Texto de Maurette Brandt
Foto de Felipe Araripe
Especial de Belém do Pará

Foto de Felipe Araripe/ Plurale
Me lembro dela no programa do Chacrinha. Serelepe, estouvada, de roupa longa e descalça. Alegre, de riso fácil e voz de trovão. Quase uma menina. Só que, quando abria a boca, era um estrondo; conquistava imediatamente a gente. Aquela garota era irresistível. Até porque trazia músicas lindas, profundas, para o cancioneiro. Aliás, trazia era um cancioneiro inteiro da sua própria terra, que o “circuito Rio-São Paulo”, desavisado, nunca adivinhara até ela chegar, com seu jeito de moleca, mas com uma envergadura artística invejável.
Fafá de Belém trouxe a terra no nome artístico - e, com ela, a música excepcional de Ruy e Paulo André Barata, pai e filho, de uma beleza e de um rigor incontornáveis.
O sorriso, o despojamento e a graça ajudavam, sem dúvida. Mas a voz e o sentimento abalaram bastante o ambiente. Havia originalidade no timbre, no sotaque, na naturalidade daquela moça solta e leve, bem humorada.
Fafá de Belém ocupou um espaço único, só seu, e robusteceu a MPB com repertório de qualidade, reinventou pérolas de Waldemar Henrique e aderiu a novos compositores de todos os matizes. Como as pessoas não se encantariam com ela?
Comprei seu primeiro e revolucionário disco. Falo com a boca cheia mesmo: disco, disco de vinil, aquele que não nos trairá jamais, se soubermos cuidar dele. E eu cuido, está lá intacto e eu posso ouvir à hora que quiser. Até agora, nenhuma tecnologia foi capaz de nos oferecer a qualidade do vinil.
Mas voltando à Fafá: ontem, 10 de novembro, dia da abertura da COP30 em Belém, a grande mulher e artista que aquela menina que descrevi se tornou, encarnou a própria Amazônia na plenária de abertura da COP30, magnetizando o ambiente com aquela força aparentemente inesgotável que parece ter. Brilhou ao lado da Ministra e cantora Margareth Menezes - outra força da Natureza, desta vez baiana - e agradeceu ao Presidente Lula o convite para estar ali. E não só para representar sua terra, o Pará: foi nomeada Embaixadora Cultural do seu Estado! Já pensaram na responsabilidade?
Mas a coisa não acabou ali, não. À noite, Fafá de Belém fez um show espetacular no Sesc Doca, que inaugurou, para a COP30, um espaço de convivência e arte batizado com o nome de ARENA JAMBU. Mais paraense, impossível.
E eu - quem diria! - estava lá, sentadinha na frente do gol, cara a cara, ao lado da minha editora Sônia Araripe e do repórter Felipe Araripe, todos de Plurale, para um reencontro mais que feliz com a menina, a mulher e a voz que sempre estiveram presentes na minha história de amor com a MPB.
Olha, até que não mudou muita coisa nesse intervalo. A alegria brincante é a mesma; o sorriso e o riso, inconfundíveis, estão lá; os cabelos brancos são cascatas de luz, luz que vem de dentro de alguém que se reconhece naquilo que é. Os pés descalços também marcaram presença. Fafá é pura verdade. Com seu vestido estampado de amarelo e azul, tomou a cena de chofre, espalhou simpatia, compartilhou sua alegria com a gente, falou da vida, da música e da carreira. E ainda convidou dois artistas paraenses para dividir o palco com ela, em momentos emocionantes, como “Mesa de Bar”, de Paulo André Barata - que era a canção favorita do pai da cantora - e “Coração do Agreste”, de Aldir Blanc e Moacyr Luz, que fez parte da trilha sonora da novela “Tieta”, da Rede Globo.
Como espectadora, lá nos primórdios, eu achava que Fafá era bem mais “adulta” do que eu. Que nada! Pois ontem revelou seus 69 anos bem vividos! Ou seja, temos a mesma idade! Adorei!
Me lembrei de Fafá, na época das “Diretas Já!”, cantando, como se empunhasse uma bandeira, a canção “Menestrel das Alagoas”, de Milton Nascimento e Fernando Brant, que homenageava o Senador Teotônio Vilella, conhecido como o “Cavaleiro da Esperança” e um dos parlamentares que mais trabalhou pelas Diretas. No entanto, ainda assim não conquistamos, naquele momento, o direito de votar pra presidente.
Algumas estrofes sempre me tocaram muito: “Quem é este saltimbanco/falando em rebelião/como quem fala de amores/para a moça no portão?” Como esquecer isso, sentada no chão da Avenida Presidente Vargas, no coração do Centro do Rio, ansiando pela democracia? Pois Fafá estava lá - e soltou, além da voz, uma pomba da paz!
Foi vibrante, comovente e feliz estar ali tão perto de uma artista tão importante para nossa música, para o Pará e para as nossas tão celebradas liberdades democráticas. Nem eu mesmo sabia que ainda me lembrava de letras inteiras das canções de Paulo André e Ruy Barata: “Um maleiro, uma esteira, uma beira de rio/Um cavalo no pasto/uma égua no cio/Um princípio de noite/Um caminho vazio/um maleiro/uma esteira/uma beira de rio…”
Ave, muitas vezes Ave, Fafá de Belém!












