada na COP30 e apresentará um estudo inédito sobre mudanças climáticas e o Setor de Seguros.

Alguns desses riscos iminentes e crescentes os quais a executiva da MAPFRE se refere já são identificados no estudo “O Impacto das Mudanças Climáticas na Pobreza Infantil e Juvenil na América Latina.” Lançado pelo Fundo das Nações Unidas para a Infância (Unicef) e pela Comissão Econômica para a América Latina e o Caribe (Cepal), o documento, que analisou dados de 18 países da região, aponta que a emergência climática poderá causar um aumento substancial dos níves de pobreza na América Latina até 2030. O relatório ressalta que no cenário 1, o menos pior (Net Zero 2050, ou seja, caso os países implementem políticas e ações de redução de GEE mais ambiciosas e rigorosas do que aquelas com as quais se comprometeram atualmente), 5,9 milhões de jovens latino-americanos e caribenhos com menos de 25 anos cairão na pobreza por causa dos efeitos devastadores de secas, incêndios florestais e inundações provocados pela crise climática.

A colaboração do Seguro para o alcance das metas e objetivos globais de financiamento para a transição climática, segundo Fatima Lima, deve ser “ativa, estratégica e contínua”. Para a diretora da MAPFRE, além de proteger contra perdas, as seguradoras são capazes de impulsionar a transição para uma economia de baixo carbono, financiando soluções e incentivando a resiliência.

Inovação em produtos e serviços sustentáveis Segundo a executiva, uma das principais frentes de atuação é a inovação em produtos e serviços, como seguros voltados para a agricultura sustentável, energia renovável e reflorestamento, além de iniciativas de compensação de carbono, ações que podem ampliar o acesso ao financiamento climático e estimular boas práticas ambientais.

Além disso, o Setor pode exercer grande influência na governança corporativa e na definição de padrões de sustentabilidade ao “incluir critérios ASG em suas carteiras de investimentos, participar de alianças internacionais ou adotar estruturas globais de divulgação como o TCFD”, apontou Lima, referindo-se à Task Force on Climate Related Financial Disclosures (ou Força-Tarefa sobre Divulgações Financeiras Relacionadas ao Clima), que fornece informações aos investidores sobre como as empresas estão mitigando os riscos das mudanças climáticas. Para a diretora da MAPFRE, “o envolvimento do Setor não é apenas desejável, mas indispensável para que o mundo alcance as metas climáticas”.

A criação de novos produtos com foco em sustentabilidade e o estabelecimento de parcerias também são vistos como ferramentas cruciais para garantir a participação ativa do Seguro no financiamento climático, avalia a executiva. De acordo com Fatima Lima, por meio da sua capacidade e expertise em antecipar e prevenir riscos, as seguradoras têm cada vez mais relevância para o entendimento e a gestão sustentável dos negócios e das cidades, oferecendo produtos e serviços capazes de atender às novas demandas em consequência das profundas mudanças dos cenários social, ambiental, político e econômico.

“A criação de novos produtos de seguro, por exemplo, permite atender demandas específicas relacionadas às mudanças climáticas, como os produtos voltados à agricultura sustentável, infraestrutura verde e energias renováveis. Além de oferecer proteção contra riscos climáticos, esses produtos estimulam comportamentos e investimentos sustentáveis”, ressaltou Lima.

Já as parcerias com governos, instituições financeiras e organizações da sociedade civil, na avaliação da diretora da MAPFRE, “permitem conhecer melhor os cenários de risco, compartilhar riscos e desenvolver soluções climáticas escaláveis.”

Seguro é agente de sustentabilidade na transição climáticaO Setor de Seguros desempenha um papel crucial e estratégico no financiamento climático, atuando não apenas como gestor de riscos, mas como um investidor institucional capaz de direcionar recursos para uma economia de baixo carbono e promover uma transição justa e inclusiva. A análise é de Patrícia Coimbra, diretora de Gente e Cultura da seguradora Porto (foto acima/ Divulgação). Segundo a executiva, o Setor tem “grande potencial para alavancar a agenda climática global” por sua relevância econômica, aliada à presença em diversas cadeias produtivas e à gestão ativa de riscos, colocando-o em uma posição estratégica para apoiar soluções por meio da oferta de produtos com foco em sustentabilidade. “Na Porto, reconhecemos esse papel e estamos comprometidos em mobilizar parte do nosso portfólio e estrutura para impulsionar uma economia de baixo carbono”, assegurou, destacando o lançamento em junho passado do Regenera, a nova estratégia de sustentabilidade da empresa, que consolida o compromisso responsável, inclusivo e ambientalmente consciente da companhia.

Segundo a diretora da Porto, diante da urgência da pauta climática, o Seguro possui ferramentas únicas para enfrentar esse desafio. “Ao atuar na gestão de riscos e proteção de patrimônios, o Setor possui dados e capacidade técnica para antecipar cenários climáticos, precificar impactos e mobilizar investimentos com visão de longo prazo”, explicou. A executiva reforça que a responsabilidade das seguradoras é dupla: por um lado, subscrever riscos para dar suporte a negócios e pessoas; por outro, como gestora de ativos, direcionar capital para empresas e projetos com baixo impacto ambiental ou que já estejam em transição.

Além da adaptação climática ao subscrever riscos e dar suporte para negócios e pessoas, a executiva ressalta que as seguradoras possuem também a responsabilidade como investidor institucional. “Como gestora de ativos, [a seguradora] é capaz de direcionar recursos levando em consideração a óptica climática, investindo em setores e empresas pouco emissoras ou que já estão em uma transição para baixa emissão, além de investir em companhias, e projetos para adaptação climática e inovadores no tema”, avaliou Coimbra.

Posicionamento ativo e colaborativo – Para a diretora da Porto, não há espaço para neutralidade do segmento, diante da urgência da transição climática. “É de extrema importância que o Setor de Seguros se posicione a favor do financiamento climático, sendo um agente ativo na viabilização da transição ecológica e na regeneração das economias e territórios”, avaliou. Ela defende que essa atuação deve ser “coordenada e colaborativa”, envolvendo todo o mercado em prol de uma pauta “crítica e urgente” para toda a sociedade.

Nesse sentido, Patrícia Coimbra destacou que a participação da Porto na COP30 será a de uma instituição empoderadora da Casa do Seguro. “A participação da Porto na Casa do Seguro reforça a nossa convicção de que o Setor Segurador pode e deve ser protagonista no enfrentamento da crise climática. Mais do que um fórum de discussão, a COP30 é um catalisador de investimentos, de inovação e de articulação entre o setor privado, governos e sociedade civil. É um momento decisivo para transformar compromissos em ações e fortalecer o papel do mercado de seguros como agente estratégico da transição ecológica”, acentuou.

A força dos dados e o engajamento da cadeia de valor – A colaboração do Setor para o alcance das metas e objetivos globais de financiamento climático, segundo a diretora da Porto, deve se materializar em ações concretas, impulsionadas pela vasta capacidade analítica do Seguro. De acordo com a executiva “o Mercado Segurador tem um papel fundamental em transformar essas conversas em ações concretas”, utilizando dados e “uma vasta base de informações sobre os impactos que a mudança climática já está causando no Setor.”

Além do uso de informações para guiar a transição, Coimbra enfatizou a importância de engajar toda a cadeia de valor. “Acreditamos que também é essencial engajar e apoiar a conscientização de clientes, corretores, prestadores e da Sociedade como um todo sobre os efeitos das mudanças climáticas no dia a dia e nos negócios”, salientou. A seguradora Porto, ressaltou a diretora, estabeleceu a meta de ter 100% de sua cadeia de valor monitorada por critérios ASG até 2030, “incentivando que fornecedores e parceiros compartilhem do mesmo compromisso com o desenvolvimento sustentável.”

Para a executiva, a agenda de negócios com impacto positivo é bem promissora e pode representar uma importante contribuição do Seguro para o alcance das metas globais de financiamento. “Na Porto, por exemplo, temos uma meta pública de R$ 13 bilhões em negócios sustentáveis até 2030. Isso significa que estamos desenvolvendo produtos e soluções que vão mitigar riscos e potencializar impacto positivo na economia real, além de tornar nossos produtos e soluções cada vez mais conectado com nosso propósito de ser um porto seguro para pessoas e seus sonhos”, enfatizou Patrícia Coimbra.

A seguradora também está estimulando a criação e o fortalecimento de produtos com impacto positivo para a sustentabilidade do financiamento climático, como seguros mais acessíveis, serviços com menor pegada ambiental e investimentos com critérios sustentáveis. “Além disso, a gestão de riscos climáticos e socioambientais estará cada vez mais presente em nossos processos internos e na avaliação de parcerias e iniciativas”, completou a diretora da Porto.

Inovação e parcerias sustentáveisPatrícia Coimbra assinala ainda que a realização de parcerias da seguradora com instituições da sociedade civil também são importantes como formas de colaboração para o alcance do financiamento climático. “Já atuamos, por exemplo, com a WayCarbon – empresa global renomada por suas soluções climáticas –, estruturando um plano de descarbonização alinhado às melhores práticas globais e com uma metodologia inédita para o cálculo das emissões seguradas”, destacou.

Coimbra cita ainda o “poder inovativo” do Setor, que possui dados e informações climáticas relevantes e pode “potencializar e preencher lacunas no ecossistema financeiro, assumindo riscos financeiros de setores com baixa resiliência às mudanças climáticas ou historicamente com pouca margem, o que contribui para uma transição justa e inclusiva.”

AXA no Brasil

O Setor de Seguros é um agente central e estratégico para o financiamento climático, posicionando-se como um patrocinador essencial para a transição para uma economia sustentável. A avaliação é de Arthur Mitke, vice-presidente de Subscrição e Sinistros da seguradora AXA no Brasil (foto acima, de Divulgação). A importância do Seguro, de acordo com Mitke, está centralizada na robusta expertise em “antecipar, analisar, precificar e prevenir riscos”. Ao oferecer cobertura adequada, o Setor, na opinião do executivo da AXA, “destrava o capital necessário para projetos de sustentabilidade e infraestrutura verde, que, sem o Seguro, seriam percebidos como excessivamente arriscados e, consequentemente, menos financiáveis”. Além da função do Seguro, o vice-presidente da AXA ressalta fque a atuação do Setor estimula uma “cultura preventiva” baseada em dados e em inovações. “Como um grande investidor institucional, o Setor não só direciona capital para green bonds e ativos sustentáveis, mas também atrai novos investidores ao demonstrar um papel estratégico na construção de uma economia mais verde, o que aponta para um potencial de crescimento significativo em mercados com baixa penetração de seguros”, destacou Arthur Mitke.

Sustentabilidade, produtos e resiliência social – A criação de novos produtos, a simplificação de processos e as parcerias estratégicas são ações cruciais para a colaboração do setor com a sustentabilidade e o financiamento climático, especialmente através da inclusão e resiliência social, frisa, o vice-presidente da AXA. Segundo o executivo, para que essa colaboração seja eficaz, é necessário revisar o conceito tradicional de segurabilidade, integrando as variáveis Ambientais, Sociais e de Governança (ASG) na precificação dos riscos. “Entre os produtos mais adequados para a transição climática, temos o produto patrimonial para Energias Renováveis que se encaixa nesse perfil, mas podemos também citar o Seguro Garantia, que atua em benefício da infraestrutura de uma economia mais responsável”, avaliou Mitke.

Professora da ENS destaca papel do Setor

A professora da Escola de Negócios e Seguros (ENS) e advogada, Ana Paula de Almeida Santos (foto acima de Divulgação), destaca que o Setor de Seguros exerce um papel estrutural na agenda climática como gestor de riscos, instrumento de adaptação e mitigação do risco, atuando diretamente em mecanismos de transferência de risco, sendo grande investidor institucional que pode desbloquear capital para mitigação, adaptação e projetos de transição, bem como para alocação de investimentos e recursos no desenvolvimento de tecnologias que auxiliam na modelagem de risco (nat cat modelling).

Ana Paula leciona sobre Certificação Avançada em ASG e Seguros na ENS. Reforça que é forte a capacidade financeira global estimada do Setor de Seguros para colaborar nos esforços internacionais de financiamento climático. “Embora não exista um único número unânime publicado por todas as entidades listadas, as fontes do setor mostram claramente capacidade em escala de trilhões”, afirmou. Assim, a GFIA (Global Federation of Insurance Associations) indica que as associações que representa estão ligadas a mais de US$ 4 trilhões em prêmios (um indicador da dimensão do setor) e grandes grupos mostram que players individuais gerenciam de dezenas a centenas de bilhões em ativos/investimentos. A professora e advogada explica que isso significa que, coletivamente, o setor tem capacidade material para contribuir com volumes significativos de financiamento — tanto diretamente (investimentos) quanto indiretamente (mitigação de risco para desbloquear capital privado). Apenas lembrando, no Brasil, o Setor de Seguros possui ativos financeiros de aproximadamente R$ 2,3 trilhões, com arrecadação em prêmios de 6,2% do PIB.

Na avaliação da especialista, o Setor de Seguros global deve se posicionar em relação ao financiamento climático seja como mitigador e investidor, assim como provedor de soluções de transferência de risco e de adaptação, inovando em produtos e arquitetura de mercado que aumentem cobertura e resiliência (parcerias público-privadas, seguros sociais, seguros paramétricos). Ana Paula cita alguns caminhos na função de mitigador e investidor como: integrar critérios climáticos nas decisões de investimento, redirecionar capital para ativos alinhados com transição energética, soluções baseadas na natureza, utilização de instrumentos para reduzir o risco percebido por investidores, além de meios de captação de financiamento para riscos atrelados à agenda climática – letras de riscos de seguros (LRS) e Insurance Linked Securities (ILS).

A realização da primeira COP no Brasil, mais especificamente na Amazônia, é, na opinião da professora da ENS, “uma oportunidade estratégica para o Brasil e para o setor de seguros”. Isso porque trará ainda mais visibilidade para a Amazônia, transformando a nossa floresta no grande palco de debates, e busca de soluções para redução das emissões de gases de efeito estufa e uma transição energética justa.

Também por tornar-se uma agenda financeira e política sincronizada: como evento global, permite alinhamento político entre países desenvolvidos e em desenvolvimento sobre fluxos de financiamento, mecanismos de mitigação, facilitação de investimento para adaptação e instrumentos de alavancagem (ex.: blended finance). E, neste contexto, o Setor de Seguros tem tudo para exercer o seu protagonismo. “A CNseg, em conjunto com entidades do setor de seguros e resseguros, está capitaneando debates na COP para reforçar a importância do setor como protagonista na construção de resiliência climática e ferramentas para uma transição energética justa”, reforça Ana Paula. Ela lembra ainda que as COPs recentes têm sido uma excelente plataforma para parcerias e compromissos privados-públicos: COPs recentes têm sido palco para lançar compromissos entre entes e governos. “Para o setor de seguros, a COP30 será o momento para anunciar novas tecnologias, frameworks de cooperação, compromissos de realocação de capital e iniciativas de proteção/seguro para comunidades vulneráveis — todos essenciais para direcionar recursos em escala para mitigação e adaptação de riscos, e construção de resiliência climática”, afirma.

Perguntada sobre novos produtos e resultados desta COP para o Setor, a professora da ENS enumera uma lista relevante: produtos paramétricos e indexados - que reduzem tempo de pagamento, baixam custo de transação e tornam projetos (ex.: solar, agricultura resiliente) mais atrativos para investidores e segurados; seguros de crédito/receita para renováveis: diminuem risco de fluxo de caixa para projetos, melhorando a capacidade financeira, além de atuar diretamente em eventuais crises de crédito ou endividamento; Parcerias público-privadas e mecanismos de risco compartilhado: alavancam capital público e privado; e, não menos importante, Produtos/microsseguros/seguros inclusivos em países em desenvolvimento: aumentam inclusão financeira, reduzem vulnerabilidade e criam condições de minimizar os impactos sociais diante das catástrofes climáticas.


Chave para futuro sustentável, mas exige reforma global – A mobilização de trilhões de dólares e uma profunda reforma do sistema financeiro global são passos urgentes e indispensáveis para viabilizar a transição para uma economia de baixo carbono e combater os efeitos da crise climática. A análise é de Maria Netto, Diretora Executiva do Instituto Clima e Sociedade (ICS), que detalhou os desafios, as responsabilidades e o caminho a ser seguido para garantir os recursos necessários para a mitigação e adaptação às mudanças climáticas.

Questionada sobre o que exatamente significa a ação de financiamento climático, a diretora do ICS esclarece que a agenda vai além dos governos. “A agenda de ação refere-se à iniciativas destinadas a apoiar a implementação de seus objetivos, especialmente aquelas conduzidas por atores não estatais, como o setor privado, a sociedade civil, instituições financeiras e governos subnacionais”, explicou. No contexto financeiro, Netto destaca que o foco são “iniciativas – públicas ou privadas – com potencial para desbloquear os investimentos necessários em mitigação e adaptação às mudanças climáticas.”

Responsabilidade compartilhada, obrigações diferenciadas – Um dos pontos mais complexos do debate é a responsabilidade por essa mobilização financeira. Maria Netto aponta que o financiamento abrange uma vasta gama de fontes, incluindo recursos públicos e privados, nacionais e internacionais. Contudo, ela ressalta que há obrigações históricas claras. “De acordo com a UNFCCC, e considerando os diferentes níveis de desenvolvimento e as responsabilidades comuns, porém diferenciadas, os países desenvolvidos – listados no Anexo I da Convenção – têm a obrigação de liderar o apoio ao financiamento climático por meio de recursos públicos”, destacou. Ela observou, ainda, que a Convenção também estabeleceu mecanismos formais de financiamento climático global, atualmente compostos pelo Fundo Global para o Meio Ambiente (GEF) e pelo Fundo Verde para o Clima (GCF).

Entretanto, estudos apontam que o financiamento climático público, apesar de necessário, não é suficiente. O relatório “Financiamento Climático: realidade e desafios”, lançado pelo Observatório de Conhecimento e Inovação em Bioeconomia/Centro de Estudos de Agronegócio da Escola de Economia de São Paulo (FGV Agro/EESP, Fundação Getulio Vargas), elenca algumas limitações dessa forma de financiamento, como falta de recursos e não cumprimento de repasses acordados por países desenvolvidos, prioridades nem sempre adequadas, impacto e/ou resultados limitados e falta de transparência em relação a como os fundos são gastos e quais projetos são apoiados. De acordo com o documento, o financiamento privado é uma alternativa para as lacunas existentes na esfera pública em relação ao alcance das metas climáticas globais e a aceleração da transição energética.para uma economia de baixo carbono, sendo que o repasse poderia ocorrer por intermédio de empresas, investidores e demais instituições privadas com o objetivo de apoiar projetos e iniciativas para enfrentar a emergência climática.

“O financiamento privado pode acelerar a adoção de tecnologias de descarbonização, já que ao reduzir a dependência de recursos públicos, empresas privadas podem ajudar a ampliar o alcance dos esforços de combate às mudanças climáticas. Outros benefícios associados passam por estimular a inovação com o incentivo a P&D [pesquisa e desenvolvimento], fortalecer a reputação corporativa reforçar o compromisso de empresas com a sustentabilidade e a responsabilidade social e gerar oportunidades de negócios para empresas que desenvolvem soluções climáticas inovadoras, criando novos mercados e impulsionando o crescimento econômico”, indica o relatório.

Apesar da necessidade de todas as fontes de financiamento serem acionadas, a diretora do ICS frisa a importância dos governos. “Os recursos públicos desempenham um papel único e insubstituível”, avaliou. Segundo a executiva, são essenciais para viabilizar financiamento e atuar em áreas de alta vulnerabilidade, onde o setor privado dificilmente entraria, beneficiando principalmente países menos desenvolvidos e pequenos Estados insulares.

O custo da inação e a necessidade de reformas – Para Netto, o volume atual de financiamento climático, embora crescente, ainda está muito aquém do necessário. Ao mesmo tempo, “os custos econômicos associados aos impactos físicos das mudanças climáticas têm aumentado de modo acelerado, o que reforça a urgência de repensar a forma como esses custos são precificados e incorporados nas decisões financeiras”, advertiu.

De acordo com a diretora do ICS, não basta apenas aumentar o volume de dinheiro. “É fundamental avançar em uma agenda de reforma do sistema financeiro global”, opinou, o que envolveria desde a criação de seguros e garantias até a precificação adequada de bens públicos globais e a garantia de inclusão social nos fluxos financeiros.

Sobre os valores necessarios para bancar o financiamento climático, “as cifras são astronômicas”, ressalta Maria Netto. De acordo com a executiva, estimativas mais recentes “apontam para necessidades anuais entre US$ 6 trilhões e US$ 9 trilhões por ano até 2030, crescendo para cerca de US$ 8 a US$ 10 trilhões por ano entre 2031 e 2050.”Já os recursos vindos de fontes externas para o financiamento climático dos países em desenvolvimento são estimados atualmente em US$ 1,3 trilhão até 2035, de acordo com o relatório “Raising Ambition and Accelerating Delivery of Climate Finance, lançado pelo Independent High-Level Expert Group on Climate Finance (IHLEG) na COP29 (Baku, Azerbaijão, 2024), segundo relatou a London School of Economics and Political Science (LSE). Os dados do IHLEG, inclusive, foram citados e reconhecidos no texto de negociação da conferência climática de Baku.

O papel estratégico do Setor de Seguros – Para Maria Netto, além da necessidade de mobilizar e ampliar o volume de financiamento disponível é fundamental avançar em uma agenda de reforma do sistema financeiro global. “Isso inclui o desenvolvimento e o fortalecimento de instrumentos mais eficazes para gestão e mitigação de riscos – como seguros, garantias e mecanismos de hedge climático –, a precificação adequada de bens públicos globais, a criação de mecanismos que viabilizem a mobilização de capital em escala para a participação do setor privado, e a incorporação de abordagens que assegurem inclusão social e equidade nos fluxos financeiros”, opinou.

Neste sentido, a diretora do ICS considera que o Setor de Seguros “desempenha um papel estratégico e multifacetado nos esforços globais de financiamento climático e na transição para uma economia descarbonizada.” A participação do Setor, Segundo ela, pode se manifestar a partir de três formas principais:

1. Gestão e Mitigação de Riscos Climáticos: “o Setor de Seguros é um dos principais instrumentos para absorver, transferir e precificar riscos – especialmente os físicos, como eventos climáticos extremos (secas, enchentes, ciclones). Ao oferecer seguros para ativos vulneráveis ou para setores críticos, ele permite: reduzir perdas econômicas; proteger comunidades e cadeias produtivas; e viabilizar a continuidade de investimentos em contextos de alta exposição ao risco climático. Além disso, o desenvolvimento de seguros paramétricos, agrícolas e catastróficos é fundamental para fortalecer a resiliência de países em desenvolvimento e populações vulneráveis.”

2. Mobilização de Capital e Alocação Sustentável: “as seguradoras estão entre os maiores investidores institucionais do mundo. Com trilhões de dólares em ativos sob gestão, elas têm enorme capacidade de alocar capital em infraestrutura verde, energia limpa, tecnologias de baixo carbono e projetos de adaptação. Ao aplicar critérios e estratégias de investimento climático, o Setor pode: catalisar o financiamento privado; impulsionar a inovação financeira – green bonds, climate-resilience bonds etc. –; influenciar positivamente práticas empresariais e decisões de financiamento em larga escala.”

3. Incentivo à Transição Justa e Redução de Riscos Sistêmicos: “o Setor de Seguros pode usar sua capacidade de precificação para incentivar comportamentos de baixo carbono. Por exemplo: prêmios mais baixos para edifícios eficientes, veículos elétricos ou cadeias de suprimento sustentáveis; penalização de modelos de negócios altamente emissores ou vulneráveis; criação de produtos para apoiar a reconversão industrial e a transição justa.”

Para a executiva, ao identificar e divulgar os riscos sistêmicos do clima para portfólios e economias, o Setor de Seguros ajuda a antecipar disrupções e orientar políticas públicas. “A participação ativa do Setor de Seguros é essencial para ampliar o financiamento climático, proteger investimentos e viabilizar uma transição energética ordenada, resiliente e financeiramente sustentável. Políticas públicas, regulação prudencial e mecanismos de cooperação internacional podem acelerar esse potencial, especialmente em países com baixa penetração de seguros e alta exposição climática”, afirmou Netto.

COP30: ponto de inflexão, oportunidade e relevância – A diretora do ICS deposita grande expectativa na Conferência do Clima que será realizada no Brasil. “A COP30 será um momento determinante para o futuro da governança climática global. Realizada em um ponto de inflexão da implementação da UNFCCC e do Acordo de Paris, ela terá o papel fundamental de definir a agenda e os rumos para os próximos dez anos – com base nos aprendizados, avanços, lacunas e barreiras enfrentadas na última década”, salientou.

No que diz respeito à agenda de financiamento climático, Maria Netto credita que a COP30 será especialmente estratégica. “As decisões tomadas deverão estabelecer diretrizes claras sobre formatos, mecanismos de governança e o reconhecimento de múltiplas vias para ampliar o acesso e a alavancagem de recursos financeiros voltados à mitigação e adaptação às mudanças climáticas”, avaliou.

A diretora do ICS destaca ainda que a agenda da Conferência deverá ser ampla, incluindo desde “reformas do sistema financeiro internacional, com foco em aumentar o espaço fiscal de países em desenvolvimento e melhorar a coordenação entre instituições multilaterais; maior eficiência, escala e previsibilidade nos fluxos dos fundos climáticos internacionais, como o GCF e o GEF; desenvolvimento de instrumentos financeiros mais adequados para a distribuição de riscos e atração de capital privado – incluindo seguros, garantias, blended finance [estratégia de financiamento misto ou híbrido que combina diferentes tipos de capital – público, privado e filantrópico – para financiar projetos de impacto social, ambiental e de desenvolvimento económico] e instrumentos de dívida sustentável; capacidade dos países de mobilizar e canalizar recursos domésticos, com atenção à gestão da dívida, sustentabilidade fiscal e mecanismos para atrair investimentos produtivos; aprimoramento da regulação financeira e prudencial, alinhando normas e diretrizes às metas climáticas e incorporando riscos climáticos de forma sistemática; e fomento a instrumentos complementares, como mercados de carbono, taxonomias sustentáveis e plataformas de rotulagem verde, que ajudam a orientar o capital para atividades compatíveis com a transição.”

A COP30, sinaliza Netto, não será apenas uma conferência técnica, mas um ponto de decisão sobre os caminhos financeiros concretos que sustentarão a ambição climática global na próxima década. “A sua relevância política e econômica vai além da diplomacia ambiental: trata-se de viabilizar uma transformação profunda dos sistemas de investimento e financiamento no século XXI”, ressaltou.

Fatima Lima ressalta a importância singular da COP30, que será realizada no coração da Amazônia. A executiva ressalta que o evento marca os dez anos do Acordo de Paris (COP21, 2015) e será uma oportunidade para o Brasil colocar a proteção dos biomas tropicais no centro do debate global. “A conferência também servirá para que os países desenvolvidos possam contribuir com compromissos mais ambiciosos e apresentar planos concretos de redução de emissões até 2030”, assinalou.

A diretora da MAPFRE acredita que as seguradoras terão um papel importante a desempenhar na COP30, transformando discussões em ações concretas. “Para o Setor de Seguros, será uma grande oportunidade para intensificar o debate sobre o impacto das mudanças climáticas e a importância das seguradoras na gestão, prevenção e redução de riscos”, enfatizou.

Já Patrícia Coimbra destaca a importância da COP30 no contexto global para a mitigação dos efeitos da mudança climática e para o alcance dos recursos necessários para o financiamento climático mundial. “A COP30 será um espaço extremamente importante e, ao ser realizada pela primeira vez no Brasil, em um bioma estratégico como a Amazônia, o evento ganha ainda mais relevância. Estamos nos preparando ativamente para levar nossas ideias, dados e aprendizados, contribuindo com o debate e aprendendo com os demais atores. Acreditamos que só há progresso quando ele é coletivo, por isso, vemos o evento como uma oportunidade valiosa para construir soluções em conjunto”, analisou.

COP30, marco de protagonismo para o Setor de Seguros

Arthur Mitke acredita que a COP30 representa um marco de protagonismo inédito para o Setor de Seguros Brasileiro, “que busca consolidar-se como um ator-chave na agenda climática global, assumindo liderança nas conversas” entre representantes de todas as esferas da sociedade global e dos governos. Na sua avaliação, o protagonismo do Setor se materializa na Casa do Seguro, idealizada pela CNseg para ser a “embaixada” da indústria seguradora no evento e um hub de diálogo e soluções, apoiada pela AXA do Brasil e por grandes empresas do segmento. “O espaço servirá como plataforma crucial para apresentar e debater globalmente os temas e as soluções de resiliência e as propostas regulatórias do Setor”, enfatizou.

A solução do Seguro Social de Catástrofe – Em relação a inovação e criação de produtos, o vice-presidente da AXA afirma que a COP30 é uma oportunidade para o Setor brasileiro “articular o escalonamento de novas soluções”. Entre as propostas de maior impacto, sinaliza Mitke, estão o Seguro Social de Catástrofe, “um mecanismo de proteção social desenhado pela CNseg para fornecer amparo financeiro imediato a famílias de baixa renda vítimas de desastres naturais, e o debate sobre uma Taxonomia Sustentável específica para o Setor”, fundamental, observou Mitke, na orientação do Seguro em relação ao direcionamento dos investimentos sustentáveis.

Para a mitigação dos efeitos da mudança climática, o executivo da AXA salienta que a participação do Setor busca demonstrar o seu “papel essencial na gestão de riscos e na proteção de infraestrutura vital”, o que é crucial, segundo ele, para a adaptação e a resiliência nacional. “Ao incorporar critérios ambientais e sociais na subscrição de riscos, o Seguro incentiva a adoção de práticas e tecnologias sustentáveis por seus clientes”, acentuou. Quanto ao financiamento climático mundial, Arthur Mitke acredita que a COP30 permite ao Setor “demonstrar como seu know-how técnico pode destravar o capital necessário, influenciando o debate sobre a nova meta de financiamento global e ajudando a direcionar investimentos para projetos de adaptação e mitigação em grande escala no Brasil e no mundo.”

Contribuição a infraestruturas climáticas resilientes – O Setor de Seguros desempenha um papel fundamental na mobilização dos recursos necessários para financiar a transição climática global. Para que projetos sustentáveis sejam financiáveis e atraiam investidores, é vital que seus riscos sejam gerenciáveis. E é exatamente aqui que o Seguro entra em ação, oferecendo produtos que transferem riscos, tornando mais operacionais as iniciativas para a viabilidade financeira de empreendimentos de baixo carbono.

Com um vasto poder de investimento de longo prazo, as seguradoras possuem a escala financeira necessária para direcionar capital a infraestruturas climáticas resilientes, tecnologias limpas e modelos sustentáveis e, ao incorporar critérios ASG em sua gestão de ativos, conseguem alinhar rentabilidade e impacto socioambiental, contribuindo para uma economia de baixo carbono.

Além disso, é essencial reconhecer a contribuição do Seguro para o fortalecimento da resiliência e o apoio à reconstrução e recuperação após eventos climáticos extremos, ampliando a importância de um Mercado Segurador sólido para sustentar a estabilidade financeira e a capacidade de resposta a catástrofes.

Por fim, o aspecto tecnológico do Setor – por meio de análises de risco e seguros paramétricos – ajuda a transformar incertezas climáticas em instrumentos financeiros robustos, acelerando o fluxo de capitais privados para a adaptação e mitigação, ressaltando a sua importância na estratégia de sustentabilidade para o financiamento da transição climática global.

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Quanto custa o financiamento climático: estimativas até 2050

  • Segundo a Climate Policy Initiative (CPI), os fluxos globais de financiamento climático atingiram aproximadamente US$ 1,46 trilhão em 2022, mas são necessários, em média, US$ 7,5 trilhões por ano até 2030, aumentando para US$ 8,8 trilhões por ano entre 2031 e 2050, para manter o aumento da temperatura abaixo de 1,5°C.

  • Pesquisa realizada pelo escritório de advocacia A&O Shearman indica que o mundo precisará de cerca de US$ 7,2 trilhões por ano até 2030 para o Net Zero – com uma variação entre US$ 6,1 trilhões e US$ 8,6 trilhões, e um déficit anual entre US$ 5 trilhões e US$ 7,3 trilhões nesses cenários.

  • Relatório “Raising ambition and accelerating delivery of climate finance” lançado pelo Independent High-Level Expert Group on Climate Finance (IHLEG) na COP29 (Baku, Azerbaijão, 2024) estima que as necessidades globais variam de US$ 6,3 a US$ 6,7 trilhão por ano até 2030, subindo para US$7 a US$ 8,1 trilhão por ano até 2035. Desse total, US$ 1 trilhão por ano deverá vir de fontes externas para países em desenvolvimento (exceto China), aumentando para US$ 1,3 trilhão até 2035, segundo relatou a London School of Economics and Political Science (LSE). Os dados do IHLEG foram os citados e reconhecidos no texto de negociação da COP29.

Fonte: ICS

Regenera: estratégia de sustentabilidade da Porto tem foco em inovação e produtos para adaptação e resiliência climática

Lançado em junho de 2025, o Regenera apresenta as metas da companhia até 2030 focadas na adaptação às mudanças climáticas, resiliência e regeneração do Setor de Seguros. O plano integra os princípios ASG aos produtos e serviços da seguradora, visando a comercialização de R$ 13 bilhões em produtos sustentáveis e a promoção da diversidade na liderança, com investimentos sociais e culturais. O lançamento do Regenera foi impulsionado pelo aumento da sinistralidade em eventos climáticos extremos, como as enchentes de 2023 no Rio Grande do Sul, que destacaram o papel das seguradoras na prevenção e mitigação de eventos climáticos. A Porto estará presente na COP30 para debater o papel do setor na gestão de riscos climáticos e no financiamento de iniciativas sustentáveis.

Patrícia Coimbra, diretora de Gente e Cultura da seguradora Porto, acredita que o Regenera é uma importante forma de colaboração do Seguro para o financiamento climático.O Regenera também define metas ligadas à inovação em produtos e serviços com atributos sustentáveis e de impacto positivo. Vamos desenvolver soluções que contribuam para uma economia inclusiva e com uso responsável dos recursos naturais, avaliando riscos e oportunidades socioambientais em nossos negócios”, frisou.

Mudanças climáticas e inclusão securitária

Coimbra destaca a intersecção entre mudanças climáticas e inclusão securitária. Na sua avaliação, a penetração de seguros ainda é baixa entre as classes C, D e E no Brasil. Com o Regenera, um dos pilares da estratégia climática da Porto é "Produtos e Soluções Sustentáveis", com foco na oferta de soluções voltadas para esses públicos. “Nosso objetivo é ser um porto seguro para as pessoas e seus sonhos. Estamos comprometidos em ampliar esse alcance nos próximos anos, desenvolvendo produtos acessíveis, com a mesma qualidade já reconhecida, que ofereçam proteção real. Assim, contribuímos para uma transição justa, especialmente para as populações e empresas mais vulneráveis aos impactos das mudanças climáticas”, salientou.

Os objetivos principais do Programa Regenera são:

. Adaptação às mudanças climáticas: foco em produtos e soluções que apoiem a resiliência e a adaptação a eventos climáticos extremos.

. Impacto social: investimento em projetos sociais, culturais e desportivos, além de metas para aumentar a diversidade de género e raça na liderança.

. Circularidade: aumento da reciclagem de veículos e implementação de práticas de economia circular em toda a cadeia de valor.

. Engajamento: mobilização e envolvimento de colaboradores, parceiros e corretores na consolidação de uma cultura de responsabilidade e regeneração.

Os Pilares do Plano Climático da Porto:

1. Valorização do Capital Humano e Impacto Social: promoção da diversidade e inclusão, com foco em mulheres e pessoas negras em cargos de liderança.

2. Estratégia Climática e Circularidade: desenvolvimento de soluções para riscos climáticos, compensação de emissões e práticas de descarbonização.

3. Produtos e Soluções Sustentáveis: desenvolvimento de produtos que gerem impacto positivo e se alinhem às mudanças climáticas, como seguros para eventos climáticos.

4. Engajamento da Cadeia de Valor: envolvimento de toda a cadeia de valor, incluindo corretores e parceiros, na promoção da sustentabilidade.

MAPFRE terá presença ativa na COP30 e apresentará estudo sobre mudanças climáticas

A diretora de Sustentabilidade da MAPFRE, Fatima Lima, conta que, como seguradora global, a companhia possui compromissos ASG que reforçam o seu posicionamento proativo em relação aos aspectos Ambiental, Social e Governança, como alcançar a neutralidade de carbono em todos os países onde está presente e reduzir a pegada de carbono em 30% em relação a 2022 (ambos até 2030), além de ser uma empresa net zero até 2050. “Em 2024, reduzimos 25% da nossa pegada de carbono global”, ressaltou. A seguradora prepara uma presença dinâmica na COP30, pois será uma das protagonistas da Casa do Seguro, atuando como agente catalisador para a valorização do papel estratégico das seguradoras na transição para uma economia de baixo carbono, com participação ativa nos debates sobre finanças sustentáveis, infraestrutura resiliente e inteligência climática – temas essenciais para enfrentar os desafios do clima. “Além disso, apresentaremos o estudo ‘Mudanças Climáticas e o Setor Segurador’, que analisa os impactos econômicos de eventos climáticos extremos e propõe estratégias para aumentar a resiliência de países em risco”, anunciou.

A executiva destaca que, durante a COP30, a MAPFRE irá reforçar o seu papel protagonista na gestão, prevenção e redução de riscos, demonstrando o seu compromisso com a proteção do meio ambiente e a luta contra as mudanças climáticas e em sintonia com os objetivos globais de sustentabilidade. “Para isso, integraremos um painel com outras seguradoras globais para discutir barreiras e oportunidades na adoção de modelos de negócio mais sustentáveis e compartilhar experiências sobre proteção a comunidades vulneráveis e desenvolvimento de produtos com características ASG”, adiantou.

As iniciativas e projetos ambientais e de sustentabilidade da seguradora têm como objetivo o combate às mudanças do clima e fazem parte da estratégia da companhia. Neste sentido, Fatima Lima conta que a empresa tem desenvolvido iniciativas globais para reduzir as suas emissões de GEE, “acompanhando a sociedade em uma transição energética justa e pautada por uma forte vocação social.” No Brasil, por exemplo, a executiva destaca o projeto Floresta MAPFRE, que vai restaurar quase 30 hectares de Mata Atlântica no interior do estado de São Paulo, com o plantio de 42 mil mudas de árvores nativas. “Com essa iniciativa, vamos compensar o carbono emitido por nossas operações no país em 2028, além de contribuir com a meta brasileira de recuperação de matas nativas e áreas degradadas”, assinalou.

Possíveis fontes de financiamento climático: Brasil e mundial

Existem diversas formas de financiar ações de combate à mudança do clima. Esses recursos podem vir de diferentes esferas do governo – federal, estadual e municipal –, de instituições públicas ou de fontes internacionais.

BRASIL

Nível Federal

I – Planejamento orçamentário

  1. Plano Plurianual (PPA) 2024-2027, por meio de programas como:

  2. Programa de Enfrentamento da Emergência Climática

  3. Redução de riscos de desastres

  4. Segurança hídrica

  5. Transição energética

II – Programas e Ações Orçamentárias do Ministério do Meio Ambiente e Mudança do Clima, incluindo entidades vinculadas como Ibama e ICMBio

III – Iniciativas de outros ministérios e órgãos públicos federais

IV – Fundos climáticos e ambientais, como:

  1. Fundo Nacional sobre Mudança do Clima

  2. Fundo Nacional do Meio Ambiente

  3. Fundo Amazônia

V – Bancos públicos de desenvolvimento, agências de fomento e empresas públicas, como:

  1. BNDES

  2. Caixa Econômica Federal

  3. Banco do Brasil

  4. Finep

  5. Embrapa

Níveis Estadual e Municipal

Estados e municípios também podem financiar ações climáticas regionais e locais com recursos de:

I – Orçamentos públicos estaduais e municipais, especialmente em áreas como:

  1. Mobilidade urbana

  2. Saneamento básico

  3. Gestão de resíduos sólidos

II – Fundos Constitucionais de Financiamento e Fundos de Desenvolvimento Regional:

  1. FNO, FNE, FCO

  2. FDA, FDNE e FDCO

III – Bancos regionais e agências de fomento:

  1. BDMG

  2. BRDE

  3. BNB

  4. BASA

  5. Desenvolve SP

Essas fontes ajudam a viabilizar projetos de mitigação e adaptação às mudanças do clima, fortalecendo a resiliência das cidades e comunidades.

MUNDIAL

O financiamento climático internacional provém de diversas fontes e deve ser articulado de forma estratégica. Entre os principais mecanismos disponíveis, destacam-se:

I – Cooperação Técnica – projetos em parceria com organizações internacionais

II – Fundos Verdes Climáticos – oferecem doações e empréstimos com condições facilitadas:

  1. Green Climate Fund (GCF)

  2. Adaptation Fund

  3. Global Environment Facility (GEF)

  4. Climate Investment Funds (CIF)

III – Bancos Multilaterais de Desenvolvimento

  1. New Development Bank (NDB)

  2. Banco Mundial

  3. Banco Interamericano de Desenvolvimento (BID)

  4. CAF – Banco de Desenvolvimento da América Latina e Caribe

Fonte: Ministério do Meio Ambiente e Mudança do Clima

BOX 5de5

Cartilha sobre Financiamento do Clima: Mecanismos e oportunidades para a América Latina e o Caribe

Editada pelo PARLAMERICAS (instituição que promove a diplomacia parlamentar no Sistema Interamericano), a cartilha oferece uma breve sinopse do que é o financiamento climático e apresenta alguns dos instrumentos financeiros gerais existentes, a fim de conscientizar sobre alguns fundos climáticos importantes e destacar alguns recursos / ferramentas úteis para acessar esses fundos. Também identifica outros fundos e instrumentos multilaterais e bilaterais de financiamento climático que não se enquadram no Mecanismo Financeiro estabelecido pela UNFCCC para facilitar a provisão de recursos de financiamento climático aos países em desenvolvimento. As entidades operacionais desse mecanismo incluem o Fundo Verde para o Clima (GCF) e o Fundo Global para o Meio Ambiente (GEF), que recebem orientações da COP.







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