Atenção

Fechar

Destaques

Ana Toni em Entrevista Exclusiva para Plurale

Ana Toni: Espero que a nossa COP30 seja lembrada por um grande mutirão de todos os atores juntos no combate à mudança do clima

POR SÔNIA ARARIPE E FELIPE ARARIPE, EDITORA E REPÓRTER ESPECIAL

DE PLURALE

FOTOS DE RAFA NEDDEMEYER, RAFAEL MEDELINA, COP30, PLURALE E MINISTÉRIO DO MEIO AMBIENTE

Ana Toni é a CEO da COP30, a Conferência da ONU para Mudanças Climáticas - que, pela primeira vez será realizada no Brasil, em Belém do Pará. Mas não espere o ar e o tom solenes que este cargo poderia impor. Certa da urgência dos temas tratados e da relevância de seu papel, Ana é, acima de tudo, uma “tocadora” e articuladora. Que mescla calma com uma coordenação certeira.

Com a experiência de pelo menos 30 anos na jornada das negociações por soluções para reduzir ou mitigar as mudanças climáticas, a economista e doutora em Ciência Política está no auge de uma relevante carreira. Ana possui longa trajetória direcionada ao fomento de projetos e políticas públicas voltados à justiça social, ao meio ambiente e à mudança do clima. Foi Secretária Nacional de Mudança do Clima do Brasil durante 2023 e 2024. Ana também foi diretora executiva do Instituto Clima e Sociedade – iCS (2015–2022), presidente do Conselho do Greenpeace Internacional (2010–2017), diretora da Fundação Ford no Brasil (2003–2011) e da ActionAid Brasil (1998–2002). Atuou como conselheira do Grupo Gold Standard, do Fundo Baobá para Equidade Racial, da Light, da Vibra Energia e do IPAM, entre outros. É integrante da Rede de Mulheres Brasileiras Líderes pela Sustentabilidade.

Nesta entrevista exclusiva para Plurale, um mês antes da COP, Ana Toni alerta para os riscos de um novo tipo de negacionismo: o econômico, que semeia fake news sobre os benefícios de soluções da economia de baixo carbono, como energias renováveis ou carros elétricos. “Países como China, Índia, a própria Europa e o Brasil, com o seu plano de transformação ecológica, mostram que é absolutamente possível e desejável um planejamento de desenvolvimento, de crescimento econômico baseado numa nova relação, feita no crescimento e na preservação ambiental. Já temos isso consolidado - e tem gente que não gosta. Existe toda essa desinformação sobre as soluções climáticas “ - adverte.

Otimista, a diretora-executiva da COP30 acredita que haverá, sim, a presença de muitas delegações em Belém, totalizando, na Conferência, algo em torno de 50 mil pessoas; e que nem mesmo os altos valores de Logística devem assustar esta previsão. Ana Toni passou os últimos meses preparando as negociações, em diversas viagens pelos cinco continentes; e faz um convite para que todos venham. “Percebe-se que os preços de hospedagem estão caindo - e temos um mês para a COP30; então, quem quiser vir para a Conferência sabe que será muito bem-vindo. E agora, com os preços mais controlados, as pessoas vão perceber que é factível e necessário que todo mundo venha.”

Nem mesmo a perspectiva de poucas entregas das Contribuições Nacionalmente Determinadas, que definem metas voluntárias de redução de emissões por parte dos países - as chamadas NDCs - a assusta ou decepciona. Até o começo de outubro - a um mês da COP30 - apenas 62 países tinham apresentado seus números, com a promessa de chegar a 101 na COP30 e 125 até o final do ano. Ana Toni comemora o aumento das atenções para a questão de gênero e espera cada vez mais pluralidade nas negociações climáticas.

A secretária-executiva da COP30 confia que as empresas brasileiras já estão liderando pelo exemplo. “O Brasil é um provedor de soluções climáticas em todas as áreas; a agricultura, a energia, o reflorestamento... Tem diversas áreas em que o Brasil já está liderando.”

Ana é, acima de tudo, uma entusiasta da ideia de transformar a COP30 em um verdadeiro mutirão pela ação; e que esta será a COP da implementação. “Espero que a nossa COP seja lembrada por um grande mutirão de todos os atores juntos no combate à mudança do clima.” Acompanhe a entrevista exclusiva para Plurale.

Plurale - O Brasil está como protagonista no Earth Shot Prize pelo Fundo Florestas Tropicais para Sempre (TFFF). Uma grande iniciativa, ao pensarmos em realmente trazer benefício monetário para países que mantêm as florestas vivas. Isso é uma boa sinalização da comunidade internacional para a COP30?

Ana Toni - Eu acho que é uma excelente sinalização. Os dois projetos que estão nos finalistas; o TFFF, que é uma grande bandeira pro Brasil, obviamente, mas também a Re.green. Ambos falam de um tema que é fundamental; como é que a gente valoriza primeiro a floresta em pé, que é o TFFF, e como é que financiamos e fazemos reflorestamento de floresta nativa, que é fundamental. Então, a presença desses finalistas no prêmio mostra que a COP30 já influencia diversas outras áreas, diversos outros prêmios, instituições - então fico muito feliz. Me dá a sensação de que o mutirão está dando certo sim, ao nos preparar para isso.

Plurale - Sobre a questão financeira, como convencer esses investidores a colaborar com o cenário de financiamento climático? Desde Baku não deu certo; houve um verdadeiro bate-cabeça. O governo está otimista; mas prevê dilemas na negociação, principalmente entre países emergentes e desenvolvidos?

Ana Toni - Eu não estou vendo muito bate-cabeça. Há um processo que vem acontecendo. O debate do financiamento climático é sempre o mais difícil em qualquer COP. Ele está sempre presente; há sempre essa disputa de quanto, em termos de recursos, os países envolvidos têm que investir - por uma questão de responsabilidade - para apoiar os países em desenvolvimento. Esse tema está sempre muito presente; e isso vai continuar na nossa COP. Mas eu acredito que a nossa COP tem trazido uma visão mais ampla com relação aos recursos - ao olhar para recursos públicos, privados, nacionais, internacionais - e ao pensar em novos instrumentos econômicos, como o TFFF, e também com um olhar voltado para uma reforma de sistemas, como o sistema dos bancos multilaterais, dentro de uma visão que contempla o sistema financeiro como um todo, com clareza em relação ao que é risco ou não risco.

Considero que o que a nossa COP faz, e que está sendo muito legal, é ampliar o debate sobre financiamento climático de uma maneira muito mais ampla do que o que nós vínhamos debatendo, que eram só recursos de cooperação de país desenvolvido para país em desenvolvimento. Esse debate continua lá; e é muito importante, mas foi ampliado. E é uma ampliação promovida pelo Brasil, que o país vem fazendo desde o nosso G20, com o Climate Task Force. Foi uma ampliação para a qual também trouxemos o tema do financiamento climático, já com essa visão muito mais ampla, porque a gente sabe que vamos precisar de muito mais recursos, de muito mais instrumentos - e o Brasil está inovando nisso.

Tem a plataforma de país, que é o BIP; tem o mercado de carbono, taxonomia, pagamento de serviços ambientais, TFFF, Ecoinvest... É olhar para a cesta de instrumentos econômicos, de instituições que precisam ser reformadas. É esta, eu penso, que vai ser uma marca e um legado muito grande da COP30: ampliar o debate de financiamento climático e juntar clima e desenvolvimento dentro de um outro formato.

Plurale - Você disse recentemente que há um novo tipo de negacionismo. Se antes o negacionismo era ligado à mudança climática, agora é sobre o efetivo resultado da COP30; é quase uma torcida para não dar certo. O que nos assegura que esta COP vai ter resultados efetivos? Por que você tem falado isso? O que é que você tem visto?

Ana Toni - Sim, primeiro foi o André (Embaixador André Corrêa do Lago, Presidente da Conferência) que trouxe esse novo tipo de negacionismo econômico; e eu concordo absolutamente com ele. Não é só o econômico, mas primeiro duvidar das soluções climáticas. Pensar que o carro elétrico não funciona, que seria ruim, que a energia renovável não é segura. Estão tentando trazer dúvidas para os consumidores das soluções climáticas que existem. Como na produção agrícola; por exemplo, sugerir que um tipo de produção agrícola pode não ser boa para o produtor. Então, ficam tentando pôr em dúvida as soluções climáticas - como se elas fossem duvidosas. Isso a gente está vendo muito e muitas vezes. A mesma coisa ocorre no setor econômico, quando falam que os investimentos já dimensionados não vão trazer tanto retorno, e que não é tão seguro investir. Estão colocando dúvidas sobre uma trajetória que já está sendo consolidada e que traz segurança. Dá para perceber que países como China, Índia, a própria Europa - e o Brasil, com o seu plano de transformação ecológica, mostram que é absolutamente possível e desejável construir um planejamento de desenvolvimento, de crescimento econômico, baseado numa nova relação, alicerçada no crescimento e na preservação ambiental. Já temos tudo isso consolidado - e tem gente que não gosta. Existe toda essa desinformação sobre as soluções climáticas.

Plurale - O principal dilema da COP30 é o logístico. Temos visto os preços abusivos de hospedagem em Belém do Pará, um fator que inibe a participação de muitas pessoas. O governo tem tomado várias medidas, como contratação de navios, empenhar locais com diárias menores - e até mesmo a questão da Defensoria Pública do Pará acionar a Justiça, na questão das plataformas. No dia desta entrevista, estamos há um mês da conferência - e não temos ainda definição de hospedagem de alguns países. Você não acredita que o governo entrou tarde demais nessa questão?

Ana Toni - Mais cedo, mais tarde... O governo brasileiro, logicamente, tem trabalhado em todas as frentes da logística, desde a Green Zone, da Blue Zone, da infraestrutura de Belém, na construção de novos hotéis, do Porto... São diversas frentes. E eu acho que não é só o governo; entendo que todo mundo começou a ver esse crescimento abusivo do custo dessas hospedagens nos últimos três, quatro meses - e, a partir daquele momento, o governo agiu.

No entanto, considero que ninguém estava esperando que os preços fossem se mostrar tão abusivos. Isso não era uma coisa que você conseguiria prever muito, ao contrário. Acredito que, sim, houve uma reação não só do governo brasileiro, dos diversos órgãos de consumidores - e que, agora, está dando uma controlada. Outro dia mesmo vi uma matéria que dizia que os preços já tinham baixado, em média, até uns 40%. Percebe-se que os preços estão caindo; e temos a um mês para COP30. Então, quem quiser vir para a Conferência sabe que será muito bem-vindo. E que agora, com os preços mais controlados, as pessoas vão perceber que é factível e necessário que todo mundo venha.

Plurale - É possível, Ana, que haja realmente um esvaziamento de comitivas, de ONGs, de pessoas importantes ou não?

Ana Toni - Tudo é possível na vida, mas não estamos vendo isso acontecer, não. O governo criou essa força-tarefa há mais de um mês, para ajudar cada uma das delegações que precisassem de mais quartos ou de espaços. Estamos observando uma adesão muito grande de todas as delegações; todo mundo já se organizando para conseguir o seu quarto.

Acabei de vir de Nova Iorque, participando da Climate Week, que vocês cobriram - e não enfrentei quase nenhuma pergunta sobre logística, o que adorei! Isso mostra que as pessoas já estão se resolvendo, cada um do seu jeito. E eu não tenho dúvida de que vai ser uma bela COP - e com um grandíssimo número de pessoas. Vamos ver quantas! Atualmente, nós, do governo, estamos com a expectativa de receber mais de 50.000 pessoas, o que denota uma grandíssima COP. É esse número que o governo se preparou para receber.

Plurale - Você e o Embaixador André Corrêa do Lago têm se encontrado com muitas empresas, como a reunião com vários dirigentes de empresas na Climate Week de Nova Iorque. O embaixador disse que as empresas são parte essencial das soluções. Você acredita que essa visão que o Brasil tem do tema da implementação é compartilhada também com o setor privado? Eles farão parte dessa solução? Como as empresas podem ajudar os países?

Ana Toni - Estamos tendo reuniões direto com as empresas, com o setor privado. Fizemos aí uma agenda de ação bastante robusta, com a participação e a co-construção com empresas, governos subnacionais, sociedade civil. As empresas estão hiper-engajadas; estão, realmente muito engajadas no tema. O nosso Climate Champion, o Dan Ioschpe (empresário), que está liderando esse processo, tem a SB COP, que está fazendo milhares de coisas junto conosco. Temos também a Marina Grossi com o CEBDS, World Business Council, We Mean Business Coalition, CNI, CNA... São tantas redes de empresas, todas muito, realmente muito animadas. Eu presumo que vai ter uma presença muito importante do setor privado na COP30. Quando pensa numa COP de implementação, o governo quer ter o setor privado participando - o setor já está participando desse processo. Fiquei muito bem impressionada na preparação para a New York Climate Week, porque o que estava acontecendo lá nos Estados Unidos é que muitas pessoas diziam: “Vai ser uma Climate Week esvaziada; o setor privado americano não vai fazer parte; o setor financeiro americano já jogou a toalha”. Pois o que vi foi o oposto disso. Foram mais de mil eventos na Climate Week de Nova York. Foi, se eu não me engano, uma das maiores Climate Weeks que nós tivemos, com presença forte do setor privado americano - e não só americano, como os outros - mas muito ativo, e com o setor financeiro, eu diria, hiperativo. Estou contemplando uma outra trajetória, uma outra mobilização ali; e tenho certeza de que esses setores vão estar presentes, muito presentes, na nossa COP - porque eles estão muito próximos aqui de nós. Já nos contaram que já conseguiram a credencial, já conseguiram acomodação e será muito importante a presença de todos eles lá.

Plurale - Sobre empresas brasileiras, você compreende que o Brasil tem um protagonismo a mostrar; essa relevância do Brasil em energias renováveis, em floresta em pé, em reciclagem... Não faltam exemplos. Mas as empresas brasileiras podem liderar, pelo exemplo?

Ana Toni - As empresas brasileiras já estão liderando pelo exemplo. O Brasil é um provedor de soluções climáticas em todas as áreas; a agricultura, a energia, o reflorestamento... Em diversas áreas, o Brasil já está liderando. Isso não quer dizer que não haja desafios - e que não precisamos fazer mais,; sempre queremos fazer mais, mas temos trabalhado com o setor privado brasileiro há mais de 1 ano para a preparação da COP30. Temos tido diversos eventos com o setor privado, junto com os diversos ministérios também. A SB COP, que é liderada por empresários brasileiros, está trazendo empresários do mundo inteiro; está fazendo um trabalho magnífico. Assim como CNI, CNA, CEBDS também. A gente percebe essa movimentação; e sente que os empresários brasileiros vão estar lá, assim, liderando esse processo, sem dúvida. Muitas áreas estão bem mobilizadas, como a área da agricultura, do transporte e várias outras muito mobilizadas, com a liderança do setor privado brasileiro. Cimento, vidro, aço, energia, estamos vendo todo o setor privado brasileiro muito mobilizado para a COP 30.

Plurale - A gestão do Brasil na COP30 estava esperando NDCs de 100 países; e até agora, a um mês da Conferência, ainda não se chegou a esse resultado. Isso não pode colocar em risco os resultados da Conferência?

Ana Toni - Ainda estamos no ciclo do Acordo de Paris. Isso mostra que o ciclo de acordos das políticas do Acordo de Paris está acontecendo. Pela primeira vez tivemos dois summits - um no começo do ano e um em Nova Iorque - sobre NDC. Nunca, na história, tivemos dois - puxados pelo presidente Lula e pelo secretário-geral da ONU, António Guterres. O Presidente Lula tem frisado, em todas as suas falas, a importância das NDCs. Tem esse jeito nosso de puxar o tema - e que já deu resultados. No Summit de Nova Iorque, não só dobramos o número de NDCs de uma semana para outra, com muitas novas NDCs sendo comunicadas, mas também com a promessa de 125 países, que afirmaram que vão fazer as suas novas NDCs. Então, temos um número muito significativo. Ficamos bastante contentes, primeiro, com este número; 125 é um número que não estávamos estipulando. Primeiramente, estávamos esperando 100; e agora foram anunciados 125! Fico tão feliz com isso - com a qualidade das NDCs, as NDCs estão apresentando planos muito mais detalhados, com planos específicos setoriais, planos de investimento.

É lógico que é preciso esperar o gap da ambição do coletivo. Temos que esperar ainda o relatório-síntese. Mas talvez nós estejamos aquém, ainda, de 1,5 °C - tentando limitar o aquecimento global a 1,5°C. Então ainda temos que melhorar, sabemos disso, mas isso mostra que o Acordo de Paris está dando resultado, está acelerando a ação dos estados, mas temos que fazer mais e acelerar com maior rapidez, para que cheguemos a 1,5 °C. Isso não compromete o sucesso da COP30; só traz responsabilidades para todos nós, coletivamente, uma vez que precisamos fazer muito mais e precisamos fazer mais rápido.

Plurale - Ana, você milita na Jornada Sustentável há 30 anos e ocupa um cargo relevante: é a CEO da COP30. Temos também a Marcele Oliveira, Jovem Campeã do Clima da conferência, que foi a nossa entrevistada da edição anterior; uma jovem ativista da periferia carioca. Você acha que a presença de vocês duas na cúpula da COP30 é um sinal de que, finalmente, existe mais diversidade de gênero nessa área? Isso está acontecendo, na prática nesse cenário agora?

Ana Toni - Com relação à presença de mulheres, sempre vimos isso na questão ambiental, em geral. Você olha e vê ali a Laurence Tubiana, a Christiana Figueres, a Wangari Maathai, a Vandana Shiva, tantas mulheres! A Izabella Teixeira (ex-ministra de Meio Ambiente), a Ministra Marina Silva, a liderança brasileira... Tem tantas mulheres que vêm fazendo um trabalho incrível na área de sustentabilidade. Temos também a Jacinda, que foi primeira-ministra da Nova Zelândia, nossa enviada para a Oceania. A Lagarde, agora, mesmo sendo na área financeira do FMI. Então você vê mulheres, assim, fazendo muito pelo meio ambiente e pela sustentabilidade; em diversas áreas, isso já existe. Acredito que o que está acontecendo agora, é que há mais reconhecimento do papel que as mulheres sempre tiveram nessa área, esse papel fundamental. Antes havia pouco reconhecimento. Até mesmo na figura que a Ministra Marina Silva representa, uma vez que fala e atua em nome de muitas mulheres que estão atrás. Em relação ao movimento negro, nisso ainda estamos muito aquém - e aquém, também desse reconhecimento fundamental de tudo que o movimento negro - que as mulheres negras, principalmente - têm dado e contribuído para a agenda de sustentabilidade. Com toda certeza, eu acho que tem ainda pouco reconhecimento neste particular. Penso que, na agenda indígena, a nossa ministra Sonia Guajajara, a Sinéia do Vale e tantas outras mulheres indígenas, têm recebido um pouco mais desse reconhecimento.

Em algumas áreas nós já temos algum reconhecimento; em outras áreas, a gente ainda está muito aquém. Mas o mundo começa a perceber que essa agenda dá oportunidade às mulheres, em geral, e também à diversidade, para que se possam se expressar de uma outra maneira quanto às questões ambientais e às causas da sustentabilidade. Isso não quer dizer que as posições de grande poder não estão concentradas; sim, ainda estão elas, sabemos disso. Existem muitas mulheres em boas posições, e também um pouco mais de diversidade nessas posições. Mas considero que é mais um momento de pouco reconhecimento, mas ainda tem. E quero destacar o papel das mulheres negras, pois ainda tem um gap imenso no reconhecimento, em relação a tudo que elas têm contribuído.

Plurale - Que tipo de legado e de resultado a COP30 vai deixar? Não só para Belém, não só para a Amazônia, mas para o Brasil e o mundo? Essa é a COP do resultado, da verdade, da implementação? Como é que você classificaria esse legado?

Ana Toni - Como o presidente Lula já discursou, vai ser uma COP da verdade, uma COP da solução, porque pegamos muitas das soluções. E, sim, uma COP da implementação, que tanto precisamos; é isso que queremos que ela seja, no início dessa nova década de aceleração da implementação. A COP30 decerto deixará legados muito substantivos, que quero destacar, e talvez três áreas. Um é em relação ao tema da natureza; se alguém um dia pensou que poderia combater a mudança do clima sem preservação da natureza, essa COP vai deixar muito claro que essas duas agendas andam de mãos dadas. O segundo, considero que é a relação entre mitigação e adaptação; novamente, se alguém um dia pensou que essas duas agendas poderiam ter algum tensionamento, acho que a nossa COP também vai deixar muito claro que a adaptação e a mitigação andam de mãos dadas - e que a adaptação é a preparação para a liderança e a mitigação. Então, elas precisam estar juntas! O terceiro tópico - que, acredito a nossa COP vai realizar - é o que estávamos falando anteriormente: é mostrar que estamos falando de uma COP na qual a economia e as finanças andam juntas com o combate à mudança do clima. Não tem mais como pensar em desenvolvimento ou crescimento sem também ter uma agenda positiva para o combate à mudança do clima.

A nossa COP vai marcar aquilo que chamamos de climate positive growth, que é essa agenda positiva de crescimento, mas também positiva para o clima. Espero que a nossa COP seja lembrada por esse grande mutirão em que todos os atores estarão juntos no combate à mudança do clima. Eu fico muito feliz em ver que a questão do mutirão pegou. É a ideia que todo mundo pode ajudar a combater a mudança do clima, independentemente das suas capacidades, de onde você vem. Mas isso eu considero muito fundamental! E a nossa COP vai fazer história, ao mostrar que combater a mudança do clima não é só para negociador; combater a mudança do clima não é só para chefe de estado. Combater a mudança de clima é para os jornalistas, é para os CEOs, é para jovens, é para professores, é pra dona de casa, é pra gente, para todo mundo. É o espírito de mutirão, que eu acho que vai prevalecer na nossa COP.







Veja também

0 comentários | Comente

 Digite seu comentário

*preenchimento obrigatório



Ninguém comentou essa notícia ainda... Seja o primeiro a comentar!

Utilizamos cookies essenciais e tecnologias semelhantes de acordo com a nossa Política de Privacidade e, ao continuar navegando, você concorda com estas condições.