Por VIVIANE FAVER, de Nova York - Especial para PLURALE
Fotos de Divulgação/ NYC

Na primavera de 2026, quem caminhar pela 10ª Avenida, em Manhattan, encontrará uma presença inesperada: um Buda em pé, com 8,2 metros de altura, que se ergue acima da rua, a partir do pedestal da High Line, na altura da Rua 30 Oeste.
Intitulada A Luz que Brilha Através do Universo, a escultura é a mais recente encomenda do High Line Plinth — uma das mais relevantes plataformas de arte pública contemporânea — e marca a quinta edição do programa. O artista selecionado é Tuan Andrew Nguyen, cujo trabalho atravessa cinema, escultura e instalação.
Nascido no Vietnã em 1976, Nguyen chegou aos Estados Unidos como refugiado aos três anos de idade. Formou-se Mestre em Belas Artes pelo California Institute of the Arts e vive majoritariamente na cidade de Ho Chi Minh, desde 2004. Sua produção investiga temas como guerra, memória, trauma e reparação. Em outubro, foi contemplado com uma bolsa da Fundação MacArthur.

Um "eco" de Bamiyan
A obra apresentada na High Line reimagina um dos Budas de Bamiyan - esculturas monumentais construídas do século VI no Afeganistão, destruídas pelo Talibã em 2001. Em vez de propor uma réplica, Nguyen define o trabalho como um "eco" — uma forma de ressurreição pela memória.
A figura, em arenito, foi modelada digitalmente, a partir de fotografias de arquivo e esculpida à mão no Vietnã, a partir de quatro blocos monumentais de pedra.
Um gesto decisivo diferencia a escultura de sua referência histórica: as mãos, confeccionadas em latão e fundidas separadamente, posicionam-se em mudras budistas que simbolizam destemor e compaixão. O material foi recuperado de projéteis de artilharia recolhidos nas proximidades de Bamiyan, depois derretido e refundido. O que antes era instrumento de destruição converte-se, assim, em gesto de cuidado.
Segundo Cecília Alemani, diretora artística e curadora-chefe da High Line Art, o Plinth foi concebido para questionar a monumentalidade e a política das homenagens públicas. A proposta de Nguyen foi escolhida entre 56 inscrições de 31 países.
Tendo como pano de fundo o horizonte de Nova York, A Luz que Brilha Através do Universo convida à reflexão sobre perda cultural, transformação - e também sobre a capacidade da memória para sobreviver à violência.

Entre a ficção e a memória da guerra
Para compreender melhor a trajetória do artista, conversamos com Nguyen sobre suas experiências formativas.
No filme Os Sons Insepultos de um Horizonte Problemático (2022), a protagonista utiliza munições não detonadas (UXO) para criar móbiles à maneira de Calder - e passa a acreditar ser sua reencarnação. A ideia, explica o artista, surgiu da noção de "reencarnação material".
Na província de Quáng Tri, no Vietnã, artefatos explosivos remanescentes da guerra continuam espalhados pelo território — reaproveitados como vasos em jardins e cafés. No pós-guerra, muitas famílias sobreviveram coletando e revendendo esse material.
Embora ficcional, o filme entrelaça relatos reais. Em 2020, Nguyen acompanhou uma ONG de desminagem durante a retirada de uma bomba de uma tonelada de uma encosta — experiência que originou The Sounds of Cannons, Familiar Like Sad Refrains (2021). O longa de 2022 aprofunda essa investigação, acompanhando personagens que convivem com as consequências persistentes do conflito.
Um deles é Lai, amputado após detonar uma bomba de fragmentação na infância — acidente que matou seus primos. Lai colaborou na construção dos diálogos do personagem. "Era importante que o filme refletisse a experiência vivida, não uma abstração" - afirma o artista.
Os móbiles criados na narrativa evocam árvores genealógicas, com braços ramificados e equilíbrios delicados. Para Nguyen, representam conexões entre pessoas, gerações e materiais. As hastes de latão funcionam como pontos de relação. Suspensos no ar, os móbiles também remetem ao ato de desenterrar — traumas, histórias e bombas soterradas.
Aprender a construí-los levou tempo; hoje o processo é intuitivo. Esse equilíbrio, físico e simbólico, tornou-se central na prática do artista.
Silêncios e pertencimento
Na família de Nguyen, a guerra raramente era discutida abertamente. Muitos homens da geração de seu pai permaneceram em silêncio. "Ele compartilhava fragmentos, mas nunca suas experiências pessoais"- recorda.
Crescendo nos Estados Unidos, Nguyen sentia um distanciamento cultural em relação aos pais, mais focados em seguir adiante do que em revisitar o passado. Retornar ao Vietnã, depois de concluir a pós-graduação, foi uma tentativa de compreender o que lhe parecia um capítulo ausente da própria história familiar.
A decisão foi emocional — mas também política. "Arquivar a história da família é um gesto político, quando você faz parte de uma minoria percebida" - diz. Naquele momento, os Estados Unidos estavam envolvidos em conflitos com os quais ele discordava profundamente. Partir pareceu necessário.
Vivendo no Vietnã há duas décadas, o artista lembra que a expectativa inicial de reencontrar um "lar" deu lugar a uma percepção mais complexa. A frustração inicial, afirma, acabou por libertá-lo da ideia de pertencimento fixo.
"É uma sensação muito budista" - conclui. "Sentir-se em casa em todos os lugares — e em lugar nenhum."












