POR SÔNIA ARARIPE E FELIPE ARARIPE, DE PLURALE
FOTO DE RAFA NEDDERMEYER- COP30 - SECOM/PR- DIVULGAÇÃO

Acostumado aos círculos empresariais e políticos, o líder empresarial gaúcho Dan Ioschpe vivenciou intenso trabalho ao longo de 2025 com a nomeação como Climate Champion, ou Campeão Climático de Alto Nível da COP30. Uma jornada que não acabou em Belém do Pará, na Conferência da ONU, onde reuniu-se com lideranças globais, executivos e também com a sociedade civil. Nos próximos meses estará envolvido com a passagem de bastão para a próxima liderança que o sucederá no cargo.
Mas, afinal, o que faz o “climate champion”? Traduzindo em português, é algo como liderança do setor empresarial em diálogos entre setor privado, governo e sociedade civil. Pesou na escolha do seu nome não só a sólida formação acadêmica - graduação em Comunicação Social na UFRGS (Universidade Federal do Rio Grande do Sul), seguido de pós-graduação em Marketing na ESPM-SP (Escola Superior de Propaganda e Marketing) e de MBA em Tuck, no Dartmouth College, nos EUA - e ainda mais sua jornada como liderança empresarial de destaque. Ioschpe é presidente do Conselho de Administração da Iochpe-Maxion e integrante dos Conselhos de Administração da WEG, da Marcopolo e da Embraer. Um dos vice-presidentes da Federação das Indústrias do Estado de São Paulo (Fiesp), o empresário liderou o Business 20 (B20) durante a presidência brasileira do G20, em 2024. Dan Ioschpe tem a bagagem necessária para fazer fluírem os diálogos entre setor privado, governo e sociedade civil.
Estivemos com Dan em relevantes eventos na COP30, em Belém do Pará, e deixamos para fazer esta entrevista depois da realização do evento, no começo de dezembro. À Plurale, ele destacou os pontos positivos da Conferência - como a forte participação da sociedade civil, de empresas e de líderes climáticos - e não se furtou a responder sobre pontos mais delicados, como a questão logística em Belém do Pará. “Quando eu saí em Belém e tive a chance de andar um pouco na cidade, a recepção calorosa que a cidade deu ao evento, a alegria dos belenenses em relação ao evento... Às vezes, talvez você pudesse fazê-lo em um outro local, que se sentisse incomodado com a presença de tanta gente; não era o caso lá.”
Habituado a trazer uma visão prática para o cenário, o Campeão Climático de Alto Nível lembra que a COP da implementação terá um outro ingrediente decisivo: a competitividade. “O ponto que eu ressaltaria para adicionar nessa conversa, que a COP30 surpreendeu, é em que não só o assunto da implementação é uma era de implementação, mas é uma era de implementação competitiva”, ressaltou. Dan Ioschpe destacou que as energias renováveis alteram cadeias de valor de quem avança mais com essas energias renováveis, se posiciona melhor. “Quem chegar primeiro, com tecnologia, com custo, com logística, com eficiência, vai ter uma vantagem competitiva muito significativa para redirecionar cadeias de valor.”
Acompanhe a seguir a entrevista para Plurale.
Plurale - Qual a sua avaliação sobre a COP 30? Algumas pessoas acham que não foi um bom resultado, poderia até beirar ali o fracasso, outros dizem que foi um sucesso. Qual a sua avaliação?
Dan Ioschpe - Do lado que eu estive próximo, que é a agenda de ação, a gente acha que foi muito bem recebido por todos e, com uma participação muito qualificada e forte de empresas, prefeituras, academia, ciência, povos originários – enfim, nós tivemos uma ótima diversidade de envolvidos e os seis pavilhões da agenda de ação estiveram sempre muito propositivos, bem atendidos.
Saímos com 117 planos de aceleração de soluções. Eu creio – não gosto muito de usar de extremos – de dizer que foi um sucesso, eu acho que isso quem tem que dizer são os demais participantes, mas todo o retorno que a gente teve até agora, do lado da agenda de ação climática, da implementação, é de que foi, de fato, uma COP extremamente propositiva e que inaugurou a era da implementação. A gente saiu muito contente de lá.
Plurale - Agora a gestão brasileira realmente está assumindo o mandato da conferência; tendo e agora, um ano de trabalho para entregar para o pessoal da Austrália, junto com a Turquia. Como será esse trabalho? No seu caso, você vai com o próximo campeão ou campeã adequar os temas que foram escolhidos aqui no Brasil, da agenda de ação como vocês pretendem tratar isso?
Dan Ioschpe - Essa forma de levar adiante a agenda de ação foi uma novidade da edição brasileira, envolvendo o Climate Champions Team, do qual estou nesse momento à frente, a UNFCCC e a presidência brasileira, e todo o ecossistema que foi se desenvolvendo lá desde abril, quando a gente começou a desenhar essa nova arquitetura, como chamamos, que envolve os seis eixos, os 30 objetivos, as iniciativas, os planos de aceleração de soluções, o celeiro de soluções, tudo isso compôs essa nova arquitetura.
Nós entregamos às partes um plano de cinco anos dessa agenda de ação, que nada mais é do que a sequência dos trabalhos, com algumas inovações, até sempre escutando o que vem dos envolvidos.
De certa forma, já há um caminho a ser trilhado; e tem flexibilidade suficiente para a gente ir ajustando os locais centrais da COP a cada ano. Obviamente, alguns dos 30 objetivos-chave da COP30 talvez não sejam os objetivos-chave das COP subsequentes.
Mas os seis eixos, que são muito do coração do Global Stock Take, a gente acha que eles deveriam se sustentar naturalmente, pela conexão com aquilo que a gente precisa fazer para atingir as metas do Acordo de Paris, justamente por ser o coração dessa agenda de implementação.
A gente está bastante animado; achamos que no calendário todo do ano – porque não é só a COP – você tem 100 eventos ao longo do ano, e eles deverão usar como referência essa agenda de ação, naturalmente, porque ela deu uma boa organização para os trabalhos. Acredito que a gente fica cada vez mais produtivo, mais eficiente com a agenda; esse era o objetivo. É contínuo, aquilo que eu dizia, de que a gente precisa trabalhar 365 dias por ano, 24 horas por dia com essa agenda, pela relevância dela. Ter um bom processo, um motor de implementação, como a gente usou essa expressão também, traz, de certa forma, uma plataforma que dá para ser usada o ano inteiro por todos.
A gente não vê “uma questão de continuidade”, mas é óbvio que o novo ou a nova Champion, e o novo ou a nova presidente da COP 31 e todos os envolvidos têm muito a dizer. Nesse caso, é interessante, porque a gente vai ter uma união de muitas geografias participando da COP31, e isso vai dar uma mistura muito legal. Estamos muito interessados em seguir esse trabalho com as próximas lideranças.
Plurale - O presidente Lula afirmou, em Belém, na COP 30, que as empresas brasileiras foram o diferencial dessa conferência. Como é que você vê, em termos de cases, de avanços, o que é que o Brasil tem mostrado?
Dan Ioschpe - Eu não vou contestar, obviamente, o presidente Lula aqui, porque eu vou adicionar. Eu acho que foram as empresas ao redor do mundo que surpreenderam pela sua participação muito ativa. Óbvio que não se reduz às empresas; a gente viu, já na semana anterior à COP, no Rio de Janeiro, uma participação de prefeitos estupenda no Fórum de Líderes Locais da COP30.
Nós vimos muitos governadores, vimos a ciência muito ativa em Belém; vocês (Plurale) estavam lá! Além de, obviamente, comunidades de povos originários não só do Brasil, mas do mundo todo.
Nós tivemos uma participação da sociedade não governamental, que é o eixo dessa agenda voluntária da ação climática, também com os governos, mas muito da sociedade, muito forte. No caso brasileiro, alguns assuntos andaram muito, como a temática da floresta, seja do ponto de vista mais global do TFFF (sigla em inglês para Fundo Florestas Tropicais para Sempre), como os projetos de recuperação de áreas degradadas, de agricultura regenerativa, de bioeconomia, também andaram muito, e eu acho que a gente ainda vai ver muito avanço nessas temáticas que compõem a agenda de ação climática e que falam muito com o mundo empresarial. Falando na tua pergunta das empresas, por exemplo, foi anunciado lá em Belém esse pipeline de 1 trilhão de dólares das companhias de eletricidade ao redor do mundo; não é apenas Brasil, é muito mais fora do que no próprio Brasil, pelo volume: 1 trilhão de dólares em projetos efetivos que chegam no mercado até 2030, algo próximo de 200 bilhões de dólares por ano de geração de energia renovável, grids e armazenamento. São projetos bem presentes.
Do mesmo jeito, em áreas como o combustível sustentável da aviação, o combustível marítimo, há um caminho ainda a percorrer, mas uma avenida muito interessante. No aço verde, também no cimento, penso que a gente teve avanços muito importantes. Então, indústria, energia, transportes, floresta, agricultura, sistemas alimentares e, do lado das cidades, como eu falei, com os prefeitos, com muitos programas interessantes. O eixo de financiamento também, com um destaque para o TFFF, mas também foi muito falado e avançado o tema do crédito de carbono, com o Brasil mesmo puxando uma coalizão nesse sentido, além de alguns outros arranjos regionais também evoluindo.
Houve muita atividade prática, que é o que nós estávamos querendo – talvez menos novos anúncios e mais a implementação daquilo em que já se vinha trabalhando ao longo do tempo.
Plurale - Na nossa entrevista da edição anterior, n.º 91, Edição Especial COP30, com a Ana Toni, CEO da COP30, citamos a questão da logística, que era a principal crítica, ponto de debate no pré-COP. Agora, nesse pós-COP, passado um incêndio, tendo todas as questões da ONU via UNFCCC fazendo as críticas para a logística da conferência, gostaríamos de saber, na sua opinião, se o governo conseguiu atender às expectativas de conduzir logisticamente a COP30.
Dan Ioschpe - De fato, como vocês sabem, não é uma área em que eu esteja envolvido. Não tenho um conhecimento tão detalhado. O que eu sinto, como um participante ativíssimo lá do processo, mas não relacionado aos temas logísticos, é que fazer a COP em Belém trouxe um olhar muito especial para algumas questões que talvez não fossem consideradas. Isso não é algo contra ou a favor. Quando a gente pensa, por exemplo, na questão das ilhas do Pacífico, que estão engajadas em conjunto com a Austrália e com a Turquia na COP 31, talvez os assuntos dos oceanos e de cidades próximas dos oceanos devessem ter um destaque muito especial.
O Brasil quis trazer um olhar para a floresta, que eu acho fantástico; e aí, de fato, fazer próximo da floresta é muito legal. O que significa, em termos de uma cidade de tamanho médio, receber um evento desse tamanho? É difícil para mim opinar. Agora, e que eu senti também, infelizmente, eu passei pouco tempo fora da Blue Zone; vocês da Plurale me acompanharam lá e viram que era uma agenda intensa.
Quando eu saí e tive a chance de andar um pouco na cidade, a recepção calorosa que a cidade deu ao evento, e vi a alegria dos belenenses ao evento, às vezes... Talvez, você pudesse fazer em um outro local que se sentisse incomodado com a presença de tanta gente; não era o caso lá.
Eu pensaria nesses dois aspectos do lado interessante. Foi possível levar um foco, que não é fácil, de florestas para o centro, para o coração da COP. Você teve uma população ao redor muito feliz de estar recebendo o evento; isso é muito legal.
Diria também, mas isso talvez ocorresse em qualquer outro lugar do Brasil... você teve uma participação popular bem interessante, intensa ao redor da COP, que é algo que se desejava também, um evento inclusivo. Na minha experiência pessoal, do lado da logística, foi tudo tranquilo, mas, obviamente, a minha experiência pessoal não é uma boa proxy.
Plurale - Quanto a essa questão da transição energética justa, essa COP também fica um pouco marcada por esse dilema. A população geral acreditava que seria fácil, seria chegar lá e conseguir avançar nesse cenário. Como é possível fazer essa transição energética, principalmente nesse cenário, hoje em dia, que é um cenário cada vez mais polarizado?
Dan Ioschpe - Eu vou dividir em dois. Uma parte mais distante da minha atuação, mas que eu pude acompanhar, é que o Brasil propôs um road map (o mapa do caminho), que foi uma inovação da COP30 e que passa, a partir da COP30, a ser discutido.
Não é algo concretizado, mas eu acho que foi uma ótima proposta para que esse debate se acelere entre os países, entre os negociadores.
Do lado da agenda de ação climática, eu não vou dizer que você está falando algo que possa ser verdade, mas diria que o que vimos é que a aceleração da transição é brutal, que o crescimento das energias renováveis no mundo todo, em lugares como a China, Índia, Estados Unidos, Brasil, é muito surpreendente. Até a estatística da Agência Internacional para Energias Renováveis (IRENA) dizia que, em 91% dos casos, essas energias renováveis que estão sendo instaladas vêm sendo instaladas a custos inferiores do que os das energias anteriores, não renováveis, não sustentáveis.
Para mim, é a transição efetiva. O ponto que eu ressaltaria, para adicionar nessa conversa, no que a COP30 surpreendeu, é que não só o assunto da implementação é uma era de implementação, mas é uma era de implementação competitiva. Então, essas energias renováveis alteram cadeias de valor. Onde elas são instaladas, elas viabilizam processos; por exemplo, nas indústrias e nos setores hard to abate, que a gente falou há pouco tempo atrás, como os setores de combustível da aviação, combustível marítimo, aço, cimento. Para que essas transições ocorram nesses setores, para que a descarbonização efetivamente ocorra, as energias renováveis são fundamentais, inclusive, eventualmente, com hidrogênio e outros modais acoplados.
Quem avança mais com essas energias renováveis se posiciona melhor. A gente viu dois assuntos. Primeiro, um avanço muito significativo. Segundo, uma natureza competitiva no processo, que foi também um abrir de olhos, para muitos setores e governos, de que este é um processo competitivo, e que quem chegar primeiro, com tecnologia, com custo, com logística, com eficiência, vai ter uma vantagem competitiva muito significativa para redirecionar cadeias de valor.
Plurale - O Embaixador André Corrêa do Lago, presidente da COP, citou que está cada vez mais difícil ter um consenso em COPs, justamente nessa questão de polarização, de cenário geopolítico muito instável. Essa era da implementação corre algum perigo?
Dan Ioschpe - Olha, eu acredito francamente que não, pela natureza competitiva que eu acabei de falar, pelo bom senso, pela economicidade que começa a aparecer.
Como este exemplo das energias renováveis já é um exemplo, quando você pega, hoje, a energia solar, ele é quase que imbatível em custo, velocidade de instalação, e não deixa nada a desejar a outras formas de geração, só para dar um exemplo.
Para te dar um outro exemplo, falando de geopolítica; não é um dado meu, mas, aparentemente, foi a maior participação dos Estados Unidos em COP – se você excluir o contingente de negociadores do governo federal americano – mas, do ponto de vista de subnacionais, de negócios, de ciência, foi uma participação enorme. A gente tem dois ambientes aqui, um ambiente de negociação, em que, obviamente, a geopolítica é muito importante, e retirar essa noção seria uma ingenuidade indevida.
Mas, no lado da era da implementação, se a gente for olhar lá, por exemplo, o que está acontecendo no Texas, é um desenvolvimento enorme, como estamos vendo também na China, na Índia, na Austrália. O Brasil também está achando o seu caminho.
É uma corrida positiva e, talvez, seja uma forma de expressar o que será uma transição do lado da implementação, mais prática, pragmática, que, obviamente, tem que atentar para todos os aspectos de inclusão e de justeza, mas que ela também se dá num nível de competitividade que acaba auxiliando esse processo.













